"Então do que se queixa?". Esta parece ser a pergunta-gatilho para uma maratona verborreica de alguns doentes.
"Ai sr enfermeiro, dói-me aqui as cruzes. Sabe, eu trabalhei muitos anos no campo e então, quando tinha 20 anos, sabe, em 1955, que foi quando o meu marido faleceu, deus o tenha em eterno descanso, porque que lhe uma grande dor muito grande no peito e faleceu-se-me mesmo ali, na cozinha. Diz que foi um farto do micardo ou lá o que foi. Mas pronto, ele faleceu e eu tive que ir trabalhar para o campo, para a quinta do capitão Areias que foi um grande combatente da guerra, diz que esteve para lá perdido nas francias ou nas alemanhas ou lá o que era e que tinha um feitiozinho tramado, andava sempre armado e a gritar com os trabalhadores e deitava-se logo ao chão quando estoirava alguma coisa. Coitadinho, morreu de velho e os filhos e os netos, que eram uns grandes gananciosos estavam mortinhos por vender a quinta para construir uns apartamentos. Isto era ali na zona da Costa que aquilo era só quintas naquela altura, agora é que é só prédios e todos mal feitos. O meu genro que trabalha nas obras diz que os construtores são todos uns aldrabões que não metem o material de primeira e que poupam no cimento e depois acontece como aconteceu a mim que se me racharam as paredes todas e depois o trafulha não me quis arranjar o problema. São uns trates. Mas eu fui então trabalhar para o campo e uma vez dei um jeito tal na espinha que fiquei entrevadinha durante uma semana e não sentia as pernas, andei um mês a levar umas injecções de cavalo para se me aliviarem as dores e a enfermeira era uma gorda que afiava as agulha na parece e aquilo doía para burro, isto foi já em 1975 já o Salazar tinha morrido e os comunistas é que mandavam nisto. Nessa altura toda a gente era doutor e andavam aí uns barbudos nas escolas que tratavam os professores por tu, era uma pouca vergonha as mulher a mostrar as pernas e a barriga na praia e a fumar deus me valha, que eu nunca fumei. E então na semana passada fui pegar no penico que estava debaixo da cama e dei aqui um mau jeito e então vinha cá resolver isto."
E nesta altura eu peço a estas pessoas para aguardarem a sua vez na sala de espera e tomo um ben-u-ron para ver se me alivia a dor de cabeça.
PS: esta situação está descrita como "discurso em fogo-de-artifício", quando o indivíduo não é capaz de seguir uma linha recta até à conclusão do seu raciocínio.









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