Num hospital o Tempo avança de outra maneira. Poderíamos até dizer que estamos noutra dimensão de Tempo. Porque, aqui o Tempo não pára, não descansa, não dá tréguas. O Tempo avança e empurra-nos com ele. São as luzes que nunca se apagam completamente. Sempre há uma luz, num qualquer canto, a marcar presença. A velar, a vigiar, a lembrar-nos que está ali. Aqui, também a Noite é diferente. Quando o resto do mundo se apaga e adormece, aqui outra vida se levanta. E transformações acontecem.
O que é que a noite tem? O que é que a noite arrasta? Os doentes, deitados nas suas camas, transformam-se. Aquele velhote querido que deambula pelos corredores, escrevendo cartas de amor às enfermeiras com a sua caligrafia trémula e num português que já não se usa, aquele velhote que, durante o dia conta com orgulho os seus feitos amorosos aos enfermeiros já não está lá. No seu lugar está um velho corpo que se contorce na cama e tenta fugir dali. Uma velha carcaça que nos cospe e insulta, que defeca junto à cama, que arranca a roupa e grita. Faz-se o costume. As amarras ainda existem no séc. XXI, estão nos punhos dele e uma injecção adormece-o. Os fantasmas foram-se.
Aquele ex-combatente do Ultramar, negro, que deu os olhos, uma perna e meio braço em troca da liberdade. Aquele negro afável que não entende o que dizemos, que fica na cama ouvindo o seu rádio e diz "obrigado" a todas as nossas solicitações. A noite chega e com ela os berros, os lamúrios, as preces murmuradas em crioulo têm um sombra ainda maior. Aproximo-me da sua cabeceira e ele está de olhos fechados. A dormir? Ou preso num mundo de dor que teima em o perseguir? Ouço um som, um baque. Vou até ao seu quarto e a cama está vazia. De um canto escuro surge um vulto que se arrasta. Pelo chão, só tem meio braço e uma perna e arrasta-se. Com os olhos fechados e dirige-se a mim. Assusto-me. Mas é só o negro velho. Pego nele e sinto que estou a pegar num animal selvagem qualquer. Contorce-se e grita. Adormece horas depois.
Aquela mulher que entrou ontem. Um AVC levou-lhe metade do corpo. Para ela só existe a direita e ignora a esquerda. Consegue exprimir-se razoavelmente e está orientada durante o dia .Sabe onde está, como se chama, em que ano estamos. Diz-me que tem fome mas não consegue comer. A sua garganta já não lhe obedece. O leite que lhe dou pela sonda nasogástrica não a satisfaz. Calculo que eu próprio não ficaria satisfeito se a comida me fosse colocada directamente no estômago. Explico-lhe e ela parece resignada. Chega a noite e a senhora altera-se. Encontro-a com a perna direita pendurada fora da cama. Mas o resto do seu corpo traiu o seu plano de fuga. Diz que o seu marido a chama da cozinha, que precisa de fazer o jantar. Julga que está de novo em sua casa, no seu quarto. Não faço nada de especial, não há nada a fazer e fico mais descansado porque sei que a sua metade-morta nunca a deixará sair daquela cama. Nem de nenhuma outra.
O que é que a noite tem?
