sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

O que é que a Noite tem?

Num hospital o Tempo avança de outra maneira. Poderíamos até dizer que estamos noutra dimensão de Tempo. Porque, aqui o Tempo não pára, não descansa, não dá tréguas. O Tempo avança e empurra-nos com ele. São as luzes que nunca se apagam completamente. Sempre há uma luz, num qualquer canto, a marcar presença. A velar, a vigiar, a lembrar-nos que está ali. Aqui, também a Noite é diferente. Quando o resto do mundo se apaga e adormece, aqui outra vida se levanta. E transformações acontecem.
O que é que a noite tem? O que é que a noite arrasta? Os doentes, deitados nas suas camas, transformam-se. Aquele velhote querido que deambula pelos corredores, escrevendo cartas de amor às enfermeiras com a sua caligrafia trémula e num português que já não se usa, aquele velhote que, durante o dia conta com orgulho os seus feitos amorosos aos enfermeiros já não está lá. No seu lugar está um velho corpo que se contorce na cama e tenta fugir dali. Uma velha carcaça que nos cospe e insulta, que defeca junto à cama, que arranca a roupa e grita. Faz-se o costume. As amarras ainda existem no séc. XXI, estão nos punhos dele e uma injecção adormece-o. Os fantasmas foram-se.
Aquele ex-combatente do Ultramar, negro, que deu os olhos, uma perna e meio braço em troca da liberdade. Aquele negro afável que não entende o que dizemos, que fica na cama ouvindo o seu rádio e diz "obrigado" a todas as nossas solicitações. A noite chega e com ela os berros, os lamúrios, as preces murmuradas em crioulo têm um sombra ainda maior. Aproximo-me da sua cabeceira e ele está de olhos fechados. A dormir? Ou preso num mundo de dor que teima em o perseguir? Ouço um som, um baque. Vou até ao seu quarto e a cama está vazia. De um canto escuro surge um vulto que se arrasta. Pelo chão, só tem meio braço e uma perna e arrasta-se. Com os olhos fechados e dirige-se a mim. Assusto-me. Mas é só o negro velho. Pego nele e sinto que estou a pegar num animal selvagem qualquer. Contorce-se e grita. Adormece horas depois.
Aquela mulher que entrou ontem. Um AVC levou-lhe metade do corpo. Para ela só existe a direita e ignora a esquerda. Consegue exprimir-se razoavelmente e está orientada durante o dia .Sabe onde está, como se chama, em que ano estamos. Diz-me que tem fome mas não consegue comer. A sua garganta já não lhe obedece. O leite que lhe dou pela sonda nasogástrica não a satisfaz. Calculo que eu próprio não ficaria satisfeito se a comida me fosse colocada directamente no estômago. Explico-lhe e ela parece resignada. Chega a noite e a senhora altera-se. Encontro-a com a perna direita pendurada fora da cama. Mas o resto do seu corpo traiu o seu plano de fuga. Diz que o seu marido a chama da cozinha, que precisa de fazer o jantar. Julga que está de novo em sua casa, no seu quarto. Não faço nada de especial, não há nada a fazer e fico mais descansado porque sei que a sua metade-morta nunca a deixará sair daquela cama. Nem de nenhuma outra.
O que é que a noite tem?

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Aqui há talento...

Vi ontem na RTP1 uma pequena reportagem sobre uma nova rede social cibernética que se destina a conectar os portugueses mais talentosos espalhados pelo mundo. Até aqui tudo bem muito embora esta coisa de diferenciar um grupo de portugueses tendo como critério o seu "talento" um pouco pretenciosa. Mas adiante.
A reportagem segue, os "talentosos" falam, os mentores, impulsionadores e patrocinadores congratulam-se. Eis senão quando, no meio de tanto elogio à portugalidade, reparo na música de fundo. Tentava eu lembrar-me qual a banda portuguesa que produzia tão enérgicos e motivadores acordes de guitarra. Estava mesmo debaixo da língua e... EUREKA!!! Dou-me conta que é uma banda que representa Portugal como nenhuma outra os... Placebo.
Hoje pesquiso no Google esse tão luso sítio na rede e digito: star tracker. Star Tracker? Cujo o o endereço é www(dot)thestartracker(dot)com? Deve ser engano... isto está tudo em inglês!! Mas depois vejo, em jeito de subtítulo: "Global Portuguese Talent". E mais abaixo: "we connect portuguese talent through an invite only network". É caso para dizer... FODA-SE (falando em português correcto)!! Então é uma rede que visa reunir os talentos portugueses espalhados pelo mundo para que possam trocar informações que os ajudem mutuamente a ter sucesso e só se entra por convite? Então e nós, os burrinhos? Não podemos ter acesso ás mentes brilhantes lusas? Olha, lá teremos que nos amanhar com o Facebook! Sim, porque era o que faltava, haver misturas entre classes. , isso é muito século XX.
E ainda por cima está tudo em inglês. Não se percebe um ca******lho...

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Desculpem lá...

... mas devido ao imenso spam que tenho recebido na caixa de comentários vejo-me forçado a activar essa coisa chata que é a verificação de palavras dos comentários.

O que quero ser quando for grande!

Se há programa que me dá prazer quando o vejo, esse programa é o "Top Gear", que passa no Discovery Channel. Eu, que não percebo nada de carros, gosto de carros. Da sua aparência, da velocidade, da potência, do barulho dos motores! Os pormenores técnicos aborrecem-me. Não sei bem o que é o binário, não percebo nada de transmissões e nem quero saber o que é o bujão do óleo! Mas gosto de ver o Top Gear. Pelos super-carros que testam, pelas dicas práticas sobre os carros mais acessíveis, pelas loucas corridas que fazem com os carros que lhes emprestam (!), pelos desafios a que se propõem desde atravessar África em "chaços" velhos e decrépitos, uma corrida entre um carro e um trenó puxado por cães até ao pólo norte, uma corrida através de Londres em hora de ponta entre um enorme jipe Mercedes, um bicicleta, um barco (pelo Tamisa) e os transportes públicos! Mas gosto do programa acima de tudo por causa do bom-humor constante, da galhofa constante entre os apresentadores, pelas excelentes tiradas do enorme James Clarkson! É gente que percebe de carros, que gosta de carros e que se diverte à brava a trabalhar!! Este texto não é tanto sobre o Top Gear mas sim sobre aquele tipo de trabalho que apetece fazer. Sempre que vejo o Top Gear não deixo de sentir uma ponta de inveja daqueles 3 divertidos "cromos dos automóveis". Porque têm a oportunidade de conduzir grandes bombas, porque se fartam de viajar, porque inventam desafios perfeitamente idiotas só ao alcance de crianças em ponto grande! E como se divertem!
Sinto o mesmo em relação aos jogadores de futebol. Caramba, esses anormais ganham milhões a fazer uma coisa que a maioria dos mortais faz apenas como divertimento! E ainda temos de pagar pela utilização do campo! Por isso não percebo tenho dificuldade em tolerar a incompetência de certos jogadores. ELES SÓ FAZEM AQUILO!! Treinam duas vezes por dia durante duas ou três horas, têm o resto do dia livre e fartam-se de ganhar dinheiro. E nem é preciso ser um CR7/9!.
De há uns tempos para cá tenho reflectido nisto de ter um trabalho em que, na prática o que é preciso é não crescer e cultivar a criança dentro de nós. Gosto do trabalho do Nuno Markl e o que ele se limita a fazer é pegar em coisas quotidianas, suas ou de outros, acontecimentos banais que ocorrem na vida de todos e abordár todos esses temas de uma perspectiva diferente e divertida. No fundo, o homem é pago para contar piadas. E isso deve ser bem divertido! E aqueles fulanos que testam os videojogos antes de eles serem lançados para o mercado? São pagos para jogar Playstation!
Numa conversa com um grande amigo especulávamos sobre a criação de um negócio que fosse uma alternativa aos doentes. Como ele é um gourmet perfeccionista e com o gosto da experimentação e inovação na cozinha sugeri a criação de um restaurante. Seria a combinação perfeita: ele seria o responsável pela cozinha e pela gestão das economias, encomendas, pessoal, etc. (ele é um tipo muito, mas muito responsável) e eu seria a referência do espaço. Aquela pessoa que recebe os clientes, que os conhece pelo nome, que repara como a esposa do Sr. Engenheiro mudou as nuances do seu cabelo. Alguém bem-falante e comunicativo, simpático e agradável. Isso sim, era um trabalho que não me importava nada de fazer!
Por vezes imagino-me a fazer algo bem diferente do que faço e já consegui encontrar algumas actividades que me agradariam:
-Logo à partida, começar a cobrar por cada visita aqui ao blog (brincadeira!! Nunca faria isso e, além do mais, ninguém pagaria por isto!!).
- Escrever um best-seller internacional e viver dos rendimentos.
- Criar o meu filho para ser o próximo CR (mas inteligente)/Federer/Tiger Woods (sem as amantes)/Schumacher e viver dos rendimentos dele.
- Patentear uma invenção que todos utillizassem e viver dos rendimentos.
-Ser vencedor do Euromilhões e viver dos rendimentos.
Acho que perceberam a ideia.

É como andar de bicicleta.

Nas urgências uma doente pediu-me que lhe desapertasse o soutien (estava a incomodar porque a senhora tinha um dor nas costas, nada de ideias...). Enfiei-lhe a mão direita por baixo da roupa e ZÁS!! Desaperto-lhe o soutien à primeira apenas com os três primeiros dedos da mão direita!!!
Realmente, quem sabe nunca esquece...

sábado, 30 de janeiro de 2010

Basta um Sorriso.

Reli o post anterior, acerca do Rex. Na verdade esse texto ficou tão aquém daquilo que eu tinha pensado que resolvi voltar ao tema. O meu filhote! Aquilo que eu pretendia descrever vai tão além daquilo que escrevi... o que é facto é que não encontro palavras para descrever as emoções que aquele miúdo causa em mim. Hoje passámos a tarde toda a brincar num fantástico parque verde com estruturas para as crianças. Escorregas, paredes de escalada e estruturas de cordas para trepar. E pinheiros e relva. Levámos uma bola para jogar. E jogámos! E andámos no excelente escorrega que era comprido e grande ao ponto de eu lá caber dentro e me divertir a escorregar! E, quando pensava que o Gabriel ia ter receio de escorregar sozinho, eis que o puto se manda lá para dentro, feliz e divertido! Ele correu atrás de mim e a fugir de mim, subiu e desceu escadas, aprendeu comigo a fazer aquela espécie de cambalhota, quando apoiamos a nossa barriga num ferro e depois rodamos o corpo usando esse ferro como eixo, pediu-me ajuda para subir para o cimo da parede de escalada e depois atirou-se para os meus braços. E ria-se! Muito, aquelas gargalhadas que só as crianças são capazes de produzir, límpidas, cristalinas e sinceras. Pelo meio destas brincadeiras surgiu o Rex, claro! E não deixou de me surpreender quando, ao subir as escadas em direcção ao escorrega pediu, simulando uma voz de cansaço de quem atravessou um deserto: "Rex, ajuda-me...". E o Rex ajudou. Depois o Rex escondia-se atrás das árvores e saltava ao caminho dele, rugindo com as garras em riste!! Quando anoiteceu eu e o Rex estávamos exaustos! Mas ele não! Chorou que não queria ir embora mas foi. Limpou as lágrimas e deu-me a mão (a mim ou ao Rex?) e quando entrámos no carro disse que tinha adorado a brincadeira. Arranquei e ele adormeceu.
Por vezes esqueço-me da idade do meu filhote: 2 anos e (quase) 10 meses! Caramba! Nem 3 anos ainda e já tão independente, tão desembaraçado fisicamente e tão fluente no discurso. A sua imaginação não tem limites, a sua energia é inesgotável, é rebelde e tem personalidade, não é grande fã de beijinhos e abraços mas consegue ser tão meigo que nos abraça e beija quando não o esperamos! O seu sorriso ilumina a milha alma, se ela existir...
Releio e vejo que as palavras continuam a não descrever exactamente aquilo que sinto.
(isto está perigosamente parecido com um babyblog...)

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

O Rex.

O Rex é um dinossauro. É um dinossauro porreiraço, gentil e companheiro. Um compincha das brincadeiras do Gabriel. O Rex tanto pode jogar à bola, como à apanhada ou às escondidas. O jogo preferido deles é uma mistura entre escondidas e apanhada onde o Rex se esconde e o Gabriel procura. Quando o Gabriel encontra o Rex, este ruge e corre atrás dele! É uma diversão. Por vezes é o Gabriel que persegue o Rex, munido das suas espadas imaginárias ou de outras munições que nascem no seu bolso e nunca acabam. O Rex é um grande amigo do Gabi. O Rex sou eu.
Isto do meu alter-ego (apesar de ter sido criado pelo meu filho) ser um dinossauro tem muito que se lhe diga. Logo à partida, a voz! Um dinossauro que se preze deve ter uma voz rouca e potente, uma espécie de rugido perceptível, e isso dá conta de qualquer garganta. Ora, como o Gabi gosta particularmente de falar com o Rex durante as viagens de carro, não é de estranhar que além de me doerem as costas também esteja rouco!
Mas o que mais me fascina nesta brincadeira é o facto de eu e o Rex partilharmos em simultâneo o mesmo corpo. Quer isto dizer que o Gabriel tanto pode estar a falar com o Rex como com o Pai! Por exemplo: -REX! REX! Esta é a espada dos dinossauros! Foi o pai que deu! (a propósito de um sabre de pirata que lhe ofereci esta semana). Ou então, quando ele chama pelo Rex e eu respondo com voz de Pai e ele replica "NÃO QUERO A TI! QUERO O REX!!".
E aí eu pergunto:
-Onde está o Rex filho?
-Está atrás de ti, Pai!
-Atrás de mim?
-SIM! Ele é grande e tem uma boca grande!
-E quem é o Rex, Gabi?
-És tu!!
Dizem que a imaginação é sinal de inteligência.

Porreiro pá!

Chego ao trabalho e descubro que bloquearam o acesso ao Facebook. Começou a retaliação por causa da greve!

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Verdades Absolutas acerca de ser Pai

Se houver uma poça de lama ou semelhante nas imediação do nosso filho-em-queda, é certo que é lá que a queda se dará.

Verdades Absolutas acerca de ser Pai

Se gritarmos "OLHA QUE VAIS CAIR!!" ao nosso filho enquanto ele corre desenfreadamente, é certinho que ele se vai espetar.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Mas que originais que somos!

Dei-me hoje conta que a televisão portuguesa está na vanguarda da produção de ficção. Fiquei siderado com a originalidade quer da SIC quer da sempre vanguardista TVI. Falo de duas produções de nome "Lua Vermelha" e "Destino Imortal". Reparem no conceito destas duas séries: vampiros adolescentes!!! FANTÁSTICO!
Confessem lá, confessem que nunca vos tinha passado esta ideia pela cabeça! Que mentes, que criatividade, que on-the-edge é a televisão portuguesa. Vampiros adolescentes que serão representados por modelos-actores e actores pós-"Morangos com Açúcar", já que os vampiros são seres de uma beleza estonteante e cheios de glamour. Haverá uma história de amor que cruzará um vampiro e uma humana, conflitos entre vampiros bonzinhos e gangs de vampiros mauzões mas os vampiros estão perfeitamente integrados na sociedade humana, frequentam as nossas escolas e, pasme-se este conceito, andam em plena luz do dia!!
Já estão a ver este conceito a ser plagiado descaradamente pelos americanos, originando grandes franchisings cinematográficos de nomes do tipo Crepúsculo, Lua Nova, O Diário do Vampiro e outros sem piada nenhuma!
(Na verdade, quer a SIC quer a TVI são TV-vampiro. É o tipo que se alimenta das ideias de outras.)

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Sobre o direito civil de alguns portugueses.

Na minha opinião, toda esta historia do casamento gay e adopcão por casais homossexuais nem devia sequer ser discutida pois trata-se de um direito fundamental de qualquer individuo. Contudo não posso deixar de chamar a atencão para uma opinião brilhantemente fundamentada e elaborada acerca deste assunto.
Sejam a favor ou contra não deixem de ler.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Usado como novo.

Por vezes aparecem-nos nos Internamentos uns velhotes castiços! Doentes mas sempre bem dispostos. A Rosinha dos Limões (é assim que a chamo e entro no quarto dela a cantar a canção homónima!) é uma dessas velhotas. 94 anos cheios de energia que a doença veio roubar. Hoje, enquanto lhe dávamos banho, a minha colega comentou:
-A Dona Rosa tem um pipi muito bonito! Bem feitinho, pequenininho. Mesmo giro!
-Diz filha? Ouço mal sabes...
-ESTAVA A DIZER QUE TEM UM PIPI TODO BONITO!
-... ó filhinha... está assim porque teve pouco uso. Antes estivesse estragado e tivesse sido usado.
Ora toma.

O Sonho Mau que não foi.

Ontem tive um sonho mau, muito mau. Um pesadelo. Sonhei que um casal se tinha divorciado e desentendido. A sua filha ficou no meio da guerra entre dois adultos. No meu sonho a menina não queria ver o pai. Gritava e esperneava e recusava ficar com ele. O pai afirmava que e menina estava a ser manipulada pela mãe, esta recusava e a menina dizia que o pai lhe mexia no pipi e que ela não gostava. O sonho continuava no tribunal e, entre acusações e ataques entre os progenitores, o juiz decidiu que a menina tinha que ficar com o pai e ordenou à GNR que fosse buscar a menina. E os agentes iam e depois escreviam nos seus relatórios que a menina chorava e gritava e que não queria. E diziam aos seus colegas (off the record) que isso lhes cortava o coração mas era a lei.
No meu sonho mau isso não resultou. O juiz decidiu então, depois de ouvir psicólogos e pedo-psiquiatras, que a menina sofre de um síndrome de alienação parental. Mas todos os especialistas lhe disseram que esse síndrome não existe. Não consta das tabelas de doença da OMS e que ele não devia basear uma decisão judicial nesse facto. Mas, todos sabemos como os sonhos são estranhos, o juiz decidiu retirar a menina a ambos os pais e mandou que fosse internada num orfanato. Mas não um orfanato qualquer. Um orfanato que ele próprio escolheu.
Realmente os sonhos são muito estranhos por vezes. Sonhei que esse orfanato faz parte de uma extensa rede de orfanatos da Igreja Evangélica (subsidiados pelo estado) que levam os meninos às suas igrejas, para serem evangelizados. Dizem os responsáveis que as crianças não são obrigadas, que escolhem. E volto a sonhar que foi o juiz que escolheu esta instituição, sem qualquer outra consulta.
Mãe e pai da menina só podem ver a filha uma hora por semana, numa sala despida e com a presença de duas funcionárias. Não podem tirar fotografias nem levar brinquedos. Se não fosse um sonho eu diria que se tratava de uma prisão. Mas não, no sonho vejo um orfanato. No meu sonho mau, a menina não tem previsão para voltar a ser entregue a um dos pais. Está afastada dos seus pais, da sua casa, dos avós, dos amigos, da escola, do seu mundo sem que haja um final definido para o tratamento determinado pelo juiz. O juiz entregou essa decisão ao orfanato. Também lhe entregou a custódia da menina e a responsabilidade pela sua reabilitação. Neste sonho mau a menina pertence-lhes.
Hoje acordei angustiado pelo meu sonho mas depois ocorreu-me. Isto não foi um sonho! Isto é real, vi ontem na RTP1 logo depois do Telejornal, no programa Linha da Frente. Aconteceu no States, onde a realidade nos ultrapassa? Não. Em Portugal, em Fronteira. A realidade ultrapassa largamente a ficção...

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Farinha do mesmo saco.

Farinha do mesmo saco. Os homens são todos farinha do mesmo saco. Pelo menos é o que tenho ouvido dizer, da parte de algumas mulheres. Que tipo de mulheres? As traídas! E é impressionante o que uma mulher atraiçoada pelo marido é capaz de verbalizar. Para este tipo de mulher todos nós somos demónios traidores, mesmo quando não traímos! Se não estamos com outra mulher, temos planos para isso! E como é que eu sou capaz de afirmar isto? Fácil! São elas que mo dizem!
Nunca me hei-de esquecer do que uma funcionária de um hospital me disse quando soube que eu estava já casado e já com alguns anos de duração... "Isso não dura muito. Um jovem como você, que passa mais tempo em hospitais do que em casa... não tarda nada está metido com alguma doida dessas que praí andam. Se é que já não anda! Tantos anos a comer o mesmo bife com batatas fritas, qualquer homem enjoa." Reparem que a dita senhora elaborou este brilhante e elaborado raciocínio apenas na posse de alguns factos: que eu sou novo, trabalho muito e gosto de variar o bife que ando a comer! Sendo que o elemento aglutinador desta tese é o facto de eu ser um homem! E isso é suficiente.
Na minha faixa etária é muito comum encontrar mulheres divorciadas. São aos magotes! E como o seu discurso é semelhante! "Homens... todos iguais. Um marido de uma amiga arranjou uma brasileira na net. Achas normal? Já o porco do meu ex-marido também arranjou uma porca qualquer pela internet." Aqui os lugares comuns são: trocamo-las sempre por brasileiras que encontramos pela internet. Sendo bastante comum encontrar-me a escrever num dos computadores do serviço (como agora, por exemplo!) algumas delas tentam perceber se eu estou a falar com alguma "gaja"!
Mas o cúmulo dos cúmulos acontece quando essas generalizações são feita por alguma familiar. Neste caso uma mulher da minha família que se encaixa no grupo das traídas. E dizia ela, falando para a minha mulher como se eu não estivesse na sala: "Homens é tudo farinha do mesmo saco! E piora com os filhos! Então quando vem o segundo... parece que ficam loucos! E com a avançar dos trinta começar a pensar mais neles e nas suas necessidades... parvalhões. Lembras-te da P.? Aquela que tina uma relação de sonho, saiam, viajavam, ela dava-lhe imenso espaço e confiava nele a 100%? Pois é. Ele arranjou outra. A autora de um blog que ele seguia... metem-se na internet e depois dá nisto!" Depois, virando-se para mim: "Vocês são todos farinha do mesmo saco!"
Vejamos então o perfil: trinta anos, dois filhos, usa muito a internet, frequenta redes sociais como blogues, por exemplo, trabalha muito fora de casa e, claro, ser homem. Estou tramado.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Mais um momento perfeitamente escusado de crítica literária.

Sempre fui, abertamente, um defensor do Saramago. Fiquei do seu lado na polémica pré-lançamento de "Caim" e considerei que saiu vencedor no debate com a Igreja. O que eu admiro em Saramago, mais do que a escrita, são as premissas que originam os seus romances e a argúcia com que ele faz uma certa crítica social nos seus livros. Não os li todos, mas li bastantes para apreciar a sua obra. "Caim" é um flop. Uma mera forma de ganhar uns trocos para pagar os cuidados da velhice. Uma obra escrita à pressa.
Mas, pior que tudo isso, afinal o homem pode fazer "render o peixe" da maneira que entender, é que "Caim" trai todo o espírito saramaguiano na medida em que, em vez de ser uma crítica bem elaborada e estruturada e com um ponto de vista diferente mas legítimo (como o foi "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" que conta uma história sobejamente conhecido através de um ponto de vista diferente mas perfeitamente legítimo), trata-se antes de um exercício de sobranceria e arrogância do autor sendo mesmo ofensivo em algumas partes.
Em "Caim", Saramago aproveita o desterro a que Caim foi votado por Deus após assassinar o ser irmão Abel e imagina uma viagem que o leva a testemunhar alguns dos actos mais sanguinários descritos na Bíblia, desde o dilúvio do qual só sobreviveram Noé e a sua família e animais, passando pela destruição da torre de Babel e pelo genocídio ocorrido em Sodoma. Acontece que estes eventos não ocorreram na mesma época em que viveu Caim! Calculo que Saramago seja um grande fã da série "Lost" porque acontece a Caim exactamente aquilo que acontece às personagens perdidas na ilha durante toda a 5ª temporada (quem não viu que se informe porque eu não quero estragar a expectativa a ninguém)! Depois há muito sexo com sémen espalhado por várias partes do corpo da mulher, há violência gratuita sempre vinda da parte de Deus, que a propósito, é um sacana sem lei da pior espécie, um déspota que retira prazer do sofrimento humano e até os anjos são meros funcionários manietados por esse crápula, discordando dele à boca pequena.
Eu não sou de todo cristão, nem católico, nem de outra religião qualquer mas respeito. E, agora sim, depois de lida a obra, a Igreja tem argumentos para atacar o velho sabichão do Saramago. Em primeiro lugar porque a narrativa do livro é imensamente rebuscada e depois porque, enquanto obra de relevo, "Caim" é muito fraquinho.
Ó Saramago, não havia necessidade.... (mas, mérito seja reconhecido, safaste-te bem nas vendas durante o Natal, hmmm?)

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Será a Festa do Pijama?

Minha gente. Mesmo para ir ao hospital porque se está doente tem de haver em nós uma réstia de dignidade. E ir de pijama para as urgências anula uma dignidade já fragilizada pelo facto de estarmos pálidos, despenteados, com os olhos encovados, a irmos constantemente ao gregório e a cagar fininho. A tendência natural dos profissionais ao avistar um doente de pijaminha é a de desconfiar. Alguém que sai de casa com um pijaminha cor-de-rosinha-com-ursinhos-carinhosos só pode querer chamar a atenção! Ou então é louco! Logo dois dos estereótipos menos aceites em contexto de urgência! A não ser que vos tenha dado um enfarte fulminante ou uma queda com perda de massa encefálica... vistam-se! E, façam o que fizerem, não vão para o hospital com aquelas pantufinhas-fofinhas-e-quentinhas-em-forma-de-cãozinho-de-olhar-meigo. É... deprimente. Também há a variante chic destes doentes. Os que usam chinelinho de pele e pijama com roupão de seda ou cetim! Meus amigos, não importa se é um pijama com griffe Louis Vouitton ou D&G. Um pijama é e será sempre um pijama.
O mesmo se aplica aquelas pessoas que passam o fim-de-semana de pijama vestido. Mas há coisa menos dignificante do que vir despejar o lixo de pijama? Não, não há. Mas qual é o problema em vestir uma roupa normal? Nem que seja um fato-de-treino! Um pijama é roupa-para-dormir. Dormir. Não para despejar o lixo ou passear o cão, para almoçar e estar a abobrar no sofá! Já pensaram que ninguém dorme com a roupa que enverga durante o dia? Eu pelo menos não!
Para mim, o conjunto pijama-felpudo/roupão-fofinho é das coisas mais deprimente e menos apelativas que há. Admito que há pijamas bem giros e que até são bastante atraentes mas lamento constatar que aqueles que aparecem no hospital são sempre ou rosa com ursinhos, ou azuis com gatinhos ou amarelinhos canário! E todos nas versões tecido-fofinho-mas-extremamente-sintético! Juntem-lhe as tais pantufas e voilá! São oficialmente os doentes-pateta!!!
Eu não uso pijama. Boxers e t-shirt. E não vou assim para as urgências.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

A Verdadeira Causa da Extinção dos Dinossauros.








(Ou, o que fazer com um filho quando chove a potes lá fora...)

domingo, 10 de janeiro de 2010

Entrar no espírito da coisa.

Completamente dentro do meu papel de trolha (como tão simpaticamente me baptizaram nos comentários ao post anterior) hoje, ao ver a minha mulher e as suas formas gravídicas dei aqueles dois míticos assobios e...
FUIIIIII FUIIIIIU!
Pareces um helicóptero!! És gira e boa!!!
(e não, não é uma "cozinha rústica".)

sábado, 9 de janeiro de 2010

Uma Carreira Alternativa.

Andamos em obras cá em casa. O meu pai, hábil e sábio mestre-de-obras mostrou-me aquela que pode bem ser a minha carreira de sucesso alternativa: servente de pedreiro!
Ah, deviam ver a força a carregar com aqueles enormes baldes de entulho, a habilidade a passar as ferramentas ou a subtileza com que falhava todos os palpites...

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Chamar os blogs p'los nomes!

Eu vou descobrindo blogs novos através de vários caminhos diferentes. Ou através dos comentários que deixam por aqui, ou através da lista da origem dos meus visitantes que consulto diariamente na página que faz a estatística aqui do pasquim ou através da listas de blogs existente nos blogs que eu próprio sigo.
Contudo eu sou um gajo exigente e não ando por aí a clicar em tudo o que é link para blog! Nada disso. Quando criei este blog achei que o nome devia ser ao mesmo tempo original e diferente mas devia definir o espírito da coisa. Não sei se fui bem sucedido mas pronto, saiu o título que encontram lá em cima, por cima do Calvin em cuecas. E esse é o meu principal critério na escolha dos links a clicar: o nome do blog! Quero aqui deixar alguns exemplos de nomes de blogs que eu considero de alguma forma originais e que me levaram a descobri-los:
-"Digo eu com os nervos...", fiquei com vontade de saber o que a autora dizia com os nervos!
-"O Doutor dá licença?" é uma expressão mítica para quem trabalha em hospitais!
-"Optimistas são pessimistas mal informados", este confesso, é um dos meus preferidos!
-"Porque deixei de ser enfermeiro", chamou-me a atenção por razões óbvias.
-"Xarope pa tosse", muito bom!
-"Como escrever uma tese como deve ser!" é também muito original
-"Odeio o travian", como não espreitar um blog com este título?
-"A Vontade de Regresso" pensei que era um blog sobre viagens e o primeiro post que li falava de enviar postais das nossas viagens, nem que fosse para nós mesmos! Enganei-me.
-"De Mel de Melão", fiquei com a sensação que era um de culinária e como gosto de mel e de melão... wrong again!
Há muitos mais por aí, e muitos ainda por descobrir! Contudo há uma pequena ressalva que gostaria de fazer... nem sempre o conteúdo do blog está ao nível do seu título e há muitos blogs EXCELENTES que não têm nomes tão chamativos...
(desculpem os blogs não estarem linkados, mas eram muitos e agora não tenho tempo!)

Vida cor-de-rosa.

Há qualquer coisa que me irrita no jet-set nacional. Ah! Já sei! É a completa acefalia dos socialites. E também a futilidade e aquela sobranceria intrínseca a quem julga que pertence a uma casta de genética superior. Mas o que me irrita mesmo são as pessoas comuns que alimentam estes fenómenos. As parvinhas que vão a correr comprar essas revistas cor-de-rosa onde se descrevem as vidinhas plásticas dessa gente plástica e de plástico. As loiras-burras cujo objectivo maior é "aparecer". As doidinhas que tudo imitam que tudo veneram, desde que apareça na bíblia-Caras. Uma ex-colega da minha mulher também queria "aparecer". Ri-me à brava quando ela de facto apareceu: na gala de fim-de-ano do Ídolos era uma das meninas a fazer aquela ridícula figurinha de "centro-de-mesa vivo" com um sorriso postiço mas com um olhar que não escondia a humilhação. Bem-feito!
A todas as wannabe de Lili, Cinha, Carolina e Pimpinhas: a nova moda é servir de centro de mesa vivo aos VIP, sabiam? Vá, vão a correr arranjar uma mesinha vaga, vão.
(acham que as enganei?)

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

"Less is more"

Julgo que, em algumas pessoas corre ainda o sangue dos nossos antepassados recolectores. Mas esta veia recolectora, de armazenamento evoluiu para algo diferente adaptado ao modo de vida moderno e sedentário. E penso que podemos distinguir dois tipo de sucedâneos dos nossos primos primitivos recolectores tribais: os "amontoadores" e os coleccionadores.
Os "amontoadores" são aquele tipo de pessoa que não só não é capaz de se ver livre de nada que esteja em sua casa como também não é capaz de dizer que não a uma oferta ou uma "pechincha", mesmo que nenhuma destas lhe faça particular falta. Estas pessoas nunca deitam nada fora porque "Pode dar jeito". Tenho um familiar que tem a garagem atafulhada de material absolutamente inútil e obsoleto desde aqueles rádios leitores de cassetes dos anos oitenta, antenas parabólicas, televisões a preto-e-branco, pneus de carros, ferramentas repetidas, esquentadores, etc, etc, etc. Muitos deles poderiam ser vendidos a lojas de antiguidades ou usados como objectos decorativos, para aquelas pessoas que pretendam um look retro em sua casa mas não! Nada daquilo pode ser mexido porque "pode dar jeito" num dia qualquer. O mesmo se passa com os amontoadores de roupa. Pessoas que, por mais roupa que tenham nos armários são incapazes de dar a roupa que já não usam! Porque nunca se sabe quando é que aquela peça pode ser necessária! Curiosamente, estas pessoas queixam-se sempre que não têm roupa suficiente. Na minha linha de trabalho porém, existe um "nicho" destes indivíduos que me diverte particularmente. Falo dos "ratos de congresso". Os "ratos de congresso" são aqueles profissionais que vão aos congressos apenas com o objectivo de conseguir o máximo de brindes da propaganda médica que lhes for possível! Desde canetas, malas de mão, cadernos, blocos de notas, borrachas, guarda-chuvas, suportes para telemóvel, pastilhas, rebuçados, fitas-porta-chaves, ratos de computador, calendários, tapetes para rato de computador, pins e alfinetes de lapela... podia estar aqui a escrever tudo aquilo que a propaganda médica oferece. É uma autêntica corrida ao brinde onde a regra é "quanto mais melhor". E, na próxima vez que estiverem num hospital ou centro de saúde tentem reparar na quantidade de canetas que as enfermeiras (sim, as meninas são piores!) trazem na lapela... Portanto, os amontoadores armazenam coisas mais ou menos dispensáveis como as formigas armazenam comida para o inverno!
Os coleccionadores por outro lado são mais selectivos. Seleccionam um e apenas um objecto e armazenam o maior número possível de exemplares desse objecto. De sublinhar que um coleccionador ostenta com orgulho e destaca a sua colecção de objectos! Se eu até compreendo o argumento dos "amontoadores" de que "pode dar jeito", já me custa mais a entender os coleccionadores. Qual será o objectivo de coleccionar caricas, ou latas de refrigerantes? Para a maioria das pessoas estes objectos são lixo, depois de usados! E as colecções mais sérias como selos, moedas, carrinhos em miniatura, barcos dentro de garrafas, etc? Qual a utilidade disso? Já não falando de colecções que considero como sintomas de uma qualquer condição mental psiquiátrica como ementas de restaurantes, prendas e convites de casamento (mesmo que não se tenha sido convidado), pedras, cigarros, copos roubados de bares ou chávenas de café surrupiadas, colheres, etc, etc, etc...
Imagino sempre uma conversa deste tipo, num bar:
Coleccionador: Olá jeitosa! Posso oferecer-lhe uma bebida?
Jeitosa: Ui... olá homem bem parecido e atraente! Para mim um malte...
Coleccionador: Mas que bem parecida que a menina é... aposto que é instrutora de fitness. Eu sou empresário.
Jeitosa: Oh, obrigado! Mas não, sou secretária... Então e o que faz tão distinto homem nos tempos livres, para além de andar a engatar miúdas em bares duvidosos e usando frases de engate muito fraquinhas?
Coleccionador: Ora essa! Eu colecciono caricas e adoro passar horas a puxar-lhes o brilho e a dispo-las ordenadamente por ano de aquisição e por um elaborado código de cores que só eu descodifico! Gostaria de passar por minha casa para ver como desfiz cuidadosamente a curvatura causada pela abertura da garrafa devolvendo assim à carica a sua forma mais bela?
Jeitosa: Filho, eu posso estar desesperada mas tenho padrões mínimos. Adeus.
Numa palavra: deprimente.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Prémio: "Serás excomungada e arderás no fogo dos Infernos!"

"Jesus alinharia pelo casamento dos homossexuais, pois se Deus criou heterossexuais e homossexuais, quem somos nós para perseguir pessoas criadas por Deus?"

Anna Vicente, 66 anos, escritora e ex-presidente da Comissão para a Igualdade e Direitos da Mulher in "Visão" de 24 de Dezembro de 2009.

Gostava de ver os católicos anti-casamento gay a refutar este argumento...

Wondercalças?

Ninguém duvida que o wonderbra foi uma conquista na luta pelo aumento da autoestima feminina! Contribuiu também para o aumento de alguma da anatomia masculina, mas isso é uma outra história... Mas, dizia eu que o wonderbra foi, de facto uma grande conquista para as mulheres e quer-me parecer que se eles existissem nos anos 60 as feministas não andariam por aí a queimar tão prestimoso acessório. E após tanto sucesso do soutien-maravilha surge agora uma nova peça de vestuário que se propõe a elevar uma outra parte bastante importante do corpo feminino. Falo das novas calças "push-up" da Salsa Jeans!
O meu primeiro contacto com esse conceito deu-se (onde mais poderia ser...) num gaja-blog (sim, eu leio blogs de gajas muito gajas.), e pela foto e descrição fiquei curioso. Seria de facto assim, um simples par de calças poderia transformar uns glúteos flácidos e disformes num lindo e vistoso rabo? Passei então à fase de pesquisa nesta investigação: a observação! E, após ter observado (de um ponto de vista meramente científico, sublinhe-se) várias mulheres que envergavam orgulhosamente esse modelo de calça, posso hoje concluir que os resultados são... menos satisfatórios de o que a publicidade fazia prever. De todas as mulheres que tive a oportunidade de observar, nem uma beneficiou do milagre elevatório que a marca publicita. Pelo contrário! Pelo que pude observar, esse modelo específico tem um efeito pouco desejável: espalma o rabo feminino. Espartilha-o! O efeito "rabo empinado" que de que a marca fala pressupõe um rabo redondinho e elevado, não (presumo) um efeito em que o rabo é espalmado fazendo com que as nádegas subam sim, mas também se afastem! Ficamos com a sensação que estamos perante um enorme e largo rabo. E isso senhoras não é atraente.

Estes resultados de minha colheita de dados nesta investigação de enorme interesse quer para o mulherio, quer para os homens levam-me a fazer algumas interpretações. Em primeiro lugar: não há milagres! Nenhum par de calças no mundo é capaz de transformar umas nádegas flácidas num rabo de modelo Victoria's Secret! Depois, minhas amigas, se Deus não vos agraciou com uns glúteos firmes e perfeitos então a solução é.... correr e ginásio! Chama-se a isso "minimização de danos" e é bom para o estado geral do corpo. Um outro aspecto não menos importante é a questão do "engano". Imagino qual será a reacção do homem que, estando naturalmente com as expectativas elevadas erradamente causadas por um artefacto, se depara depois com os efeitos devastadores que a gravidade costuma ter nessas zonas corporais...

Acham mesmo que a miúda da publicidade precisa de umas calças que lhe realcem o rabo?



Pois. Precisa tanto das calças como a Eva Herzigova precisava do wonderbra para lhe realçar as seios!
Resumindo então os resultados deste meu estudo: as calças "push-up" da Salsa não resultam! E querem saber mais? Ainda bem!

sábado, 2 de janeiro de 2010

A Arrecadação.

De volta ao trabalho em 2010. Reencontro uma velha colega de outros campos de batalha e, inevitavelmente, pergunto como estão as coisas no trabalho, os antigos colegas. "Same old, same old" tudo na mesma, muito trabalho, a desorganização de que ainda me lembro, os colegas desse tempo foram saindo, muita gente nova sem espírito de equipa, enfim. A novidade está na reestruturação do espaço. aproveitaram um dos internamentos para ser o Serviço de Observação da Urgência (que não passa de uma espécie de purgatório onde os doentes aguardam que haja uma vaga numa enfermaria qualquer) abrindo assim espaço no Serviço de Urgência. Bem, em urgência em Portugal "mais espaço" significa normalmente "mais macas". O espaço que era anteriormente ocupado pelo SO é agora aquilo que nós chamamos "Box". Doente que, não se esperando que sejam internados, têm de esperar por algum exame ou consulta ou cirurgia ou, simplesmente estão em observação para que se decida o que fazer.

Até aqui tudo bem, parece-me uma clara melhoria das condições dos doentes até que pergunto o que foi feito da antiga Unidade de Cuidados Diferenciados (na verdade trata-se de uma Unidade de Cuidados Intensivos que funcionava na Urgência mas que, por razões logísticas não se podia chamar "cuidados intensivos"). Essa passou também para o novo piso da Urgência, agora esse espaço é utilizado para colocar os "casos sociais". Estes "casos" são na verdade pessoas, idosos na maioria, que ninguém quer receber, que a família abandonou, que os lares não querem manter porque dão trabalho e prejuízo, que os filhos e/ou netos deixam na Urgência e quando queremos dar-lhes alta o número de telefone fornecido ou não está atribuído ou nunca é atendido. O espaço de que falo não tem mais que 30 m2 e recebia, na sua antiga vida, três camas para doentes críticos. Quando perguntei qual a lotação máxima neste momento a minha colega respondeu: "Os que couberem."

Os que couberem? Conhecendo aquela realidade como conheço não me foi difícil imaginar o cenário: enquanto houver espaço enfiam-se macas lá para dentro. Para se chegar ao doente que está encostado à parede tem que se desviar as três ou quatro macas que estão juntas, numa espécie de estacionamentos em 3ª ou 4ª fila. Estes doentes são "não prioritários", não precisam de "cuidados essenciais", são os últimos a ser vistos, os últimos a ser cuidados. Considerando que a urgência nunca para. estes doentes recebem atenção quando o fluxo de doentes "a sério" acalma. São vistos nos intervalos da chuva. Este espaço fica bem no fundo do serviço, última porta à direita. Baptizaram-no de "A Arrecadação".
E "A Arrecadação" bem pode ser uma metáfora para caracterizar a sociedade moderna, aquela à qual pertencemos, aquela que ajudamos a construir. Que sociedade somos nós, que permitimos que os nossos velhos sejam "arrecadados" desta maneira? Gostaria de poder melhor descrever aquilo que me refiro mas não é possível. É uma sala com 30 m2 atulhada com macas onde pessoas velhas estão deitadas e onde é impossível chegar de uma parede à outra mantendo todas as macas lá dentro. É uma sala cheia de gente deitada em macas mas também cheia de murmúrios e gemidos, de gritos de dor e desespero. E de solidão. Isto é o fim da linha para muitos dos nossos.
Para mim, uma vida de sucesso é aquela que termina junto dos nossos. Dos nossos filhos e netos, genros, noras, amigos. Não sei como definir uma vida que termina na "Arrecadação".

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Até pró ano!

Sempre estranhei esta espécie de euforia que se vive à volta do "fim-de-ano". Encarei-a sempre mais como uma desculpa para se cometerem alguns excessos, numa tentativa de catarse do ano que finda. Mas o certo é que, muito embora se mudem os calendários e as agendas, o resto permanece lá. O mesmo trabalho, os colegas do dia anterior, o mesmo chefe, o trânsito de sempre, os filhos e o marido. Passada a euforia, as resoluções inspiradas por Baco e a ressaca que não permite nunca que esses resoluções se cumpram, o essencial da vida não mudou.
O calendário de 2009 pode estar hoje na sua última página mas não me apetece fazer balanços nem resoluções cujo fim não depende só de mim. Mas posso falar do que guardo de 2009: finalmente aprendi a relativizar e a desdramatizar, a ver que as coisas que me parecem más também têm um lado positivo. E tento hoje encontrar nas coisas o seu lado mais positivo. E as coisas não me têm corrido mal! Vi o meu filho crescer forte e com saúde e com muita personalidade também! E entretanto decidimos que era a altura de aumentar a família! Do que de menos bom se passou não guardo memória, nem quero!
2010 será marcado mesmo a meio. Teremos um período AN (Antes do Nascimento) e um período DN (Depois do Nascimento). Nos próximos 365 dias espero novos e renovados desafios, espero comprovar que ter dois filhos não equivale a ter o dobro do "trabalho" mas sim muito mais e espero estar à altura desses desafios. De resto, 2010 será um ano de preparação, de planificação, de lançamento para aquele que será o ano que poderá marcar uma mudança de rumo nas nossas vidas: 2011! Entretanto, o meu desejo para 2010 é muito simples: bom humor e muita energia positiva!
Para todos desejo isso mesmo, uma disposição muito "sweet" e toda a energia que conseguirem obter! É isso que encontro numa das músicas que mais me marcou este ano e não consigo deixar de ouvir em volume máximo...



Feliz 2010!

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Ainda se lembram?

Tenho mais piada que o Bruno Aleixo.

O conceito até era engraçado: um "ewok" de Coimbra a dar pequenos conselhos para uma vida melhor! Uma coisa bem experimental, bem ao jeito da Internet, um projecto que prometia tornar-se num fenómeno de culto no panorama do humor cibernético. Mas não. Da internet para a TV, de "ewok" para um cão rafeiro qualquer e, finalmente para as massas através de uma rádio nacional.
Hoje vinha a ouvir mais um dos episódios de "Bruno Aleixo a falar no rádio" na Antena3 e, pasme-se, nem gargalhada, nem um sorriso, nem sequer a intenção disso. Mas pensei que, se escolhesse apenas um de todos os episódios que já vi/ouvi, calharia sempre cocó. E ri-me da minha própria piada.


segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Os Corredores da Vida.

"Porque são nos hospitais tão importantes os corredores?. Existem as salas de espera, as enfermarias, os elevadores, os quartos, as salas de operações, etc...mas os 'corredores' enquanto espaço (de caminho para o desconhecido) ganham um protagonismo nos relatos dos doentes (e também na literatura de ficção). A fotografia deste blogue tem também um corredor...". Este é um comentário da ex Ana que me fez reflectir. Na verdade, porque é que os corredores dos hospitais são tão presentes e têm um papel tão dramático na ficção. Veja-se a "Anatomia de Grey" por exemplo. As grandes questões dramáticas e muito do desenrolar da história acontece nos corredores!

Os corredores hospitalares têm uma grande importância no dia-a-dia de um hospital não por aquilo que valem como um factor que contribua para o desenrolar da "acção" mas mais como um espaço de encontro entre os profissionais. As máquinas de café estão nos corredores, as pessoas encontram-se e falam dos seus problemas (e dos problemas dos outros!) nesses corredores. Eu, por exemplo, utilizo o corredor quando preciso de "escapar" por momentos a tudo aquilo que se desenrola nos quartos e salas de tratamento ou exames. É o espaço que eu utilizo para me sentar e repousar um bocado, tendo a certeza que não vou ser interrompido por algum doente ou familiar. O corredor é território neutro no confronto entres doentes, famílias e profissionanis! Depois, todas as situações mais emocionais que envolvam dois profissionais acontecem no corredor! Arrufos de namorados, discussões, beijos, conversas alegres ou tristes, revelações e desabafos, confrontos e resolução de conflitos, finais de relações e "rapidinhas"! Tudo isto acontece nos corredores.

Calculo que, para os doentes, o corredor tenha algum tipo de valor simbólico. Para aqueles que vão ser submetidos a grandes cirurgias o corredor deve ser encarado como a última etapa de um caminho que deixará de ser conhecido a partir das portas do Bloco Operatório. Para os que estão internados será uma espécie de Limbo onde aqueles corpos se encontram presos. O mundo que existe para lá dos quartos, o único sítio onde podem dar mais de 5 passos seguidos sem encontrar uma parede.

Mas os corredores pertencem aos profissionais. Aos enfermeiros e médicos, auxiliares e técnicos e aos empregados da limpeza. É nos corredores que a vida pessoal desta gente se desenrola e é neles que, muitas vezes se decide da vida dos doentes e do próprio hospital. E por isso eu lhes chamo os "corredores da vida".

Indicador de Produtividade.

Percebe-se as prioridades de um Povo no combate à "crise" quando o tema dominante das conversas de café é, por esta altura, o número de feriados e "pontes" que ocorrerão em 2010.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Isto é O Natal!

Feliz Natal a todos!

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Momentos Preciosos.

"PAI, PAI,PAI, PAIIII! Estão dois ursos atrás de ti, pai!
Onde filhote, onde??
Atrás de ti pai!! FOGE!! (e corre rapidamente para trás da cama do nosso quarto ficando à espreita com um sorriso maroto)
Mas filho, estes são dois ursos amigos! Vês como eles não fazem mal?
(sai do seu esconderijo e fica em pé a olhar para o tecto) Vocês não são mauzões, ursos? Pai, os ursos são amigos! (um sorriso e dirige-se a mim com um bracito levantado, como se viesse de mão dada com um dos ursos!)
Vês. Como se chamam os ursos?
Kenai e Koda! O Kenai é grande e o Koda pequenino! Vamos saltar!!! (ele tem um colchão no chão do quarto que usa como trampolim!) Senta pai, senta!
(ia sentar-me no puff quando...) NÃO!!! NÃO SENTES AÍ!!! Aí está o Kenai...
Desculpa... sento-me no chão então.
Ó pai, pai olha como salto com o Koda!! (salta vigorosamente com os dois braços levantados fingindo estar de mãos dadas com o urso) Anda saltar com o Kenai!!
(e eu lá vou, saltando como se estivesse a segurar as enormes patas de um urso)
Pronto filho, o Kenai e o Koda vão dormir. E tu também tens de vir para a caminha..
Não! Quero saltar!
Vá, escolhe a história que queres ouvir hoje...
Os ursos podem ouvir a história também?
Claro que sim filho!!!
KENAI E KODA, KENAI E KODA!! Vamos ouvir a história!!! (sobe já para a sua cama levando consego o livro que escolheu. Senta-se)
Kenai sentas aqui e o Koda senta aqui! (e aponta os locais onde os ursos se devem sentar, enquanto se aperta o mais possível contra a cabeceira para arranjar espaço para os enormes ursos!)
Podes começar a contar pai!!! (e passa-me o livro que escolheu: Kenai e Koda, da Disney!)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Mais um pensamento pensado pela minha cabeça pensante...

Há médicos que percebem muito dos medicamentos e das doenças. Outros há que percebem de doentes.
Qual preferiram?

Medicina Moderna.

"O que deram os exames do meu pai?". Foi assim que hoje fui abordado por um familiar de um dos meus doentes. Os exames, o diagnóstico, as análises. É uma abordagem comum esta, a de dar a preocupação que se devia ter com o doente aos meios complementares de diagnóstico. São poucas as pessoas que fazem perguntas como "Como passou a noite? Comeu bem? Teve dores? Febre? Caminhou? Saiu da cama?" enfim, perguntas que estejam directamente relacionadas com o bem-estar do seu familiar.

Depois, quando tento explicar que o doente está melhor fisicamente, mais orientado, mais independente, que já tomou banho no WC em vez do costumeiro banho na cama, que até se alimentou sozinho, eis que vislumbro na face do familiar a expressão que revela que não é essa a informação que interessa. "Tem alguma questão?" pergunto, "Sim, sim! O que revelou a TAC que o meu pai fez ontem?". "Lamento mas essa é uma questão que terá que colocar ao médico assistente. Mas fique descansado que o seu pai está melhorado, bem-disposto e o exame não revelou nada de extraordinário.". "Então mas não me pode dizer o que deu o exame?". "Poder, poder, posso! Mas não era a mesma coisa!". Claro que esta última frase é imaginada mas é, muitas vezes a resposta que me apetecia dar!

Porque a maioria das pessoas dá demasiada importância aos exames, como se eles por si sós fossem capazes de resolver todo os males que se abateram sobre eles. O mesmo se passa com o diagnóstico. As pessoas encontram conforto no facto de haver um diagnóstico estabelecido, se é uma pneumonia, um AVC, uma pielonefrite, uma diabetes. Um diagnóstico do tipo "síndrome febril de causas desconhecidas" simplesmente não é aceitável. Presumo que tenha alguma coisa a ver com uma falsa sensação de controlo sobre a situação. A segurança que traz o saber o que se passa, o que despoletou a situação, o curso que seguirá o tratamento e o resultado final. Mas a medicina não é uma ciência exacta porque lida com Humanos e isso diz tudo.
Mas tudo isto para dizer apenas isto: de que vale ao doente que tenhamos determinado o diagnóstico correcto, que os exames sejam determinantes e conclusivos, que as análises estejam todas dentro dos parâmetros normais se o doente se encontra confinado à cama, a contorcerem-se com dor, completamente desorientados, imobilizados e deitados sobre a sua própria merda fétida?
Nada.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Paranóias Suburbanas.

Eu moro nos subúrbios. Na verdade, nos subúrbios dos subúrbios. É um aglomerado de vivendinhas geminadas, todas muito parecidas por fora e por dentro, mais ou menos com as mesmas áreas. Visto através do Google Earth, o sítio onde moro é uma espécie de folha quadriculada. As casas podem ter ou não uma garagem. Sendo que as áreas exteriores não são as maiores, o conceito "jardim e garagem" não se aplica! Quem tem garagem fica com um "jardim" com cerca de 1 m2! Nós abdicámos da garagem e temos um jardim(zeco) que até é bastante agradável!
A população que vive neste tipo de urbanização é, normalmente, daquela "classe-média" que já não existe, a classe que acaba sempre por sentir e suportar as "crises". Famílias jovens com filhos pequenos que, não tendo capacidade financeira para viver em zonas mais nobres, mais perto do trabalho, optam por se afastar para locais onde as casas são mais baratas. E o que se passa com esta malta? A maioria tem uma fixação quase patológica com "cozinhas rústicas".
As garagens de que falei antes não são suficientemente grandes para que lá caiba um carro. Melhor, o carro cabe mas depois teríamos que dormir lá dentro porque não seríamos capazes de abrir as portas!! Ou seja, quem compra as casas com a "garagem" o faz por duas razões: ou precisa de uma grande arrecadação ou vai ali instalar uma "cozinha rústica". E o que é uma "cozinha rústica"? Bom, é um sítio que as pessoas decoram com muito mau-gosto antes de mais! As paredes são forradas com cerâmica que imita a pedra ou o barro, colocam-se uns potes de ferro comprados na feira mensal de Azeitão (no primeiro domingo de cada mês!), um forno a lenha de tijolo e uma churrasqueira e decoram-se as paredes com passarinhos de barro a voar aos pares, imagens da região de onde é proveniente o orgulhoso proprietário e, nunca falta, uma TV!
Há muito que tento desconstruir este conceito de "cozinha rústica" que defino como... parvo. Qual a sua finalidade? Não sei. Sendo uma cozinha onde se confecciona a comida, porque é que a única coisa que eu vejo fazer numa "cozinha rústica" é a carne grelhada, enquanto que tudo o resto vem da normalíssima cozinha da casa? O forno de lenha é utilizado apenas uma vez, na inauguração, porque depois disso a mulher da casa não está para se chatear a amassar o pão e a alimentar o forno com lenha enquanto o orgulhoso proprietário da "cozinha rústica" está a ver o futebol na TV. E desde quando algo rústico compreende uma TV? Ultrapassa-me. Também me ultrapassa o facto de, no inverno, as pessoas estarem à lareira da sua "cozinha rústica", com uma mantinha nos joelhos a ver a novela da noite da TVI e, no final da noite, terem que atravessar o seu pequeno jardim para voltarem para dentro de casa. É coisa para lhes dar um resfriado. Além de que, para essas actividades existe uma nova invenção, uma coisa vanguardista é certo, chamada "sala de estar". Mas isso sou eu que sou modernaço!
Existe ainda uma outra corrente de pensamento acerca do conceito de "cozinha rústica". Aqueles que não compraram a garagem vão construindo a sua própria cozinha rústica, por partes. Assim tipo uma deformação da teoria da Gestalt onde o todo é sempre mais que a soma das partes. Iniciam com a instalação de um pequeno grelhador num canto do jardim. Depois, porque é chato estar a grelhar carne à torreira do sol ou à chuva, lá se constrói um telheiro e, já que estamos a construir, porque não um forno a lenha para o pãozinho e o borrego? Agora, já com paredes, fica mal este branco-morto, toca a colar as tais imitações de rocha ou tijolo-burro e compor o quadro com as imagens de barro das andorinhas e da serra da estrela e, nunca se sabe, um cão de loiça!!! Mas o que acabava mesmo em beleza esta bela obra era a marquise de alumínio lacado a branco. Assim se constrói, por etapas a bela "cozinha rústica" com vista para a faixa de relva com 0,5x2 m que sobreviveu à construção de tão marcante obra.
São estas as minhas divagações suburbanas.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Acho que estou a chocar uma esquizofrenia...

No hospital, diz o médico:
- O senhor é o dador de sangue?
- Não, eu sou o da dor de cabeça!
O que é que um tubarão diz para o outro?
-Tubaralhas-me
Como é que as enzimas se reproduzem?
- Fica uma enzima da outra.
Para que servem óculos verdes?
- Para verde perto.
Por que a mulher do Hulk se divorciou dele ?
- Porque ela queria um homem mais maduro.
O que é que um cromossoma fala pró outro?
- Cromossomos bonitos!

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Um Conto que Poderia Ser Real.

Ele era ansioso, histérico, hipocondríaco. Cismava que ia morrer a toda a hora porque o coração palpitava, porque sentia uma pontada no estômago, uma dor no flanco, uma dor de cabeça. Enfarte, AVC, trobose, apendicite. Se estava cansado ao final do dia logo se diagnosticava uma fibromialgia. Lia exaustivamente todas as bulas dos medicamentos até as decorar para testar os diversos médicos. Tinha vários porque gostava sempre de uma 2ª opinião. E, como era avisado, pedia também uma 3ª, uma 4ª e uma 5ª até que algum deles concordasse com o seu autodiagnóstico, pesquisado do Google ou na Wikipédia.
Comia tudo, de tudo e bebia. Por vezes mais do que a conta. A culpa consumia-o e temia morrer de um ataque fulminante de colesterol ou de diabetes ou de tensão alta. "O colesterol alto não é letal, ninguém morre de repente porque o colesterol está alto!" disse o médico. "Você está muito ansioso." Não o descansou "Ouvi dizer que se pode morrer de ansiedade..." respondeu e do médico só obteve um abanar de cabeça condescendente e uma receita passada enquanto pensava de si para si "Tu és é psiquiátrico... nunca mais acabam a merda das consultas..."
Tomava os ansiolíticos e os antidepressivos religiosamente, por vezes duplicava a dose porque sentia que o seu corpo estava a contrair uma nova doença a cada minuto. Cancro, flebite, arterosclerose, tuberculose, próstata, gota, anemia, insuficiência renal, disfunção eréctil. No trabalho comia sempre sozinho, numa arrecadação. Por um lado tinha medo de apanhar a tuberculose, dizem que está a voltar em força e que se apanha em locais com muita gente, mas por outro lado nunca ninguém se sentava com ele. Não percebia porquê.
Um rapaz do armazém encontrou o seu corpo numa arrecadação escondida. A face negra, o corpo pálido. Os bombeiros dizem que se engasgou com um bocado de pão integral.

Escrito noutro tempo, noutras andanças. Escrito no início desta aventura dos blogs.


terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Ginásio. Balneário. Homens. Músculos. Fio dental. Medo.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Pais Natais Suicidas*.

Quando se fala apenas na alegria e solidariedade trazida pelo Natal, quase ninguém aborda o lado negro desta quadra festiva. Falaremos hoje do drama vivido nesta época cheia de significado por aquele que é, talvez, o maior símbolo do Natal e o mais reconhecido pelas crianças do todo o Mundo. Falamos obviamente do Pai Natal.
Esta figura mítica é hoje a base de uma indústria que move milhões. O grande problema é que não há lugar para toda os profissionais. A Associação Portuguesa de Pais Natais Profissionais aponta o dedo ao Governo. Segundo Nicolau Neve, presidente da APPNP, "o governo não acautelou os direitos deste grupo profissional ao permitir o acesso ás funções de Pai Natal de profissionais não acreditados e com formação não adequada. Isso é particularmente ofensivo quando observamos a usurpação das nossas funções por Pais Natais temporários, biscateiros que julgam que basta colocar umas barbas postiças e gritar HO HO HO nos centros comerciais. De notar que os Pais Natais inscritos na APPNP, a única entidade acreditada para o acreditamento dos Pais Natais em Portugal exige, por exemplo que as barbas brancas sejam originais e não permite o uso de barbas postiças." Esta situação está a levar ao desespero os Pais Natais mais antigos nas funções uma vez que "os centros comerciais optam por serviços mais baratos destes profissionais não reconhecidos, não dando importância à qualidade dos serviços prestados" ainda segundo Nicolau Neve. Os profissionais no desemprego estão a perder qualidade de vida, sendo este facto particularmente visível no que diz respeito à saúde. A APPNP garante aos seus profissionais um seguro de saúde que permite a monitorização regular do estado clínico dos seus afiliados. Rudolfo Azevinho, Pai Natal no desemprego, afirma "esta barriga que aqui vêm é genuína. Nos 20 anos de exercício profissional nunca usei nenhuma almofada por baixo do fato vermelho. Mas isto é uma profissão de risco, de desgaste rápido pois esta barriga traz consequências: problemas de coluna e joelhos, colesterol e problemas gástricos".
Estas razões levam a que cada vez mais Pais Natais optem por acções radicais, entre as quais a mais popular é o suicídio. É cada vez mais comum observarmos Pais Natais pendurados nas janelas dos prédios, nas varandas e nas árvores. As posições dos seus corpos transparecem o desespero em que se encontram e aquela corda a que se agarram simboliza o fino fio de esperança a que ainda se agarram. Mas a vida continua, indiferente, ao apelo desta gente que clama por ajuda. As pessoas passam, olham e seguem o seu caminho tal a normalidade destas acções. A taxa dos que se soltam em direcção ao abismo é cada vez maior, os que se mantêm agarrados ao fio da esperança e da vida passam, muitas vezes, dias, semanas expostos à intempérie sempre abandonados, sempre sós, sempre desesperados.
Artigo do Jornal "Barbas Brancas"
*ou Haverá Coisa Mais Parva que Pendurar um Pai Natal Insuflável no Parapeito da Janela?

domingo, 13 de dezembro de 2009

A Noite, outra e outra vez.

São neste momento 7:40. Mais uma noite passada entre doentes e doenças, entre gemidos e silêncios. Porque são os silêncios que, por vezes mais me preocupam...
Tudo bem, nenhuma baixa, mais uma que passou. Mas juro, juro que com a noite, o corredor estreita e alonga, as sombras ganham vida e os sons têm outro significado. Definitivamente trabalhar "nesta noite" e não na outra, a da música e das luzes, é um mundo paralelo. Após tantos anos "nesta noite" e nem tanto na outra, já devia estar habituado mas o certo é que não estou. Bolas.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Mundo Irreal.

Preparo-me para a espera, a ansiedade, o desespero. Compro a Visão dessa semana e levo um livro, não vá a revista não ser suficiente. No dia anterior ensaio uns mantras para me acalmar. Mas não é! Assim que avisto o edifício mando uns berros e uns impropérios vernaculares hardcore, no abrigo da insonorização do automóvel e com a música bem alta. Assim, quando tiro a minha senha para o Atendimento Geral da Segurança Social limito-me a respirar fundo quando me apercebo que estão apenas 187 pessoas à minha espera. São 8:30.

A Segurança Social é um mundo paralelo, um universo à parte separado do mundo real por portas de vidro. Cada vez que lá vou lembro-me do Banco de Gringotts, do universo Harry Potter, que é gerido por uns duendes de aspecto horroroso e pouco simpático, cuja missão é dificultar ao máximo o acesso de estranhos ao banco. Não quer dizer que os duendes da Seg. Social sejam feios (muito embora o sejam na maioria dos casos) mas simpatia é algo que deve ter ficado à porta daquele mundo muito particular. E julgo perceber que a táctica utilizada para nos manter fora daquele mundinho só deles deve ser "fazê-los esperar até à exaustão!". Sim, porque quatro ou mais horas de espera é desesperante!!!

Mas, enfim, tento aproveitar esse tempo da melhor maneira. Ler e observar! Gosto particularmente de observar os funcionários dos postos de atendimento ao público. Gosto de tentar perceber os seus padrões de comportamento e imaginar que tipo de conversas mantêm com o público. Por exemplo, no posto de atendimento nº 7 está o duende-fóssil. Aquele que já trabalha naquele posto desde 1980 e cuja mente está formatada para reencaminhar todos os utentes que à frente dele se sentarem para uma qualquer repartição, independentemente da questão que lhe colocam e da repartição! "Preencha o formulário 37822/C-1001A e dirija-se à Repartição para os Assuntos que Agora Não Me Dá Jeito Nenhum Resolver. PRÓXIMO!!!". E é ver as pessoas, que nem tiveram tempo para se sentar, a abandonarem o edifício com o olhar vazio de quem foi colocado perante um enigma do Dan Brown sem, no entanto terem as competências de Robert Langdon.

Ali, no posto de atendimento nº25 está a duende-histérica. Esta duenda é uma mulher nos seus cinquenta-e-picos-com-a-mania-que-se-mantém-boa-como-quando-tinha-trinta. Baixinha, cabelo branco-oxigenado, grita histericamente com todos os que se sentam à sua frente. "MAS QUEM É QUE LHE DISSE QUE TINHA DIREITO A SUBSÍDIO??! NÃO TEM NADA PORQUE NÃO PREENCHEU O MODELO 58894030-FGSJE! E NÃO ME DIGA QUE NÃO SABIA PORQUE ISSO FOI PUBLICADO EM DEC-LEI! FOI UM COLEGA MEU? ELE DEVE É SER PARVO!" Detenho-me mais tempo nesta personagem porque é a que proporciona momentos mais divertidos! As pessoas ou devolvem-lhe os berros ou saem a chorar. A primeira situação é a mais gira porque implica bate-bocas que dão textos e inspiração imperdíveis!!!

Depois, no atendimento nº 3, temos a duenda-giraça! A duenda-histérica detesta a duenda-giraça e deseja secretamente a sua morte lenta e agonizante. A duenda-giraça é uma vistosa mulher vinte-e-muitos-trinta-e-poucos extremamente atenciosa mas que, lamentavelmente, não percebe nada dos meandros burocráticos da Seg. Social e está, constantemente a chamar a duenda-chefa-da-repartição. Esta, uma mulher com 1,50m mas cuja permanente capilar dá a sensação de medir uns bons 1,80m e que usa saltos de 15 cm, aparece apressada e com alguns papéis na mão, óculos pendurados ao volumoso peito com uma pesada corrente de um metal amarelo, os dedos das mãos repletos de anéis simples ou incrustados com coloridas pedras, como se a autoridade fosse atribuída pela quantidade de ornamentos que cada um tem a capacidade de ostentar. Chega apressada, dirige um olhar reprovador à duenda-giraça (nenhuma das duendas menos novas gosta dela, ao contrário dos duendes, novos ou velhos) enquanto se apressa a resolver o problema que lhe foi colocado com um "Não tem direito!".

E, depois deste exercício de aquecimento, vou ali à Seg. Social esclarecer uma dúvida que não consegui resolver através da internet... só espero ser chamado pela duenda-giraça! Não me resolve nada, mas sempre tenho a oportunidade de falar com a gerente!

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Estejam atentos quando andarem nos corredores de algum hospital...

Mas haverá melhor tema para regressar aos textos dignos desse nome, em vez de posts sobre os abdominais do CR7/9 e listas de Natal megalómanas, do que... cadáveres? Não. Um cadáver é uma pessoa, amemos o cadáver. Eu já vi, já mexi e já empacotei a minha dose de cadáveres. Uns com mais vontade outros com menos, uns com pesar e outros com uma estranha leveza, o que me levou a reflectir sobre o psicopata assassino que pode morar nas entranhas da minha mente. Mas nunca com indiferença. De todos os cadáveres com que já tive o prazer de privar (cá está a tal leveza...) houve dois particularmente marcantes: o primeiro, por razões óbvias e um com quem me cruzei nas Urgências de um hospital central da zona de Lisboa. Corria o ano de 2005...
Encontrava-me no Balcão de Mulheres, como sempre o mais movimentado ou não fossem as mulheres as nossas principais e mais fieis clientes, e os bombeiros trazem-me uma senhora deitada numa maca. Magra, nariz afilado e cabelo negro, apresentava-se pálida mas consciente. Não me lembro do nome mas trocámos algumas palavras. Tosse, febre, falta de forças em Novembro ou Dezembro logo me remeteram para algum tipo de infecção pulmonar. O médico enviou-a para o Rx. O tempo passou, os doentes também até que uma senhora me abordou: "Sr. Enfermeiro, a minha mãe não se está a sentir bem..."
"Desculpe?"
"A minha mãe, mandou-a fazer um Rx mas ela ainda não foi vista e não está a sentir-se nada bem."
"Mas... o que se passa?"
"Bom, ela simplesmente deixou de falar comigo..."
Acompanhei a senhora até ao corredor onde os pacientes esperam pela chamada para os exames e, assim que virei a esquina percebi o problema da doente. Um pálido translúcido, os lábios escuros, o olhar vazio, por mais que descreva um cadáver não é possível transmitir aquele aspecto... bom, aquele aspecto morto! No corredor, com dezenas de pessoas a circular, doentes e profissionais! Claro que não podia revelar o meu diagnóstico ali, no meio de tanta gente...
"Dª Fulana? Ó Dª Fulana, sente-se bem?.... Pois, não reage.... aguarde aqui que vou leva-la já para dentro! Vamos fazer um tratamento Dª Fulana!!" E, calmamente, empurrei o cadáver para a sala de reanimação, liguei-a ao monitor para observar aquela linha plana e continua que é, tão dramaticamente usada nos filmes e séries para marcar a morte do artista, e chamei o médico.
"O qu'é q'foi pá?"
"Doctor! A mulher foi-se."
"'Atão s'tá morta p'ra qu'é q'me chamas??" E retirou-se tão depressa como chegara. O cadáver ficou-me "nos bracinhos". E ali fiquei, a fazer tempo. Não podia sair logo e transmitir a notícia à filha, ela aperceber-se-ia de que pouco ou nada tinha sido feito e por isso, ali fiquei. Aproveitei aquele tempo morto (piada fácil, eu sei) para adiantar trabalho e fazer a verificação das máquinas e para repor material. Depois chamei o médico para que ele certificasse o óbito e transmitisse a notícia à família. E não, não me envergonho de ter passado a "batata quente"!
E pronto, mais uma história real do país real onde, por vezes as pessoas morrem nos corredores de hospitais enquanto esperam por exames. A sorte ainda vai sendo o facto de andarem por aí uns carolas enfermeiros!