Que a comida (o "cumer" como se diz na minha terra natal) ocupe um lugar central na vida dos portugueses, tudo bem. Que os portugueses consigam centrar toda uma celebração em torno de uma mesa farta, também tudo bem. Que os portugueses acordem a pensar no almoço e discutam acerca de qual a ementa do jantar durante esse mesmo almoço, menos mal. Que os portugueses vão de férias com a cozinha às costas e que passem essas mesmas férias a cozinhar, nada a opor. Que a expressão "Come-se muito bem nesse restaurante." signifique realmente "As travessas estão a transbordar comida em quantidades que ninguém normal é capaz de deglutir." e que "Fui a um casamento em que fomos muito mal servidos." queira dizer "Só havia dois pratos, um de carne e um de peixe, para além das entradas, enchidos, carnes frias, sopa e sobremesas.", ok. Mas, o que não me entra é que se façam quilómetros só para se comer num determinado restaurante! A sério, a ideia de me deslocar a um determinado sítio tendo como único móbil um determinado restaurante soa-me ridícula. É como dizer "Olha, vou a Paris almoçar num restaurantezinho onde servem uns "escargots" divinais e muito bem servidos. Diz que fica ali ao lado de um mamarracho de metal gigante, uma torre qualquer, mas diz que aquilo é grande, mesmo junto ao rio. O restaurante é mesmo ao lado, não tem nada que saber!". Mas, ò ignorância a minha... "escargots"? Ainda se fossem uns caracóis do Barbas... Nada disso, o portuga não se desloca a um qualquer restaurantezeco da moda que sirva um prato diferente, uma iguaria ou algo exótico. Vegetariano? Chinês? Indiano? Era só o que faltava! Nada disso, tem que ser um restaurante que sirva carrrrrne sangrante e em doses industriais. Cozido, ensopado, na chapa, na tábua, na pedra. Tudo bem servido e, claro, bem regado!
Nas minhas últimas férias conheci duas famílias. E, garanto-vos, que o tema principal das conversas não fugia muito dos tópicos: comida, restaurantes, roteiros gastronómicos, o inqualificavelmente magnífico naco na pedra mirandês, os secretos de porco preto divinais daquele restaurante em Estremoz, o leitão da bairrada que, afinal, é ainda melhor ali prós lados de Lamego, os queijinhos, o presunto, as azeitonas. Quando souberam que eu já conhecia Évora a primeira coisa que perguntaram foi: "E um sítio bom para comer?". Não há pachorra.
Não é que eu não goste de comer e beber, bem e muito. O que me intriga é o facto de esse ser o principal motivo de uma viagem, o tema central de um programa. Porque, em não tendo referências gastronómicas na zona escolhemos o restaurante ou a ementa que nos parecer melhor e comemos. Porque comida é comida e, em último caso, come-se qualquer coisa em qualquer sítio.

