Jurei a mim mesmo que não voltaria a este assunto. Mas caramba, assisto a discussões noutros blogs, nas caixas de comentários e continua a haver imbecis (assim mesmo, imbecis!) a lançar ataques e veneno mas, pior de tudo, a continuar o discurso de "se fosse eu...". Não vou aqui tentar justificar a minha (nossa) decisão, não vou aqui inciar o debate. Nem sequer publicarei qualquer comentário ofensivo. O que tenho a dizer é isto, e só isto: de todos (e foram muitos!) os comentários ofensivos, moralistas, paternalistas, especuladores, baixos, desonestos, intransigentes, canalhas que têm parado nesta e na outra caixa de comentários, todos de "protectores-de-animais-amo-os-bichinhos-mais-que-tudo" não houve UM, UMZINHO SEQUER que se tenha prontificado a ajudar efectivamente o desgraçado do cão e a resgatá-lo das garras desta família de facínoras abandonadores de cães desprotegidos.
E é assim. Conheço montes de gente desta que apregoa "quanto mais conheço as pessoas mais gosto dos animais", de voluntários dos canis e gatis desse Portugal. Gente que, embora goste de animais, não tem a racionalidade suficiente para perceber quando é melhor para esse animal seguir um rumo diferente. Conheço-as porque, nos últimos anos recebi cães e gatos na minha casa, alimentei-os, cuidei deles, arranjei os estragos que fizeram no meu sótão, limpei a merda e a urina que fizeram no meu soalho. Animais abandonados, maltratados, esfomeados. E ouvi montes de histórias de pessoas malvadas que não quiseram ficar com o bichinho e que, vendo bem as coisas, não tinham a mínima hipótese de os mantes. Gente que tem 7, 8, 10 cães ou gatos em casa. Gente que, sob a capa do altruísmo, é de um egoísmo atroz porque se aproveitam dos bichinhos para despejar as suas frustrações emocionais. Gente que não sabe amar e que finge amar os gatinhos e os cãezinhos. A mesma gente que, tendo os contactos para me poder ajudar, a mesma gente que recorreu a mim para dar guarida a este e áquele cão ou gato, a gente que teve a minha ajuda incondicional, foi a mesma gente que me condenou e fechou a porta no momento em que lhes pedi ajuda. E senti o mesmo que a I. tão bem explica neste texto (obrigado a ela pelo apoio, mesmo que me cheire que ela não deve ser fã da nossa decisão mas tem a decência de não condenar!), aquele sentimento de que somos uns sacanas sem-moral. Já tive um outro cão, chama-se Kenai, um enorme Serra-da-Estrela que cresceu e se tornou agressivo para o meu filho. Que fazer? Abandonar e viver com a consciência pesada? Colocar num canil, um cão que só socializava comigo? Abater? Pois hoje o Kenai está com uma família que tem muito mais espaço que eu, muito mais disponibilidade que eu. Um novo dono que o escova todos os dias, que conversa com ele, que brinca com ele. A última vez que fui visitar essa família, o Kenai não se aproximou de mim. Preferiu deitar-se aos pés do seu novo dono, numa posição de afecto e protecção. E eu estou muito feliz por ele.
Porque, por vezes, demasiadas vezes, o Amor, o verdadeiro Amor exige sacrifícios pessoais para que aquele que amamos possa ser feliz. E quem não percebe isto não sabe Amar. Nem as pessoas e muito menos os animais.