quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Cadilhos.

Malditos pesadelos, os sonhos maus que chegam todas as noites. Ontem mesmo ele perguntava-me:
-Tu és corajoso pai?
-Porque perguntas?
-Eu não sou corajoso.... Pai, também tinhas sonhos maus quando eras pequenino?
-Sim, filho. Mas os sonhos não existem! Não te podem fazer mal. Tu tens sonhos maus?
-Sempre. Eu não me sei defender... A avó ensinou-te a defender dos sonhos maus?
-Sim filhote, a avó estava sempre comigo, como eu e a mamã estamos sempre contigo! A proteger-te dos sonhos maus!

E ele abraçou-me e eu desejei ficar com ele nos meus braços até que ele supere este medo. E fiquei completamente desarmado com aquele apelo, aquele pedido de ajuda! E aqui aparece a verdadeira dificuldade de criar um filho: o equilíbrio. Será que estou a fazer o suficiente, o adequado? Ou estou a fazer de menos? Estou a dar demasiada importância a estas coisas? O que será que ele sente? O certo é que o meu filho está a crescer rapidamente. Principalmente no campo emocional e social. E ele conta comigo para ser a sua rocha, o seu porto seguro! Reconhecemos montes de atitudes que revelam um determinado traço de personalidade mas, o que será personalidade e o que será uma chamada de atenção? Quais as atitudes que devemos analisar como uma chamada, aquelas que têm uma causa subjacente? Que montanha-russa de emoções!

Algumas (muitas!) pessoas ficam ofendidas quando lhes sugerem que talvez não fosse mau levarem o seu filho a um psicólogo. Eu gostava de ir ao psicólogo para aprender a lidar melhor com o meu filho, para aprender as técnicas que ajudam a lidar com as frustrações dele e, acima disso, como evitar que as minhas frustrações prejudiquem o seu desenvolvimento. Gostava que ele falasse com alguém isento e profissional, alguém que me ajudasse a interpretar melhor o meu filho. Porque o amor incondicional quase nunca chega para resolver os problemas, sendo esse amor por vezes o maior obstáculo que os pais enfrentam quando se trata de compreender e ajudar os seus filhotes. Cada vez mais acho que isto de ser Pai é muito mais difícil do que o que parece. E ninguém nos ensina isto! Devia existir uma Academia de Pais onde fosse possível aprender mais e melhor sobre esta coisa da Paternidade, onde profissionais da mais diversas áreas ligadas à puericultura nos conduzissem pelos meandros da educação de crianças e jovens, nos dessem ferramentas para eliminar as zonas cinzentas das nossas relações com os nossos filhos, que nos avisassem das nossas limitação enquanto pais.

Agora percebo bem o velho provérbio: "Quem tem filhos tem cadilhos"...
O Gabriel está bem! Este texto não reflecte qualquer tipo de problema existente e é apenas uma reflexão acerca das minhas dúvidas, anseios e incapacidade enquanto pai.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

O Cuquedo.

"O Cuquedo" é uma história infantil que li imeeensas vezes com o Gabriel há uns meses atrás. Trata da agitação da selva com a chegada do Cuquedo. Uma narrativa simples e repetitiva mas muito divertida que o Gabriel rapidamente memorizou. É mais ou menos isto...
"Andava uma manada de elefantes de cá para lá e da lá para cá quando apareceu uma zebra e diz: ALTO LÁ! O que anda uma manada de elefantes a fazer de cá para lá e de lá para cá?!?"
"AI TU NÃO SABES?!! (respondem os elefantes) Anda aí o cuquedo, um animal muito assustador que prega sustos a quem estiver parado no mesmo lugar!" A zebra junta-se ao grupo e...
" Andava uma manada de elefantes e de zebras de cá para lá e de lá para cá quando aparece uma girafa e diz: ALTO LÁ! O que anda uma manada de elefantes e de zebras a fazer de cá para lá e de lá para cá?!?
"AI TU NÃO SABES?!? (respondem os elefantes e as zebras) Anda aí o cuquedo, um animal muito assustador que prega sustos a quem estiver parado no mesmo lugar!" A girafa junta-se ao grupo e...
"Andava uma manada de elefantes, zebras e girafas de cá para lá e de lá para cá quando aparece um rinoceronte e diz: ALTO LÁ!...
Resumindo, os rinocerontes juntam-se aos elefantes, às zebras, às girafas e ainda aparecem os hipopótamos e outros animais até, às páginas tantas, já toda a selva anda de cá para lá e de lá para cá quando aparece finalmente o Cuquedo que, afinal, nenhum animal conhecia! Como termina a história? Eheheheh, leiam o livro! E é impressionante como uma historieta infantil pode retratar tão bem a atitude da sociedade portuguesa face à tão falada Crise...
Da mesma forma que o Cuquedo causa o terror na selva, também a Crise causa o terror no país! País esse que é, afinal, uma selva e onde nós, portugueses, não passamos de uns animais que andam de cá para lá e de lá para cá (feitos parvos, diga-se!) como se isso resolvesse algum problema! Também a maneira viral como o terror do Cuquedo se espalha pela selva, de boca em boca, de animal para animal, onde o grupo maior arrasta consigo os grupos mais pequenos pode ser lido como uma analogia àquilo que se passa em Portugal! Cá, como na selva, o terror da Crise está a tomar conta das pessoas de uma forma irracional. Os relatos desanimadores e catastróficos dominantes estão a alastrar rapidamente e a arrastar consigo toda a gente! Na verdade, a Crise como o Cuquedo, é um monstro que a maioria dos Portugueses não conhece. Ouviu falar mas não conhece! E então, quando alguém, nos cafés, nos trabalhos, nas salas de espera dos hospitais, no talho pergunta "Afinal o que é a crise?" logo todos se apressam a dizer "AI TU NÃO SABES?!?! A Crise é um animal muito assustador..."
E assim, cá andamos todos em manada, feito parvinhos de cá para lá e de lá para cá à espera que a Crise seja como o Cuquedo, que só prega sustos a quem estiver parado no mesmo lugar.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Trabalho invisível.

O trabalho dos enfermeiros nem sempre é reconhecido. Muitas vezes porque é trabalho que não se vê, que se prolonga no tempo, que se faz nos bastidores digamos. Comigo passou-se uma situação, já há alguns anos, que confesso me deixou bastante desagradado. Não é que queira que me agradeçam pelo meu trabalho mas...
Trabalhava na Urgência e aquilo estava caótico. Normal, portanto! Entre um doente e outro fui abordado por um senhor que barafustava que tinha o pai à espera há mais de quatro horas, isto depois de ter feito uma série de exames. Problema: a ficha do doente tinha-se evaporado, juntamente com os exames do senhor! Falei com o filho e reconstituí o percurso do doente dentro do hospital e fui à procura. Encontrei a ficha e os exames enfiados numa gaveta de uma secretária de um cirurgião conhecido, de resto por "perder" as fichas dos doentes. Perdi cerca de 30 min com esta procura e, no final, falei com o médico com quem trabalhava naquele turno e pedi-lhe para resolver a situação. Informei o filho que o problema estava resolvido. O médico chamou o doente e deu-lhe alta. Estava tudo bem. No final, pai e filho derreteram-se em agradecimentos ao médico: "Ai Sr. Dr. se não fosse o senhor ainda estávamos à espera!". Admito que me senti bastante desconsiderado porque todo o trabalho foi meu e, se não fosse por esse trabalho, essa meia-hora que tirei aos outros doentes para fazer um trabalho que até nem era meu, mas que eu sabia que mais ninguém faria, esse doente ainda hoje lá estaria à espera!! Mas, no final, quem é que falou com o doente? Quem é que lhe disse "Vá embora descansado, as melhoras!"? Pois, não fui eu...
Óbvio que eu não estou à espera que me agradeçam pelo meu trabalho, que é pago. Mas este caso em particular ficou-me "entalado" na garganta pelo simples facto de o doente e o seu familiar nem sequer me terem dirigido a palavra na hora da despedida. Um simples "bom dia" e um sorriso teria sido o suficiente. Lembrei-me deste episódio agora mesmo, depois de uma doente me ter insultado porque estava à espera (e nem sequer há muito tempo!) e de nem sequer me ter dirigido a palavra à saída, depois de ter sido convenientemente tratada.
Parece que um texto que se iniciou debruçando-se sobre a invisibilidade do nosso trabalho se tornou numa reflexão sobre a falta de consideração de alguns (muitos, demasiados) doentes.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Em jeito de desabafo...

Hoje uma conhecida disse-me que tinha um "feeling" que eu não iria sair de Portugal. Nada de novo. Tivesse eu um euro por cada pessoa que me diz que não acredita, só acredita quando vir, que isto é conversa para aliviar o stress, etc, etc, etc. A maioria destas pessoas, quero acreditar, não o diz por mal, não para agoirar ou com má intenção. Aliás, as pessoas que sabem deste projecto são pessoas que trabalham comigo e que, no final da conversa me dizem meigamente que lhes vai custar deixar de trabalhar comigo. E isso acaba por ser bom! Mas voltando aos "feelings", o que me parece é que tudo isto lhes parece demasiado grande, demasiado trabalhoso e, acima de tudo, demasiado arriscado para se fazer. Afinal, eu até tenho um emprego certinho do Estado. Ao menos esses não falham, está lá o dinheirinho no 21 de cada mês, não serei despedido porque sou efectivo. É só vantagens porque raio vais agora lá pró frio, para a neve, ainda por cima para um país sem graça nenhuma? Nãããã! Isso és tu a aliviar o stress!
Calculo, admito que esta tarefa lhes pareça demasiado hercúlea para levar a cabo sem ajuda. Caramba, a mim aperta-me o peito só de pensar em toda a logística que teremos de enfrentar na altura da mudança, na hipótese (enormíssima!) de não conseguir vender a minha casa e ficar com uma renda importante em Portugal, em como encaixar o timing entre o fim do meu contrato cá e o início lá, o tempo que terei na procura (que se prevê difícil!) de uma casa lá, enviar os nossos pertences (poucos) para essa nova casa, na escolha das escolas para os miúdos e depois, bem depois é um país novo, uma língua que domino mas que não é a minha, uma experiência profissional completamente nova num ambiente que não se prevê muito acolhedor e todo o stress emocional que vai concerteza abater-se sobre toda a família! Por isso agradeço imenso que não me digam que têm um feeling que fico cá, que ainda mudo de ideias, que isto são desabafos de um jovem que gostaria de melhorar a vida mas que, enfim, a vida é assim e em Portugal, ao menos o café é bom e barato e a praia é de graça. A sério. Isso não me demove mas faz-me sofrer um pouco. Eu sei que é um enoooorme passo, eu sei que é arriscado, eu sei que as coisas podem correr mal por isso não precisam de mo relembrar.
Sejam hipócritas que não me importo. Mesmo que achem que me vou estatelar ao comprido um simples "Vai tudo correr bem." é suficiente. Ou então, não digam nada.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Monstros debaixo da cama.

Pesadelos. O Gabriel anda com pesadelos, normal de resto para uma criança com três anos. E, noite após noite, ele acaba por "saltar" para o meio de nós, de madrugada dizendo, muito naturalmente "Tenho monstros nos meus sonhos, aparecem nos meus olhinhos..." e enroscando-se na segurança que dá ter a mãe de um lado e o pai do outro! E surpreende-me a naturalidade com que ele fala dos seus sonhos, como se fossem reais, mas sabendo ao mesmo tempo que a acção decorre "nos seus olhos" como que se ocorressem numa dimensão paralela.
Ontem a história de adormecer foi "Os Músicos de Bremen", aparentemente inofensiva. Mas a dada altura da história os animais afugentam os ladrões aproveitando o escuro da noite, convencendo-os que se tratam de bruxas, monstros e dragões que assombram aquela casa. No final ele pergunta:
-Pai? O gato e o cão são monstros?
-Não filhote! O ladrão pensou que eles eram monstros porque estava escuro e ele não os viu?
-Eles não são monstros?
-Não filho, são só um cão, um gato, um burro e um galo muito espertos!
-Mas os desenhos são assustadores...
Ele olhou para mim por um instante, não muito convencido com a minha argumentação, mas agarrou nos seus companheiros de sono (dois cães de peluche, o Quico e o Cão!), deu-me um beijo de boa noite e deitou-se, depois de apagar a luz! Senti-me orgulhoso dele porque, mesmo depois daquela história assustadora ele não teve medo de dormir no seu quarto, com a luz apagada! É um valente o meu "mais velho"! Mas cerca das 5 da manhã: "Pai... há monstros no meu quarto..."

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

A culpa é dos queridos que mudam a casa!

Malditos queridos! Aquilo é um tremenda duma publicidade enganosa! "Ai q'horror, que decoração horrível e tremenda falta de gosto! Ai que detesto o lambrim do corredor e aquele vidro fosco tão anos oitenta!" E lá vem uma tia que sabe conjugar umas cores e muda aquilo tudo para uma divisão de catálogo de revista de decoração de interiores! E depois vêm os malucos das obras e fazem aquilo parecer fácil e barato e ao alcance de qualquer um! BAH!
E depois, que ideia é aquela de remodelarem UMA divisão? Se essa divisão está feia, imaginamos o resto da casa! Vou então jantar à novíssima sala de decoração neo-classico-moderna dos queridos e apetece-me, digamos, cagar. Saio da sala e... entro numa outra dimensão infernal onde o corredor tem azulejos azuis-e-brancos até meio da parede e o WC tem as porcelanas verde-couve! "AHHHHHHHHHHH", grito e saio a correr. Não dá. E outra coisa. Se alguém, um qualquer habitante de uma qualquer casa não consegue manter organizada uma divisão normalíssima imagino o que (não) farão com uma sala/quarto/cozinha tão "capa de revista". Giro, giro seria um programa "Um mês depois do Querido!" Mas o pior, o piorzinho desse programa é a vontade que causa em nós de mudar a nossa vulgaríssima casa. A capacidade que eles têm de nos fazer pensar que moramos numa espelunca desorganizada e sem graça nenhuma. E, ainda pior, de nos fazer acreditar que somos capazes de fazer o mesmo que eles. Não somos.
Assim, imbuído do espírito "Querido Mudei a Casa" lá fui eu envernizar o telheiro de madeira do jardim e pintar o portão da entrada. O envernizamento correu bem, até porque foi a Mariana que tratou disso. Eu limitei-me a pintar as tábuas a direito e ao final da primeira já estava a ter alucinações após snifar um bocado do "Bondex" de carvalho. Quanto ao portão... fui comprar tinta e pincéis e fiz-me ao trabalho! Trincha e rolo em punho e, pimba, ao final da manhã tinha o trabalho quase pronto. Olho para a minha obra-prima e, que raios!, tenho o portão de um branco-alvo pintado cravejado de pequenos insectos pretos colados na tinta fresca! Os c****ões dos insectos debatem-se para se soltar da armadilha e dão-me cabo do trabalho. Por cada um que tiro tenho que retocar a pintura e logo outro se enfia na tinta. Cabrões dos mosquitos! Isto não aparece nos queridos, que os insectos atacam a tinta fresca como se fosse um monte de merda fresquinho! Disso não falam eles! E depois, trabalho acabado mas cravejado de insectos negros que parecem reproduzirem-se na própria tinta, vai de lavar os pincéis, trinchas, rolo. Aparentemente existem vários tipos de tinta. A tinta das paredes sai facilmente com água. Descobri da pior maneira que a tinta dos metais não. Então, logo a água e tento lavar os objectos, nada acontece. Para ajudar aperto o rolo com as mãos e, pior um pouco, fico com as mãos brancas de tinta que não sai com água! Pareço estar a usar luvas de cerimónia brancas. De repente lembro-me: diluente! Vou buscar a lata que está na dispensa (pinto-a de branco com as minhas mãos entretanto) e vai de despejar aquilo nas unhas. Nada acontece a não ser uma breve visão de um elefante rosa a passar na rua. Talvez tenha inalado um pouco de diluente a mais... Fica tudo branco, cada vez mais branco, as mãos brancas, os braços salpicados de manchas brancas. E aquilo não sai por nada! MAS PORQUE É QUE OS QUERIDOS NÃO AVISAM AS PESSOAS QUE HÁ VÁRIOS TIPOS DE DILUENTE?? Aparentemente, para limpar tinta sintética é necessário um diluente sintético. Lógico? O ca******lho!
Tenho a impressão que o portão vai ficar só com uma demão...

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Adoro este programa (provavelmente pelas razões erradas!)

Hoje tive a oportunidade de, finalmente, ver um pouco do programa Biggest Loser. E foi engraçado! Apesar de ter as minhas dúvidas acerca das motivações dos concorrentes, uma vez que a única maneira de mexerem aqueles gigantescos rabos e fazerem dieta são 250 mil notas de dólar. Se o (mau) estilo de vida que levavam antes estava perfeitamente identificado e todos eles têm a perfeita noção do seu problema (caso contrário nunca teriam concorrido ao programa!) e se, mesmo assim continuavam a emborcar massas com queijo e donuts recheados como se fossem paquidermes porque não procuraram ajuda antes? A Mariana diz que eu sou um porco insensível e que a razão de eles quererem entrar no concurso é o facto de estarem acompanhados. Seja.
E então lá estavam eles, arrastando-se na passadeira ao final de 30 segundos, a destilar água que daria para encher uma pequena piscina, a chorar ao final de 5 minutos de exercício de aquecimento, a vomitar, a desmaiar, a querer desistir. E até aqui tudo bem! Se eu não sou grande fã de reality shows pela simples razão que eles se baseiam normalmente na incompetência dos seus participantes, na sua desgraça, nos seus podres, este pelo menos é honesto e tem uma mensagem simples e verdadeira: queres perder peso meu paquidérmico amigo? Só tens um caminho a seguir: o da abnegação! Aqui se vê que, com o empenho necessário a todos os grandes desafios, é possível perder 20, 30, 40 kg e que não há fórmulas milagrosas. É simples: malhar o corpinho e fechar a boquinha! E nisso, este programa não engana ninguém. Acreditem, eu vi no mesmo dia o fim de uma temporada e o início de outra e muito sinceramente não queria acreditar! Malta com mais de 130 kg a descer para os 80?! Isso é de louvar e de premiar. E aqui está outra razão de peso (piadinha eheheh) para ver este programa: na verdade todos os concorrentes ganham! Perdem peso de uma forma dura mas saudável! Que eles consigam manter esse estilo de vida, isso é outra história...
Mas para mim, a verdadeira razão que me prendeu ao aparelho foi outra. Se um dos instrutores é um "pãozinho sem sal", um fulaninho em forma mas com um arzinho perfeitamente... inócuo, já a instrutora...! Jilian é enérgica, berra com os gordos, faz ameaças físicas, faz pressão psicológica, agride-os verbalmente, expõem as suas fragilidades e confronta-os com elas! Ela tem uma voz rouca que fica ainda mais rouca quando berra! Ela sobe para cima dos concorrentes, para cima das máquinas, ela sua com eles! Fez-me lembrar quando fiz a minha recruta, quando havia sempre alguém a berrar-me aos ouvidos, a gritar-me para correr, para saltar, para rastejar! E eu emagreci bastante durante um mês de recruta! A diferença é que nenhum dos meus instrutores tinha esta aparência...

E isso é que foi uma pena.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Ora aí está coisa para exigir um manual de instruções!

Quando a minha mulher me pediu para "comprar um shampoo" parecia ser tarefa fácil! Era isso ou ir para a fila do fiambre e do queijo. Mas enfim, shampoo é coisa fácil. Pensava eu...
Eis que chego ao local dos shampoos do Continente (malditos!) e descubro que, afinal não existem ali só shampoo. Há gel duche, acondicionador, máscara, desembaraçador. Máscara? Para cabelos? Ora aí está um conceito que gostava que alguém do sexo feminino me explicasse! Máscara... sinceramente. Então deparo-me com uma infinita prateleira de shampoos com uma variedade de cores absolutamente psicadélica que, juro que comecei a ouvir os Greatful Dead e a ver borboletas gigantes a voar na minha direcção! Qual escolher? Receei ter de os cheirar a todos pois temia ter ali mesmo um grande mal epiléptico. Raciocínio masculino: exclusão de partes! Eliminamos já as embalagens cor-de-rosa e amarelas ou com qualquer aplicação mais brilhante. Aquele que causa orgasmos nas gajas também não porque com orgasmos fingidos daquela maneira eu não me entendo. Marca que ocupe toda a prateleira, de cima a baixo, também sai já de cena porque isso significa demasiadas hipóteses e o meu cérebro já estava perfeitamente apoplético. Reduzi então as hipóteses de escolha apenas a shampoos com... embalagens brancas! "Head&Shoulders" e "Pantene" são duas marcas que não enganam! Ora, como não havia o "Head&Shoulders" Mentol (ahhhh, adoro aquele fresquinho no couro cabeludo logo pela manhã) optei por um "Pantene Classic", cabelos normais. A esposa pediu um shampoo, foi um shampoo que comprei!
Depois dirigi-me à diminuta secção de produtos para homem e comprei o meu fiel desodorizante "Dove For Men" juntamente com o gel de banho da mesma linha e fui-me embora. Simples, rápido, eficaz.

Em tempo de vindimas...

De todas as castas de uvas que conheço a minha preferida é, de longe!, a uva "colhão-de-galo".

domingo, 10 de outubro de 2010

A Minha Terra é Onde Me Sinto Bem.

Estivemos dois dias na "terra". Mas o que é a "terra"? Não sei. Para muitos a "terra" é o sítio onde nasceram, onde os pais nasceram. É um sítio com o qual têm uma ligação emocional muito forte seja pelas tradições, pela família, pelas Festas de Verão, pelas vindimas, pela matança do porco, pela apanha da fruta, pela paisagem, pelos cheiros, pela comida. Eu vim da "terra" com 18 anos. Tendo 31, a maior parte da minha vida ainda está ligada à "terra". Mas não a mais importante.
No Sábado pela manhã fui correr. Estradas e caminhos velhos conhecidos, percorridos principalmente na altura em que jogava futebol (juvenil) na equipa da terra e ia na carrinha dos clube buscar e levar os atletas dos pontos mais distantes da aldeia e até das aldeias vizinhas. Os velhos caminhos, o fresco do orvalho da manhã, o verde de perder de vista e os montes, uns atrás dos outros, as aldeias sempre diferentes mas todas iguais. E na verdade senti-me estranho a tudo aquilo. Nasci ali, cresci ali mas não me sinto dali. Como as gentes que me olhavam como um olhar ao mesmo tempo curioso e estranho. Talvez fosse do azul-choque dos ténis, do verde florescente da camisola, tão contrastantes com o verde escuro da paisagem, do castanho da terra, tudo ainda mais escurecido pelo tempo chuvoso e cinzento.
Hoje, ao regressar a casa senti uma estranha emoção de acolhimento ao entrar em Lisboa. Senti-me mesmo em casa, por estranho que pareça, no meio dos carros, do rebuliço, o Aeroporto, Campo Grande, O Zoo, Monsanto, a Ponte 25 de Abril. Já aqui tinha escrito, algures, que Lisboa tem uma luz especial, mais brilhante que em qualquer outro sítio que eu conheça e sinto que, por muito que vá partir, que queira partir, Lisboa acolher-me-á sempre bem!
Mas o certo é que vou partir, outra vez. E estou entusiasmado, excitado, apressado, angustiado pelo arrastar do tempo. Para um novo país, uma nova língua, um novo clima. Mal posso esperar. Raízes? Sim, ténuamente na "terra", muitas em Lisboa, bastantes em Portugal. Mas não as suficientes para me impedirem de partir. Um primo, nascido e criado em Paris, dizia-me que por muito mundo que conhecesse gostaria de passar os seus últimos dias precisamente em Paris. Eu, no que me toca, gostava de passar os meus últimos dias numa qualquer ilha paradisíaca, no meio de palmeiras e cocktails! Ou em Paris, ou em Nova Iorque, ou em Lisboa, ou num resort de luxo no Allgarve! Velho, enrugado, chato mas cheio de estilo!

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

A Vida é feita disto!

Desde que criei o Asas para Voar!, tenho tido uma nova e giríssima experiência de contacto com os leitores do Cheirinho a Éter... Na verdade é muito comum receber comentários e mails de potenciais compradores de um artigo do site que começam da seguinte forma: "Miguel, sou um seguidor do Cheirinho a éter desde o início / desde que ouvi o programa na rádio..." e depois descrevem como se riram ou choraram com este ou aquele texto, como descobriram uma música ou um livro por minha sugestão, como descobriram o Parque da Paz em Almada, enfim... E isso deixa-me muito contente! Para além disso, vou ter a oportunidade de conhecer alguns desses lindíssimos seres humanos quando lhes for entregar os seus novos "brinquedos" e isso, para mim é um privilégio.
O Asas para Voar! aproximou-me de alguma forma de alguns dos seguidores do Cheirinho a éter e é muito bom ler os votos de felicidade, os desejos de coragem e sorte, o carinho que vem dentro daquelas linhas electrónicas que são por vezes tão impessoais e frias. Algumas pessoas pedem-me para não acabar com o Cheirinho a éter depois de sair do país, para continuar a escrever. Isso, meus amigos, está mais que garantido pois se até agora tenho tido muito material para escrever, imagino a quantidade de novas emoções, aventuras, situações, ansiedades e felicidade que vão acontecer na nova etapa da nossa vida!
Obrigado a todos por estarem desse lado e por nos darem tanto carinho!

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Feelgood Music.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Fundamentalistas.

Jurei a mim mesmo que não voltaria a este assunto. Mas caramba, assisto a discussões noutros blogs, nas caixas de comentários e continua a haver imbecis (assim mesmo, imbecis!) a lançar ataques e veneno mas, pior de tudo, a continuar o discurso de "se fosse eu...". Não vou aqui tentar justificar a minha (nossa) decisão, não vou aqui inciar o debate. Nem sequer publicarei qualquer comentário ofensivo. O que tenho a dizer é isto, e só isto: de todos (e foram muitos!) os comentários ofensivos, moralistas, paternalistas, especuladores, baixos, desonestos, intransigentes, canalhas que têm parado nesta e na outra caixa de comentários, todos de "protectores-de-animais-amo-os-bichinhos-mais-que-tudo" não houve UM, UMZINHO SEQUER que se tenha prontificado a ajudar efectivamente o desgraçado do cão e a resgatá-lo das garras desta família de facínoras abandonadores de cães desprotegidos.
E é assim. Conheço montes de gente desta que apregoa "quanto mais conheço as pessoas mais gosto dos animais", de voluntários dos canis e gatis desse Portugal. Gente que, embora goste de animais, não tem a racionalidade suficiente para perceber quando é melhor para esse animal seguir um rumo diferente. Conheço-as porque, nos últimos anos recebi cães e gatos na minha casa, alimentei-os, cuidei deles, arranjei os estragos que fizeram no meu sótão, limpei a merda e a urina que fizeram no meu soalho. Animais abandonados, maltratados, esfomeados. E ouvi montes de histórias de pessoas malvadas que não quiseram ficar com o bichinho e que, vendo bem as coisas, não tinham a mínima hipótese de os mantes. Gente que tem 7, 8, 10 cães ou gatos em casa. Gente que, sob a capa do altruísmo, é de um egoísmo atroz porque se aproveitam dos bichinhos para despejar as suas frustrações emocionais. Gente que não sabe amar e que finge amar os gatinhos e os cãezinhos. A mesma gente que, tendo os contactos para me poder ajudar, a mesma gente que recorreu a mim para dar guarida a este e áquele cão ou gato, a gente que teve a minha ajuda incondicional, foi a mesma gente que me condenou e fechou a porta no momento em que lhes pedi ajuda. E senti o mesmo que a I. tão bem explica neste texto (obrigado a ela pelo apoio, mesmo que me cheire que ela não deve ser fã da nossa decisão mas tem a decência de não condenar!), aquele sentimento de que somos uns sacanas sem-moral. Já tive um outro cão, chama-se Kenai, um enorme Serra-da-Estrela que cresceu e se tornou agressivo para o meu filho. Que fazer? Abandonar e viver com a consciência pesada? Colocar num canil, um cão que só socializava comigo? Abater? Pois hoje o Kenai está com uma família que tem muito mais espaço que eu, muito mais disponibilidade que eu. Um novo dono que o escova todos os dias, que conversa com ele, que brinca com ele. A última vez que fui visitar essa família, o Kenai não se aproximou de mim. Preferiu deitar-se aos pés do seu novo dono, numa posição de afecto e protecção. E eu estou muito feliz por ele.
Porque, por vezes, demasiadas vezes, o Amor, o verdadeiro Amor exige sacrifícios pessoais para que aquele que amamos possa ser feliz. E quem não percebe isto não sabe Amar. Nem as pessoas e muito menos os animais.

domingo, 3 de outubro de 2010

Para fim de conversa.

Como era de prever, começaram as mensagens de protesto, desagrado, ódio relativamente à decisão de não levarmos connosco o Gastão na nossa viagem. Quem lê este blog, quem me conhece através dele, sabe que sou um defensor dos animais como outro qualquer. Sabe que sou contra as touradas e que abomino o abandono de animais. Para os que me criticam em tenho algo a dizer: não pensem que é fácil para mim essa decisão. Não vos pesa mais a vós do que a mim. Lembrem-se que fui eu que o adoptei, o tirei da rua, que o tratei, com quem brinquei, com quem o meu filho brinca. Não foi nenhum de vós, críticos. E lembrem-se que seria muito mais fácil para mim deixá-lo num canil, na rua ou até mandar abater o Gastão. Mas não, não é nada disso que se trata. Trata-se apenas de encontrar uma família que cuide dele. E nós queremos manter a nossa parte de responsabilidade por ele, se não presencial, através do suporte das despesas que ele possa trazer até ao final da sua vida.
Podem especular sobre o que poderíamos ou não fazer, sobre estratégias a adoptar, sobre o que quiserem mas não esqueçam nunca que planeámos isto nos últimos 2 anos (!) e que ele é a nossa prioridade número um. Muitas lágrimas foram já choradas debatendo esta situação. Por isso, já que são tão amiguinhos dos animais, poupem as energias que gastam a escrever textos cheios de veneno e ataques. Já sabemos que não nos querem bem, que somos umas bestas. Mas o Gastão continua a precisar de ajuda. Sendo ele um animal e sendo vós arautos defensores dos animais... é fazer as contas.
Obrigado e bom dia.

sábado, 2 de outubro de 2010

Livros a metro!!

Verdadeiras pechinchas literárias!! Aqui.

Prenúncio?

Ontem, dia 1 de Outubro de 2010, fui colocado num novo serviço. Uma nova equipa para me integrar, novas rotinas para apreender, um novo espaço físico. Fiquei triste porque a equipa onde trabalhava antes era uma equipa jovem, coesa, ritmada, e levou algum tempo a construir. Agora sou "o gajo novo" com algo a provar. Se não competência, que essa (felizmente) precede-me dentro daquele hospital, tenho a provar que sou um colega digno de entrar nesta nova equipa. As primeiras impressões que tenho dela, da equipa, é que é bastante fechada e com alguma dificuldade em acolher estranhos. Logo se verá.
O que é curioso é que esta mudança se dá exactamente um ano antes de uma outra, muito maior e com muitas mais consequências na minha vida e na da minha família. Mas por essa aguardo com a maior das motivações!

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Asas para voar!

Eis que chega o momento de revelar algo que trago preso na garganta há dois anos...

A vida dá voltas e voltas e, por vezes damos por nós em lugares que nunca julgámos possíveis. Uns lugares bons, outros maus. Nunca julguei possível que a Mariana, fisioterapeuta, nunca encontrasse um emprego digno desse nome. Nunca julguei possível que fosse capaz de trabalhar em dois empregos para suportar as despesas familiares. Nunca julguei possível olhar para o futuro dos meus filhos e não ver luz, só negro. Mas é aqui que me encontro hoje. E será que vejo um futuro onde a minha mulher possa trabalhar, ganhar o seu próprio dinheiro e a realização profissional? Será que vejo um futuro onde eu possa trabalhar em apenas um sítio sem perder a estabilidade económica? Será que vejo um futuro onde os meus filhos possam estudar, viver a juventude e encontrar um emprego digno? Não neste país!
Em 2008 surgiu a oportunidade de uma vida, a de trabalhar no estrangeiro. Neste caso em Lausanne, na Suíça. Nem era só um trabalho, era um projecto a longo prazo que envolvia trabalho, formação, progressão na carreira. Por obrigações contratuais com um dos meus empregadores não me foi possível aceitar. Mas a porta ficou entreaberta e eis que chega a altura de partir. Não é já... é daqui por um ano. 365 dias em que temos de resolver a nossa vida em Portugal, vender os nossos pertences, organizar a logística que uma mudança destas acarreta, e preparar o início da nossa vida lá, encontrar casa, escolas para os miúdos, aprender a língua (no meu caso, só melhorar!) e todas as pequenas coisas que, acumuladas dão um trabalhão do caraças! E 365 dias, um ano, não é assim tanto tempo como parece. E algumas coisas só avançam quando outras estiverem resolvidas.
Mas há coisas que podemos ir adiantando para que seja mais fácil o momento da partida. E é aqui que vocês entram. É preciso cortar amarras, largar lastro para que este balão voe mais alto. Vamos tentar vender (quase) todos os nossos pertences, desde a casa até à loiça de cozinha para que possamos partir apenas com o essencial para o novo recomeço. É um projecto enorme e não vai ser fácil mas, conto com todos os meus amigos: os reais e os virtuais. Criei um blog onde colocarei os artigos que serão postos à venda, por uma verdadeira pechincha, e que poderão ser empregues nas vossas casas, em casas de férias, casas para alugar, quintas, quintais, cozinhas rústicas. Não peço que comprem mas peço que passem a palavra!
Não queremos ir para Brugges mas queremos Asas Para Voar!

(É engraçado que eu revele isto logo após o anúncio de novas medidas de austeridade pelo Governo mas isto já estava pleneado há muito. Esse anúncio só me motiva mais ainda a ir embora...)

Da Realização Pessoal.

A vida é feita destas coisas. Nunca gostei de correr, não percebia o objectivo. Todo o desporto que não envolvesse uma bola não era para mim. Mas depois, os 30 anos mudaram tudo! E no último domingo, 26 de Setembro, cumpri a minha primeira meia-maratona! São 21 km de prazer e sofrimento, muitas vezes em simultâneo! A esmagadora maioria das pessoas não tem a noção real do que são 21 km, até porque de carro se demora 15 minutos a percorrer essa distância. 21 km parece "já ali", mas não é! É partir do tabuleiro da Vasco da Gama, correr até Sta. Apolónia e regressar parando em frente ao Centro Comercial Vasco da Gama no Parque das Nações! Correu tudo bem até ao km 14. Depois "quebrei" um bocado e arrastei-me até ao km 18. Fui ultrapassado por imensos atletas e estava a "ferver"!! Sentia-me lento e pesado e só queria que acabasse! Se estivesse na mesma situação à 10 anos atrás teria arrancado em fúria atrás de quem me ultrapassasse e teria acabado por "rebentar". Mas não, aguentei-me e só pensava "Mais á frente vou ultrapassar esta malta toda! Eles vão rebentar no último km!".
Ao km 18, não sei se foi da energia de uma banana que entretanto enfiara pela goela ou da vontade de acabar com a corrida, recebi uma garrafa de água que despejei na mona e arrisquei! Aumentei a passada o mais que consegui, ultrapassei um e outro concorrente e depois outro! E de cada um que ficava para trás mais eu corria! Sentia o coração a rebentar no peito, as pernas a pedirem clemência, os joelhos deixaram de existir, mas eu corri. E nos últimos metros gritava "FORÇA! VAI! ESTÁ QUASE! CORAGEM!" a todos os que deixava para trás! Mas isso era mais para mim próprio do que para os outros. A meta apareceu, elevei os braços e cheguei! E como me senti realizado! A equação é simples: são 21 km a percorrer no mínimo de tempo possível e, mesmo assim, já não me sentia assim tão contente comigo mesmo há muito tempo! E assim, ao final de cerca de 1 h e 43 min, bem colocado no primeiro 1/4 da tabela classificativa, cumpri um dos meus objectivos para este ano! Em Dezembro há mais!!

(Depois da chegada, conversando com alguns companheiros de viagem!)



quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Há sempre duas faces (ou mais) em todas as histórias.

Naquela altura eu era um jovem enfermeiro com apenas alguns meses de experiência. Trabalhava numa grande Urgência de um hospital de Lisboa, daquelas com 6 e 7 horas de espera. Estava destacado para a Equipa de Reanimação, um grupo de 3 enfermeiros nomeado para acorrer às situações de morte eminente do doente. O "besouro", uma campainha de som rouco, tocou. Era a hora de correr para a sala de reanimação. Os bombeiros tinham trazido uma senhora, vítima de acidente de mota. Surpreendentemente não apresentava ferimentos graves visíveis. Alguns hematomas e escoriações. Mas estava pálida, o olhar vazio. Os médicos chegaram logo depois de nós. A doente sangrava profusamente pelo nariz e pela boca. Mau sinal, muito mau sinal... fractura da base do crânio, lesão cerebral grave e potencialmente fatal. Os monitores mostravam tensões arteriais baixas, pulsos fracos, a linha do electrocardiograma era frágil e prenunciava uma paragem. A minha função consistiu unicamente em tentar parar aquela hemorragia nasal. Apenas isso e não fui capaz. Coloquei compressas atrás de compressas, e esses compressas logo ficavam ensopadas de sangue. Colocava mais compressas e essas ficavam púrpuras em segundos. Era tanto sangue... mas a senhora não tinha ferimentos.
Os monitores apitaram todos, estridentes, histéricos. Os médicos e os enfermeiros mais experientes iniciaram as manobras de suporte de vida, básico e avançado. E eu continuava a colocar compressas que logo se ensopavam em sangue. Eles comprimiam o peito dela, introduziam soros e fármacos para ajudar o coração. Nada resultou. A linha do monitor cardíaco ficou plana. E o alarme contínuo. Alguém desligou o aparelho. Os médicos saíram.
O silêncio tomou conta da sala até que um bombeiro explicou o que se passara. A senhora tinha 41 anos e era de uma família rica. Festejava naquele dia o aniversário de casamento na sua quinta. Oferecera uma mota ao marido e foram dar uma volta. Num cruzamento, um ligeiro toque com um carro desequilibrara o marido e ela caiu e bateu com a cabeça. Foi o suficiente. Tinha três filhos. Dezassete, treze e sete anos. Estavam todos na sala de espera. O chefe da equipa de enfermagem ordenou: "Limpem a senhora. Levem-na para a sala de exames. Deixei-na sem tubos, sem soros, sem monitores. E vistam-na com uma bata. Depois mandem entrar a família..."
Limpei o corpo, retirei tubos e agulhas, vesti-a. Continuava a sangrar pelo nariz por isso tive de deixar compressas nas narinas. Fiz o melhor que pude. Depois entrou o marido, sozinho. Sentou-se junto à senhora e chorou. Abraçou-a e chorou. Beijou-a e chorou. Por esta altura as minhas colegas choravam também, a um canto. e eu sentia-me claustrofóbico, o ar parecia demasiado pesado para respirar e queria sair dali. Mas nenhum de nós, enfermeiros, abandonou a sala. O homem recompôs-se e mandou entrar os filhos. Os dois mais velhos choravam serenamente. A pequena, 7 anos, perguntou: "Mamã? Estás a dormir mamã...". Saímos todos, os enfermeiros, era demasiado. Deixámos a família a sós.
Naquele turno e nos próximos, uma sombra de tristeza escureceu o ambiente, as conversas, os humores. Mas outros doentes entram e morrem a toda a hora. Nós estamos lá para eles, prontos, preparados, motivados. Aquela senhora foi especial para todos nós e ainda hoje falamos dela.
A enfermagem não é uma profissão romântica.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

A Dura Realidade.

O texto anterior ficou a "marinar" propositadamente. Sabia que a sua crueza iria chocar muitas pessoas, como chocou. Na caixa dos comentários, como em opiniões de colegas que lêem este blog foram comuns os sentimentos de indignação, de ofensa, de falta de sentimento ético (seja lá o que isso for!). Mas a verdade é que eu sabia disso, dos sentimentos menos nobres que esse relato iria causar nos leitores. Mas, lamento desiludir, ele reflecte a mais pura das realidades. Alguns comentários faziam o paralelo entre tratar de papéis e tratar de doentes. Que não é a mesma coisa, que os papéis podem esperar e os doentes não. Sim, é verdade. Mas não é menos verdade que a morte, o sofrimento, a dor são o nosso objecto de trabalho e, logo estão banalizados. O primeiro morto que eu cuidei, que toquei, que lavei, a quem tirei os tubos, que identifiquei, que coloquei no saco ficou cá gravado. Ainda hoje recordo a face, o corpo marcado pela doença e pelo calvário que passou na cama. E recordo ainda hoje, como um murro no estômago, a maneira como esse homem foi colocado na "maca-fúnebre". O que me passou pela cabeça, há mais de 10 anos atrás foi que tratavam aquela pessoa como se uma caraça de um porco abatido se tratasse!
A morte é banal, na nossa linha de trabalho. Ao contrário da maioria dos "empurra-papéis", nós temos que lidar diariamente com a nossa mortalidade e com a sua fealdade. Eu, de cada vez que recebo um novo doente,velho, acamado, esburacado, deparo-me com uma possibilidade do meu futuro. Lamento informar, mas a morte não é bonita nem agradável nem tão pouco romântica como no cinema. E sim, para nós é apenas mais um dia de trabalho, mais uma tarefa no turno, mais papéis para preencher, mais cuidados fora da rotina. Agora, o facto de ser uma situação triste não implica que nós estejamos tristes, sensibilizados, sintonizados com esse sentimento. Há mortes que nós sentimos, outras nem por isso. Mas uma coisa é certa: quem ousar pensar em encarar estas situações com a atitude pesarosa típica dos velórios bem pode desistir de ser enfermeiro.
Porque a Enfermagem está longe de ser uma profissão romântica...