segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Apercebo-me agora...

que no último sábado, dia 20 de Novembro de 2010, este blogzito cumpriu dois anos de existência!!! Parabéns a ele e a todos os que nos têm acompanhado!

O dilema das barrinhas.

Para quando, pergunto eu c'os nervos?! Que dilema este que me aflige a cada vez que me aproximo da prateleira do supermercado para comprar cereais! Passo a explicar: os cereais integrais são uma parte muito importante da minha dieta de corredor. E qual é então o problema? O problema é o facto de os fabricantes de cereais integrais deste mundo acharem que só as gajas comem cereais integrais! E como é que nós ficamos, nós os tipos atléticos, saudáveis, desportistas e, acima de tudo, másculos como se querem os atletas? Porquê? As embalagens senhores, as caixas decoradas com tudo o que é motivo feminino!
Todas essas caixas têm estampadas imagens de mulheres bonitas e magras, frases fortes como "Perca a sua barriga em 6 semanas", e palavras-chave como "dieta", "emagrecimento", "trânsito intestinal regular" e "formas definidas". Depois trazem brindes tais como vestidos, biquinis, creme depilatório, "pareos", chapéus de aba larga para o verão. Mas o pior são mesmo as barrinhas de cereais. Com as suas 87, 89, 92, 96 Kcal por barrinha, exibem sempre mulheres a correr, a alongar, a fazer abdominais. Mulheres sentadas em enormes "puffs" coloridos rodeadas por cortinas de seda com o mar em fundo, mostrando a sua barriguinha lisa e as suas pernas torneadas, sorrindo enquanto seguram uma barrinha de cereais com frutas vermelhas!
E isso coloca-nos dois grandes problemas! Em primeiro lugar corremos sérios riscos de que as senhoras das caixas gozem connosco assim que lhes viremos as costas:
"Uui, já viste? Aquele gosta de barrinhas de cereais, o malandro. E não são uns cereais quaisquer não senhor... barriguinha lisa, ihihihih! Cá p'ra mim vai pedir o vestidinho vermelho que estão a oferecer! ehehehe". Mas porque não há barras de cereais direccionadas aos homens, com chavões do tipo "abdominais de ferro em 2 meses", "braços definidos e fortes", "glúteos firmes"? E com uma imagética menos... de menina? Talvez assim as conversas das meninas da caixa fosse ligeiramente diferente:
"Ena, ena! Temos atleta. Como é que serão os abdominais do menino? Fantásticos a julgar pela alimentação saudável que faz! E a facilidade com que agarrou no saco cheio de compras? Deves ter uns bracinhos daquele que faz favor, ui, ui! Lindo..."
Mas não! Estamos condenados a comprar comida com rótulo "para gajas e gajas apenas"! O segundo problemas? O segundo problema é que as barras que comemos nunca são iguais às que vêm estampadas na embalagem! Mais pequenas, menos chocolate, menos fruta... bolas!

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Negociação do tipo "Um olho no Burro e outro no Cigano".

É cíclico. Acontece todos os meses, na mesma altura do mês. Já sabemos que vai acontecer, já sabemos as consequências, já nos habituámos à azáfama que daí resulta mas, assim mesmo não nos libertamos da ansiedade que rodeia esse acontecimento que vai marcar a nossa vida... pelo menos até ao mês seguinte. É o momento em que recebemos o nosso horário para as próximas quatro semanas. é o momento em que "sai a escala"!
Para terem uma ideia, o enfermeiro que trabalha por turnos tem o dia dividido em Manhã, Tarde e Noite. A Manhã vai das 8 às 16, a Tarde das 16 às 23 e a Noite dura das 23 às 8 do dia seguinte. E, na verdade, um enfermeiro não vive por dias mas sim por turnos! Enquanto o cidadão trabalhador normal suspira "faltam x dias para as férias!" o cidadão-enfermeiro suspira "faltam x turnos para ir de férias!". E isto é assim porque na realidade nós não temos a noção do tempo em dias! Para nós é perfeitamente indiferente se é segunda ou terça ou domingo. O que causa alguns problemas na nossa adequação ao mundo fora dos hospitais. E aí reside a importância do dia em que a escala para o mês seguinte é publicada. Porque nós não vivemos hermeticamente fechados no sistema hospitalar e temos esposas, maridos, filhos, frequentamos cursos, ginásios, corremos, e também gostamos de ir ao cinema e jantar fora com a família e os amigos! E, como não podemos estar sempre à espera que saia o horário para marcar estas coisas todas, então combinamos as coisas assim mesmo e depois fazemos trocas com os colegas! Aparentemente fácil, pensarão vocês caros trabalhadores-das-nove-ás-cinco-folgas-ao-fim-de-semana, mas não... esquecem-se que a maioria dos enfermeiros trabalha e regime de duplo-emprego logo os malabarismos com o tempo são ainda mais difíceis!!
Assim, os pedidos e negociações de trocas são autênticas batalhas onde se exige rapidez e determinação. O ambiente é similar ao das negociações em bolsa onde tentamos sempre comprar o melhor dos outros e vender o nosso pior! Temos que conhecer bem os nossos colegas/adversários para podermos planear a nossa abordagem táctica. Por exemplo, aproveitar os colegas que preferem trabalhar as Noites (ganha-se mais!) para despachar as nossas Noites que estão "a mais", aquelas que não queremos ou não podemos fazer; ou então, oferecermos-nos para trabalhar a um domingo de manhã por troca com aquela colega que gosta de ir à missinha sendo que ela nos vai fazer um turno durante a semana quando nos apetece ficar em casa! Sempre que possível apresentar a proposta convencendo o colega que é ele que nos está a fazer um favor. Temos de ser verdadeiros diplomatas e aceitar o que nos é favorável e pedir mil-perdões e até encenar um número de "tenho-muita-pena-de-não-poder-ajudar-mas-é-impossível" quando não nos interessa uma determinada troca. Porque amanhã vamos ser nós a precisar e o nosso capital de simpatia é muito importante nestas coisas! Mas isto é a versão simples desta batalha.
Os guerreiros mais experimentados e mais ferozes fazem jogadas altamente complexas em que, muitas vezes, a vítima de tais golpes acaba por aceitar turnos que não queria sem saber bem como isso aconteceu! São esquemas de trocas que envolvem três ou mais elementos em que ocorrem trocas sobre trocas, num esquema em teia digno de ser utilizado em esquemas de fraude económica e em que as trocas são pensadas e feitas antecipando desde logo que vão ser desfeitas a seguir. Uma espécie retorcida de jogadores de xadrez que pensam três jogadas À frente dos concorrentes! Enquanto nós, os normalíssimos enfermeiros que só querem arranjar espaço na agenda para as coisas normais desta vida como brincar com os miúdos, estes jogadores são movidos por obscuros objectivos que ninguém conhece na totalidade e fazem trocas sobre trocas sobre trocas até à véspera da publicação da nova escala, altura em que toda a gente já estabeleceu o seu horário e anseia pelo novo.
Enfim, cada vez mais me convenço que o horário feito pelo Enfermeiro-Chefe é algo de meramente indicativo. No meu caso, por exemplo, ao final de duas horas após a publicação da Escala de Dezembro já não restava pedra sobre pedra do horário original!

sábado, 13 de novembro de 2010

O que as mulheres querem de um homem.

"Preciso de um homem".
Farto-me de ouvir as mulheres (ou muitas mulheres) a afirmar sem dúvidas que não precisam de nós, os homens, para nada! Nem para viver, nem para proteger, nem para criar os filhos, para nada. Excepto para reproduzir, aí sempre vão precisando do espermazito. Sim, assim mesmo dito "espermazito" tentando diminuir a importância do homem no processo de concepção de um terceiro ser vivo. Algumas (ou muitas!) admitem a necessidade do homem-objecto para o sexo. Mesmo assim, o homem-brinquedo-sexual acaba por, na sua essência, ser um homem Esta admissão acaba por deitar por terra o argumento de que as mulheres não precisam de um homem. Mas há ainda um outro objectivo para o qual uma mulher afirma: "preciso de um homem."
Quando a minha chefe me viu e proclamou "Preciso de um homem!", assim mesmo de uma forma afirmativa e seca, a primeira coisa que me passou pela cabeça foi "Espero que não precises de mim para sexo, por isso deve haver alguma coisa pesada para carregar!". Porque é mesmo essa a principal atribuição do homem numa relação: o levantamento de pesos! Isso e abrir frascos fechados a vácuo! E (felizmente!) tinha razão: era preciso carregar uma mesa. Lá fui carregar a mesa. Era para colocar no gabinete da chefe. Quando lá cheguei pediu-me para desmontar a secretária que já lá estava. Coisa fácil, portanto... Não! Para a desmontar foi necessário desmontar também o computador, a impressora e todas as ligações. Claro que depois da secretária montada (e o computador e toda a tralha associada também, claro!), afinal aquela secretária não ficava assim tão bem... troca a carregar aquela para o local de origem e levar uma outra que era mais "jeitosa"! Depois... bem, depois mudei móveis e mesas, arquivos e computadores numa experiência de feng-shui tão cara das mulheres!!
Seja de que maneira for, quando uma mulher exclama "Preciso de um homem!" é certo e sabido que o desgraçado a quem calhar tal sorte terá que dar o corpinho ao manifesto.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

No meu tempo não era assim!

Eu cresci num ambiente rural. Numa pequena aldeia, aliás, num "lugar" pequeno de apenas 4 ou 5 casas no meio de quintas. Por isso desde cedo me habituei a brincar fora de casa. Aliás, as minhas brincadeiras mais marcantes ocorreram no meio dos campos! Pelo menos até aparecer a Rua Sésamo. Por isso lembro com alguma saudade quando eu e o meu vizinho amigo, filho do dono da quinta mesmo ao nosso lado, íamos com o pai dele, em cima da carroça puxada por uma junta de bois, de como fugíamos no verão para ir mergulhar nos maiores e mais fundos tanques de rega das quintas, de como gostávamos de apanhar rãs nos lagos e poças que abundavam. Lembro-me de "roubar" fruta, de procurar nas vinhas as uvas mais brilhantes, de comer cerejas em cima da árvore, de fugir dos trabalhadores do campo quando nos viam a trepar pelas suas preciosas árvores a a comer o fruto do seu trabalho! Gostava também de subir para o cimo dos enormes montes de feno que acumulavam no meio das "eiras", de andar de enxada na mão a conduzir a água para os campos, de escorregar pelas encostas cheias de erva fresca! Era muito comum afastar-me um, dois ou três quilómetros de casa e só voltava quando a minha mãe gritava o meu nome, o que era coisa para se ouvir na aldeia vizinha!
Por tudo isto cedo aprendi a identificar as plantas, as árvores, os arbustos e a fugir dos mais perigosos como as silvas e principalmente, as urtigas! Os meus filhos não vão saber nada disto, obviamente. Brincam sempre comigo ou sob a minha supervisão, em parques mais ou menos bem pensados para as crianças. Por isso, o Gabriel simplesmente adorou quando o levei a passear e brincar a uma mata praticamente selvagem! Adorou as árvores, as bolotas pelo chão, os paus que se tornaram em espadas, o espaço para correr e a liberdade de se poder afastar de nós sem que o pai estivesse constantemente a berrar "Não vás para tão longe!". Afinal, eu podia vê-lo por muitos metros de distância no caminho da floresta. Mas o mais divertido da floresta é ter tantos e tão diversos esconderijos. Claro que jogámos Às escondidas sendo que a minha única função era procurar. O Gabriel estava a adorar esconder-se atrás das árvores, em pequenos desníveis, por baixo de arbustos! Claro que eu via onde ele se escondia entrededos. E eis que reparo que ele se vai esconcer nuns arbustos onde nenhuma criança da minha geração ousaria... "GABRIEL NÃO TE ESCONDAS AÍ! PÁRA!!"... Só ouvi "AUUUU" e depois um apelo desesperado para que o ajudasse a sair dali.
E foi assim que o Gabriel descobriu o que são as silvas!

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Paneleirices.

Seguindo a linha de pensamento da Ana C. neste texto, também eu não entendi o propósito de uma certa comunidade gay ter ido protestar junto do itinerário do Papa, em Barcelona. Na verdade, nunca entendi o conceito que suporta acontecimentos como o "Gay Pride" e todas as "gay parade" que por aí aparecem. Não é segredo nenhum para ninguém que eu sempre defendi o direito à igualdade por parte dos homossexuais. Porque entendo que não devemos ser discriminados por uma questão sexual. Mas não concordo com este tipo de manifestação.
Qual é o objectivo de ir ostentar a nossa opção sexual em público à passagem do Papa? Chocar. Mas com que propósito? Serem aceites na Igreja? Casarem de véu e grinalda? Apesar de eu estar contra a maioria das posições da Igreja Católica no que ao sexo diz respeito, é preciso perceber que a Igreja tem uma doutrina, um conjunto de regras a seguir, de mandamentos a cumprir, de preceitos a obedecer. Por isso, quem quer pertencer em pleno à Igreja tem que respeitar o conjunto de regras. Já há algumas vozes importantes na Igreja que se mostram abertas à participação dos homossexuais na vida da Igreja, mas daí até aceitarem o casamento debaixo das suas cupúlas douradas...
Também não entendo a necessidade de algumas figuras virem afirmar publicamente a sua homossexualidade (a não ser que estejam desesperados por publicidade!). Qual é o interesse? Alguém tem conhecimento de alguém que tenha vindo a público afirmar, orgulhoso "Eu sou hetero!!"? Claro que não. Porque simplesmente não faz sentido! Existe um exemplo perfeito do que é ser figura pública e mesmo assim manter a sua vida pessoal o mais resguardada possível: Herman José. Claro, as dúvidas existem há anos! Sem namoradas conhecidas também nunca apareceu com homens, os seus trejeitos, os maneirismos e o guarda roupa histérico levantam ainda mais dúvidas. À boca-pequena contam-se histórias de festas gay e um namorado fixo mas nada confirmado. Mas o homem faz a vida dele e ninguém tem nada a ver com isso! Por isso, mesmo que algum dia ele apareça a jantar num restaurante romântico qualquer com um homem, a dúvida manter-se-á sempre. E o certo é que ninguém o chateia com essa questão.
Por isso, meus senhores, vamos a manter a dignidade e não embarcar em paneleirices, OK?

domingo, 7 de novembro de 2010

Histórico para uns, Humilhante para outros!

Um, dois, três, quatro... CINCO!!
Perdoem-me, eu não costumo falar aqui de futebol mas hoje, hoje meus amigos assisti a um jogo de uma vida! Que equipa, que jogadores! Podem falar do Hulk (gozem agora com o Pintinho por causa da cláusula de 100 milhões!) que é fenomenal mas hoje podem começar no Helton e acabar no Falcao, foram todos sublimes! E, este ano sim, o Futebol Clube do Porto demonstra a sua essência: raça, querer, coragem, nunca desistir. Aliado a artistas como Hulk, Falcao, Varela, Beluschi e Moutinho (então? 11 milhões parece pouco agora não é?) esta raça só pode dar nisto: quem vier, morre! E depois, claro, o adversário. Sou muito racional e equilibrado na minha vida excepto no que diz respeito a uma coisa: futebol. E por isso nem falo muito disso. Mas hoje, após meses de glorificação de um clube de bairro (eu moro em Lisboa, Benfica é um bairro) que até já era Campeão Europeu (isso não é para quem fala muito, é para quem JOGA muito) antes da época começar, após tantos ataques e jogadas de imprensa (aquele comunicado a pedir aos adeptos para boicotarem os jogos é ridículo. A ameaça de faltar ao jogo se fossem "atacados" é só estupidez em bruto!), após tanto menosprezo, esta vitória é um murro na boca de muita gente (Luís Filipe Vieira que foi para presidente das papoilas saltitantes porque nunca consegui ser uma mero dirigente do FCP e Rui Costa, que respeitei muito como jogador mas que se revela um verdadeiro sacana dos túneis.). E é verdadeiramente um prazer ouvir os comentários tresloucados dos comentadores do jogo, que não são capazes de esconder a sua preferência clubística, o desânimo dos analistas e a sua clara dificuldade em verbalizar a inequívoca superioridade do Porto, as desculpas esfarrapadas. Hoje não houve casos em que se desculparem (quando muito há um penalty contra os vermelhóides que não foi assinalado), não houve zonas escuras. A luz do jogo do Porto não deu margem para isso.
Depois, Jesus. Jorge Jesus anda triste, coitado. Aquela cagança do ano passado, onde está? Cabisbaixo, JJ. Também fico contente por finalmente ver provada a minha opinião acerca do JJ como técnico: vale zero! Foi campeão o ano passado? Pois foi, mas é preciso analisar o contexto. O Porto mais fraco dos últimos 10 anos, muitos jogos acabados a jogar contra 10 ou 9, muitos penaltys ao cair do pano e... o túnel da luz, pois claro!
Mas, desabafos feitos, quero louvar aqui a força do FCP, a raça, o querer. É o clube do meu coração, cresci a ser do FCP, não consigo abstrair-me das emoções que aquele símbolo transmite. Hoje sinto-me verdadeiramente orgulhoso em ser do FCP!!! POOOOOOOOOORTO!
Ainda estou a tremer de emoção, a rever os lances na minha memória, a ler todas as notícias relacionadas com o jogo. Não volto a escrever sobre futebol no blog. A não ser que este resultado se repita! Afinal, ainda temos a 2ª volta para jogar...

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

É a vidinha!

A enfermagem exige um trabalho em equipa. Para bem dos doentes, para bem dos enfermeiros. A ideologia do serviço deve estar bem definida, as rotinas bem estabelecidas, a comunicação sempre clara. E assim é muito fácil trabalhar porque, não importa qual o colega com quem partilhamos o turno, sabemos sempre o que tem de ser feito, a que horas deve ser feito e como deve ser feito. E acima de tudo cria um sentimento de respeito pelo colega. Porque o trabalho que nós fazemos no nosso turno vai reflectir-se no turno seguinte. Principalmente se esse trabalho for mal executado!
Nos últimos três anos trabalhámos isso na nossa equipa. Definimos e optimizámos normas, rotinas, protocolos. Criámos condições para melhor servir os doentes e também para que o nosso trabalho fosse menos "pesado". Criámos uma dinâmica de serviço própria, eliminámos os elementos menos adaptados, os "corpos estranhos", recebemos e doutrinámos os novos elementos. E, três anos passados tínhamos finalmente uma equipa! Mas tínhamos outra coisa: gostávamos de trabalhar juntos. Eu, que já aqui escrevi algures, que não alinhava nos jantares de serviço passei a ir e a gostar de estar com aquela gente fora do contexto do branco das fardas. Trabalhar tornou-se agradável. E depois...
Bom, e depois, após tanto trabalho e alguma dedicação, depois de se criar uma simpatia entre toda a equipa eis que alguma alma pensadora da gestão decide desmembrar a equipa e distribuir-nos pelos restantes serviços. Agora trabalho numa equipa que não conheço, uma equipa sem alma, sem personalidade, sem cumplicidade. E isto não é relativamente a mim, o novato, é algo que imediatamente se sente ao observar a interacção entre estes enfermeiros que já trabalham juntos há anos! E isto é triste. E desmotivador. Mas enfim, já ando nisto há tempo suficiente para não desmoralizar com estas coisas! O segredo está em centrar-me nos doentes que me são atribuídos, prestar os melhores cuidados que me forem possíveis e... cumprir o meu horário sem levantar ondas. Mas continuo a sentir-me triste com a extinção da minha antiga equipa.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Imbecil!

Imbecil. O adjectivo é este, e estou a ser educado. Uma velhota, 70 anos, vem ao médico porque fez um traumatismo ligeiro do joelho. Foi observada, levou a injecção voltaren+relmus da praxe e mostrou-me a receita para esclarecer uma dúvida. E quando vi o que o médico lhe receitou... Como é possível que um imbecil com um estetoscópio ao pescoço tenha tido a coragem de receitar a uma velha de 70 anos que recebe pouco mais de 100€ de reforma um medicamento que custa cerca de 30€, cada caixa de 28 unidades, quando existem no mercado alternativas bem mais baratas (e refiro-me a preços a rondar os 3€ por cada caixa de 20 unidades!) e provavelmente mais eficazes?? Imbecil, é o que é.
Este é um verdadeiro exemplo da promiscuidade que existe entre alguns médicos e a indústria farmacêutica. Na verdade, mesmo que o medicamento mais caro fosse realmente muito mais eficaz no tratamento da lesão daquela doente em particular (estamos a falar de anti-inflamatórios e não de anti-neoplásicos), não será de ter em conta o enquadramento social do doente? A situação económica logo á partida desencoraja a escolha tomada; depois, será que a relação custo-benefício do fármaco prescrito será a mais adequada, uma vez que se trata de uma senhora com 70 anos e não de um atleta de alta-competição? Ou seja, nem sempre o mais caro é melhor (aliás, no que a medicamentos diz respeito isto raramente é verdade.) e nem sempre os médicos enquadram os doentes antes de lhes prescreverem o que quer que seja.
Aliás, esse é o grande poder dos médicos, um poder que não raras vezes é mal utilizado. Trata-se do poder de prescrever o que quer que lhes apeteça sem que possam ser contestados. Aliás, tenho assistido a muitos abusos desse poder que continuam impunes a coberto daquilo que é chamado o "acto" ou "prescrição médica", ou seja TUDO o que seja intervenção médica. Depois basta-lhes, muito simplesmente argumentar que "com base no meu diagnóstico esta foi a opção que me pareceu mais correcta no momento" para que todos digam "àmen".

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Do outro lado da agulha!

Eu ganho a vidinha a enfiar agulhas no rabo de perfeitos desconhecidos. E apanho com montes de mariquinhas que têm "fobia" das picas, medo incontrolável, terror, pavor. Mas também apanho com malta a quem uma pica é apenas isso: uma pica! Apanho também mooontes de pessoas que me perguntam se eu tenho "mão leve". "Mão leve" era, até hoje, um conceito estranho para mim. Afinal, o acto de enfiar uma agulha no glúteo de um outro ser humano é tão simples como isso! É pegar na agulha e, com um movimento rápido, contínuo e seco, espetar essa agulha numa determinada zona da nádega do doente! E depois as opiniões dividem-se: há quem diga que tenho "mão leve" e há quem me apelide de bruto da pior espécie! Mas com isso vivo eu bem. Afinal se o enfermeiro é o mesmo, a agulha é sempre igual e a técnica é solidamente sempre a mesma, aqui o problema prende-se com a única variável da equação: o doente! Cá está, matematicamente provado, o problema é sempre do doente! Como confirmar então a teoria que existem enfermeiros "mão leve" e "enfermeiros-brutos"?
Desde há uns dias (6 dias para ser exacto) que ando a levar uma injecção diária para tratar uma tendinite, consequência das corridas. Caramba! É mesmo verdade! Nota-se diferença entre quem administra a injecção! No primeiro dia senti ligeiramente a agulha e o líquido mas nada de mais; segundo dia... O HORROR!! Senti tudo, a agulha, o líquido, a agulha a sair! Depois fiquei o resto do dia com uma dor na nalga que irradiava pela perna e, ainda hoje sinto uma pequena dor no local da injecção! O terceiro dia não foi muito melhor... no quarto e no quinto não senti nada, abençoadas mãos! Mas ninguém escapa impunemente a uma injecção de cerca de 6ml de líquido (é muito líquido, acreditem!) por dia e, hoje, sentado em frente ao computador enquanto vos escrevo, parece que estou sentado em cima de duas maciças bolas de golfe! Uma enfiada em cada nádega.
Quem diria...
PS: há novidades no "Asas para voar!"

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Cadilhos.

Malditos pesadelos, os sonhos maus que chegam todas as noites. Ontem mesmo ele perguntava-me:
-Tu és corajoso pai?
-Porque perguntas?
-Eu não sou corajoso.... Pai, também tinhas sonhos maus quando eras pequenino?
-Sim, filho. Mas os sonhos não existem! Não te podem fazer mal. Tu tens sonhos maus?
-Sempre. Eu não me sei defender... A avó ensinou-te a defender dos sonhos maus?
-Sim filhote, a avó estava sempre comigo, como eu e a mamã estamos sempre contigo! A proteger-te dos sonhos maus!

E ele abraçou-me e eu desejei ficar com ele nos meus braços até que ele supere este medo. E fiquei completamente desarmado com aquele apelo, aquele pedido de ajuda! E aqui aparece a verdadeira dificuldade de criar um filho: o equilíbrio. Será que estou a fazer o suficiente, o adequado? Ou estou a fazer de menos? Estou a dar demasiada importância a estas coisas? O que será que ele sente? O certo é que o meu filho está a crescer rapidamente. Principalmente no campo emocional e social. E ele conta comigo para ser a sua rocha, o seu porto seguro! Reconhecemos montes de atitudes que revelam um determinado traço de personalidade mas, o que será personalidade e o que será uma chamada de atenção? Quais as atitudes que devemos analisar como uma chamada, aquelas que têm uma causa subjacente? Que montanha-russa de emoções!

Algumas (muitas!) pessoas ficam ofendidas quando lhes sugerem que talvez não fosse mau levarem o seu filho a um psicólogo. Eu gostava de ir ao psicólogo para aprender a lidar melhor com o meu filho, para aprender as técnicas que ajudam a lidar com as frustrações dele e, acima disso, como evitar que as minhas frustrações prejudiquem o seu desenvolvimento. Gostava que ele falasse com alguém isento e profissional, alguém que me ajudasse a interpretar melhor o meu filho. Porque o amor incondicional quase nunca chega para resolver os problemas, sendo esse amor por vezes o maior obstáculo que os pais enfrentam quando se trata de compreender e ajudar os seus filhotes. Cada vez mais acho que isto de ser Pai é muito mais difícil do que o que parece. E ninguém nos ensina isto! Devia existir uma Academia de Pais onde fosse possível aprender mais e melhor sobre esta coisa da Paternidade, onde profissionais da mais diversas áreas ligadas à puericultura nos conduzissem pelos meandros da educação de crianças e jovens, nos dessem ferramentas para eliminar as zonas cinzentas das nossas relações com os nossos filhos, que nos avisassem das nossas limitação enquanto pais.

Agora percebo bem o velho provérbio: "Quem tem filhos tem cadilhos"...
O Gabriel está bem! Este texto não reflecte qualquer tipo de problema existente e é apenas uma reflexão acerca das minhas dúvidas, anseios e incapacidade enquanto pai.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

O Cuquedo.

"O Cuquedo" é uma história infantil que li imeeensas vezes com o Gabriel há uns meses atrás. Trata da agitação da selva com a chegada do Cuquedo. Uma narrativa simples e repetitiva mas muito divertida que o Gabriel rapidamente memorizou. É mais ou menos isto...
"Andava uma manada de elefantes de cá para lá e da lá para cá quando apareceu uma zebra e diz: ALTO LÁ! O que anda uma manada de elefantes a fazer de cá para lá e de lá para cá?!?"
"AI TU NÃO SABES?!! (respondem os elefantes) Anda aí o cuquedo, um animal muito assustador que prega sustos a quem estiver parado no mesmo lugar!" A zebra junta-se ao grupo e...
" Andava uma manada de elefantes e de zebras de cá para lá e de lá para cá quando aparece uma girafa e diz: ALTO LÁ! O que anda uma manada de elefantes e de zebras a fazer de cá para lá e de lá para cá?!?
"AI TU NÃO SABES?!? (respondem os elefantes e as zebras) Anda aí o cuquedo, um animal muito assustador que prega sustos a quem estiver parado no mesmo lugar!" A girafa junta-se ao grupo e...
"Andava uma manada de elefantes, zebras e girafas de cá para lá e de lá para cá quando aparece um rinoceronte e diz: ALTO LÁ!...
Resumindo, os rinocerontes juntam-se aos elefantes, às zebras, às girafas e ainda aparecem os hipopótamos e outros animais até, às páginas tantas, já toda a selva anda de cá para lá e de lá para cá quando aparece finalmente o Cuquedo que, afinal, nenhum animal conhecia! Como termina a história? Eheheheh, leiam o livro! E é impressionante como uma historieta infantil pode retratar tão bem a atitude da sociedade portuguesa face à tão falada Crise...
Da mesma forma que o Cuquedo causa o terror na selva, também a Crise causa o terror no país! País esse que é, afinal, uma selva e onde nós, portugueses, não passamos de uns animais que andam de cá para lá e de lá para cá (feitos parvos, diga-se!) como se isso resolvesse algum problema! Também a maneira viral como o terror do Cuquedo se espalha pela selva, de boca em boca, de animal para animal, onde o grupo maior arrasta consigo os grupos mais pequenos pode ser lido como uma analogia àquilo que se passa em Portugal! Cá, como na selva, o terror da Crise está a tomar conta das pessoas de uma forma irracional. Os relatos desanimadores e catastróficos dominantes estão a alastrar rapidamente e a arrastar consigo toda a gente! Na verdade, a Crise como o Cuquedo, é um monstro que a maioria dos Portugueses não conhece. Ouviu falar mas não conhece! E então, quando alguém, nos cafés, nos trabalhos, nas salas de espera dos hospitais, no talho pergunta "Afinal o que é a crise?" logo todos se apressam a dizer "AI TU NÃO SABES?!?! A Crise é um animal muito assustador..."
E assim, cá andamos todos em manada, feito parvinhos de cá para lá e de lá para cá à espera que a Crise seja como o Cuquedo, que só prega sustos a quem estiver parado no mesmo lugar.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Trabalho invisível.

O trabalho dos enfermeiros nem sempre é reconhecido. Muitas vezes porque é trabalho que não se vê, que se prolonga no tempo, que se faz nos bastidores digamos. Comigo passou-se uma situação, já há alguns anos, que confesso me deixou bastante desagradado. Não é que queira que me agradeçam pelo meu trabalho mas...
Trabalhava na Urgência e aquilo estava caótico. Normal, portanto! Entre um doente e outro fui abordado por um senhor que barafustava que tinha o pai à espera há mais de quatro horas, isto depois de ter feito uma série de exames. Problema: a ficha do doente tinha-se evaporado, juntamente com os exames do senhor! Falei com o filho e reconstituí o percurso do doente dentro do hospital e fui à procura. Encontrei a ficha e os exames enfiados numa gaveta de uma secretária de um cirurgião conhecido, de resto por "perder" as fichas dos doentes. Perdi cerca de 30 min com esta procura e, no final, falei com o médico com quem trabalhava naquele turno e pedi-lhe para resolver a situação. Informei o filho que o problema estava resolvido. O médico chamou o doente e deu-lhe alta. Estava tudo bem. No final, pai e filho derreteram-se em agradecimentos ao médico: "Ai Sr. Dr. se não fosse o senhor ainda estávamos à espera!". Admito que me senti bastante desconsiderado porque todo o trabalho foi meu e, se não fosse por esse trabalho, essa meia-hora que tirei aos outros doentes para fazer um trabalho que até nem era meu, mas que eu sabia que mais ninguém faria, esse doente ainda hoje lá estaria à espera!! Mas, no final, quem é que falou com o doente? Quem é que lhe disse "Vá embora descansado, as melhoras!"? Pois, não fui eu...
Óbvio que eu não estou à espera que me agradeçam pelo meu trabalho, que é pago. Mas este caso em particular ficou-me "entalado" na garganta pelo simples facto de o doente e o seu familiar nem sequer me terem dirigido a palavra na hora da despedida. Um simples "bom dia" e um sorriso teria sido o suficiente. Lembrei-me deste episódio agora mesmo, depois de uma doente me ter insultado porque estava à espera (e nem sequer há muito tempo!) e de nem sequer me ter dirigido a palavra à saída, depois de ter sido convenientemente tratada.
Parece que um texto que se iniciou debruçando-se sobre a invisibilidade do nosso trabalho se tornou numa reflexão sobre a falta de consideração de alguns (muitos, demasiados) doentes.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Em jeito de desabafo...

Hoje uma conhecida disse-me que tinha um "feeling" que eu não iria sair de Portugal. Nada de novo. Tivesse eu um euro por cada pessoa que me diz que não acredita, só acredita quando vir, que isto é conversa para aliviar o stress, etc, etc, etc. A maioria destas pessoas, quero acreditar, não o diz por mal, não para agoirar ou com má intenção. Aliás, as pessoas que sabem deste projecto são pessoas que trabalham comigo e que, no final da conversa me dizem meigamente que lhes vai custar deixar de trabalhar comigo. E isso acaba por ser bom! Mas voltando aos "feelings", o que me parece é que tudo isto lhes parece demasiado grande, demasiado trabalhoso e, acima de tudo, demasiado arriscado para se fazer. Afinal, eu até tenho um emprego certinho do Estado. Ao menos esses não falham, está lá o dinheirinho no 21 de cada mês, não serei despedido porque sou efectivo. É só vantagens porque raio vais agora lá pró frio, para a neve, ainda por cima para um país sem graça nenhuma? Nãããã! Isso és tu a aliviar o stress!
Calculo, admito que esta tarefa lhes pareça demasiado hercúlea para levar a cabo sem ajuda. Caramba, a mim aperta-me o peito só de pensar em toda a logística que teremos de enfrentar na altura da mudança, na hipótese (enormíssima!) de não conseguir vender a minha casa e ficar com uma renda importante em Portugal, em como encaixar o timing entre o fim do meu contrato cá e o início lá, o tempo que terei na procura (que se prevê difícil!) de uma casa lá, enviar os nossos pertences (poucos) para essa nova casa, na escolha das escolas para os miúdos e depois, bem depois é um país novo, uma língua que domino mas que não é a minha, uma experiência profissional completamente nova num ambiente que não se prevê muito acolhedor e todo o stress emocional que vai concerteza abater-se sobre toda a família! Por isso agradeço imenso que não me digam que têm um feeling que fico cá, que ainda mudo de ideias, que isto são desabafos de um jovem que gostaria de melhorar a vida mas que, enfim, a vida é assim e em Portugal, ao menos o café é bom e barato e a praia é de graça. A sério. Isso não me demove mas faz-me sofrer um pouco. Eu sei que é um enoooorme passo, eu sei que é arriscado, eu sei que as coisas podem correr mal por isso não precisam de mo relembrar.
Sejam hipócritas que não me importo. Mesmo que achem que me vou estatelar ao comprido um simples "Vai tudo correr bem." é suficiente. Ou então, não digam nada.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Monstros debaixo da cama.

Pesadelos. O Gabriel anda com pesadelos, normal de resto para uma criança com três anos. E, noite após noite, ele acaba por "saltar" para o meio de nós, de madrugada dizendo, muito naturalmente "Tenho monstros nos meus sonhos, aparecem nos meus olhinhos..." e enroscando-se na segurança que dá ter a mãe de um lado e o pai do outro! E surpreende-me a naturalidade com que ele fala dos seus sonhos, como se fossem reais, mas sabendo ao mesmo tempo que a acção decorre "nos seus olhos" como que se ocorressem numa dimensão paralela.
Ontem a história de adormecer foi "Os Músicos de Bremen", aparentemente inofensiva. Mas a dada altura da história os animais afugentam os ladrões aproveitando o escuro da noite, convencendo-os que se tratam de bruxas, monstros e dragões que assombram aquela casa. No final ele pergunta:
-Pai? O gato e o cão são monstros?
-Não filhote! O ladrão pensou que eles eram monstros porque estava escuro e ele não os viu?
-Eles não são monstros?
-Não filho, são só um cão, um gato, um burro e um galo muito espertos!
-Mas os desenhos são assustadores...
Ele olhou para mim por um instante, não muito convencido com a minha argumentação, mas agarrou nos seus companheiros de sono (dois cães de peluche, o Quico e o Cão!), deu-me um beijo de boa noite e deitou-se, depois de apagar a luz! Senti-me orgulhoso dele porque, mesmo depois daquela história assustadora ele não teve medo de dormir no seu quarto, com a luz apagada! É um valente o meu "mais velho"! Mas cerca das 5 da manhã: "Pai... há monstros no meu quarto..."

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

A culpa é dos queridos que mudam a casa!

Malditos queridos! Aquilo é um tremenda duma publicidade enganosa! "Ai q'horror, que decoração horrível e tremenda falta de gosto! Ai que detesto o lambrim do corredor e aquele vidro fosco tão anos oitenta!" E lá vem uma tia que sabe conjugar umas cores e muda aquilo tudo para uma divisão de catálogo de revista de decoração de interiores! E depois vêm os malucos das obras e fazem aquilo parecer fácil e barato e ao alcance de qualquer um! BAH!
E depois, que ideia é aquela de remodelarem UMA divisão? Se essa divisão está feia, imaginamos o resto da casa! Vou então jantar à novíssima sala de decoração neo-classico-moderna dos queridos e apetece-me, digamos, cagar. Saio da sala e... entro numa outra dimensão infernal onde o corredor tem azulejos azuis-e-brancos até meio da parede e o WC tem as porcelanas verde-couve! "AHHHHHHHHHHH", grito e saio a correr. Não dá. E outra coisa. Se alguém, um qualquer habitante de uma qualquer casa não consegue manter organizada uma divisão normalíssima imagino o que (não) farão com uma sala/quarto/cozinha tão "capa de revista". Giro, giro seria um programa "Um mês depois do Querido!" Mas o pior, o piorzinho desse programa é a vontade que causa em nós de mudar a nossa vulgaríssima casa. A capacidade que eles têm de nos fazer pensar que moramos numa espelunca desorganizada e sem graça nenhuma. E, ainda pior, de nos fazer acreditar que somos capazes de fazer o mesmo que eles. Não somos.
Assim, imbuído do espírito "Querido Mudei a Casa" lá fui eu envernizar o telheiro de madeira do jardim e pintar o portão da entrada. O envernizamento correu bem, até porque foi a Mariana que tratou disso. Eu limitei-me a pintar as tábuas a direito e ao final da primeira já estava a ter alucinações após snifar um bocado do "Bondex" de carvalho. Quanto ao portão... fui comprar tinta e pincéis e fiz-me ao trabalho! Trincha e rolo em punho e, pimba, ao final da manhã tinha o trabalho quase pronto. Olho para a minha obra-prima e, que raios!, tenho o portão de um branco-alvo pintado cravejado de pequenos insectos pretos colados na tinta fresca! Os c****ões dos insectos debatem-se para se soltar da armadilha e dão-me cabo do trabalho. Por cada um que tiro tenho que retocar a pintura e logo outro se enfia na tinta. Cabrões dos mosquitos! Isto não aparece nos queridos, que os insectos atacam a tinta fresca como se fosse um monte de merda fresquinho! Disso não falam eles! E depois, trabalho acabado mas cravejado de insectos negros que parecem reproduzirem-se na própria tinta, vai de lavar os pincéis, trinchas, rolo. Aparentemente existem vários tipos de tinta. A tinta das paredes sai facilmente com água. Descobri da pior maneira que a tinta dos metais não. Então, logo a água e tento lavar os objectos, nada acontece. Para ajudar aperto o rolo com as mãos e, pior um pouco, fico com as mãos brancas de tinta que não sai com água! Pareço estar a usar luvas de cerimónia brancas. De repente lembro-me: diluente! Vou buscar a lata que está na dispensa (pinto-a de branco com as minhas mãos entretanto) e vai de despejar aquilo nas unhas. Nada acontece a não ser uma breve visão de um elefante rosa a passar na rua. Talvez tenha inalado um pouco de diluente a mais... Fica tudo branco, cada vez mais branco, as mãos brancas, os braços salpicados de manchas brancas. E aquilo não sai por nada! MAS PORQUE É QUE OS QUERIDOS NÃO AVISAM AS PESSOAS QUE HÁ VÁRIOS TIPOS DE DILUENTE?? Aparentemente, para limpar tinta sintética é necessário um diluente sintético. Lógico? O ca******lho!
Tenho a impressão que o portão vai ficar só com uma demão...

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Adoro este programa (provavelmente pelas razões erradas!)

Hoje tive a oportunidade de, finalmente, ver um pouco do programa Biggest Loser. E foi engraçado! Apesar de ter as minhas dúvidas acerca das motivações dos concorrentes, uma vez que a única maneira de mexerem aqueles gigantescos rabos e fazerem dieta são 250 mil notas de dólar. Se o (mau) estilo de vida que levavam antes estava perfeitamente identificado e todos eles têm a perfeita noção do seu problema (caso contrário nunca teriam concorrido ao programa!) e se, mesmo assim continuavam a emborcar massas com queijo e donuts recheados como se fossem paquidermes porque não procuraram ajuda antes? A Mariana diz que eu sou um porco insensível e que a razão de eles quererem entrar no concurso é o facto de estarem acompanhados. Seja.
E então lá estavam eles, arrastando-se na passadeira ao final de 30 segundos, a destilar água que daria para encher uma pequena piscina, a chorar ao final de 5 minutos de exercício de aquecimento, a vomitar, a desmaiar, a querer desistir. E até aqui tudo bem! Se eu não sou grande fã de reality shows pela simples razão que eles se baseiam normalmente na incompetência dos seus participantes, na sua desgraça, nos seus podres, este pelo menos é honesto e tem uma mensagem simples e verdadeira: queres perder peso meu paquidérmico amigo? Só tens um caminho a seguir: o da abnegação! Aqui se vê que, com o empenho necessário a todos os grandes desafios, é possível perder 20, 30, 40 kg e que não há fórmulas milagrosas. É simples: malhar o corpinho e fechar a boquinha! E nisso, este programa não engana ninguém. Acreditem, eu vi no mesmo dia o fim de uma temporada e o início de outra e muito sinceramente não queria acreditar! Malta com mais de 130 kg a descer para os 80?! Isso é de louvar e de premiar. E aqui está outra razão de peso (piadinha eheheh) para ver este programa: na verdade todos os concorrentes ganham! Perdem peso de uma forma dura mas saudável! Que eles consigam manter esse estilo de vida, isso é outra história...
Mas para mim, a verdadeira razão que me prendeu ao aparelho foi outra. Se um dos instrutores é um "pãozinho sem sal", um fulaninho em forma mas com um arzinho perfeitamente... inócuo, já a instrutora...! Jilian é enérgica, berra com os gordos, faz ameaças físicas, faz pressão psicológica, agride-os verbalmente, expõem as suas fragilidades e confronta-os com elas! Ela tem uma voz rouca que fica ainda mais rouca quando berra! Ela sobe para cima dos concorrentes, para cima das máquinas, ela sua com eles! Fez-me lembrar quando fiz a minha recruta, quando havia sempre alguém a berrar-me aos ouvidos, a gritar-me para correr, para saltar, para rastejar! E eu emagreci bastante durante um mês de recruta! A diferença é que nenhum dos meus instrutores tinha esta aparência...

E isso é que foi uma pena.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Ora aí está coisa para exigir um manual de instruções!

Quando a minha mulher me pediu para "comprar um shampoo" parecia ser tarefa fácil! Era isso ou ir para a fila do fiambre e do queijo. Mas enfim, shampoo é coisa fácil. Pensava eu...
Eis que chego ao local dos shampoos do Continente (malditos!) e descubro que, afinal não existem ali só shampoo. Há gel duche, acondicionador, máscara, desembaraçador. Máscara? Para cabelos? Ora aí está um conceito que gostava que alguém do sexo feminino me explicasse! Máscara... sinceramente. Então deparo-me com uma infinita prateleira de shampoos com uma variedade de cores absolutamente psicadélica que, juro que comecei a ouvir os Greatful Dead e a ver borboletas gigantes a voar na minha direcção! Qual escolher? Receei ter de os cheirar a todos pois temia ter ali mesmo um grande mal epiléptico. Raciocínio masculino: exclusão de partes! Eliminamos já as embalagens cor-de-rosa e amarelas ou com qualquer aplicação mais brilhante. Aquele que causa orgasmos nas gajas também não porque com orgasmos fingidos daquela maneira eu não me entendo. Marca que ocupe toda a prateleira, de cima a baixo, também sai já de cena porque isso significa demasiadas hipóteses e o meu cérebro já estava perfeitamente apoplético. Reduzi então as hipóteses de escolha apenas a shampoos com... embalagens brancas! "Head&Shoulders" e "Pantene" são duas marcas que não enganam! Ora, como não havia o "Head&Shoulders" Mentol (ahhhh, adoro aquele fresquinho no couro cabeludo logo pela manhã) optei por um "Pantene Classic", cabelos normais. A esposa pediu um shampoo, foi um shampoo que comprei!
Depois dirigi-me à diminuta secção de produtos para homem e comprei o meu fiel desodorizante "Dove For Men" juntamente com o gel de banho da mesma linha e fui-me embora. Simples, rápido, eficaz.

Em tempo de vindimas...

De todas as castas de uvas que conheço a minha preferida é, de longe!, a uva "colhão-de-galo".

domingo, 10 de outubro de 2010

A Minha Terra é Onde Me Sinto Bem.

Estivemos dois dias na "terra". Mas o que é a "terra"? Não sei. Para muitos a "terra" é o sítio onde nasceram, onde os pais nasceram. É um sítio com o qual têm uma ligação emocional muito forte seja pelas tradições, pela família, pelas Festas de Verão, pelas vindimas, pela matança do porco, pela apanha da fruta, pela paisagem, pelos cheiros, pela comida. Eu vim da "terra" com 18 anos. Tendo 31, a maior parte da minha vida ainda está ligada à "terra". Mas não a mais importante.
No Sábado pela manhã fui correr. Estradas e caminhos velhos conhecidos, percorridos principalmente na altura em que jogava futebol (juvenil) na equipa da terra e ia na carrinha dos clube buscar e levar os atletas dos pontos mais distantes da aldeia e até das aldeias vizinhas. Os velhos caminhos, o fresco do orvalho da manhã, o verde de perder de vista e os montes, uns atrás dos outros, as aldeias sempre diferentes mas todas iguais. E na verdade senti-me estranho a tudo aquilo. Nasci ali, cresci ali mas não me sinto dali. Como as gentes que me olhavam como um olhar ao mesmo tempo curioso e estranho. Talvez fosse do azul-choque dos ténis, do verde florescente da camisola, tão contrastantes com o verde escuro da paisagem, do castanho da terra, tudo ainda mais escurecido pelo tempo chuvoso e cinzento.
Hoje, ao regressar a casa senti uma estranha emoção de acolhimento ao entrar em Lisboa. Senti-me mesmo em casa, por estranho que pareça, no meio dos carros, do rebuliço, o Aeroporto, Campo Grande, O Zoo, Monsanto, a Ponte 25 de Abril. Já aqui tinha escrito, algures, que Lisboa tem uma luz especial, mais brilhante que em qualquer outro sítio que eu conheça e sinto que, por muito que vá partir, que queira partir, Lisboa acolher-me-á sempre bem!
Mas o certo é que vou partir, outra vez. E estou entusiasmado, excitado, apressado, angustiado pelo arrastar do tempo. Para um novo país, uma nova língua, um novo clima. Mal posso esperar. Raízes? Sim, ténuamente na "terra", muitas em Lisboa, bastantes em Portugal. Mas não as suficientes para me impedirem de partir. Um primo, nascido e criado em Paris, dizia-me que por muito mundo que conhecesse gostaria de passar os seus últimos dias precisamente em Paris. Eu, no que me toca, gostava de passar os meus últimos dias numa qualquer ilha paradisíaca, no meio de palmeiras e cocktails! Ou em Paris, ou em Nova Iorque, ou em Lisboa, ou num resort de luxo no Allgarve! Velho, enrugado, chato mas cheio de estilo!