Malditos queridos! Aquilo é um tremenda duma publicidade enganosa! "Ai q'horror, que decoração horrível e tremenda falta de gosto! Ai que detesto o lambrim do corredor e aquele vidro fosco tão anos oitenta!" E lá vem uma tia que sabe conjugar umas cores e muda aquilo tudo para uma divisão de catálogo de revista de decoração de interiores! E depois vêm os malucos das obras e fazem aquilo parecer fácil e barato e ao alcance de qualquer um! BAH!
E depois, que ideia é aquela de remodelarem UMA divisão? Se essa divisão está feia, imaginamos o resto da casa! Vou então jantar à novíssima sala de decoração neo-classico-moderna dos queridos e apetece-me, digamos, cagar. Saio da sala e... entro numa outra dimensão infernal onde o corredor tem azulejos azuis-e-brancos até meio da parede e o WC tem as porcelanas verde-couve! "AHHHHHHHHHHH", grito e saio a correr. Não dá. E outra coisa. Se alguém, um qualquer habitante de uma qualquer casa não consegue manter organizada uma divisão normalíssima imagino o que (não) farão com uma sala/quarto/cozinha tão "capa de revista". Giro, giro seria um programa "Um mês depois do Querido!" Mas o pior, o piorzinho desse programa é a vontade que causa em nós de mudar a nossa vulgaríssima casa. A capacidade que eles têm de nos fazer pensar que moramos numa espelunca desorganizada e sem graça nenhuma. E, ainda pior, de nos fazer acreditar que somos capazes de fazer o mesmo que eles. Não somos.
Assim, imbuído do espírito "Querido Mudei a Casa" lá fui eu envernizar o telheiro de madeira do jardim e pintar o portão da entrada. O envernizamento correu bem, até porque foi a Mariana que tratou disso. Eu limitei-me a pintar as tábuas a direito e ao final da primeira já estava a ter alucinações após snifar um bocado do "Bondex" de carvalho. Quanto ao portão... fui comprar tinta e pincéis e fiz-me ao trabalho! Trincha e rolo em punho e, pimba, ao final da manhã tinha o trabalho quase pronto. Olho para a minha obra-prima e, que raios!, tenho o portão de um branco-alvo pintado cravejado de pequenos insectos pretos colados na tinta fresca! Os c****ões dos insectos debatem-se para se soltar da armadilha e dão-me cabo do trabalho. Por cada um que tiro tenho que retocar a pintura e logo outro se enfia na tinta. Cabrões dos mosquitos! Isto não aparece nos queridos, que os insectos atacam a tinta fresca como se fosse um monte de merda fresquinho! Disso não falam eles! E depois, trabalho acabado mas cravejado de insectos negros que parecem reproduzirem-se na própria tinta, vai de lavar os pincéis, trinchas, rolo. Aparentemente existem vários tipos de tinta. A tinta das paredes sai facilmente com água. Descobri da pior maneira que a tinta dos metais não. Então, logo a água e tento lavar os objectos, nada acontece. Para ajudar aperto o rolo com as mãos e, pior um pouco, fico com as mãos brancas de tinta que não sai com água! Pareço estar a usar luvas de cerimónia brancas. De repente lembro-me: diluente! Vou buscar a lata que está na dispensa (pinto-a de branco com as minhas mãos entretanto) e vai de despejar aquilo nas unhas. Nada acontece a não ser uma breve visão de um elefante rosa a passar na rua. Talvez tenha inalado um pouco de diluente a mais... Fica tudo branco, cada vez mais branco, as mãos brancas, os braços salpicados de manchas brancas. E aquilo não sai por nada! MAS PORQUE É QUE OS QUERIDOS NÃO AVISAM AS PESSOAS QUE HÁ VÁRIOS TIPOS DE DILUENTE?? Aparentemente, para limpar tinta sintética é necessário um diluente sintético. Lógico? O ca******lho!
Tenho a impressão que o portão vai ficar só com uma demão...


