quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Negociação do tipo "Um olho no Burro e outro no Cigano".

É cíclico. Acontece todos os meses, na mesma altura do mês. Já sabemos que vai acontecer, já sabemos as consequências, já nos habituámos à azáfama que daí resulta mas, assim mesmo não nos libertamos da ansiedade que rodeia esse acontecimento que vai marcar a nossa vida... pelo menos até ao mês seguinte. É o momento em que recebemos o nosso horário para as próximas quatro semanas. é o momento em que "sai a escala"!
Para terem uma ideia, o enfermeiro que trabalha por turnos tem o dia dividido em Manhã, Tarde e Noite. A Manhã vai das 8 às 16, a Tarde das 16 às 23 e a Noite dura das 23 às 8 do dia seguinte. E, na verdade, um enfermeiro não vive por dias mas sim por turnos! Enquanto o cidadão trabalhador normal suspira "faltam x dias para as férias!" o cidadão-enfermeiro suspira "faltam x turnos para ir de férias!". E isto é assim porque na realidade nós não temos a noção do tempo em dias! Para nós é perfeitamente indiferente se é segunda ou terça ou domingo. O que causa alguns problemas na nossa adequação ao mundo fora dos hospitais. E aí reside a importância do dia em que a escala para o mês seguinte é publicada. Porque nós não vivemos hermeticamente fechados no sistema hospitalar e temos esposas, maridos, filhos, frequentamos cursos, ginásios, corremos, e também gostamos de ir ao cinema e jantar fora com a família e os amigos! E, como não podemos estar sempre à espera que saia o horário para marcar estas coisas todas, então combinamos as coisas assim mesmo e depois fazemos trocas com os colegas! Aparentemente fácil, pensarão vocês caros trabalhadores-das-nove-ás-cinco-folgas-ao-fim-de-semana, mas não... esquecem-se que a maioria dos enfermeiros trabalha e regime de duplo-emprego logo os malabarismos com o tempo são ainda mais difíceis!!
Assim, os pedidos e negociações de trocas são autênticas batalhas onde se exige rapidez e determinação. O ambiente é similar ao das negociações em bolsa onde tentamos sempre comprar o melhor dos outros e vender o nosso pior! Temos que conhecer bem os nossos colegas/adversários para podermos planear a nossa abordagem táctica. Por exemplo, aproveitar os colegas que preferem trabalhar as Noites (ganha-se mais!) para despachar as nossas Noites que estão "a mais", aquelas que não queremos ou não podemos fazer; ou então, oferecermos-nos para trabalhar a um domingo de manhã por troca com aquela colega que gosta de ir à missinha sendo que ela nos vai fazer um turno durante a semana quando nos apetece ficar em casa! Sempre que possível apresentar a proposta convencendo o colega que é ele que nos está a fazer um favor. Temos de ser verdadeiros diplomatas e aceitar o que nos é favorável e pedir mil-perdões e até encenar um número de "tenho-muita-pena-de-não-poder-ajudar-mas-é-impossível" quando não nos interessa uma determinada troca. Porque amanhã vamos ser nós a precisar e o nosso capital de simpatia é muito importante nestas coisas! Mas isto é a versão simples desta batalha.
Os guerreiros mais experimentados e mais ferozes fazem jogadas altamente complexas em que, muitas vezes, a vítima de tais golpes acaba por aceitar turnos que não queria sem saber bem como isso aconteceu! São esquemas de trocas que envolvem três ou mais elementos em que ocorrem trocas sobre trocas, num esquema em teia digno de ser utilizado em esquemas de fraude económica e em que as trocas são pensadas e feitas antecipando desde logo que vão ser desfeitas a seguir. Uma espécie retorcida de jogadores de xadrez que pensam três jogadas À frente dos concorrentes! Enquanto nós, os normalíssimos enfermeiros que só querem arranjar espaço na agenda para as coisas normais desta vida como brincar com os miúdos, estes jogadores são movidos por obscuros objectivos que ninguém conhece na totalidade e fazem trocas sobre trocas sobre trocas até à véspera da publicação da nova escala, altura em que toda a gente já estabeleceu o seu horário e anseia pelo novo.
Enfim, cada vez mais me convenço que o horário feito pelo Enfermeiro-Chefe é algo de meramente indicativo. No meu caso, por exemplo, ao final de duas horas após a publicação da Escala de Dezembro já não restava pedra sobre pedra do horário original!

sábado, 13 de novembro de 2010

O que as mulheres querem de um homem.

"Preciso de um homem".
Farto-me de ouvir as mulheres (ou muitas mulheres) a afirmar sem dúvidas que não precisam de nós, os homens, para nada! Nem para viver, nem para proteger, nem para criar os filhos, para nada. Excepto para reproduzir, aí sempre vão precisando do espermazito. Sim, assim mesmo dito "espermazito" tentando diminuir a importância do homem no processo de concepção de um terceiro ser vivo. Algumas (ou muitas!) admitem a necessidade do homem-objecto para o sexo. Mesmo assim, o homem-brinquedo-sexual acaba por, na sua essência, ser um homem Esta admissão acaba por deitar por terra o argumento de que as mulheres não precisam de um homem. Mas há ainda um outro objectivo para o qual uma mulher afirma: "preciso de um homem."
Quando a minha chefe me viu e proclamou "Preciso de um homem!", assim mesmo de uma forma afirmativa e seca, a primeira coisa que me passou pela cabeça foi "Espero que não precises de mim para sexo, por isso deve haver alguma coisa pesada para carregar!". Porque é mesmo essa a principal atribuição do homem numa relação: o levantamento de pesos! Isso e abrir frascos fechados a vácuo! E (felizmente!) tinha razão: era preciso carregar uma mesa. Lá fui carregar a mesa. Era para colocar no gabinete da chefe. Quando lá cheguei pediu-me para desmontar a secretária que já lá estava. Coisa fácil, portanto... Não! Para a desmontar foi necessário desmontar também o computador, a impressora e todas as ligações. Claro que depois da secretária montada (e o computador e toda a tralha associada também, claro!), afinal aquela secretária não ficava assim tão bem... troca a carregar aquela para o local de origem e levar uma outra que era mais "jeitosa"! Depois... bem, depois mudei móveis e mesas, arquivos e computadores numa experiência de feng-shui tão cara das mulheres!!
Seja de que maneira for, quando uma mulher exclama "Preciso de um homem!" é certo e sabido que o desgraçado a quem calhar tal sorte terá que dar o corpinho ao manifesto.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

No meu tempo não era assim!

Eu cresci num ambiente rural. Numa pequena aldeia, aliás, num "lugar" pequeno de apenas 4 ou 5 casas no meio de quintas. Por isso desde cedo me habituei a brincar fora de casa. Aliás, as minhas brincadeiras mais marcantes ocorreram no meio dos campos! Pelo menos até aparecer a Rua Sésamo. Por isso lembro com alguma saudade quando eu e o meu vizinho amigo, filho do dono da quinta mesmo ao nosso lado, íamos com o pai dele, em cima da carroça puxada por uma junta de bois, de como fugíamos no verão para ir mergulhar nos maiores e mais fundos tanques de rega das quintas, de como gostávamos de apanhar rãs nos lagos e poças que abundavam. Lembro-me de "roubar" fruta, de procurar nas vinhas as uvas mais brilhantes, de comer cerejas em cima da árvore, de fugir dos trabalhadores do campo quando nos viam a trepar pelas suas preciosas árvores a a comer o fruto do seu trabalho! Gostava também de subir para o cimo dos enormes montes de feno que acumulavam no meio das "eiras", de andar de enxada na mão a conduzir a água para os campos, de escorregar pelas encostas cheias de erva fresca! Era muito comum afastar-me um, dois ou três quilómetros de casa e só voltava quando a minha mãe gritava o meu nome, o que era coisa para se ouvir na aldeia vizinha!
Por tudo isto cedo aprendi a identificar as plantas, as árvores, os arbustos e a fugir dos mais perigosos como as silvas e principalmente, as urtigas! Os meus filhos não vão saber nada disto, obviamente. Brincam sempre comigo ou sob a minha supervisão, em parques mais ou menos bem pensados para as crianças. Por isso, o Gabriel simplesmente adorou quando o levei a passear e brincar a uma mata praticamente selvagem! Adorou as árvores, as bolotas pelo chão, os paus que se tornaram em espadas, o espaço para correr e a liberdade de se poder afastar de nós sem que o pai estivesse constantemente a berrar "Não vás para tão longe!". Afinal, eu podia vê-lo por muitos metros de distância no caminho da floresta. Mas o mais divertido da floresta é ter tantos e tão diversos esconderijos. Claro que jogámos Às escondidas sendo que a minha única função era procurar. O Gabriel estava a adorar esconder-se atrás das árvores, em pequenos desníveis, por baixo de arbustos! Claro que eu via onde ele se escondia entrededos. E eis que reparo que ele se vai esconcer nuns arbustos onde nenhuma criança da minha geração ousaria... "GABRIEL NÃO TE ESCONDAS AÍ! PÁRA!!"... Só ouvi "AUUUU" e depois um apelo desesperado para que o ajudasse a sair dali.
E foi assim que o Gabriel descobriu o que são as silvas!

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Paneleirices.

Seguindo a linha de pensamento da Ana C. neste texto, também eu não entendi o propósito de uma certa comunidade gay ter ido protestar junto do itinerário do Papa, em Barcelona. Na verdade, nunca entendi o conceito que suporta acontecimentos como o "Gay Pride" e todas as "gay parade" que por aí aparecem. Não é segredo nenhum para ninguém que eu sempre defendi o direito à igualdade por parte dos homossexuais. Porque entendo que não devemos ser discriminados por uma questão sexual. Mas não concordo com este tipo de manifestação.
Qual é o objectivo de ir ostentar a nossa opção sexual em público à passagem do Papa? Chocar. Mas com que propósito? Serem aceites na Igreja? Casarem de véu e grinalda? Apesar de eu estar contra a maioria das posições da Igreja Católica no que ao sexo diz respeito, é preciso perceber que a Igreja tem uma doutrina, um conjunto de regras a seguir, de mandamentos a cumprir, de preceitos a obedecer. Por isso, quem quer pertencer em pleno à Igreja tem que respeitar o conjunto de regras. Já há algumas vozes importantes na Igreja que se mostram abertas à participação dos homossexuais na vida da Igreja, mas daí até aceitarem o casamento debaixo das suas cupúlas douradas...
Também não entendo a necessidade de algumas figuras virem afirmar publicamente a sua homossexualidade (a não ser que estejam desesperados por publicidade!). Qual é o interesse? Alguém tem conhecimento de alguém que tenha vindo a público afirmar, orgulhoso "Eu sou hetero!!"? Claro que não. Porque simplesmente não faz sentido! Existe um exemplo perfeito do que é ser figura pública e mesmo assim manter a sua vida pessoal o mais resguardada possível: Herman José. Claro, as dúvidas existem há anos! Sem namoradas conhecidas também nunca apareceu com homens, os seus trejeitos, os maneirismos e o guarda roupa histérico levantam ainda mais dúvidas. À boca-pequena contam-se histórias de festas gay e um namorado fixo mas nada confirmado. Mas o homem faz a vida dele e ninguém tem nada a ver com isso! Por isso, mesmo que algum dia ele apareça a jantar num restaurante romântico qualquer com um homem, a dúvida manter-se-á sempre. E o certo é que ninguém o chateia com essa questão.
Por isso, meus senhores, vamos a manter a dignidade e não embarcar em paneleirices, OK?

domingo, 7 de novembro de 2010

Histórico para uns, Humilhante para outros!

Um, dois, três, quatro... CINCO!!
Perdoem-me, eu não costumo falar aqui de futebol mas hoje, hoje meus amigos assisti a um jogo de uma vida! Que equipa, que jogadores! Podem falar do Hulk (gozem agora com o Pintinho por causa da cláusula de 100 milhões!) que é fenomenal mas hoje podem começar no Helton e acabar no Falcao, foram todos sublimes! E, este ano sim, o Futebol Clube do Porto demonstra a sua essência: raça, querer, coragem, nunca desistir. Aliado a artistas como Hulk, Falcao, Varela, Beluschi e Moutinho (então? 11 milhões parece pouco agora não é?) esta raça só pode dar nisto: quem vier, morre! E depois, claro, o adversário. Sou muito racional e equilibrado na minha vida excepto no que diz respeito a uma coisa: futebol. E por isso nem falo muito disso. Mas hoje, após meses de glorificação de um clube de bairro (eu moro em Lisboa, Benfica é um bairro) que até já era Campeão Europeu (isso não é para quem fala muito, é para quem JOGA muito) antes da época começar, após tantos ataques e jogadas de imprensa (aquele comunicado a pedir aos adeptos para boicotarem os jogos é ridículo. A ameaça de faltar ao jogo se fossem "atacados" é só estupidez em bruto!), após tanto menosprezo, esta vitória é um murro na boca de muita gente (Luís Filipe Vieira que foi para presidente das papoilas saltitantes porque nunca consegui ser uma mero dirigente do FCP e Rui Costa, que respeitei muito como jogador mas que se revela um verdadeiro sacana dos túneis.). E é verdadeiramente um prazer ouvir os comentários tresloucados dos comentadores do jogo, que não são capazes de esconder a sua preferência clubística, o desânimo dos analistas e a sua clara dificuldade em verbalizar a inequívoca superioridade do Porto, as desculpas esfarrapadas. Hoje não houve casos em que se desculparem (quando muito há um penalty contra os vermelhóides que não foi assinalado), não houve zonas escuras. A luz do jogo do Porto não deu margem para isso.
Depois, Jesus. Jorge Jesus anda triste, coitado. Aquela cagança do ano passado, onde está? Cabisbaixo, JJ. Também fico contente por finalmente ver provada a minha opinião acerca do JJ como técnico: vale zero! Foi campeão o ano passado? Pois foi, mas é preciso analisar o contexto. O Porto mais fraco dos últimos 10 anos, muitos jogos acabados a jogar contra 10 ou 9, muitos penaltys ao cair do pano e... o túnel da luz, pois claro!
Mas, desabafos feitos, quero louvar aqui a força do FCP, a raça, o querer. É o clube do meu coração, cresci a ser do FCP, não consigo abstrair-me das emoções que aquele símbolo transmite. Hoje sinto-me verdadeiramente orgulhoso em ser do FCP!!! POOOOOOOOOORTO!
Ainda estou a tremer de emoção, a rever os lances na minha memória, a ler todas as notícias relacionadas com o jogo. Não volto a escrever sobre futebol no blog. A não ser que este resultado se repita! Afinal, ainda temos a 2ª volta para jogar...

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

É a vidinha!

A enfermagem exige um trabalho em equipa. Para bem dos doentes, para bem dos enfermeiros. A ideologia do serviço deve estar bem definida, as rotinas bem estabelecidas, a comunicação sempre clara. E assim é muito fácil trabalhar porque, não importa qual o colega com quem partilhamos o turno, sabemos sempre o que tem de ser feito, a que horas deve ser feito e como deve ser feito. E acima de tudo cria um sentimento de respeito pelo colega. Porque o trabalho que nós fazemos no nosso turno vai reflectir-se no turno seguinte. Principalmente se esse trabalho for mal executado!
Nos últimos três anos trabalhámos isso na nossa equipa. Definimos e optimizámos normas, rotinas, protocolos. Criámos condições para melhor servir os doentes e também para que o nosso trabalho fosse menos "pesado". Criámos uma dinâmica de serviço própria, eliminámos os elementos menos adaptados, os "corpos estranhos", recebemos e doutrinámos os novos elementos. E, três anos passados tínhamos finalmente uma equipa! Mas tínhamos outra coisa: gostávamos de trabalhar juntos. Eu, que já aqui escrevi algures, que não alinhava nos jantares de serviço passei a ir e a gostar de estar com aquela gente fora do contexto do branco das fardas. Trabalhar tornou-se agradável. E depois...
Bom, e depois, após tanto trabalho e alguma dedicação, depois de se criar uma simpatia entre toda a equipa eis que alguma alma pensadora da gestão decide desmembrar a equipa e distribuir-nos pelos restantes serviços. Agora trabalho numa equipa que não conheço, uma equipa sem alma, sem personalidade, sem cumplicidade. E isto não é relativamente a mim, o novato, é algo que imediatamente se sente ao observar a interacção entre estes enfermeiros que já trabalham juntos há anos! E isto é triste. E desmotivador. Mas enfim, já ando nisto há tempo suficiente para não desmoralizar com estas coisas! O segredo está em centrar-me nos doentes que me são atribuídos, prestar os melhores cuidados que me forem possíveis e... cumprir o meu horário sem levantar ondas. Mas continuo a sentir-me triste com a extinção da minha antiga equipa.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Imbecil!

Imbecil. O adjectivo é este, e estou a ser educado. Uma velhota, 70 anos, vem ao médico porque fez um traumatismo ligeiro do joelho. Foi observada, levou a injecção voltaren+relmus da praxe e mostrou-me a receita para esclarecer uma dúvida. E quando vi o que o médico lhe receitou... Como é possível que um imbecil com um estetoscópio ao pescoço tenha tido a coragem de receitar a uma velha de 70 anos que recebe pouco mais de 100€ de reforma um medicamento que custa cerca de 30€, cada caixa de 28 unidades, quando existem no mercado alternativas bem mais baratas (e refiro-me a preços a rondar os 3€ por cada caixa de 20 unidades!) e provavelmente mais eficazes?? Imbecil, é o que é.
Este é um verdadeiro exemplo da promiscuidade que existe entre alguns médicos e a indústria farmacêutica. Na verdade, mesmo que o medicamento mais caro fosse realmente muito mais eficaz no tratamento da lesão daquela doente em particular (estamos a falar de anti-inflamatórios e não de anti-neoplásicos), não será de ter em conta o enquadramento social do doente? A situação económica logo á partida desencoraja a escolha tomada; depois, será que a relação custo-benefício do fármaco prescrito será a mais adequada, uma vez que se trata de uma senhora com 70 anos e não de um atleta de alta-competição? Ou seja, nem sempre o mais caro é melhor (aliás, no que a medicamentos diz respeito isto raramente é verdade.) e nem sempre os médicos enquadram os doentes antes de lhes prescreverem o que quer que seja.
Aliás, esse é o grande poder dos médicos, um poder que não raras vezes é mal utilizado. Trata-se do poder de prescrever o que quer que lhes apeteça sem que possam ser contestados. Aliás, tenho assistido a muitos abusos desse poder que continuam impunes a coberto daquilo que é chamado o "acto" ou "prescrição médica", ou seja TUDO o que seja intervenção médica. Depois basta-lhes, muito simplesmente argumentar que "com base no meu diagnóstico esta foi a opção que me pareceu mais correcta no momento" para que todos digam "àmen".

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Do outro lado da agulha!

Eu ganho a vidinha a enfiar agulhas no rabo de perfeitos desconhecidos. E apanho com montes de mariquinhas que têm "fobia" das picas, medo incontrolável, terror, pavor. Mas também apanho com malta a quem uma pica é apenas isso: uma pica! Apanho também mooontes de pessoas que me perguntam se eu tenho "mão leve". "Mão leve" era, até hoje, um conceito estranho para mim. Afinal, o acto de enfiar uma agulha no glúteo de um outro ser humano é tão simples como isso! É pegar na agulha e, com um movimento rápido, contínuo e seco, espetar essa agulha numa determinada zona da nádega do doente! E depois as opiniões dividem-se: há quem diga que tenho "mão leve" e há quem me apelide de bruto da pior espécie! Mas com isso vivo eu bem. Afinal se o enfermeiro é o mesmo, a agulha é sempre igual e a técnica é solidamente sempre a mesma, aqui o problema prende-se com a única variável da equação: o doente! Cá está, matematicamente provado, o problema é sempre do doente! Como confirmar então a teoria que existem enfermeiros "mão leve" e "enfermeiros-brutos"?
Desde há uns dias (6 dias para ser exacto) que ando a levar uma injecção diária para tratar uma tendinite, consequência das corridas. Caramba! É mesmo verdade! Nota-se diferença entre quem administra a injecção! No primeiro dia senti ligeiramente a agulha e o líquido mas nada de mais; segundo dia... O HORROR!! Senti tudo, a agulha, o líquido, a agulha a sair! Depois fiquei o resto do dia com uma dor na nalga que irradiava pela perna e, ainda hoje sinto uma pequena dor no local da injecção! O terceiro dia não foi muito melhor... no quarto e no quinto não senti nada, abençoadas mãos! Mas ninguém escapa impunemente a uma injecção de cerca de 6ml de líquido (é muito líquido, acreditem!) por dia e, hoje, sentado em frente ao computador enquanto vos escrevo, parece que estou sentado em cima de duas maciças bolas de golfe! Uma enfiada em cada nádega.
Quem diria...
PS: há novidades no "Asas para voar!"

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Cadilhos.

Malditos pesadelos, os sonhos maus que chegam todas as noites. Ontem mesmo ele perguntava-me:
-Tu és corajoso pai?
-Porque perguntas?
-Eu não sou corajoso.... Pai, também tinhas sonhos maus quando eras pequenino?
-Sim, filho. Mas os sonhos não existem! Não te podem fazer mal. Tu tens sonhos maus?
-Sempre. Eu não me sei defender... A avó ensinou-te a defender dos sonhos maus?
-Sim filhote, a avó estava sempre comigo, como eu e a mamã estamos sempre contigo! A proteger-te dos sonhos maus!

E ele abraçou-me e eu desejei ficar com ele nos meus braços até que ele supere este medo. E fiquei completamente desarmado com aquele apelo, aquele pedido de ajuda! E aqui aparece a verdadeira dificuldade de criar um filho: o equilíbrio. Será que estou a fazer o suficiente, o adequado? Ou estou a fazer de menos? Estou a dar demasiada importância a estas coisas? O que será que ele sente? O certo é que o meu filho está a crescer rapidamente. Principalmente no campo emocional e social. E ele conta comigo para ser a sua rocha, o seu porto seguro! Reconhecemos montes de atitudes que revelam um determinado traço de personalidade mas, o que será personalidade e o que será uma chamada de atenção? Quais as atitudes que devemos analisar como uma chamada, aquelas que têm uma causa subjacente? Que montanha-russa de emoções!

Algumas (muitas!) pessoas ficam ofendidas quando lhes sugerem que talvez não fosse mau levarem o seu filho a um psicólogo. Eu gostava de ir ao psicólogo para aprender a lidar melhor com o meu filho, para aprender as técnicas que ajudam a lidar com as frustrações dele e, acima disso, como evitar que as minhas frustrações prejudiquem o seu desenvolvimento. Gostava que ele falasse com alguém isento e profissional, alguém que me ajudasse a interpretar melhor o meu filho. Porque o amor incondicional quase nunca chega para resolver os problemas, sendo esse amor por vezes o maior obstáculo que os pais enfrentam quando se trata de compreender e ajudar os seus filhotes. Cada vez mais acho que isto de ser Pai é muito mais difícil do que o que parece. E ninguém nos ensina isto! Devia existir uma Academia de Pais onde fosse possível aprender mais e melhor sobre esta coisa da Paternidade, onde profissionais da mais diversas áreas ligadas à puericultura nos conduzissem pelos meandros da educação de crianças e jovens, nos dessem ferramentas para eliminar as zonas cinzentas das nossas relações com os nossos filhos, que nos avisassem das nossas limitação enquanto pais.

Agora percebo bem o velho provérbio: "Quem tem filhos tem cadilhos"...
O Gabriel está bem! Este texto não reflecte qualquer tipo de problema existente e é apenas uma reflexão acerca das minhas dúvidas, anseios e incapacidade enquanto pai.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

O Cuquedo.

"O Cuquedo" é uma história infantil que li imeeensas vezes com o Gabriel há uns meses atrás. Trata da agitação da selva com a chegada do Cuquedo. Uma narrativa simples e repetitiva mas muito divertida que o Gabriel rapidamente memorizou. É mais ou menos isto...
"Andava uma manada de elefantes de cá para lá e da lá para cá quando apareceu uma zebra e diz: ALTO LÁ! O que anda uma manada de elefantes a fazer de cá para lá e de lá para cá?!?"
"AI TU NÃO SABES?!! (respondem os elefantes) Anda aí o cuquedo, um animal muito assustador que prega sustos a quem estiver parado no mesmo lugar!" A zebra junta-se ao grupo e...
" Andava uma manada de elefantes e de zebras de cá para lá e de lá para cá quando aparece uma girafa e diz: ALTO LÁ! O que anda uma manada de elefantes e de zebras a fazer de cá para lá e de lá para cá?!?
"AI TU NÃO SABES?!? (respondem os elefantes e as zebras) Anda aí o cuquedo, um animal muito assustador que prega sustos a quem estiver parado no mesmo lugar!" A girafa junta-se ao grupo e...
"Andava uma manada de elefantes, zebras e girafas de cá para lá e de lá para cá quando aparece um rinoceronte e diz: ALTO LÁ!...
Resumindo, os rinocerontes juntam-se aos elefantes, às zebras, às girafas e ainda aparecem os hipopótamos e outros animais até, às páginas tantas, já toda a selva anda de cá para lá e de lá para cá quando aparece finalmente o Cuquedo que, afinal, nenhum animal conhecia! Como termina a história? Eheheheh, leiam o livro! E é impressionante como uma historieta infantil pode retratar tão bem a atitude da sociedade portuguesa face à tão falada Crise...
Da mesma forma que o Cuquedo causa o terror na selva, também a Crise causa o terror no país! País esse que é, afinal, uma selva e onde nós, portugueses, não passamos de uns animais que andam de cá para lá e de lá para cá (feitos parvos, diga-se!) como se isso resolvesse algum problema! Também a maneira viral como o terror do Cuquedo se espalha pela selva, de boca em boca, de animal para animal, onde o grupo maior arrasta consigo os grupos mais pequenos pode ser lido como uma analogia àquilo que se passa em Portugal! Cá, como na selva, o terror da Crise está a tomar conta das pessoas de uma forma irracional. Os relatos desanimadores e catastróficos dominantes estão a alastrar rapidamente e a arrastar consigo toda a gente! Na verdade, a Crise como o Cuquedo, é um monstro que a maioria dos Portugueses não conhece. Ouviu falar mas não conhece! E então, quando alguém, nos cafés, nos trabalhos, nas salas de espera dos hospitais, no talho pergunta "Afinal o que é a crise?" logo todos se apressam a dizer "AI TU NÃO SABES?!?! A Crise é um animal muito assustador..."
E assim, cá andamos todos em manada, feito parvinhos de cá para lá e de lá para cá à espera que a Crise seja como o Cuquedo, que só prega sustos a quem estiver parado no mesmo lugar.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Trabalho invisível.

O trabalho dos enfermeiros nem sempre é reconhecido. Muitas vezes porque é trabalho que não se vê, que se prolonga no tempo, que se faz nos bastidores digamos. Comigo passou-se uma situação, já há alguns anos, que confesso me deixou bastante desagradado. Não é que queira que me agradeçam pelo meu trabalho mas...
Trabalhava na Urgência e aquilo estava caótico. Normal, portanto! Entre um doente e outro fui abordado por um senhor que barafustava que tinha o pai à espera há mais de quatro horas, isto depois de ter feito uma série de exames. Problema: a ficha do doente tinha-se evaporado, juntamente com os exames do senhor! Falei com o filho e reconstituí o percurso do doente dentro do hospital e fui à procura. Encontrei a ficha e os exames enfiados numa gaveta de uma secretária de um cirurgião conhecido, de resto por "perder" as fichas dos doentes. Perdi cerca de 30 min com esta procura e, no final, falei com o médico com quem trabalhava naquele turno e pedi-lhe para resolver a situação. Informei o filho que o problema estava resolvido. O médico chamou o doente e deu-lhe alta. Estava tudo bem. No final, pai e filho derreteram-se em agradecimentos ao médico: "Ai Sr. Dr. se não fosse o senhor ainda estávamos à espera!". Admito que me senti bastante desconsiderado porque todo o trabalho foi meu e, se não fosse por esse trabalho, essa meia-hora que tirei aos outros doentes para fazer um trabalho que até nem era meu, mas que eu sabia que mais ninguém faria, esse doente ainda hoje lá estaria à espera!! Mas, no final, quem é que falou com o doente? Quem é que lhe disse "Vá embora descansado, as melhoras!"? Pois, não fui eu...
Óbvio que eu não estou à espera que me agradeçam pelo meu trabalho, que é pago. Mas este caso em particular ficou-me "entalado" na garganta pelo simples facto de o doente e o seu familiar nem sequer me terem dirigido a palavra na hora da despedida. Um simples "bom dia" e um sorriso teria sido o suficiente. Lembrei-me deste episódio agora mesmo, depois de uma doente me ter insultado porque estava à espera (e nem sequer há muito tempo!) e de nem sequer me ter dirigido a palavra à saída, depois de ter sido convenientemente tratada.
Parece que um texto que se iniciou debruçando-se sobre a invisibilidade do nosso trabalho se tornou numa reflexão sobre a falta de consideração de alguns (muitos, demasiados) doentes.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Em jeito de desabafo...

Hoje uma conhecida disse-me que tinha um "feeling" que eu não iria sair de Portugal. Nada de novo. Tivesse eu um euro por cada pessoa que me diz que não acredita, só acredita quando vir, que isto é conversa para aliviar o stress, etc, etc, etc. A maioria destas pessoas, quero acreditar, não o diz por mal, não para agoirar ou com má intenção. Aliás, as pessoas que sabem deste projecto são pessoas que trabalham comigo e que, no final da conversa me dizem meigamente que lhes vai custar deixar de trabalhar comigo. E isso acaba por ser bom! Mas voltando aos "feelings", o que me parece é que tudo isto lhes parece demasiado grande, demasiado trabalhoso e, acima de tudo, demasiado arriscado para se fazer. Afinal, eu até tenho um emprego certinho do Estado. Ao menos esses não falham, está lá o dinheirinho no 21 de cada mês, não serei despedido porque sou efectivo. É só vantagens porque raio vais agora lá pró frio, para a neve, ainda por cima para um país sem graça nenhuma? Nãããã! Isso és tu a aliviar o stress!
Calculo, admito que esta tarefa lhes pareça demasiado hercúlea para levar a cabo sem ajuda. Caramba, a mim aperta-me o peito só de pensar em toda a logística que teremos de enfrentar na altura da mudança, na hipótese (enormíssima!) de não conseguir vender a minha casa e ficar com uma renda importante em Portugal, em como encaixar o timing entre o fim do meu contrato cá e o início lá, o tempo que terei na procura (que se prevê difícil!) de uma casa lá, enviar os nossos pertences (poucos) para essa nova casa, na escolha das escolas para os miúdos e depois, bem depois é um país novo, uma língua que domino mas que não é a minha, uma experiência profissional completamente nova num ambiente que não se prevê muito acolhedor e todo o stress emocional que vai concerteza abater-se sobre toda a família! Por isso agradeço imenso que não me digam que têm um feeling que fico cá, que ainda mudo de ideias, que isto são desabafos de um jovem que gostaria de melhorar a vida mas que, enfim, a vida é assim e em Portugal, ao menos o café é bom e barato e a praia é de graça. A sério. Isso não me demove mas faz-me sofrer um pouco. Eu sei que é um enoooorme passo, eu sei que é arriscado, eu sei que as coisas podem correr mal por isso não precisam de mo relembrar.
Sejam hipócritas que não me importo. Mesmo que achem que me vou estatelar ao comprido um simples "Vai tudo correr bem." é suficiente. Ou então, não digam nada.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Monstros debaixo da cama.

Pesadelos. O Gabriel anda com pesadelos, normal de resto para uma criança com três anos. E, noite após noite, ele acaba por "saltar" para o meio de nós, de madrugada dizendo, muito naturalmente "Tenho monstros nos meus sonhos, aparecem nos meus olhinhos..." e enroscando-se na segurança que dá ter a mãe de um lado e o pai do outro! E surpreende-me a naturalidade com que ele fala dos seus sonhos, como se fossem reais, mas sabendo ao mesmo tempo que a acção decorre "nos seus olhos" como que se ocorressem numa dimensão paralela.
Ontem a história de adormecer foi "Os Músicos de Bremen", aparentemente inofensiva. Mas a dada altura da história os animais afugentam os ladrões aproveitando o escuro da noite, convencendo-os que se tratam de bruxas, monstros e dragões que assombram aquela casa. No final ele pergunta:
-Pai? O gato e o cão são monstros?
-Não filhote! O ladrão pensou que eles eram monstros porque estava escuro e ele não os viu?
-Eles não são monstros?
-Não filho, são só um cão, um gato, um burro e um galo muito espertos!
-Mas os desenhos são assustadores...
Ele olhou para mim por um instante, não muito convencido com a minha argumentação, mas agarrou nos seus companheiros de sono (dois cães de peluche, o Quico e o Cão!), deu-me um beijo de boa noite e deitou-se, depois de apagar a luz! Senti-me orgulhoso dele porque, mesmo depois daquela história assustadora ele não teve medo de dormir no seu quarto, com a luz apagada! É um valente o meu "mais velho"! Mas cerca das 5 da manhã: "Pai... há monstros no meu quarto..."

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

A culpa é dos queridos que mudam a casa!

Malditos queridos! Aquilo é um tremenda duma publicidade enganosa! "Ai q'horror, que decoração horrível e tremenda falta de gosto! Ai que detesto o lambrim do corredor e aquele vidro fosco tão anos oitenta!" E lá vem uma tia que sabe conjugar umas cores e muda aquilo tudo para uma divisão de catálogo de revista de decoração de interiores! E depois vêm os malucos das obras e fazem aquilo parecer fácil e barato e ao alcance de qualquer um! BAH!
E depois, que ideia é aquela de remodelarem UMA divisão? Se essa divisão está feia, imaginamos o resto da casa! Vou então jantar à novíssima sala de decoração neo-classico-moderna dos queridos e apetece-me, digamos, cagar. Saio da sala e... entro numa outra dimensão infernal onde o corredor tem azulejos azuis-e-brancos até meio da parede e o WC tem as porcelanas verde-couve! "AHHHHHHHHHHH", grito e saio a correr. Não dá. E outra coisa. Se alguém, um qualquer habitante de uma qualquer casa não consegue manter organizada uma divisão normalíssima imagino o que (não) farão com uma sala/quarto/cozinha tão "capa de revista". Giro, giro seria um programa "Um mês depois do Querido!" Mas o pior, o piorzinho desse programa é a vontade que causa em nós de mudar a nossa vulgaríssima casa. A capacidade que eles têm de nos fazer pensar que moramos numa espelunca desorganizada e sem graça nenhuma. E, ainda pior, de nos fazer acreditar que somos capazes de fazer o mesmo que eles. Não somos.
Assim, imbuído do espírito "Querido Mudei a Casa" lá fui eu envernizar o telheiro de madeira do jardim e pintar o portão da entrada. O envernizamento correu bem, até porque foi a Mariana que tratou disso. Eu limitei-me a pintar as tábuas a direito e ao final da primeira já estava a ter alucinações após snifar um bocado do "Bondex" de carvalho. Quanto ao portão... fui comprar tinta e pincéis e fiz-me ao trabalho! Trincha e rolo em punho e, pimba, ao final da manhã tinha o trabalho quase pronto. Olho para a minha obra-prima e, que raios!, tenho o portão de um branco-alvo pintado cravejado de pequenos insectos pretos colados na tinta fresca! Os c****ões dos insectos debatem-se para se soltar da armadilha e dão-me cabo do trabalho. Por cada um que tiro tenho que retocar a pintura e logo outro se enfia na tinta. Cabrões dos mosquitos! Isto não aparece nos queridos, que os insectos atacam a tinta fresca como se fosse um monte de merda fresquinho! Disso não falam eles! E depois, trabalho acabado mas cravejado de insectos negros que parecem reproduzirem-se na própria tinta, vai de lavar os pincéis, trinchas, rolo. Aparentemente existem vários tipos de tinta. A tinta das paredes sai facilmente com água. Descobri da pior maneira que a tinta dos metais não. Então, logo a água e tento lavar os objectos, nada acontece. Para ajudar aperto o rolo com as mãos e, pior um pouco, fico com as mãos brancas de tinta que não sai com água! Pareço estar a usar luvas de cerimónia brancas. De repente lembro-me: diluente! Vou buscar a lata que está na dispensa (pinto-a de branco com as minhas mãos entretanto) e vai de despejar aquilo nas unhas. Nada acontece a não ser uma breve visão de um elefante rosa a passar na rua. Talvez tenha inalado um pouco de diluente a mais... Fica tudo branco, cada vez mais branco, as mãos brancas, os braços salpicados de manchas brancas. E aquilo não sai por nada! MAS PORQUE É QUE OS QUERIDOS NÃO AVISAM AS PESSOAS QUE HÁ VÁRIOS TIPOS DE DILUENTE?? Aparentemente, para limpar tinta sintética é necessário um diluente sintético. Lógico? O ca******lho!
Tenho a impressão que o portão vai ficar só com uma demão...

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Adoro este programa (provavelmente pelas razões erradas!)

Hoje tive a oportunidade de, finalmente, ver um pouco do programa Biggest Loser. E foi engraçado! Apesar de ter as minhas dúvidas acerca das motivações dos concorrentes, uma vez que a única maneira de mexerem aqueles gigantescos rabos e fazerem dieta são 250 mil notas de dólar. Se o (mau) estilo de vida que levavam antes estava perfeitamente identificado e todos eles têm a perfeita noção do seu problema (caso contrário nunca teriam concorrido ao programa!) e se, mesmo assim continuavam a emborcar massas com queijo e donuts recheados como se fossem paquidermes porque não procuraram ajuda antes? A Mariana diz que eu sou um porco insensível e que a razão de eles quererem entrar no concurso é o facto de estarem acompanhados. Seja.
E então lá estavam eles, arrastando-se na passadeira ao final de 30 segundos, a destilar água que daria para encher uma pequena piscina, a chorar ao final de 5 minutos de exercício de aquecimento, a vomitar, a desmaiar, a querer desistir. E até aqui tudo bem! Se eu não sou grande fã de reality shows pela simples razão que eles se baseiam normalmente na incompetência dos seus participantes, na sua desgraça, nos seus podres, este pelo menos é honesto e tem uma mensagem simples e verdadeira: queres perder peso meu paquidérmico amigo? Só tens um caminho a seguir: o da abnegação! Aqui se vê que, com o empenho necessário a todos os grandes desafios, é possível perder 20, 30, 40 kg e que não há fórmulas milagrosas. É simples: malhar o corpinho e fechar a boquinha! E nisso, este programa não engana ninguém. Acreditem, eu vi no mesmo dia o fim de uma temporada e o início de outra e muito sinceramente não queria acreditar! Malta com mais de 130 kg a descer para os 80?! Isso é de louvar e de premiar. E aqui está outra razão de peso (piadinha eheheh) para ver este programa: na verdade todos os concorrentes ganham! Perdem peso de uma forma dura mas saudável! Que eles consigam manter esse estilo de vida, isso é outra história...
Mas para mim, a verdadeira razão que me prendeu ao aparelho foi outra. Se um dos instrutores é um "pãozinho sem sal", um fulaninho em forma mas com um arzinho perfeitamente... inócuo, já a instrutora...! Jilian é enérgica, berra com os gordos, faz ameaças físicas, faz pressão psicológica, agride-os verbalmente, expõem as suas fragilidades e confronta-os com elas! Ela tem uma voz rouca que fica ainda mais rouca quando berra! Ela sobe para cima dos concorrentes, para cima das máquinas, ela sua com eles! Fez-me lembrar quando fiz a minha recruta, quando havia sempre alguém a berrar-me aos ouvidos, a gritar-me para correr, para saltar, para rastejar! E eu emagreci bastante durante um mês de recruta! A diferença é que nenhum dos meus instrutores tinha esta aparência...

E isso é que foi uma pena.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Ora aí está coisa para exigir um manual de instruções!

Quando a minha mulher me pediu para "comprar um shampoo" parecia ser tarefa fácil! Era isso ou ir para a fila do fiambre e do queijo. Mas enfim, shampoo é coisa fácil. Pensava eu...
Eis que chego ao local dos shampoos do Continente (malditos!) e descubro que, afinal não existem ali só shampoo. Há gel duche, acondicionador, máscara, desembaraçador. Máscara? Para cabelos? Ora aí está um conceito que gostava que alguém do sexo feminino me explicasse! Máscara... sinceramente. Então deparo-me com uma infinita prateleira de shampoos com uma variedade de cores absolutamente psicadélica que, juro que comecei a ouvir os Greatful Dead e a ver borboletas gigantes a voar na minha direcção! Qual escolher? Receei ter de os cheirar a todos pois temia ter ali mesmo um grande mal epiléptico. Raciocínio masculino: exclusão de partes! Eliminamos já as embalagens cor-de-rosa e amarelas ou com qualquer aplicação mais brilhante. Aquele que causa orgasmos nas gajas também não porque com orgasmos fingidos daquela maneira eu não me entendo. Marca que ocupe toda a prateleira, de cima a baixo, também sai já de cena porque isso significa demasiadas hipóteses e o meu cérebro já estava perfeitamente apoplético. Reduzi então as hipóteses de escolha apenas a shampoos com... embalagens brancas! "Head&Shoulders" e "Pantene" são duas marcas que não enganam! Ora, como não havia o "Head&Shoulders" Mentol (ahhhh, adoro aquele fresquinho no couro cabeludo logo pela manhã) optei por um "Pantene Classic", cabelos normais. A esposa pediu um shampoo, foi um shampoo que comprei!
Depois dirigi-me à diminuta secção de produtos para homem e comprei o meu fiel desodorizante "Dove For Men" juntamente com o gel de banho da mesma linha e fui-me embora. Simples, rápido, eficaz.

Em tempo de vindimas...

De todas as castas de uvas que conheço a minha preferida é, de longe!, a uva "colhão-de-galo".

domingo, 10 de outubro de 2010

A Minha Terra é Onde Me Sinto Bem.

Estivemos dois dias na "terra". Mas o que é a "terra"? Não sei. Para muitos a "terra" é o sítio onde nasceram, onde os pais nasceram. É um sítio com o qual têm uma ligação emocional muito forte seja pelas tradições, pela família, pelas Festas de Verão, pelas vindimas, pela matança do porco, pela apanha da fruta, pela paisagem, pelos cheiros, pela comida. Eu vim da "terra" com 18 anos. Tendo 31, a maior parte da minha vida ainda está ligada à "terra". Mas não a mais importante.
No Sábado pela manhã fui correr. Estradas e caminhos velhos conhecidos, percorridos principalmente na altura em que jogava futebol (juvenil) na equipa da terra e ia na carrinha dos clube buscar e levar os atletas dos pontos mais distantes da aldeia e até das aldeias vizinhas. Os velhos caminhos, o fresco do orvalho da manhã, o verde de perder de vista e os montes, uns atrás dos outros, as aldeias sempre diferentes mas todas iguais. E na verdade senti-me estranho a tudo aquilo. Nasci ali, cresci ali mas não me sinto dali. Como as gentes que me olhavam como um olhar ao mesmo tempo curioso e estranho. Talvez fosse do azul-choque dos ténis, do verde florescente da camisola, tão contrastantes com o verde escuro da paisagem, do castanho da terra, tudo ainda mais escurecido pelo tempo chuvoso e cinzento.
Hoje, ao regressar a casa senti uma estranha emoção de acolhimento ao entrar em Lisboa. Senti-me mesmo em casa, por estranho que pareça, no meio dos carros, do rebuliço, o Aeroporto, Campo Grande, O Zoo, Monsanto, a Ponte 25 de Abril. Já aqui tinha escrito, algures, que Lisboa tem uma luz especial, mais brilhante que em qualquer outro sítio que eu conheça e sinto que, por muito que vá partir, que queira partir, Lisboa acolher-me-á sempre bem!
Mas o certo é que vou partir, outra vez. E estou entusiasmado, excitado, apressado, angustiado pelo arrastar do tempo. Para um novo país, uma nova língua, um novo clima. Mal posso esperar. Raízes? Sim, ténuamente na "terra", muitas em Lisboa, bastantes em Portugal. Mas não as suficientes para me impedirem de partir. Um primo, nascido e criado em Paris, dizia-me que por muito mundo que conhecesse gostaria de passar os seus últimos dias precisamente em Paris. Eu, no que me toca, gostava de passar os meus últimos dias numa qualquer ilha paradisíaca, no meio de palmeiras e cocktails! Ou em Paris, ou em Nova Iorque, ou em Lisboa, ou num resort de luxo no Allgarve! Velho, enrugado, chato mas cheio de estilo!

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

A Vida é feita disto!

Desde que criei o Asas para Voar!, tenho tido uma nova e giríssima experiência de contacto com os leitores do Cheirinho a Éter... Na verdade é muito comum receber comentários e mails de potenciais compradores de um artigo do site que começam da seguinte forma: "Miguel, sou um seguidor do Cheirinho a éter desde o início / desde que ouvi o programa na rádio..." e depois descrevem como se riram ou choraram com este ou aquele texto, como descobriram uma música ou um livro por minha sugestão, como descobriram o Parque da Paz em Almada, enfim... E isso deixa-me muito contente! Para além disso, vou ter a oportunidade de conhecer alguns desses lindíssimos seres humanos quando lhes for entregar os seus novos "brinquedos" e isso, para mim é um privilégio.
O Asas para Voar! aproximou-me de alguma forma de alguns dos seguidores do Cheirinho a éter e é muito bom ler os votos de felicidade, os desejos de coragem e sorte, o carinho que vem dentro daquelas linhas electrónicas que são por vezes tão impessoais e frias. Algumas pessoas pedem-me para não acabar com o Cheirinho a éter depois de sair do país, para continuar a escrever. Isso, meus amigos, está mais que garantido pois se até agora tenho tido muito material para escrever, imagino a quantidade de novas emoções, aventuras, situações, ansiedades e felicidade que vão acontecer na nova etapa da nossa vida!
Obrigado a todos por estarem desse lado e por nos darem tanto carinho!

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Feelgood Music.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Fundamentalistas.

Jurei a mim mesmo que não voltaria a este assunto. Mas caramba, assisto a discussões noutros blogs, nas caixas de comentários e continua a haver imbecis (assim mesmo, imbecis!) a lançar ataques e veneno mas, pior de tudo, a continuar o discurso de "se fosse eu...". Não vou aqui tentar justificar a minha (nossa) decisão, não vou aqui inciar o debate. Nem sequer publicarei qualquer comentário ofensivo. O que tenho a dizer é isto, e só isto: de todos (e foram muitos!) os comentários ofensivos, moralistas, paternalistas, especuladores, baixos, desonestos, intransigentes, canalhas que têm parado nesta e na outra caixa de comentários, todos de "protectores-de-animais-amo-os-bichinhos-mais-que-tudo" não houve UM, UMZINHO SEQUER que se tenha prontificado a ajudar efectivamente o desgraçado do cão e a resgatá-lo das garras desta família de facínoras abandonadores de cães desprotegidos.
E é assim. Conheço montes de gente desta que apregoa "quanto mais conheço as pessoas mais gosto dos animais", de voluntários dos canis e gatis desse Portugal. Gente que, embora goste de animais, não tem a racionalidade suficiente para perceber quando é melhor para esse animal seguir um rumo diferente. Conheço-as porque, nos últimos anos recebi cães e gatos na minha casa, alimentei-os, cuidei deles, arranjei os estragos que fizeram no meu sótão, limpei a merda e a urina que fizeram no meu soalho. Animais abandonados, maltratados, esfomeados. E ouvi montes de histórias de pessoas malvadas que não quiseram ficar com o bichinho e que, vendo bem as coisas, não tinham a mínima hipótese de os mantes. Gente que tem 7, 8, 10 cães ou gatos em casa. Gente que, sob a capa do altruísmo, é de um egoísmo atroz porque se aproveitam dos bichinhos para despejar as suas frustrações emocionais. Gente que não sabe amar e que finge amar os gatinhos e os cãezinhos. A mesma gente que, tendo os contactos para me poder ajudar, a mesma gente que recorreu a mim para dar guarida a este e áquele cão ou gato, a gente que teve a minha ajuda incondicional, foi a mesma gente que me condenou e fechou a porta no momento em que lhes pedi ajuda. E senti o mesmo que a I. tão bem explica neste texto (obrigado a ela pelo apoio, mesmo que me cheire que ela não deve ser fã da nossa decisão mas tem a decência de não condenar!), aquele sentimento de que somos uns sacanas sem-moral. Já tive um outro cão, chama-se Kenai, um enorme Serra-da-Estrela que cresceu e se tornou agressivo para o meu filho. Que fazer? Abandonar e viver com a consciência pesada? Colocar num canil, um cão que só socializava comigo? Abater? Pois hoje o Kenai está com uma família que tem muito mais espaço que eu, muito mais disponibilidade que eu. Um novo dono que o escova todos os dias, que conversa com ele, que brinca com ele. A última vez que fui visitar essa família, o Kenai não se aproximou de mim. Preferiu deitar-se aos pés do seu novo dono, numa posição de afecto e protecção. E eu estou muito feliz por ele.
Porque, por vezes, demasiadas vezes, o Amor, o verdadeiro Amor exige sacrifícios pessoais para que aquele que amamos possa ser feliz. E quem não percebe isto não sabe Amar. Nem as pessoas e muito menos os animais.

domingo, 3 de outubro de 2010

Para fim de conversa.

Como era de prever, começaram as mensagens de protesto, desagrado, ódio relativamente à decisão de não levarmos connosco o Gastão na nossa viagem. Quem lê este blog, quem me conhece através dele, sabe que sou um defensor dos animais como outro qualquer. Sabe que sou contra as touradas e que abomino o abandono de animais. Para os que me criticam em tenho algo a dizer: não pensem que é fácil para mim essa decisão. Não vos pesa mais a vós do que a mim. Lembrem-se que fui eu que o adoptei, o tirei da rua, que o tratei, com quem brinquei, com quem o meu filho brinca. Não foi nenhum de vós, críticos. E lembrem-se que seria muito mais fácil para mim deixá-lo num canil, na rua ou até mandar abater o Gastão. Mas não, não é nada disso que se trata. Trata-se apenas de encontrar uma família que cuide dele. E nós queremos manter a nossa parte de responsabilidade por ele, se não presencial, através do suporte das despesas que ele possa trazer até ao final da sua vida.
Podem especular sobre o que poderíamos ou não fazer, sobre estratégias a adoptar, sobre o que quiserem mas não esqueçam nunca que planeámos isto nos últimos 2 anos (!) e que ele é a nossa prioridade número um. Muitas lágrimas foram já choradas debatendo esta situação. Por isso, já que são tão amiguinhos dos animais, poupem as energias que gastam a escrever textos cheios de veneno e ataques. Já sabemos que não nos querem bem, que somos umas bestas. Mas o Gastão continua a precisar de ajuda. Sendo ele um animal e sendo vós arautos defensores dos animais... é fazer as contas.
Obrigado e bom dia.

sábado, 2 de outubro de 2010

Livros a metro!!

Verdadeiras pechinchas literárias!! Aqui.

Prenúncio?

Ontem, dia 1 de Outubro de 2010, fui colocado num novo serviço. Uma nova equipa para me integrar, novas rotinas para apreender, um novo espaço físico. Fiquei triste porque a equipa onde trabalhava antes era uma equipa jovem, coesa, ritmada, e levou algum tempo a construir. Agora sou "o gajo novo" com algo a provar. Se não competência, que essa (felizmente) precede-me dentro daquele hospital, tenho a provar que sou um colega digno de entrar nesta nova equipa. As primeiras impressões que tenho dela, da equipa, é que é bastante fechada e com alguma dificuldade em acolher estranhos. Logo se verá.
O que é curioso é que esta mudança se dá exactamente um ano antes de uma outra, muito maior e com muitas mais consequências na minha vida e na da minha família. Mas por essa aguardo com a maior das motivações!

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Asas para voar!

Eis que chega o momento de revelar algo que trago preso na garganta há dois anos...

A vida dá voltas e voltas e, por vezes damos por nós em lugares que nunca julgámos possíveis. Uns lugares bons, outros maus. Nunca julguei possível que a Mariana, fisioterapeuta, nunca encontrasse um emprego digno desse nome. Nunca julguei possível que fosse capaz de trabalhar em dois empregos para suportar as despesas familiares. Nunca julguei possível olhar para o futuro dos meus filhos e não ver luz, só negro. Mas é aqui que me encontro hoje. E será que vejo um futuro onde a minha mulher possa trabalhar, ganhar o seu próprio dinheiro e a realização profissional? Será que vejo um futuro onde eu possa trabalhar em apenas um sítio sem perder a estabilidade económica? Será que vejo um futuro onde os meus filhos possam estudar, viver a juventude e encontrar um emprego digno? Não neste país!
Em 2008 surgiu a oportunidade de uma vida, a de trabalhar no estrangeiro. Neste caso em Lausanne, na Suíça. Nem era só um trabalho, era um projecto a longo prazo que envolvia trabalho, formação, progressão na carreira. Por obrigações contratuais com um dos meus empregadores não me foi possível aceitar. Mas a porta ficou entreaberta e eis que chega a altura de partir. Não é já... é daqui por um ano. 365 dias em que temos de resolver a nossa vida em Portugal, vender os nossos pertences, organizar a logística que uma mudança destas acarreta, e preparar o início da nossa vida lá, encontrar casa, escolas para os miúdos, aprender a língua (no meu caso, só melhorar!) e todas as pequenas coisas que, acumuladas dão um trabalhão do caraças! E 365 dias, um ano, não é assim tanto tempo como parece. E algumas coisas só avançam quando outras estiverem resolvidas.
Mas há coisas que podemos ir adiantando para que seja mais fácil o momento da partida. E é aqui que vocês entram. É preciso cortar amarras, largar lastro para que este balão voe mais alto. Vamos tentar vender (quase) todos os nossos pertences, desde a casa até à loiça de cozinha para que possamos partir apenas com o essencial para o novo recomeço. É um projecto enorme e não vai ser fácil mas, conto com todos os meus amigos: os reais e os virtuais. Criei um blog onde colocarei os artigos que serão postos à venda, por uma verdadeira pechincha, e que poderão ser empregues nas vossas casas, em casas de férias, casas para alugar, quintas, quintais, cozinhas rústicas. Não peço que comprem mas peço que passem a palavra!
Não queremos ir para Brugges mas queremos Asas Para Voar!

(É engraçado que eu revele isto logo após o anúncio de novas medidas de austeridade pelo Governo mas isto já estava pleneado há muito. Esse anúncio só me motiva mais ainda a ir embora...)

Da Realização Pessoal.

A vida é feita destas coisas. Nunca gostei de correr, não percebia o objectivo. Todo o desporto que não envolvesse uma bola não era para mim. Mas depois, os 30 anos mudaram tudo! E no último domingo, 26 de Setembro, cumpri a minha primeira meia-maratona! São 21 km de prazer e sofrimento, muitas vezes em simultâneo! A esmagadora maioria das pessoas não tem a noção real do que são 21 km, até porque de carro se demora 15 minutos a percorrer essa distância. 21 km parece "já ali", mas não é! É partir do tabuleiro da Vasco da Gama, correr até Sta. Apolónia e regressar parando em frente ao Centro Comercial Vasco da Gama no Parque das Nações! Correu tudo bem até ao km 14. Depois "quebrei" um bocado e arrastei-me até ao km 18. Fui ultrapassado por imensos atletas e estava a "ferver"!! Sentia-me lento e pesado e só queria que acabasse! Se estivesse na mesma situação à 10 anos atrás teria arrancado em fúria atrás de quem me ultrapassasse e teria acabado por "rebentar". Mas não, aguentei-me e só pensava "Mais á frente vou ultrapassar esta malta toda! Eles vão rebentar no último km!".
Ao km 18, não sei se foi da energia de uma banana que entretanto enfiara pela goela ou da vontade de acabar com a corrida, recebi uma garrafa de água que despejei na mona e arrisquei! Aumentei a passada o mais que consegui, ultrapassei um e outro concorrente e depois outro! E de cada um que ficava para trás mais eu corria! Sentia o coração a rebentar no peito, as pernas a pedirem clemência, os joelhos deixaram de existir, mas eu corri. E nos últimos metros gritava "FORÇA! VAI! ESTÁ QUASE! CORAGEM!" a todos os que deixava para trás! Mas isso era mais para mim próprio do que para os outros. A meta apareceu, elevei os braços e cheguei! E como me senti realizado! A equação é simples: são 21 km a percorrer no mínimo de tempo possível e, mesmo assim, já não me sentia assim tão contente comigo mesmo há muito tempo! E assim, ao final de cerca de 1 h e 43 min, bem colocado no primeiro 1/4 da tabela classificativa, cumpri um dos meus objectivos para este ano! Em Dezembro há mais!!

(Depois da chegada, conversando com alguns companheiros de viagem!)



quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Há sempre duas faces (ou mais) em todas as histórias.

Naquela altura eu era um jovem enfermeiro com apenas alguns meses de experiência. Trabalhava numa grande Urgência de um hospital de Lisboa, daquelas com 6 e 7 horas de espera. Estava destacado para a Equipa de Reanimação, um grupo de 3 enfermeiros nomeado para acorrer às situações de morte eminente do doente. O "besouro", uma campainha de som rouco, tocou. Era a hora de correr para a sala de reanimação. Os bombeiros tinham trazido uma senhora, vítima de acidente de mota. Surpreendentemente não apresentava ferimentos graves visíveis. Alguns hematomas e escoriações. Mas estava pálida, o olhar vazio. Os médicos chegaram logo depois de nós. A doente sangrava profusamente pelo nariz e pela boca. Mau sinal, muito mau sinal... fractura da base do crânio, lesão cerebral grave e potencialmente fatal. Os monitores mostravam tensões arteriais baixas, pulsos fracos, a linha do electrocardiograma era frágil e prenunciava uma paragem. A minha função consistiu unicamente em tentar parar aquela hemorragia nasal. Apenas isso e não fui capaz. Coloquei compressas atrás de compressas, e esses compressas logo ficavam ensopadas de sangue. Colocava mais compressas e essas ficavam púrpuras em segundos. Era tanto sangue... mas a senhora não tinha ferimentos.
Os monitores apitaram todos, estridentes, histéricos. Os médicos e os enfermeiros mais experientes iniciaram as manobras de suporte de vida, básico e avançado. E eu continuava a colocar compressas que logo se ensopavam em sangue. Eles comprimiam o peito dela, introduziam soros e fármacos para ajudar o coração. Nada resultou. A linha do monitor cardíaco ficou plana. E o alarme contínuo. Alguém desligou o aparelho. Os médicos saíram.
O silêncio tomou conta da sala até que um bombeiro explicou o que se passara. A senhora tinha 41 anos e era de uma família rica. Festejava naquele dia o aniversário de casamento na sua quinta. Oferecera uma mota ao marido e foram dar uma volta. Num cruzamento, um ligeiro toque com um carro desequilibrara o marido e ela caiu e bateu com a cabeça. Foi o suficiente. Tinha três filhos. Dezassete, treze e sete anos. Estavam todos na sala de espera. O chefe da equipa de enfermagem ordenou: "Limpem a senhora. Levem-na para a sala de exames. Deixei-na sem tubos, sem soros, sem monitores. E vistam-na com uma bata. Depois mandem entrar a família..."
Limpei o corpo, retirei tubos e agulhas, vesti-a. Continuava a sangrar pelo nariz por isso tive de deixar compressas nas narinas. Fiz o melhor que pude. Depois entrou o marido, sozinho. Sentou-se junto à senhora e chorou. Abraçou-a e chorou. Beijou-a e chorou. Por esta altura as minhas colegas choravam também, a um canto. e eu sentia-me claustrofóbico, o ar parecia demasiado pesado para respirar e queria sair dali. Mas nenhum de nós, enfermeiros, abandonou a sala. O homem recompôs-se e mandou entrar os filhos. Os dois mais velhos choravam serenamente. A pequena, 7 anos, perguntou: "Mamã? Estás a dormir mamã...". Saímos todos, os enfermeiros, era demasiado. Deixámos a família a sós.
Naquele turno e nos próximos, uma sombra de tristeza escureceu o ambiente, as conversas, os humores. Mas outros doentes entram e morrem a toda a hora. Nós estamos lá para eles, prontos, preparados, motivados. Aquela senhora foi especial para todos nós e ainda hoje falamos dela.
A enfermagem não é uma profissão romântica.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

A Dura Realidade.

O texto anterior ficou a "marinar" propositadamente. Sabia que a sua crueza iria chocar muitas pessoas, como chocou. Na caixa dos comentários, como em opiniões de colegas que lêem este blog foram comuns os sentimentos de indignação, de ofensa, de falta de sentimento ético (seja lá o que isso for!). Mas a verdade é que eu sabia disso, dos sentimentos menos nobres que esse relato iria causar nos leitores. Mas, lamento desiludir, ele reflecte a mais pura das realidades. Alguns comentários faziam o paralelo entre tratar de papéis e tratar de doentes. Que não é a mesma coisa, que os papéis podem esperar e os doentes não. Sim, é verdade. Mas não é menos verdade que a morte, o sofrimento, a dor são o nosso objecto de trabalho e, logo estão banalizados. O primeiro morto que eu cuidei, que toquei, que lavei, a quem tirei os tubos, que identifiquei, que coloquei no saco ficou cá gravado. Ainda hoje recordo a face, o corpo marcado pela doença e pelo calvário que passou na cama. E recordo ainda hoje, como um murro no estômago, a maneira como esse homem foi colocado na "maca-fúnebre". O que me passou pela cabeça, há mais de 10 anos atrás foi que tratavam aquela pessoa como se uma caraça de um porco abatido se tratasse!
A morte é banal, na nossa linha de trabalho. Ao contrário da maioria dos "empurra-papéis", nós temos que lidar diariamente com a nossa mortalidade e com a sua fealdade. Eu, de cada vez que recebo um novo doente,velho, acamado, esburacado, deparo-me com uma possibilidade do meu futuro. Lamento informar, mas a morte não é bonita nem agradável nem tão pouco romântica como no cinema. E sim, para nós é apenas mais um dia de trabalho, mais uma tarefa no turno, mais papéis para preencher, mais cuidados fora da rotina. Agora, o facto de ser uma situação triste não implica que nós estejamos tristes, sensibilizados, sintonizados com esse sentimento. Há mortes que nós sentimos, outras nem por isso. Mas uma coisa é certa: quem ousar pensar em encarar estas situações com a atitude pesarosa típica dos velórios bem pode desistir de ser enfermeiro.
Porque a Enfermagem está longe de ser uma profissão romântica...

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

-Oh merda! Já está com aquela respiração de peixe!
-Foda-se... pode ser que se aguente até de manhã. Não queria nada ter de andar a lavar e ensacar o morto ás tantas da madrugada.
-Achas o quê? Quatro da manhã?
-Não pá! Ou morre agora ou então que se aguente aí até às 7. Preciso mesmo de ter uma noite descansada.
-Podíamos lavá-lo já e -lo no saco agora! Era só fechar depois!
(risos)
-Ehhh pá, que mau! Muito mau!!
-Coitado do homem...
-Coitado mesmo. Ao que um gajo chega...

Esta conversa aconteceu. Aliás, acabou de acontecer. E ainda fico impressionado com a dureza das palavras que, por vezes, saem da minha boca. Na verdade, julgo que nenhum de nós, que as proferimos as sentimos verdadeiramente. Serão talvez um escape perante o inevitável, o sofrimento de um Homem, a morte de alguém e o caminho de sofrimento que esse alguém tem de percorrer. É a impotência, a pequenez, a nossa insignificância, o apodrecer dos corpos outrora jovens. É enfrentar o nosso futuro mais negro todos os dias, uma e outra vez. É projectar-mo-nos naquela cama, com aquela dificuldade, com aquele corpo esburacado pela pressão dos nossos próprios ossos já despidos de qualquer músculo. Foda-se! Eu não quero morrer assim! E se algum dia me encontrarem assim, naquela decrepitude, a chafurdar na própria merda, a cheirar a podre, a lutar para meter ar nos pulmões peço-vos: acabem com o meu sofrimento! Não me importa de que maneira, mas sejam rápidos e eficazes. Chama-se misericórdia e há poucos que a pratiquem.

Por exemplo, as muletas verbais.

As "muletas verbais" são aqueles auxiliares de discurso muito usados por pessoas cujo vocabulário é tão pobre que se agarram à única palavra que dominam para colorir aquilo que dizem. Já todos ouvimos o uso excessivo e nem sempre adequado de "portantos" e "nomeadamentes" que poluem qualquer tentativa de produção de um discurso fluido. Eu também tenho as minhas "muletas" mas não tanto ao nível da repetição de vocábulos. Como vim a descobrir durante uma filmagem de uma aula que dei, no âmbito do Curso de Formação de Formadores, eu é mais "pausas sonoras", breves (e não tão breves!) "ahhhh" ou "hmmmm" que preenchem os momentos em que organizo o meu raciocínio, construo o meu discurso. Não é bonito, não é bonito...
Mas, ultimamente tenho detectado que uma nova "muleta" ganha cada vez mais espaço nas minhas conversas. E isso é irritante, tão mais irritante como a consciência que ganho da sua existência e da minha incapacidade para a evitar. Por exemplo, cada vez que inicio o meu discurso advirto-me para não a usar. Ainda ontem , por exemplo, estava a falar com um colega e contei pelo menos umas três ocasiões em que a usei. Olha, por exemplo a falar com a família de uma doente estava capaz de me bater, de tantas vezes que a usei! Mas, por exemplo, se a conversa tiver lugar num ambiente mais profissional e for mais técnica já não uso a muleta! É estranho. Por exemplo, nas passagens de turno ou em debates profissionais não ocorre. Mas mesmo, mesmo mau é quando, por exemplo, eu vou, por exemplo, dar um exemplo qualquer para ilustrar o discurso! Por exemplo, imaginemos que estou a falar das corridas, por exemplo, e descrevo o treino, as distâncias, a dieta a seguir. Por exemplo, isto é tudo por exemplo!

terça-feira, 21 de setembro de 2010

O Abraço no Masculino!

Num outro dia enquanto passeava com a família encontrei um colega de outras paragens profissionais que já não via algum tempo.
-Grande Tiago! Como é que isso vai?
-Miguel, ganda maluco! Já não te via há uns tempos!
Aperto de mão, abraço, algumas palavras e adeus, adeus qualquer dia temos de combinar um cafézinho! E, no final de tudo a Mariana exclama: "Mas que raio de maneira de abraçar tão estranha que vocês usam para se cumprimentar...". Passo então a explicar.
Abraços desses directos, braços entrelaçados no pescoço, peito com peito, beijinho no rosto não se usam entre homens. Estão reservados para mulher com mulher ou homem com mulher ou ainda pai com filho! Homem com homem não funciona assim. O primeiro passo é o cumprimento de mão, o vulgarmente designado "bacalhau"! Pode ser na forma clássica mas, normalmente ocorre na forma modificada, a mão elevada à altura do peito com o polegar a apontar para nós que é atirada contra a mão, igualmente colocada, do nosso companheiro! Depois de bem encaixadas, as mão puxam o nosso compincha em direcção a nós sendo que o contacto físico se dá braço com braço e o nosso ombro contra o ombro contrário do outro. Este movimento impede contacto físico excessivo, contacto esse que poria em causa toda a "coolness" do movimento além de que, demasiado contacto de dois peitos masculinos pode ser um bocado rabeta! Posto isso, a mão livre serve para dar fortes palmadas na omoplata do companheiro. Atenção que é na omoplata! Mais uma vez, esta localização impede que o braço envolva as costas do outro eliminando o factor "rebetice" e permite que as palmadas sejam vigorosas e sonoras. Sim, porque um abraço entre dois machos quer-se sonoro e viril. Terminadas as palmadas, que serão tão fortes como forem as do outro, desfaz-se rapidamente a posição de contacto para que não haja mal-entendidos. Ficar a conversar com as mãos dadas também faz disparar o "alerta rabeta". E pronto, não estou à espera que as mulheres que lêem este blog entendam este ritual tão importante nas relações macho-macho, mas pelo menos ficam esclarecidas!
Não precisam de agradecer.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Porque quem não se sente não é filho de boa gente.

Ainda na linha da desilusão, do desencanto, do divórcio com a profissão...
É engraçado como por vezes o Universo parece convergir. Ambas as instituições onde trabalho estão a passar por uma fase de "convulsão administrativa" que vai deixar marcas profundas em todos os seus funcionários menos nos administradores que causam as referidas convulsões. Se, num dos Hospitais o meu lugar está assegurado, no outro nem por isso. Mas, na verdade o que me faz reflectir e me entristece é a forma como esses cortes, reorganizações, remodelações são pensadas e conduzidas: sem nenhum tipo de escrúpulo para o trabalhador!
Nos últimos dias tenho-me sentido como apenas uma fracção de um algarismo qualquer presente num qualquer papel, gráfico, apresentação. Nem sequer um número. Nada. Porque é isso que nós somos, quando vistos da perspectiva do Administrador sentado na sua poltrona reclinável de pele! Não peço sequer que saibam o meu nome, ou o dos meus colegas mas que reflictam que todos nós (enfermeiros, auxiliares, empregadas da limpeza) contribuímos para o sucesso daquela instituição. Que nós SOMOS a instituição. E que merecíamos mais do que uma carta registada com aviso de recepção a dizer: "Dentro do estipulado legalmente, informamos que a sua colaboração com a nossa instituição cessa no próximo dia..."

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Facebook Status

Miguel foi correr de madrugada. Perdeu a chave do carro. Encontrou-a. Miguel tem uma sorte do cara****!

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

A culpa é de quem lhes dá audiências!

Não gosto da TVI. Por princípio, é um canal que não vejo. Porque os programas são populistas, fracos, pouco inteligentes. Porque aposta na promoção da mediocridade e do voyeurismo. Porque não educa, não ensina. Tem uma abordagem pela negativa, pelo sensacionalismo, pelo "diz-que-disse". A melhor maneira que encontro para a descrever é esta: sinto que estou constantemente a ver as velhas de uma aldeia qualquer do Portugal profundo a falar da vida deste e daquele! E o Jornal Nacional é pouco mais que sofrível, os filmes são de série Z ou pior e as novelas, bem, as novelas...
Mas esta notícia é deprimente. Até para os padrões da TVI! O que não vem descrito na versão on-line do jornal faz toda a diferença: falta dizer que a TVI passou a entrevista ao criminoso dando a perceber que ele estaria no estrangeiro quando, na verdade ele estava nos estúdios em Oeiras! Ou seja, a TVI protegeu e escondeu um criminoso! Já é mau permitir o tipo de visibilidade típico de uma TV líder de audiências mas, ainda pior é ser cúmplice no crime de proteger e dar guarida a um criminoso! Não tenhamos dúvidas, foi este o caso! E, logo aqui encontro duas grandes razões para o atraso de vida que se verifica em Portugal: em primeiro lugar, o facto de uma TV nacional (ainda que privada) tenha sido cúmplice num crime e que ninguém ache isso estranho e, em segundo lugar que a TVI seja líder de audiências em Portugal. E isso explica muito acerca do povo português.

Direito de resposta!

Podem parar de armar o "sexo superior" porque 90% das meninas também têm que ir ler umas coisinhas!!

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Musicas de Arrepiar a Espinha!

E hoje, na rubrica "Músicas de Arrepiar a Espinha!", apresento uma canção lindíssima de um grupo australiano cujo álbum "Conditions" é algo de maravilhoso. Chama-se "Soldier On", dos Temper Trap. A parte mesmo arrepiante, mas arrepiante mesmo, chega cerca do minuto 3:50. Ouçam uns dos mais belos 6 minutos que já foram feitos. É garantido!

"Keep your heart close to the ground..."



E toda esta emoção e arrepios na espinha logo ao km 2!! Fantástico!

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Suas malucas!

Descobri este vídeo através da Pólo Norte e dele retiro algumas conclusões:
-Afinal quando elas nos pedem flores estão a desejar que nós colhamos uma e apenas uma flor. A delas.
-Constato neste filme que elas são capazes dos piores fingimentos orgásmicos! É impressionante! Por momentos acreditei que estavam realmente a... ehhh, será que já alguma vez fui enganado?
- Meus amigos, quando elas falam em romantismo e espontaniedade... é treta! Pelos vistos, os melhores são os que investigam e estudam a maneira de as melhor satisfazer. Eu, pela minha parte, vou já rever os meus conhecimentos da anatomo-fisiologia da mulher!

Vejam! Vejam e retirem as vossas próprias conclusões...

domingo, 12 de setembro de 2010

Cenas Medievais no Séc. XXI

Acabo de ver na TV uma cena no mínimo medieval, até porque se passava dentro das muralhas de um castelo. Tratava-se de uma espécie de matilha de animais selvagens que urravam, gritavam, exultavam enquanto assassinavam um outro ser vivo que não representava qualquer tipo de ameaça ou perigo. Esta cena tinha centenas de espectadores que aplaudiam e incluía crianças. E voltou-se a matar um touro, desta vez em Monsaraz.
Será que esta gente não vê a violência que se passa em frente aos seus olhos? Será que são estúpidos ou apenas absolutamente insensíveis? Será que os que mataram o touro amarrado e incapaz de se defender, ainda por cima a coberto de uma lona, o que só torna esse crime apenas mais cobarde, serão apenas uns sacaninhas com sede de sangue ou violentos psicopatas? Que pais são aqueles que levam os seus filhos, crianças, a um lugar onde centenas de pessoas vibram, aplaudem , incitam à violência, ao sangue, à cobardia que culmina com um assassínio cobarde de um animal majestoso que nunca se rende? Como explicam eles às crianças que aquilo é nobre, é lindo, é tradição? Tradição? Num país que se pretende civilizado?
Também me choca que se entupa os tribunais com processos de legalização, de excepção, que protejam e permitam estes crimes, que se ocupe a polícia com a deslocação ao local da morte para a identificação dos mentecaptos que assassinaram o touro cobardemente e com a burocracia exigida para apenas se arquivar mais um crime. Mas aqui os culpados estão identificados: todos os presentes no recinto. Que eu saiba, tanto é culpado quem prime o gatilho como quem protege, ajuda e de alguma forma contribui para o facto. Não me venham dizer que é uma tradição com 100 anos porque há 100 anos as mulheres não podiam votar, 90% (estou a ser optimista) da população não sabia ler e Portugal foi uma monarquia quase até ao final do ano!
É um crime, não uma tradição. É a banalização da morte e da violência, ao vivo e a cores. É a desculpabilização de comportamentos psicopatas a coberto de uma norma social perfeitamente desactualizada. E Espanha, terra dos touros e toureiros, já começou a acabar com isso.
Além de tudo isto, como é possível aplaudir-se um homem que entra numa arena com collants e jaqueta apertadinhos e com brilhantes e pom-pons dependurados. É um bocado rabeta, digo eu!

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Divórcio.

Ontem um colega teve esta observação: "Estás divorciado da profissão, não estás?". E isso fez-me pensar: na realidade, estou.
Contextualizando, o que se passa é que o meu nível de investimento académico na enfermagem é zero, nenhum, vazio. Entenda-se por "investimento académico" a frequência de cursos, pós-graduações, mestrados, especialidades. Que, na minha opinião são, na área da enfermagem, absolutamente cosméticos. Ou seja, ficam muito lindos no currículo mas não servem para nada! Do ponto de vista da progressão e diferenciação na carreira não servem de nada. Acabando-se os "hospitais do estado" que dão lugar aos "hospitais-empresa", os enfermeiros ficam todos ao mesmo nível, sendo que são nivelados por baixo. Não interessa se sou especialista porque a administração do hospital não escolhe por competências mas sim por compadrio, cor política, ou, na maioria dos casos, escolhe para Enfermeiro-Chefe, ou Supervisor ou Coordenador, aquele profissional que garanta não por em causa a política economicista do Administrador e engendre esquemas que permitam produzir mais com menos enfermeiros. Isso significa mais trabalho para menos enfermeiros. Neste contexto, de que vale investir na formação académica?
A realização pessoal, dirão provavelmente muitos de vós. A questão aqui é a seguinte: eu não ando a trabalhar para aquecer, nem porque gosto de trabalhar e muito menos porque sou apaixonado pela prestação de cuidados de enfermagem! Não. Eu trabalho porque tenho responsabilidades familiares e considero uma parvoíce prejudicar a família (em tempo e em economias) em prol de uma formação que, na prática não me dará retorno nenhum! Para que tenham um exemplo do que falo: um colega meu, mais novo, encontra-se actualmente a fazer uma especialidade em enfermagem para que aumente as suas probabilidades de entrar como contratado num hospital (ele é "recibo verde") mas a trabalhar como enfermeiro de nível 1. Ou seja, um generalista em início de carreira! Isto é a promoção do "currículo a metro" e o enriquecimento das escolas de enfermagem que, cada vez mais, abrem cursos de especialidade que depois vendem a preço de ouro a enfermeiros desempregados ou em situação precária, acenando-lhes com a hipótese (sublinho, a hipótese) de poderem ser contratados (a termo certo, claro) por um hospital qualquer que lhes vai pagar o base do início de carreira. E eu não trabalho para sustentar pançudos.
Num outro nível, o dos cursos de pequena duração ou "workshops" temos outro grande embuste. Existe por aí uma instituição que ministra curso tais como enfermagem forense e enfermagem podológica! Mesmo para os leigos penso que isto deve soar ridículo! Na prática, há pessoas que pagam (e bem!) e despendem o seu tempo a tornarem-se nos CSI Nurse (atenção que não há enfermeiros envolvidos em investigações forenses nem se prevê que algum dia haja!) ou então a aprender a limar as unhas dos pés! Ridículo. A Enfermagem actual em Portugal é ridícula.
Mas este divórcio da profissão e dos seus representantes não significa o divórcio dos meus parceiros de trabalho do dia-a-dia. Há excelentes enfermeiros em Portugal. Profissionais de excelência que a Profissão não valoriza e que a opinião pública não reconhece. E, este divórcio, não significa também o divórcio dos doentes. E é aqui que reside o meu investimento (ainda que indirecto) na profissão. Ao nível dos cuidados directos aos doentes através da revisão bibliográfica de conhecimentos já apagados, da pesquisa de novas técnicas de tratamento e abordagem aos doentes, através da discussão com os colegas e com outros profissionais (sim, os médicos) que têm muito para nos ensinar. Mas isso não entra no currículo, não é valorizado. Mas enfim, considerando que o currículo vale zero e, zero x zero = zero, acho que vou manter a minha linha de evolução académica!
Agora vou trabalhar que não me pagam para estar a escrever divagações desiludidas e sem piada para um público que até se está nas tintas para o enfermeiros!!

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Músicas de arrepiar a espinha!

Não sou muito de criar "rubricas" ou temas fixos no blog até porque depois não as cumpro! Mas acredito neste "Músicas de arrepiar a espinha!". De cada vez que vou treinar levo o iPod e ouço música. Não presto atenção à maioria das canções que se vão sucedendo mas, em todos os treinos lá aparece "aquela" canção que me faz arrepiar. Primeiro a "espinha", depois os braços. O ritmo da passada aumenta e a frequência cardíaca também! E a primeira "Música de arrepiar a espinha!" do blog é esta...

Disfrutem!


Outra Dimensão.

Às 7:30h de hoje já levava cerca de uma hora de corrida. Se no início da corrida era ainda noite junto à Baía do Seixal (óptimo spot para correr!) e esporádicos os carros e pessoas que se viam na rua, perto do final do treino já a zona fervilhava de movimento. E digo fervilhava porque foi essa a sensação que tive, enquanto corria ligeiro e fresco junto ao rio e observava o movimento à minha volta. E, facto curioso, embora fosse eu que corresse não era eu o mais acelerado! Enquanto corria mais rápido do que todos naquele largo passeio e ia ultrapassando mulheres de salto alto e fato "executivo", homens de fato e gravata, mulheres arrastando os seus filhos, pessoas a escreverem furiosamente SMS ou berrando já ao telemóvel não pude deixar de sentir que, na verdade era eu que ia mais lento.
Nas paragens do autocarro só via semblantes fechados, zangados, vazios. Pessoas andando para trás e para a frente, abanando uma perna, olhando de esguelha para o companheiro do lado, denunciando assim a sua pressa, a sua impaciência. E olhavam para mim, com o olhar carregado de um sentimento de quase ofensa pela minha passagem. E eu seguia, leve e feliz, com o cheiro do rio comigo, com a mistura entre o fresco da brisa da manhã e o quente dos primeiros raios de sol que despontavam, com a música nos ouvidos que me isolava quase hermeticamente do resto do mundo. Quase numa outra dimensão.