segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Isto é capaz de ser o Alzheimer a falar.

Tenho sentido a crescer dentro de mim algo inquietante. Já aqui tenho falado de como na minha profissão dou de caras com o futuro "eu" todos os dias. A velhice. Mas nunca tinha sentido uma real inquietude relativamente ao meu próprio envelhecimento. Até agora.
A cada vez que recebo um velho confuso, lentificado, abandonado, emagrecido, desidratado, sinto-me incomodado, verdadeiramente. E depois pergunto-me: é para aqui que caminho? E não sei de onde isto vem, qual a razão do meu receio. Afinal tenho apenas 34 (35 em Março) anos. Ou se calhar porque já tenho 34 anos e ainda me lembro dos 24 como se tivesse sido ontem.  Que raios! 
E agora percebo: a minha preferência cada vez maior por roupas de cor, outra que o preto ou o cinzento, sobretudo no verão, o prazer de ir fazer ski mesmo que esteja um dia de merda ou snowboard apesar de cair como um doido, as corridas, o fitness e agora o judo (comecei há 2 semanas). Será tudo isto para me agarrar à minha juventude, para me preparar para a minha velhice? Ok, ok, também é para fazer boa figura no verão mas apercebo-me cada vez mais que as minhas motivações vão mais além. 
Merda, envelhecer é uma chatice e morrer também não vem nada a calhar. Principalmente com tanto mundo para conhecer. 

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

(Grandes) Momentos que nos fazem acreditar no que fazemos.

Lá no hospital, para além das reanimações que chegam de fora, também somos nós que temos que responder às reanimações que acontecem nos diversos serviços do hospital. Cada dia há um enfermeiro e um médico des urgências que são portadores do bip de reanimação interna e, se algo acontece somos chamados a intervir. Hoje aconteceu.
O telefone toca para uma reanimação no serviço de medicina no 17° andar. Pego na minha mala de emergência (porque tanto podemos ir a um serviço de internamentos como ao restaurante!) e subo acompanhado da médica de escala nesse dia, por sinal, uma jovem assistente super ansiosa por não saber o que fazer. Siga, quando lá chegarmos logo se vê, digo-lhe. Chegamos, três médicos e três enfermeiros do serviço de volta da senhora (velhota, 86 anos) com ar de ter a cena controlada mas com aquele olhar "tirem-me daqui". Por cortesia pergunto se posso ajudar e ponho-me à disposição pois em casa alheia não te armes aos cágados, um lema para a vida. Ok, pedem-me para ver se consigo canalizar uma veia com um catéter decente pois os que eles colocaram são demasiado pequenos. Entretanto chega o médico dos Cuidados Intensivos (que completa a equipa de reanimação interna) e começa a dar ordens, quero sangue, preparem os soros, preparem os medicamentos para entubar, chamem os anestesistas. Foi o caos. Os meus colegas do serviço (os tais 3 que já lá estavam) começam a correr de um lado para o outro sem que nenhum fizesses as coisas completamente e chamam ainda mais pessoas para ajudar. De repente tinha aí uns seis ou sete a ocupar espaço e a gastar oxigénio mais a produzir muito pouco. Casa alheia ou não, era a minha reanimação... 
Dirigi-me a uma das minhas colegas, qual é o teu nome? Mélanie. OK, eu sou o Miguel, ouve: a partir de agora a tua única função é preparar os medicamentos que o médico pedir OK? OK. Yann, tu vais tratar de tudo o que é soros: sempre que um saco acabar quero outro a ser pendurado. Certo. Anna, a tua única função é ventilar a doente, mais nada ok? OK. O resto do pessoal que não tem nada para fazer: pirem-se! A partir daqui, sempre a rolar! Doente sedada e intubada, partimos para os cuidados intensivos.
Na volta, a médica novinha (que acabou por ficar num canto) que me acompanhava estava de queixo caído, fónix, foi impressionante como lideraste a equipa sem sequer os conheceres! E sem nunca perderes o que se estava a passar com a doente (acho que se apaixonou a miúda)! Mas a pérola do meu dia foi quando apanhámos o elevador para regressar ao nosso serviço encontrarmos um dos chefes dos cuidados intensivos que tinha estado lá a observar a cena e que me diz simplesmente: trabalho fantástico que fizeste ali dentro. E faz-me um high five!

domingo, 26 de janeiro de 2014

Vergonha.

O miudo de quem falei um ou dois textos atrás, o que morreu vitima de agressão, lembram-se? A história tem tanto de simples como de dramática: o miudo, 18 anos mal acabados, regressava a casa depois de um dia na escola de cozinheiros quando foi agredido por dois outros putos de 15 e 16 anos (!) pela simples razão que o casaco que ele usava nesse dia era de uma marca associada aos neo-nazis. E assim, do nada, um puto de 15 anos ,instigado por um segundo de 16, agride um outro de 18 com um murro. Esse murro que acredito não tinha intenção de matar, é causador de um traumatismo craneano com paragem respiratória e consequente sofrimento cerebral e, por fim, a morte. 
Quanto à história das praxes, nunca me deixei praxar, tenho demasiado ego e amor-próprio para embarcar nisso mas percebo as fragilidades e inseguranças de quem se submete a isso. Pessoalmente nunca percebi o que andar a correr nu no Jardim da Estrela numa sexta à noite tem a ver com integração académica mas desde logo vi o gosto pelo poder e, sobretudo pela humilhação que muitos "praxadores" demonstravam com indesfarçável brilho nos olhos. Como já decerto calcularam vou falar do caso dos putos que morreram no Meco. 
Revejo-me no sentimento de revolta, quase nojo que se sente no texto que referi acima. Então um anormal qualquer, carreirista da universidade com certeza, um daqueles cujo objectivo deve ser chegar a Ministro sem acabar qualquer formação académica (objectivo legítimo pois acabo de descrever boa parte dos nossos políticos), está envolvido directa ou indirectamente, em maior ou menor grau no desaparecimento de seis pessoas, SEIS! e esconde-se atrás de "amnésia selectiva"? Mas não é a sua atitude pequenina, cobarde, de rato de porão que me enoja, a sua atitude enquanto "dux" (seja lá isso o que for) não deixa dúvidas quanto ao seu valor enquanto Homem. Não, o que mete nojo, o que envergonha, é a atitude conivente de todos os que estão ligados à Lusófona. Todos, os alunos que provavelmente sabem ou suspeitam o que se passou, os directores que protegem o único sobrevivente de uma tragédia sem precedentes na comunidade universitária e os responsáveis das leis em Portugal que não tem colhões para dar um murro na mesa e levar esse "menino" a contar o que raio se passou naquela noite. Isto, para um Português que vê o país de fora é vergonhoso. Tenho vergonha de meu país no que a este assunto diz respeito.
O paralelismo entre estas duas história, o puto que morreu por ter sido agredido gratuitamente e o dos putos que se afogaram no Meco é este: tratam-se de duas tragédias que acontecem por razões estúpidas e mesquinhas, acredito que em nenhum dos casos houve intenção de matar. Agora a diferença é que, no dia seguinte ao puto ter sido agredido, ainda antes de ser comunicada publlicamente a sua morte, a Polícia Suíça já tinha prendido preventivamente os dois jovens (saliento de 15 e 16 anos) e dois dias depois esses dois meninos foram ouvidos por um Juiz de Menores que os constituiu arguidos e os colocou em prisão preventiva numa prisão para menores (sim, isso existe aqui).    

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Não há cá cantigas!

Esclareçamos já uma coisa: para mim a música é um assunto muito sério. Isso de "gostar de tudo o que passa na rádio" é coisa que me encanita. Isso e "ah, adoro esta música mas não sei quem canta". Pois eu, se gosto, se mexe comigo, se me atrai, se me faz abanar o corpinho vou procurar quem canta, quem escreveu, quando e onde. Gosto de saber o que diz o artista, o autor, conhecer as letras e saber em que contexto em que a música foi escrita, o ano, o enquadramento social, em que momento da vida do autor. Gosto de ouvir a música varias vezes e descobrir as suas variadas camadas: a letra e os riffs de guitarra primeiro e depois dar mais atenção á bateria e ao baixo, escutar com atenção aquela teclas bem lá ao fundo e sentir tudo isso cá dentro: a guitarra a enfiar-se na pele, a voz a entrar pelos olhos dentro e o baixo mais a bateria (oh, a bateria!) bem nas visceras! Oiço e tento compreender os Mestres, os clássicos: The Beatles cuja obra é tão mais vasta e interessante que simplesmente o "Yesterday", Led Zeppelin que são tão mais que "Stairway to Heaven", The Ramones, tão técnicamente básicos mas simplesmente geniais, os Queen, que praticamente criaram o pop-rock. Toda esta gente escreveu a história, a nossa história, o que ouvimos hoje aparece por causa destes senhores! Mais recentemente os Nirvana que mudaram a indústria músical nos anos 90, os Pixies pioneiros do indie-rock, os The Cure com a sua melancolia romântica e até os Guns n'Roses com um primeiro album fabuloso. Por isso não deixo de sentir pena quando olho para o vazio que se vende hoje, artistas todos iguais, mensagens sem conteúdo, sexualização gratuita mas inócua, o endeusamento dos cretinos. Enfim... 
Lá em casa a educação musical é uma prioridade, os meus filhos ouvem os clássicos e (o pouco) que se faz de genuíno hoje em dia. Mostro-lhes quem são as pessoas por detrás dos instrumentos e tento que eles sintam a música como eu a sinto. Se eles vão crescer e ouvir a mesma música que eu? Talvez não mas se a sentirem, a música, como eu a sinto já ficarei feliz! 

 PS: era para aqui falar dos 3 grupos que mais abomino no panorama musical actual mas tratam-se de bandas que enchem estádios por onde passam e há pelo menos uma amiga que segue este blog que é fã de duas dessas bandas... fica para a próxima!

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Formar é fixe.

Quando penso no meu futuro profissional gosto de imaginar que vou conseguir dividir o meu tempo entre os cuidados directos ao paciente e algo mais leve para o corpinho, do tipo administrativo. Enfim, enquanto esse tempo não chega (se é que chega!) vou-me dedicando a uma área que gosto bastante: a formação. Um ano depois de ter chegado aqui (um gajo não sabe estar quieto) meti-me a trabalhar como formador de suporte básico de vida (massagem cardíaca e essas cenas) numa empresa que forma "socorristas" em várias empresas aqui na Suíça onde, legalmente, todas as empresas são obrigadas a ter alguns dos seus empregados formados nos primeiros socorros. E gosto bastante porque consigo juntar vários aspectos positivos como fazer algo que gosto e ser pago para isso, conhecer novas pessoas e realidades que não estão ligadas com o meio hospitalar e vou a sítios onde nunca iria numa situação normal. Mas gosto sobretudo do contacto com as pessoas. Um ano depois de ter começado nessa vida começo a aperceber-me que, independentemente do grupo, há personagens tipo que estão sempre presentes. A saber: 
 1. O SOCORRISTA PROFISSIONAL: é o gajo mais antigo dos socorristas da empresa, o fulano que faz todas as formações. Os outros olham-no com admiração pois é alguem de muito experiente na área dos primeiros socorros muito embora em 10 anos de experiência não tenha tido nenhuma situação a sério. É normalmente o líder do grupo e temos de ter alguma atenção para com ele, ou seja, ouvir o gajo discursar acerca dos algoritmos de socorro como se fosse ele o formador e não nós. Depois, só para o por no seu lugar elevo o nível da discussão um degrau acima pronto. 
 2. O BOMBEIRO: há sempre um em todos os grupos, o bombeiro voluntário que já fez a formação e só está ali porque o chefe mandou. Mostra enfado e brinca com o telemóvel o tempo todo dando claros sinais que se está a cagar para o meu discurso. Quando passamos aos exercícios práticos com o manequim de treino avança com aquele ar de Rambo dos primeiros socorros achando-se mais eficaz que toda a gente. É fácilmente posto em ordem ao apontar-mos as suas falhas (que não são dificeis de encontrar) e ao fazê-los repetir os exercícios mais vezes que os outros. 
 3. O LERDO: é o fulano que não percebe nada á primeira, que confunde os conceitos e consegue confundir o resto do grupo. É o gajo que não percebe que se não respiras é porque estás morto ou quase. Não há nada a fazer a não ser explicar tudo como se ele fosse muito burro. 
 4. O INTELECTUAL: é o gajo que vai googlar tudo sobre medicina e depois põem-se com perguntas teóricas sobre fisiologia cardíaca porque "leu na internet". Faz-se uma explicação bem elaborada usando termos como pré-carga, pós-carga, nódulo sinusal, resistência vascular, fibrilação ventricular e taquicárdia supra ventrticular e ele fica satisfeito. 
 5. A GAJA BOA: é a fulaninha que vai para a formação vestidinha de saia curta e saltos altos e unha bem arranjadas e que quando se apercebe que tem que se por de joelhos no chão para efectuar manobras de reanimação fica toda corada. Mas pronto, os homens do grupo toleram-lhe sempre tudo. 
 Depois temos os formadores e aqui há basicamente dois tipos: 
1. O MAIOR: é o gajo que sabe tudo sobre reanimação, nessa área não há pai para o filho do pai dele. Conhece toda a gente mais conceituada na área, trata por tu os responsáveis nacionais da reanimação. Vai de férias aos sítio mais exóticos e, azar do caraças, cada vez que está de férias há sempre acidentes e ele salva sempre meia-dúzia deles. Os acidentes mais mediáticos, ele esteve lá e foi o salvador da pátria. Resumindo, é o maior da rua dele. 
 2. O FORMADOR COM "F" GRANDE: é aquele que consegue deixar espaço ao socorrista profissional, que consegue cativar o bombeiro, que faz com que o lerdo perceba a mecânica da coisa, que ensina umas cenas novas ao intelectual e que no fim do dia de formação ainda saca o número de telefone da gaja boa!

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Anjos?

O anúncio chega como sempre, inesperado. Homem, 17 anos (como se pudessemos chamar "homem" a um puto com 17 anos), paragem cardio-respiratória após trauma craneo-encefálico, intubado, instável. O ambiente adensa-se na sala de reanimação à medida que chegam novas informações "O médico do INEM diz que foi uma agressão", diz o anestesista ao chegar. Preparamo-nos, os enfermeiros, os médicos, o ambiente é de cortar à faca e quase se consegue ouvir os pensamentos de todos "Temos que salvar este puto". O helicóptero aterra no tecto e faz estremecer as paredes quase fazendo com que esqueçamos o nosso próprio estremecimento. O puto chega, "agredido na rua, em coma à chegada do INEM, qundo o tentaram intubar havia sangue por todo o lado e ao tentarem aspirar entrou em paragem. Sete minutos de reanimação, 2 mg de adrenalina, recuperou o pulso mais o coma continua. A sala explode em actividade, ordens do líder da reanimação, pedidos do enfermeiro responsável. O puto não está bem, quero-o no TAC dentro de 10 min, se estiver a sangrar no céerebro quero-o no bloco o mais rapidamente possível, dispara o líder. As coisas encaixaram-se bem. Olho para o miúdo, franzino, mas com os sinais de uma rebeldia própria da idade, o cabelinho rapado com entalhes desenhados, a t-shirt de um grupo de rap qualquer, os ténis nike vintage com atacadores de várias cores, no bolso das calças cigarros e haxixe. Sinto-me genuinamente triste por este puto, provavelmente envolveu-se numa luta de galos por uma merdice qualquer e agora... Vamos para a sala do TAC, a maca rodeada de pessoas vestidas de branco... é estranha esta imagem, alguém numa maca, adormecido, ligado a máquinas que passa no corredor rodeado de seres vestidos de branco. Anjos para o protegerem ou anjos para o guiarem para o destino final? Nunca sei. O TAC não é bom, tanto tempo sem oxigénio... Outra imagem que me marca a cada vez: alguém completamente só de um lado do vidro e do outro os tais anjos de vida ou da morte que olham. Todos focados no vidro ou num écran de computador, enquanto um puto entra e sai de uma máquina em forma de túnel. É quase premonitório agora que penso nisso, ficará do lado de cá ou do lado de cá? Não, o cérebro foi-se, vai para os cuidados intensivos, estabiliza-mo-lo para dador de órgãos, é pena era um puto. Entretanto um polícia obscuro atrás de uma linha telefónica liga á mão do puto: "Aqui é a polícia minha senhora, o seu filho está no hospital..."

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Uma ajudinha minha gente?

Eu estou um bocado como o Paulo Portas e a sua decisão "irrevogável" de deixar o Governo. Também eu estava irrevogavelmente  convencido que iria fechar a tasca. Mas finalmente...
Eis o meu problema: as historietas que sempre alimentaram este Cheirinho passavam-se numa realidade dura e selvagem, com situações tão dramáticas ou parvas que só acontecem num país anedótico como o nosso. Neste momento ganho mais, trabalho menos mas passa-se tudo tão bem e de forma tão limpinha (o modo suíço) que acabo por não ter material para escrever. Ou seja, uma mudança de rumo impõe-se ou então isto evapora-se de vez!
E então? Para onde vamos? Aceitam-se sugestões.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Conto de um Homem Só: Maryusz.

Todos no serviço o conhecem. Os das ambulâncias também. Afinal Maryusz é um dos nossos clientes mais frequentes. Alto e magro, olhos de um azul profundo embaciado pelo àlcool que lhe dilui o sangue. Acho que nunca ninguém o viu sóbrio, só menos alcoolizado. Mas Maryusz não é agressivo. Normalmente é trazido pela ambulância porque alguém o encontrou inconsciente numa esquina qualquer de Lausanne. Faça frio ou faça sol, Maryusz bebe até perder a consciência. E bebe tudo, inclusivé o àlcool que utilizamos para desinfectar as mãos no hospital. Já tentámos de tudo para ajudar este homem, mas parece que beber até morrer é a sua missão na vida. 
De vez em quando, no frio do inverno, Maryusz aparece na nossa sala de espera. Bêbado mas correcto, procura apenas um lugar para se aquecer. Traz consigo toda a sua vida: uma mochila com bebida e a sua gaita de beiços. Senta-se num canto e começa a tocar. A melodia sai perfeita e envolve todos na sala e toca-nos bem no fundo de nós. As notas são carregadas de sentimento, a melodia é bela e límpida mas carregada de tristeza e de nostalgia, de sofrimento e angústia. De saudade. Ao observar Maryusz tocando a sua gaita num canto da sala, olhos fechados em esforço e, enrolado sobre si mesmo como só os doentes com muita dor o fazem, percebo que há mais acerca deste homem do que aquilo que temos á vista. 
Certo dia Maryusz chega como em tantas outras vezes, numa maçã de ambulância inconsciente e frio. Nesta como em tantas outras vezes Maryusz lá fica a curar a sua bebedeira num canto das urgências. Quando acorda Maryuz chora. Foi a única vez que o vi sóbrio e a única vez que ouvi a sua história.
O meu nome é Maryusz e sou polaco. Nos ultimos anos tenho vagueado pela Europa para esquecer. Bebo para não me lembrar, bebo para dormir. Quando estou sóbrio não suporto a dor e por isso nunca mais o quis estar, pois sóbrio lembro-me deles, da minha família. Vivíamos em Varsóvia onde eu era professor de música no conservatório nacional. Eramos felizes os quatro, eu a minha bela mulher e os nossos dois meninos de 4 e 7 anos. A vida sorría-nos. Até que num normal dia de inverno, ao regressarmos a nossa casa nos subúrbios da cidade tivemos um acidente. Eu saí do carro ileso mas só eu. Abracei os meus meninos, tão frios e pálidos que estavam. Tentei aquecê-los com o meu calor mas eles nunca regressaram para mim, Beijei a minha mulher e abracei os meus filhos mas as minhas lágrimas congelaram. E o meu coração também.
Há poucas semanas Maryusz foi encontrado também ele gelado e pálido mas, segundo os tripulantes da ambulância no local, foi a única vez que viram um sorriso na cara de Maryusz.


terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Conto de Um Homem Só

A sua vida era calma e pacata naquela aldeia plantada no sopé dos Alpes. Agricultor uma vida inteira, mulher, três filhos, uma cerveja com os amigos no fim do dia, a igreja ao domingo. Os habitantes da povoação estimavam-no por ser sempre prestável e tinham-se já habituado ao ser carácter reservado e de poucas falas, por oposição à frenética atitude dos outros homens da terra, sempre ansiosos por ser o mais homem de todos. 
Sentia-se cansado. Fisicamente cansado, a labuta diária nos campos e colheitas era dura normalmente mas nada justificava a sua falta de energia. Febre algumas vezes à noite e falta de apetite. A sua mulher, zelosa, dizia-lhe para ir ao médico de família mas ele, não, que ia melhorar, afinal já há mais de um ano que não vamos de férias e isto com uns ben-u-ron's vai ao sítio. Mas o cansaço não o larga, cada vez mais cansado, sem apetite, a perder peso. Finalmente rende-se à evidência e consulta o seu médico de uma vida inteira.
Análises ao sangue, uma radiografia aos pulmões, a tensão e a respiração perfeitamente normais. Isso é cansaço normal, afirma o médico que atribui as queixas do seu doente à falta de uma férias bem gozadas, afinal conhece o homem desde pequeno e a sua saúde é de ferro. O homem abandona o consultório do médico com uma vitaminas e uma receita para tirar umas férias com a mulher e sem os filhos o mais rápidamente possível. 
Numa manhã como qualquer outra anuncia à sua esposa, vou à cidade tratar de uns assuntos, e sai dando um beijo na face da mulher. Dirige-se ao hospital, gabardine longa, chapéu e óculos de sol. A sua postura é a de alguém que não quer ser reconhecido. Detém-se um momento observando as indicações para as diversas consultas disponíveis, dirige-se a uma sala de espera tira uma senha e aguarda de pé. Bom dia, diz a enfermeira, qual é o teste que deseja efectuar? SIDA, ouve o homem sair da sua boca a palavra que ele mais teme. Primeiro teste positivo, segundo teste de controlo positivo. 
A enfermeira começa a enunciar todos os avanços feitos no domínio, taxas de sucesso, tipos de tratamento mas a sua mente está ocupada. Positivo, positivo, positivo, positivo, positivo... Não se lembra de regressar a casa.
Nessa mesma tarde decide finalmente abrir-se com a sua companheira de tantos anos. Não sou quem tu pensas. Não te mereço a ti nem aos nossos filhos e muito menos o amor que me dão. Durante anos fui um cobarde. Todas as noites que não dormi em casa passei-as com outros homens. Homens que não conheço, homens sujos que encontrava em bares e hoteis. Sou paneleiro, sempre o fui, desculpa. Tentei refugiar-me disso no trabalho, na igreja, nos miúdos, em ti... Mas fui fraco. E agora, além de fraco estou infectado e sujo também eu. Quero arrancar a minha pele, quero esvaziar-me deste sangue infecto, arrancar com as minhas mãos esta coisa que me consome. Mas sempre fui um reles paneleiro que se deixa seduzir pelo apelo da carne de outros homens. Um fraco, um paneleiro qualquer... Não mereço viver. Cuida de ti e dos nossos filhos. Vivi cobarde, morro como um homem. Leu a sua mulher quando o encontrou mergulhado no seu próprio sangue e uma pistola na mão.


Romanceado a partir de uma história verídica.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

-Então como vai o nosso doente?
-Melhor. Clinicamente está estável mas ainda não fala. Não disse nada depois da reanimação, será uma manifestação neurológica?
-Ou isso ou então não tem nada para dizer...

terça-feira, 1 de outubro de 2013


- Temos um pulso!
- Sim, por agora vive... Veremos se os nossos esforços fizeram alguma diferença. 
- Ainda é jovem, vai safar- se!
- Veremos...

domingo, 1 de setembro de 2013

Ponto final.

"AVISO: Este blog será mantido durante as horas que passo nos serviços (são dois, Às vezes mais...) por isso, na prática estarei a ser pago (imaginem lá por quem!!!) enquanto estiver aqui a escrever patacoadas!!!
Nunca a expressão irada de um utente descontente "Ouça lá, sou eu que lhe pago o ordenado seu..." teve tanta razão de existir (doce vingança!).
Mas olhem, já que me estão a pagar, disfrutem e visitem este novíssimo serviço de saúde (patológico) e não se esqueçam de utilizar o livro de reclamações (comentar vá.)

PRÓXIMOOOOO!!"

Este foi o primeiro texto publicado no (longínquo) dia 20 de Novembro de 2008. Lançou as premissas do blog e ilustrava bem a realidade na qual eu vivia na altura. Mas isso foi numa outra vida....
Há meses e meses que o sei e vocês também o sabem: o éter evaporou-se todo e já não há mais cheirinho!
Por muito que eu goste deste blog (e como gosto) e por muita importância que ele tenha tido na minha sanidade mental (que teve!) numa época difícil da minha vida, já não há espaço para ele na minha realidade de hoje. Nem as suas premissas lançadas no seu primeiro texto são as mesmas.


Enfim, foi uma aventura fantástica, obrigado por a partilharem comigo!

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Ramadão

Ora bem, cá está ele, um período que em Portugal me passava completamente despercebido mas que agora é bastante evidente: o Ramadão.
Com a quantidade de colegas muçulmanos com quem trabalho é impossível não nos aperceber-mos. Hoje estou a fazer a noite e a nossa preocupação é uma colega de origem turca cujo limite para comer são as 3h35. Um quarto para as 4 da matina é o nascer do sol para os muçulmanos?! Agora pensem que estamos no Verão e a que horas o sol se põe e façam as contas a quantas horas de "noite" sobram para comer. E é muito bom falar com estas pessoas e saber que a maioria dos muçulmanos não são terroristas sanguinários kamikazes. É gente que se farta do ramadão, gente que quebra as regras e que dá uma dentadinha após o nascer do sol, gente que na verdade nem se importa muito de não comer, mas mais com o facto de não poderem ir tomar banho ao lago, não poder andar de mini-calções e t-shirt cavada, fumar e beber uma cerveja fresquinha.
É gente que tenta levar o ramadão até ao fim mas que desiste ao fim de duas semanas porque, afinal sim, Alá e o Corão são sagrados mas também não é preciso exagerar!

sábado, 15 de junho de 2013

E de repente, ao sair de um bosque...

Uma bela surpresa no meio dos Alpes. Magnifico!

quarta-feira, 12 de junho de 2013

ZZZZZZZ

Almoço e a seguir uma sala quente, um curso bem teórico e um orador monocórdico. Não há quem aguente. 

quinta-feira, 6 de junho de 2013

No Metro Parisiense

Não deixo de observar o que se passa à minha volta quando estou sozinho na rua. Neste caso no metro de Paris. 
Apesar de não conhecer todos os metros de todas as grandes cidades atrevo-me a afirmar que, a julgar pelo número de mulheres e homens (ok, são principalmente as mulheres o objecto da minha observação) elegantes e chiques nestas carruagens este deve ser o metro mais elegante do mundo!

Banhadas

Estou neste momento numa conferencia do congresso da Sociedade Francesa de  Medicina de Urgência, em Paris. E hoje tem sido só banhadas. Além disso queria imenso assistir à conferencia sobre os traumatismos desportivos mas pelos vistos era eu e metade do resto dos conferencistas pelo que não consegui entrar. Era isto. 
 

sábado, 1 de junho de 2013

Os meus intestinos revoltam-se.

Um gajo sabe que começa a ser importante num serviço quando lhe dão um telefone de serviço! Foi o que me aconteceu hoje, mas isso só significa mais responsabilidade.
No caso em estudo o que aconteceu foi que comecei a triar. A triagem dos pacientes que se apresentam na Urgência é algo de muito importante principalmente pelo doente mas também porque as nossas decisões vão influenciar tudo o que se passa a partir do momento em que o doente é admitido. Se em Portugal a maioria dos sistemas instalados são baseados em algoritmos que ajudam quem tria a chegar a um grau de urgência e, por consequência a decidir se o doente pode ou não esperar para ser visto, por estes lados existe uma lista de "motivos de admissão" com uma indicação do grau de urgência a que cada motivo corresponde. O problema é que são cerca de 100 motivos, a maioria com vários graus de urgência associaodas e com vários destinos possíveis. 
Resumindo, a eficácia da triagem está muito ligada ao sentido clínico e à competência de quem tria... No que diz respeito ao doente, o doente que chaga muito mal é facilmente identificado e o que vem por coisa nenhuma também. O problema está em todos os doente no meio destes dois extremos. Há aqueles que, apresentando-se numa Urgência não nos dão informação nenhuma e os outros que dão demasiada. Depois é o problema da orientação. Saibam que aqui posso enviar doentes para 4 locais diferentes com médicos diferentes e com chefes diferentes. O que quer dizer que, se não queremos ser chateados temos que estar muito certos das nossas acções! Os colegas que fazem isto há mais tempo dizem que quanto mais triar mais fácil se vai tornar e eu acredito. O problema é que mesmo eles metem as patas de vez em quando.   
De facto, receber um doente que vem da rua com um problema de maior ou menor grau, colocar-lhe questões para tentar identificar o problema quando para eles o problema é evidente e depois pegar nisso tudo e tomar uma decisão que vai mexer com as acções de muitos mais profissionais é um grande desafio e uma enorme responsabilidade... mas (embora hoje, o meu primeiro dia de triagem completamente sem paraquedas, esteja com o rabinho bem apertadinho de medo!) é pegar o touro pelos cornos! De qualquer das formas, esta nova responsabilidade que me foi atribuída significa que estou a avançar dentro da equipa e isso é bom!
Desejem-me sorte a ver se não mato algum OK?

Actualização das 22h45, hora Suíça: acabo de meter as patas por causa do chamado "efeito Túnel": um gajo agarra-se a um aspecto muito específico de toda a situação da pessoa e acaba por não ver que a resposta às suas questões está mesmo à sua frente. Continua assim Miguel que vais bem e ainda faltam 8 horas para o fim do turno.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Quem se lixou foi o gato. Coitado...

Isto de se ser um país rico e cheio de recursos não tem só coisas boas. Os drogados por exemplo: todos são considerados "inimputáveis" no sentido em que o Estado considera que não apresentam competências para serem livres de tomar as suas próprias decisões e, vai daí, são considerados "inválidos". Consequência: recebem todos os meses uma pensão de sobrevivência que lhes alimenta o vício. Comem e dormem em instituições de abrigo aos necessitados e passam o dia nas ruas. Com dinheiro que recebem no dia 1 de cada mês (é vê-los na fila dos correios às 6 da matina!), comida e caminha feita, qual é o incentivo para largar o vício? Nenhum, pois claro! A mesma merda com os bêbedos.
Pois eis que numa noite me aparece uma senhora de uns 50 anos podre, mas podre de bêbeda. Ok, noite a roncar, acorda de manhã e deixamo-la partir, isto por volta das 9. Volto nesse mesmo dia para trabalhar a noite e eis que reencontro a personagem ainda no hospital. Pelos vistos a senhora tinha mesmo saído nessa manhã às 9 mas voltou às 10h30 ainda mais bêbeda do que na noite anterior. Ora foda-se.
Às 20h a fulaninha ainda toda queimadinha do álcool, tremendo, a andar aos "ss" e com um hálito de adormecer um touro desses que fugiram em Viana do Castelo insistia em querer partir. Mas, sem ninguém para a vir buscar e habitando a mais de duas horas de viagem do hospital, sair estava fora de questão. Eis que a senhora saca da seguinte história: tenho de voltar para casa porque tenho o meu gato que está doente e se não lhe der a medicação ele morre. Para não variar, não tem ninguém que possa ir ver do gato e os vizinhos não o podem fazer porque a porta está fechada. Claro que o médico não alinha na história e assim a senhora é obrigada a ficar hospitalizada. Segue-se a chantagem: eu processo esta merda toda se o meu gato morrer e, se isso acontecer a culpa é toda vossa.
Ora que porra! Então agora a culpa da estupidez dela é nossa? Depois de uma hora a ouvir impropérios e acusações salta-me a tampa:
-"Ouça lá! Que culpa é que nós temos que tenhas apanhado o pifo ontem à noite? Fomos nós que a obrigamos? E depois de ter passado a noite no hospital ainda foi emborcar uma garrafa de vodka às 9 da matina?! (a resposta: foi um amigo que a convidou para festejar a saída dela do hospital e ela não o quis deixar ficar mal...) Então nesse caso culpe o seu amigo! Mas na verdade a única culpada nesta história és tu e se o desgraçado do gato morrer então a culpa é só tua.".
O certo é que, por se sentir culpada ou por ter percebido que daqui não levava nada, a fulana roncou toda a noite e não disse nem mais uma palavra!

(não sei se havia gato ou não mas este tipo de "doentes", tenho um bocado de dificuldade em os classificar como tal, é muito manipulador e mentiroso. De qualquer das formas, no estado em que ela estava duvido que se lembrasse da existência do dito gato, quanto mais de lhe dar um comprimido.)  

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Cá vamos nós...

(aviso: eventuais colegas que trabalhem em Cuidados Intensivos ou pessoas interessadas nesse domínio da saúde, o texto que se segue pode irritar-vos ou destruir as vossas ilusões, dependendo do grupo onde se encontram. Ficam avisados.)

Ora bem. Já aqui escrevi sobre a velha "disputa" entre as Urgências e os Cuidados Intensivos. Acontece que acabo de sair de um estágio de 3 semanas nos Intensivos e devo dizer-vos uma coisa: mas que grande seca! Irra que nunca mais acabava o raio do estágio...
Comecemos então a destruir mitos. Em Cuidados intensivos um enfermeiro dedica vá, uns 70% do seu tempo a carragar em botões de máquinas, 25% a esvaziar sacos e drenos e 5% a tratar do pacinete. e estou a ser simpático! Ah e tal porque são pacientes altamente instáveis e não sei quê, dir-me-ão vocês. Eu explico: apesar desse facto que reconheço, um doente em Cuidados Intensivos está 24/24h monitorizado com valores biológicos em tempo real, tem canos enfiados em veias centrais e arteriais, algália, um tubo na garganta e uma máquina que respira por ele. Ou seja, ainda o doente não sabe que vai descompensar, já as máquinas estão a apitar! Como o médico quase que dorme ao pé do doente...
Ah e tal e as máquinas todas e os tubos enfiados em tudo o que é orifício natural ou artificial? Ok, as máquinas e tal... vejamos: o ventilador são 3 ou 4 modos de ventilação. Aquilo é um bocado como um iPhone, tem milhares de aplicações mas só usamos aquilo para chamadas, mensagens e ir ao Facebook.
Uma circulação extra-corporal (uma máquina que suga o sangue do corpo e substitui os coraçáo e/ou os pulmões) é impressionante principalmente quando sabemos que está um tubo do diâmetro do meu indicador ás portas do coração do doente e que é uma máquina que faz de coração e/ou de pulmões mas, do ponto de vista do enfermeiro as acções limitam-se a vigiar e se aquilo apitar a chamar o Dr. especialista da coisa. Ou seja, é não mexer para não estragar. O famoso (entre os profisionais de saúde claro) Swann-Ganz é (mais um) tudo enfiado na jugular que atravessa todo o coração até quase ao pulmão mas que, mais uma vez, do ponto de vista do enfermeiro se treaduz apenas por anotar os valores que aquilo dá notificar se eles saírem da norma prevista. E podia continuar...
Resumindo, o enfermeiro em Cuidados Intensivos vigia, anota valores, despeja sacos e drenos, anota mais valores e entretêm-se a desentralaçar tubos e fios que aquilo entre os tubos enfiados nos buracos, os tubos dos trinta medicamentos que correm ao mesmo tempo e os fios das máquinas todas á volta, é um matagal que quase não se encontra o doente!
Ou seja, imaginem um lindo e reluzente Ferrari (um modelo qualquer que eu não sou esquisito!), topo de gama, tecnologia de ponta, aparelhagem sofisticadíssima e complicada e a vossa função é verificar a pressão dos pneus, o nível do óleo e assegurar que não aparece por ali nenhum vandalozinho que vá riscar a pintura daquilo.


(Eu avisei.)