segunda-feira, 2 de abril de 2012

E tudo se resume ao estilo.

Hoje foi um dia estranhíssimo, bizarro. Tenho este sentimento quando uma vaga sensação de que faço muito mas não produzo nada me invade. Confusos? Passo a descrever.
Chego ao  serviço e não tenho doentes atribuídos, a urgência está quase vazia. Vou então fazer as verificações da sala de reanimação quando o chefe de equipa me diz que vou receber um doente. Uma velhota com falta de ar, chata como tudo. "Não me pique aí. Não faço chichi na arrastadeira, acompanhe-me à casa-de-banho. Quero um copo de água." E eu ali, interrompido uma e outra vez e com tantas coisas ainda por fazer. Felizmente toca o telefone das reanimações. Salvo pelo gongo!! Uma miúda de 16 anos atropelada, braço e perna direita partidos, Entre o arraial do costume na sala de reanimação, entre picar veias, preparar medicamentos, acompanhar a doente à sala de TAC e deixá-la no bloco já passaram 2 horas. São agora quase 10 da matina e ainda não escrevi uma palavra sequer no dossier da velhota.
Chega outra velhota, esta uma italiana porreiraça com uma doença pulmonar crónica depois de mais de 50 anos de tabaquinho do bom e conversamos um pouco sobre a II Guerra Mundial que a senhora viveu (e sobreviveu) na primeira pessoa. Na verdade, para além de estar a gostar mesmo de conversar com a senhora, não tinha a mínima vontade de ir aturar a outra, a chata. Hora do almoço, lá fora na esplanada do 8º andar que está sol e issso é de aproveitar!
Chego do almoço e PIMBA! Toca o histérico do telefone da reanimação. Aparentemente é um senhor que teve um acidente automóvel em plena autoestrada e que terá feito uma paragem cardíaca no seguimento disso. Digo "aparentemente" porque o médico que fez a chamada é da Suíça Alemã o que quer dizer que não fala francês lá muito bem. Garanto-vos que este país tem muitas coisas boas mas, caramba, raios me partam se entendo porque raio não falam todos a mesma língua!! Chega o senhor e aquilo não tem bom ar: já com uma coloração cinzenta, frio... reparo que há mais gente do que o costume na sala, nomeadamente um senhor com uma câmara e um outro com uma daquelas varas com um microfone na ponta. Ora bem, vai haver uma resportagem sobre o Serviço de Urgências feito pela TV Suíça e os fulanos lá estão a filmar. A coisa dá-se, o senhora "pára" na nossa mesa e, ZUMBA, vai de massagem cardíaca! Os fulanos da TV estavam extasiados! Um politraumatizado que faz uma paragem cardíaca e com aquele circo todo montado à sua volta logo no primeiro dia? Uiiiii! Tento ter um ar profissional mas ao mesmo tempo com algum estilo enquanto faço a massagem e o fulano me enfia a câmara quase nas fuças. Mas logo me apercebo que as minhas prioridades devem estar um bocadinho trocadas e cago-me para o tipo. O que faz uma câmara a um gajo pá...
Saio da sala e passo pelo corredor e, de fugida, dou um olho aos monitores dos meus doentes. Respiram, o coração bate. Siga pra bingo, é hora de preencher a papelada para o óbito da sala de reanimação. Tenho entretanto um pneumotórax para drenar e o cirurgião chateia-me a cabeça porque se quer despachar... Pronto, pronto, aguenta aí aos cavalos que eu vou já preparar a doente, a sala e o material. E estava eu a preparar os medicamentos quando me apercebo que um dos meus doentes, um jovem que tinha feito uma tentativa de suícidio na noite anterior não estava na sua box. Cabos do monitor pelo chão, camisa do hospital na maca, nada dos seus artigos pessoais. Foda-se, o gajo fugiu! Não é que estivesse preocupado com ele, na verdade estava-me a cagar para ele, se se quer matar há coisas mais eficazes do que tomar uns comprimidos para dormir e beber umas cervejolas por cima. Chateia-me é tudo o que é papel associado desde relatórios do que se passou, circunstâncias da fuga (porra, se tinha passado 2 horas a tentar reanimar um doente como raio devia eu saber das circunstâncias da fuga? Num momento ele estava lá e no outro não!), chamar a segurança, telefonar à polícia e a família e dizer: Olhem, desculpem lá o meu jeito, mas o anormal do seu filho/irmão/marido que se tentou matar ontem está desaparecido. Não é agradável a reacção do outro lado! E pronto, o cirurgião não para de me atazanar espírito por causa da drenagem torácica e, ainda por cima chega outra doente demente para receber....
Resumindo e baralhando, quando a reportagem sair eu coloco aqui no blog e, já sabem, o enfermeiro com ar super compenetrado mas ainda assim cheio de estilo a desempenhar massagem cardíaca sou eu! 

domingo, 25 de março de 2012

O Depois.

A Carla Isabel coloca, e muito bem, a seguinte questão na sequência deste texto: "pois..esse acabou menos bem...olha uma pergunta:e como é o vosso depois???depois de perceberem que acabou?" A resposta mais simples, a mais evidente é a seguinte: fácil. Tiram-se os tubos e os catéteres, limpa-se o defunto, preenchem-se meia-dúzia de papéis e siga para a morgue. Mas eu não gosto de descrições simples...
Para mim (não sei como se passa para os outros) o depois é sobretudo tristeza. Não a tristeza obliterante, incapacitante da perda de alguém querido mas mais uma tristeza observada. Observada no corpo. E não consigo deixar de me perguntar e de me admirar com o contraste Vida / Morte. Como é possível que a simples paragem dos sistemas corporais seja tão evidente, tão marcante. 
O que me enche de tristeza é, primeiro que tudo o baço dos olhos mortos quando ainda pouco antes havia brilho, havia vida. O que se perdeu? Não pode ter sido só o facto que o sangue parou de circular. O contraste do vermelho (precisamente) vivo da língua com aquele magenta mortiço que vem depois. As pontas dos dedos cinzentas. A boca aberta como se presa num grito que nunca chegou a sair. O que foi que se perdeu? Não pode ter sido só sangue e oxigénio, sinapses e estímulos nervosos. Não.
Todas as mortes a que assisto me fazem pensar nisto. Não deixo nunca de parar um momento a olhar para a pessoa que se foi. Por incrível que pareça, é a contemplar a Morte que tento perceber o que é, na verdade, a Vida.

sábado, 24 de março de 2012

Se Camões fosse vivo arrancava o outro olho.

Os estereotipos vêm, todos, de algum lado, de alguma origem. Quando ouço piadas acerca dos Portugueses revejo naqueles relatos anedóticos exagerados muito daquilo que é "ser tuga". Não "ser Português" mas sim "tuga" com tudo aquilo que é brejeiro, foleiro, tascoso, pimba. Entrar num "centro português" aqui na Suíça é imergir numa tasca do interior profundo com todos os clichés que possam imaginar desde o Zé Povinha até ás bandeiras dos principais clubes de futebol. O que só acentuado pelo facto que, apesar de ser proibido, ainda se fuma (muito) lá dentro enquanto se batem umas cartas ou se pousam uns dominós. E apelidar isso de "cultura Portuguesa" enerva-me porque não me revejo nessa cultura. Mas enfim, gostos não se discutem (não mesmo?).
Contudo, há uma coisinha. coisa pouca aliás que poderíamos conservar, cuidar. acarinhar e manter orgulhosamente imaculado e que só a nós nos pertence: a Língua Portuguesa.  Dizia-me uma portuguesa, empregada da limpeza, no outro dia muito admirada "ahhh nem se percebe que é português quando fala francês e quando fala português ainda não se nota que é imigrante". Ainda, ainda? Portuguêsmente falando: não me fodam. Que sim, que falamos francês durante o dia todo, é verdade. Que possamos num raciocínio imediato não encontrar a palavra portuguesa para este ou aquele objecto que até nem usamos todos os dias, tudo bem. Agora que se fale constantemente em françuguês é negligência linguística! E depois, outra coisa para a qual não encontro qualquer explicação nem tem pouco desculpa e que já considero crime, é o facto de muitos dos filhos dos nossos compatriotas NEM SEQUER FALAM PORTUGUÊS!!! A sério, um amiguinho do meu filho, tuga, não fala português e percebe muito pouco. Numa casa onde ambos os progenitores são portugueses? Alguém me explica isto?
Faço aqui um juramento solene perante todos os meus leitores: juro continuar a cultivar a a acarinhar a Língua Portuguesa e a escrever e ler em Português. Juro que farei tudo o que estiver ao meu alcance para que os meus filhos falem português o mais correctamente possível. E juro que tento defender e mudar um pouco a imagem que os Suíços têm do nosso povo. 
No último texto publicado a DeepGirl (que também está por terras helvéticas) escreveu o comentário seguinte: Teria ficado melhor se tivesses escrito "C'est oú, c'est oú, putain?!". Lol. Provavelmente até disse algo muito semelhante mas faço questão de descrever os diálogos em português. Para quem chega de novo ao blog pode até parecer que ainda estou em Portugal mas, na verdade, estar aqui ou em Lisboa é a mesmíssima coisa no que diz respeito ao "Cheirinho a Éter...", ao seu objectivo.
Obrigado e bom dia.

domingo, 18 de março de 2012

A noite ia calma.

O bom de trabalhar na Urgências é que nem sempre estamos no rodopio dos doentes que chegam. Há sempre um recanto mais sossegado que funciona um bocado como um serviço de internamento normal, o SO (Serviço de Observação). Aqui guardamos os pacientes estáveis que esperam vaga para ser internados num serviço "a sério" ou aqueles que precisam de umas horas de vigilância antes de regressarem a casa. A noite hoje esteve calma. Os meus doentes sem queixas, as linhas nos monitores bem rítmicas e constantes, como se pretende, o serviço à meia-luz, um alarme aqui e ali nos doentes da box ao lado mas nada de alarmante. O ambiente foi bom, os colegas bem animados. Encomendámos comida tailandesa que comemos era quase meia-noite e um dos colegas ficou com cólicas e tivemos que o "internar" numas das camas livres! As horas passaram indolentes, com pausas para preencher os gráficos da evolução dos pacientes que lá iam interrompendo as conversas sobre tudo o que vai bem e não tão bem aqui no serviço e no mundo em geral.
Toca o alarme de reanimação, saltamos das cadeiras como se tivéssemos sido ejectados do cockpit. "É onde, é onde?" pergunto apesar de o local estar bem identificado com uma luz encarnada. Contornamos a esquina e lá está a colega a fazer massagem cardíaca... Tomo o seu lugar, uma outra colega chega com a prancha de massagem cardíaca, e logo um outro colega com o carro de reanimação. Segundos depois o quarto foi invadido por outros enfermeiros e os médicos da urgência. É que o alarme soa em toda a urgência... A azáfama do costume mas desta vez bem organizada, tudo bem sincronizado. Colocamos o desfibrilhador... choque... nada. Retomar massagem. Material de intubação preparado, o médico falha a intubação uma, duas, três vezes. A coisa está feia. Adrenalina administrada. 20 minutos de massagem cardíaca. "Se todos estiverem de acordo paramos as manobras...". Todos estamos de acordo.
Doem-me os braços de tanto massajar e um colega diz-me: "massajas bem pá!".

quinta-feira, 15 de março de 2012

Hardcore.

Trabalhar em Urgência não é para todos. Ainda hoje encontrei um colega que acaba de deixar o serviço que desabafava "Ao fim de ano e meio já não conseguia ir trabalhar com prazer". E ontem foi na verdade um desses dias bem difíceis...
Para começar recebemos 3 crianças deste acidente indescritível . E isto, do ponto de vista emocional foi muito duro para todos ainda por cima sabendo de tudo o que se tinha passado... Depois recebemos acidentados, enfartes, paragens cardíacas, sei lá! Num determinado momento tínhamos TODA a equipa de enfermagem dentro das salas de reanimação com 4 pacientes a serem tratados ao mesmo tempo!! Juro que nem este post aqui faz justiça ao granel ( isso mesmo, granel, confusão, caos) que se instalou, ainda por cima com o stress de termos de fazer sair pelo menos um dos doentes porque tínhamos um quinto paciente a chegar de heli. E é este tipo de pressão, esta adrenalina de fazer as coisa depressa e o melhor possível que mata a relação da maioria dos enfermeiros que chega ás urgências. A culpa é das séries de médicos, como ER, Anatomia de Grey e outras que tal que passam uma imagem muito romântica das coisas. Depois na realidade as coisas são, normalmente, muito duras e cruas.
Mas dizia eu, trabalhar nisto não é para todos os estados de alma... mas, depois de um dia de LOUCOS com imenso trabalho quando chego a casa arrasado fisicamente e começo a contar o meu dia cheio de casos "engraçados" e "porreiros" de doentes politraumatizados, drenagens torácicas, enormes feridas sangrantes e doenças multifactoriais em doentes descompensados, a minha mulher olha para mim de esguelha e diz: "Engraçados? És louco... estou enjoada só com a descrição!" E nesse momento eu tenho a certeza que, na verdade não há nenhum outro serviço em que eu possa tirar tanto como das Urgências!

quinta-feira, 1 de março de 2012

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Não vou escrever durante uns dias...





... porque não estou em casa!

sábado, 25 de fevereiro de 2012

SU vs UCI

(AVISO: texto altamente tendencioso e parcial)

Desde os primórdios dos tempos hospitalares que existe uma rivalidade, uma certa animosidade subreptícia, um ascozinho mal escondido entre dois grupos: os das Urgências e os dos Cuidados Intensivos. Digo já que a culpa não é nossa, é antes dos emproadinhos dos Intensivos.
Vejamos, essa malta tem a mania que "Oh, nós é que somos bons com os nossos monitores topo de gama e os nossos ventiladores digitais." Ai e tal que eles trabalham com material com tecnologia de ponta e com fármacos super-potentes e o camandro. E então? Ora, com os doentes monitorizados até aos tomates, ventilados, sedados, ali controladinhos e sempre com os srs. doutores sentadinhos á cabeceira, ora assim também eu era enfermeiro! Eu queria era vè-los ali, no campo de batalha onde os doentes chegam vindos sei lá de onde, sabe-se lá com que doenças atrás deles e com queixas que não lembram ao Diabo!
Os meninos, quando vêm buscar um doente lá vèm eles com os seus monitores e as suas bombas e tal e coisa e depois olham de lado para nós e dizem logo "Ahhh, esta diluição não é a que utilizamos no nosso serviço..." E eu só tenho vontade de dizer " Oh senhor ministro dos doentinhos, então ensine-me lá qual é a diluição perfeita que eu, entre salvar a vida do doente e responder às 32489 solicitações dos médicos não tive tempo de reflectir qual a diluição que melhor vos serviria ó sapientíssimo." "Então estes acessos venosos estão funcionais?", "Funcionais? Qué lá isso? Eu quando pico um doente faço-o por forma a falhar a veia e depois, não contente com a minha incompetência espeto-lhe um soro a correr fora da veia qué para doer o máximo possível. Funcionais... pfff, que ofensa!" 
Pelo contrário, quando somos nós a ir ao serviço deles lá estão á nossa espera, batas descartáveis, máscara e luvas enfiadas. Só falta o cartaz a dizer "Aviso: pulguentos a caminho", os sacanas. Ai porque nós lidamos com acessos arteriais. Coitadinhos... um acesso arterial é só um cateter normal mas enfiado numa artéria pá!
Ninguém os atura...


Obviamente que estou no gozo mas existe mesmo uma certa animosidade entre quem trabalha na Urgência e quem trabalha nos Cuidados Intensivos. Por outro lado, não é menos verdade que existem certas características que definem ambas as equipas: os Intensivos mais fechados, muito ligados à técnica e menos ao doente e os das Urgências mais abertos, mais receptivos à mudança e ao desconhecido. Mas, se virem bem, isso só reflecte o ambiente em que cada equipa trabalha...

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

3.

Sejamos claros: eu nunca gostei de números ímpares. Acho que há uma certa imperfeição nos números ímpares. Enfim, 3, 5, 7... há sempre um número que fica só coitadinho! Enfim, eu gosto das coisas completas, não gosto de pontas soltas e não gosto de coisas que ficam a meio.
Por isso, se há coisa à qual ainda não me habituei desde que cheguei a terras helvéticas, essa coisa é a cena muito suíça dos 3 beijos. Mas que merda é esta? Acabo sempre por deixar a pessoa que saúdo pendurada, com o pescoço esticado e a fazer beicinho porque, muito simplesmente não me entra esta mania de dar 3 beijos! Convenhamos: ou se dá dois ou se dá quatro. No sistema actual há uma bochecha que fica a perder em relação á outra o que levanta uma série de problemas: começamos a série á direita ou à esquerda? Qual das bochechas é a mais adequada para receber dois beijos? E ao final de muitos beijos, a bochecha eleita não começa a perder qualidade? Enfim, todo um conjunto de questões que retiram o prazer dos beijinhos aos amigos. Que raios! E dizem-se eles, os suíços, um povo evoluído...
E depois, quando me apercebo que a coitada da rapariga que acabo de cumprimentar está ali, vulnerável, de pescoço esticado como se lhe tivesse dado uma caîmbra que a deixou desibilitada e com a boca a fazer beicinho como se tivesse a ter um ataque agudo de tétano, não é agradável. Nem para ela que fica como que congelada a meio de uma convulsão, nem para mim que fico sem saber o que fazer. Espeto-lhe o beijo que falta ou deixo-me ficar sossegado a fazer um risinho parvo e nervoso de como "é pá... e agora?". Porque se lhe enfio com o beijo que falta não devo depois completar a série de três? Ou é cumulativo? Raispartam!

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

E assim, de repente,

300 seguidores! Muito e muito obrigado.

(quero muito voltar à escrita mas isto da vida é uma coisa que não dá para tudo)

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Cenário (muito) raro.

São 5 da manhã (quase) e ouvem-se os ponteiros do relógio. Para se ouvirem os ponteiros do relógio numa Urgência é preciso que esteja tudo muito calmo. E está. Há sete doentes na Urgência mas todos estáveis, a dormir. As lampadas à média luz e à minha frente dormitam 4 ou 5 colegas, mal instalados nas cadeiras azuis de escritório, cabeças poousadas nas mesas, embrulhados a lençóis, pernas estendidas, pés descalços. 
Visto assim nem parece o mesmo serviço dos casos graves, dos acidentes e das reanimações. Não parece o sítio onde há sempre movimento, o vai-vem dos enfermeiros, o entre a sai dos médicos, os pedidos e reclamações de doentes e famílias, as macas dos bombeiros que chegam, o telefone das reanimações que toca.
E, visto assim, até se torna um pouco estranho, melancólico até, que o ritmo destas horas de madrugada no Serviço de Urgência seja dado pelo som dos ponteiros do relógio. Mas é booooooom!

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Ópera ou Heavy-Metal?

Vi num dos episódios de "Grey's Anatomy" (sim, sim eu vejo uma série "de gaja" agora deixem lá isso) uma comparação entre uma ópera e uma cirurgia onde, em ambos os casos, tudo é cuidadosamente preparado e planeado tendo em vista um momento determinado em que a cortina se levanta para dar início ao espectáculo. De uma forma semelhante, o instrutor de um workshop sobre emergência e reanimação descreveu a reanimação ideal como uma orquestra: existe um maestro (o chamado "team-leader", normalmente o médico mais experiente no domínio dos cuidados de emergência) e depois os músicos, ou seja, os outros médicos, enfermeiros, auxiliares e todos os técnicos que possam intervir. Não é nada disso. Uma orquestra presume harmonia, tempo, organização, fluidez, sinfonia...
Esta semana participei numa das reanimações mais... digamos complicada, da minha carreira: senhora, 78 anos cai (atira-se?) do segundo andar (cerca de 10 m) e cai em cima de um carro estacionado na rua. O cenário de chegada é fácil de prever. O ritual do costume: os enfermeiros (eu portanto) são os primeiros a chegar, acendem as luzes da sala, ligam monitores e desfibrilhadores, preparam agulhas e seringas, tubos de sangue, compressas e ampolas de medicamentos. Os médicos vão chegando, assim como os técnicos de RX, os auxiliares. Sente-se a expectativa a aumentar à medida que se aproxima a hora de chegada anunciada e quase que só se ouve na sala o "tic-tac" do relógio que tudo vigia por cima da porta de entrada dos doentes. Sinto-me a aquecer por dentro mas não sei se é aquela blusa de papel verde a as luvas herméticas de latéx ou a adrenalina que sobe de intensidade. Tiro o dossier da gaveta e entretenho-me a organizar os papéis na secretária. Tudo o que é médico de um lado, o que é dos enfermeiros do outro e as requisições de análises e pedidos de sangue para transfusão previamente preenchidos e assinados. Ouve-se o helicóptero que aterra no tecto, mesmo por cima de nós...
A doente chega, os ânimos agitam-se, o cenário é pior que se pensava. Neste momento somos corredores à espera do sinal de partida, enquanto ouvimos o relatório do médico do helicóptero... terminou! Precipitámo-nos para cima da doente.
O líder grita ordens para o resto de nós: "vamos cortar as roupas da doente, transferimo-la para a nossa maca com a maca do heli e passamo-la depois para o nosso plano duro! Já!" nesta altura começo a cortar roupa e o meu colega procura uma veia para canalizar. Entendemo-nos bem nós os dois... a doente está pálida e fria e peço à auxiliar para nos trazer lençóis quentes. Cortamos tudo, os anestesistas monitorizam os sinais vitais, a coisa não está boa, tensão muito baixa, pulso muito alto, mau sinal, sinal de hemorragia. Temos acesso venoso mas não temos débito de sangue para analisar, um dos médicos está a tentar picar uma artéria mas não consegue, uma, duas vezes. A doente continua na maca do heli. "RAPAZES, É HORA DE PARAR COM AS BRINCADEIRAS E PASSAR A DOENTE PARA A NOSSA MACA, AGOORA!" Largamos tudo e fazemos como ele diz, rolamos a doente e a anestesista grita "A DOENTE PAROU, A DOENTE PAROU", massagem cardíaca iniciada. Instintivamente vou buscar os eléctrodos do desfibrilhador (aquelas pás que se vêm na TV já não se usam!) e colo-os no peito da doente, ligo o desfibrilhador, modo manual ligado, a máquina apita ao ritmo da massagem cardíaca "DESFIBRILHADOR PRONTO!" grito. Preparo-me para render o médico que massaga mas o líder diz-me: "vais buscar 4 unidas de sangue O negativo!", "4 unidades de O neg" respondo para confirmar que recebi a informação. E corro até ao depósito de sangue O neg que fica fora do serviço num corredor a caminho da morgue... estranha associação esta.
Chego com o sangue e... primeiro desafio! só utilizei a maquina que aquece o sangue enquanto o transfunde uma vez... foda-se já não me lembro.... na hora certa chega o chefe de equipa de enfermagem. Paramos um momento, olhamos para a máquina tentando isolar-nos do ambiente à nossa volta. Estudamos as tubagens e os encaixes e siga! O sangue começa a ser administrado "2 UNIDADES DE O NEG EM CURSO", "Seguimos para a TAC." Há sangue por todo o lado, na doente, nas máquinas, nas batas nas seringas.
Na TAC, transferimos a doente para a mesa da máquina depois de várias hesitações porque o fio é custo, porque o ventilador alarma, porque o sangue parou de correr. Enquanto a doente faz o vai-vem no túnel da TAC é tempo de um ponto de situação "a doente recebeu adrenalina, dormicum, propofol em curso assim como a noradrenalina. Há duas unidades de O neg em curso mais duas em stand-by...", "Ok. Precisamos de mais 4 unidades de sangue mais 4 de plasma fresco." É a nossa deixa. Cada vez que a máquina para entramos na sala para verificar que tudo corre como é devido mas é difícil identificar em que tudo corre o quê... merda! há ar no tubo do sangue e este não corre! Desconectamos tudo, tiramos o ar cá para fora e recomeçamos. Não corre, algo se passa. Trocamos tubos de sítio, paramos perfusões que fazem soar os alarmes, o ventilador não gosta de ter as tubagens dobradas mas lá encontramos o problema. A doente está pálida e fria.
Seguimos para os Cuidados Intensivos. Falta-me o dossier do doente e faltam-me dois sacos vazios de sangue (temos de os guardar durante 48 horas), alguém os deitou fora. Encontro papéis do dossier espalhados na sala da TAC e o resto do dossier está com um dos médicos. Chegamos á UCIinfusoras, tubos e sacos de soro, trocamos os fios dos monitores e entregamos a doente. Enquanto caminhamos de volta ao serviço, eu e o meu colega, apercebemo-nos que passaram duas horas! Ele tem a farda branca cheia de sangue e eu gozo com ele porque devia ter usado as quentes mas úteis batas verdes descartáveis. Estamos cansados mas com a noção que fizemos tudo certo, na hora certa.
Uma reanimação é como uma orquestra? Nã! É mais como o "mosh" num concentro de heavy-metal!


PS: a doente morreu mais tarde nesse mesmo dia...

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Pérolas Linguísticas.

Que há muitos portugueses na Suíça já se sabe. Agora que eram TANTOS não fazia ideia! A primeira vez que vim a Lausanne tive a impressão de estar em Lisboa: enquanto passeava nas ruas ouvia algumas línguas estrangeiras que interrompiam o Português! Ele há portugueses por todo o lado: nas ruas, nas obras, nos supermercados, no hospital, nos correios, nos transportes. E isso é fácil de perceber se se souber que vivem cerca de 15 mil portugueses em Lausanne, uma cidade com cerca de 100 mil habitantes.  Sinceramente, quem não trabalhar directamente com o público não precisa de saber falar francês. E isso explica a razão pela qual há tantos emigrantes que falam muito mal a língua do país que os acolhe. E esse sempre foi um tema pelo qual muito me interessei, a Linguagem dos emigras tugas, uma linguagem que só eles conhecem: o Françuguês
Ora eu, tendo crescido numa pequena aldeia onde uma grande parte da população está emigrada e tendo uma grande parte da família em Paris, desde muito cedo que conheço este dialecto dos emigras. O Françuguês é uma mistura de Francês e de Português, onde se utilizam indiferentemente palavras dos dois idiomas numa mesma frase, na mesma conversa e até onde se inventam novas palavras que não existem em nenhum dos dois idiomas. O Françuguês é então um dialecto que dá espaço à criatividade do lucotor e este é alguém que domina na perfeição os dois idiomas (ou isso ou não domina nenhum dos dois, mas esta é uma teoria controversa que não discutiremos). Ainda por esclarecer está a razão pela qual os Portugueses emigrados em países francófonos utilizam este dialecto entre eles, estejam eles em Portugal ou Lausanne, Paris, Genebra ou Limoges. Uma teoria recente atribui este facto a alterações profundas no campo cerebral destas pessoas, que evolui de tal forma que já não é capaz de falar apenas uma língua falando assim dois idiomas ao mesmo tempo.
Exemplos (permito-me a esta liberdade sublinhando o facto que não domino as regras de tão complexa linguagem) que tenho ouvido um pouco por toda a cidade:

- Sr. enfermeiro tenho um pouco de mal à lá téte.
-Venho de passar um fogo rouge.
-Vais ali nettoyer as etageiras que venho de suite.
-Já viste mon chef m'a dit que je não pode ser, je ne peut pas faltar mais vezes, o cabrão. (true story)
- Tu est oú? Espera que j'arrive.

Estes são apenas pequenos exemplos descritos por um leigo na matéria. Mas fiquei deveras siderado, impressionado, rendido com uma conversa que, inadvertidamente, ouvi no refeitório do hospital entre duas empregadas portuguesas. O discurso saltava livremente entre o Português e o Francês começando uma frase num dos idiomas e terminando no outro, palavras eram criadas e utilizadas numa liberdade criativa de fazer corar o maior dos poetas. Aquele discurso foi música para os meus ouvidos e o principal motor deste texto. A minha inspiração! A agilidade mental daquelas senhoras, cujo raciocínio saltitava entre o Português e o Francês tal como abelhinhas esvoaçam de flor em flor buscando o mel, não está ao alcance de todos. Exige prática, investimento, anos de estudo. Actualmente não sou capaz de tamanha proeza, ou falo um idioma ou o outro à vez, mas permito-me sonhar que um dia, talvez um dia. também seja capaz de dominar um dos Símbolos Sagrados dos emigras portugueses: o Françuguês.  

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Em Português nos entendemos!

Uma das diferenças que mais noto em termos de trabalho no dia-a-dia, relativamente a Portugal, é a alegria no trabalho. Não que andemos todos armados em palhaços a pregar partidas uns aos outros, mas que o ambiente seja um pouco mais que só trabalho e conversas de... trabalho! A verdade é que, na sua maioria, os colegas são amáveis, cordiais, prestáveis mas... frios, distantes, impessoais. Por vezes sinto falta de uma gargalhada alta e sincera, da galhofa inconsequente e barulhenta que é tão comum (ok, ok, ás vezes demasiado comum, admito) em Portugal. Por outro lado, exercer a fina arte da piada fácil, do trocadilho evidente, da ironia cáustica é muito mais difícil quando estamos numa Língua que enfim, não é a nossa, por melhor que a dominemos. O que é triste pois quando tenho a sorte de encontrar uma equipa mais galhofeira a maioria das piadas e graçolas, as deles e as minhas tentativas, ficam um bocado "lost in translation".
Por isso é sempre agradável quando me cruzo a trabalhar com outro enfermeiro português do serviço (somos 3). Jovem do Porto há 4 anos na Suíça, fala francês com aquele inigualável sotaque tripeiro e tem um sentido de humor carregado de vernáculo... Estávamos os dois de serviço quando entra um jovem, vinte-e-poucos, nome português, bêbado que nem um cacho, aparentemente inconsciente. Um outro colega, francês, toma conta do caso e volta frustradíssimo dizendo que o fulano não reagia a nada. O nosso colega português chama-me e diz: Queres ver que o gajo acorda já?
E eu "mas vais fazer o quê" pensando logo que ele ia fazer das boas...
Ele entra na Box e, sem aviso, grita ao ouvido do moço: ACORDA CARALHO!!!
O puto levanta-se de um salto e senta-se na cama esfregando os olhos para os abrir à força. Olha para nós, observa-nos por um pouco e depois diz, vos enrolada pelo àlcool:
- Ohhh, ohhh... Foooda-se, pensei qu'era o meu pai....
E com esta se deitou e voltou a adormecer!

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Cá está! Já andava para mudar a imagem do perfil há uns meses, desde que cheguei aliás. Na verdade, a foto antiga já não reflectia bem a actualidade deste blog. Porque foi tirada em Portugal, num lugar e num tempo onde já não me encontro. Curiosamente, também foi tirada num corredor! Devo ter uma tara por fotos em corredores...
Esta imagem (que, devo confessar, acho que ficou porreirinha!) também é tirada nos corredores das Urgências onde agora trabalho. Desde o primeiro dia que reparei num objecto que nunca tinha visto em Portugal e que, na verdade, reflecte a preocupação dos Suíços com a segurança: trata-se de um semi-globo espelhado que, fixo no tecto, permite que vejamos a circulação nos corredores vizinhos evitando assim acidentes. Mas para mim, sempre que me via reflecido naquele espelho via a minha nova vida, a minha nova experiência e o meu novo futuro. Na verdade, se bem que na imagem pareça que estou parado numa encruzilhada, o que sinto é que tenho muitos caminhos à minha frente! Posso ir em frente, virar à esquerda ou à direita... mas nunca voltar atrás!

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

A bem do País...

Descobri por acaso este vídeo e quero acreditar que a produção do mesmo quis fazer mais uma coleção de cromos assim ao estilo do "Ídolos". Também quero acreditar que este bando de anormais não é representativo dos universitários portugueses...

domingo, 15 de janeiro de 2012

A ver se mudo a foto do perfil...

O que é Nacional...

Nunca gostei de alinhar no coro do "o que vem do estrangeiro é que é bom". É certo que também não sou o mais patriota dos Portugueses mas, se há coisa boa nesta história da emigração é poder constatar que afinal de contas eles, os estrangeiros também não é só virtudes! 
Há imensas coisas em que a Suíça está muito atrasada em relação a Portugal. Exemplos: a internet é normalmente cara e muito mais lenta que em Portugal, as ofertas são fraquinhas e muito iguais umas ás outras; enquanto em Portugal existe um verdadeiro internet banking, por aqui dá para ver o saldo das contas e pagar a renda e pouco mais, nem sequer dá para pagar o telemóvel; Multibanco não existe: cada banco tem as suas próprias caixas automáticas que dão para levantar dinheiro e pouco mais; à hora do almoço está tudo fechado e depois das 18h esqueçam as compras; não há creches e ATL em número suficiente; não há casas em número suficiente e não há lugares de estacionamento. Para além de que se paga até o ar que se respira! Claro que depois temos todos os aspectos em que eles são, de facto, melhores que nós mas isso agora não interessa nada.
Mas tudo isto para chegar á comparação que agora, passados 3 meses já posso fazer...
Em termos de Serviço de Saúde a diferença entre Portugal e Suíça está apenas nos recursos. Enquanto em Portugal qualquer dia estamos a reutilizar fraldas descartáveis e a por os doentes a vigiarem-se uns aos outros, por estes lados há material e pessoal com fartura para trabalhar. Já a qualidade dos profissionais... garanto-vos que já vi de tudo por aqui desde pessoal altamente profissional até grandes abéculas que não desejo na minha cabeceira, se estiver doente. Também há lobbys, invejas, grupinhos, preferidos, injustiças e malta a lamber o cú ao chefe. E o chefe (neste caso "chefes" que só no meu serviço são 2 chefes e 5 adjuntos!) também se deixa levar em joguinhos de interesses e políticas. Mas na chamada "hora da verdade" já vi colegas a fazerem merda da grossa, a colocarem em risco o doente e a cagarem-se completamente para este último. Se não fosse a organização, a planificação, a fiscalização (como devem calcular, com tantos chefes a vigiar quase nada passa em claro!) e os recursos, ai, ai...
Em termos de trabalho nós, os Portugueses (é somos três aqui no serviço, com um quarto a caminho) náo ficamos atrás de ninguém! Era só por os Suíços a mandar em nós e garanto que seríamos um dos países mais ricos do Mundo! 

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

A brincar, a brincar...

Ora bem, isto hoje é aproveitar que o Espírito de Natal não quer ninguém doente nem magoado.
Então, dizia eu, hoje lá me apareceu uma velhotinha com um entorse num pé (têm sido ás carradas as entorses já que a neve chegou e aquilo é coisa gira e tal mas escorrega que se farta) e consulta práqui, Rx práli, lá regressou ao seu lar. Estando sozinha no hospital lá empurrei a cadeira da senhora até á recepção das Urgências e pedi que lhe chamassem um táxi. Estacionei-a junto do pinheiro de Natal que alegra um pouco aquele espaço e acabei por lhe dizer:
-Minha senhora, deixo-a aqui ao pé da Árvore de Natal. Olhe, aproveite e leve uma prendinha!
Convém esclarecer que a árvorezeca tinha montes de caixas (vazias, provavelmente caixas de transportar as fraldas) embrulhadas e com lindos laçarotes espalhadas junto a ela.
Até aqui tudo bem, adeus minha senhora bom natal e as melhoras, obrigadinho senhor enfermeiro para si e para os seus também. Volto para o meu local de trabalho e poucos minutos depois toca o telefone.
-Olhe, desculpe lá, mas foi o senhor que acabou de trazer uma senhora de cadeira de rodas aqui prá sala de espera?
-Fui, fui.
-Então e você foi-lhe dizer que ela podia levar um presente da árvore?!?
- Mas foi a brincar... aquelas caixas não tem nada... certo?
- Mas ela acaba de tirar um peluche da árvore! Eu disse-lhe que ela não podia tirar e ela disse-me que você lhe tinha dado autorização.

Nesta altura não consegui evitar uma gargalhada.

- Isto não tem piada! Você não pode dizer essas coisas aos doentes!
-Pronto, pronto... eu trago um peluche lá de casa...
-Não é preciso.

Realmente, estes suíços têm o sentido de humor de um calhau.

domingo, 18 de dezembro de 2011

De volta ao básico.

Neva em Lausanne. Dou por mim muitas vezes a questionar porque raio me sinto tão bem aqui. Nem o clima, nem a Língua (bem, por vezes torna-se cansativo falar Francês o dia inteiro!), nem as diferenças culturais me afectaram por aí além. Perguntam-me muitas vezes qual tem sido a maior dificuldade com que me tenho deparado por aqui e agora, quase três meses depois, a minha resposta é clara: o Síndrome "Big Brother".
Trata-se da observação constante por parte dos colegas, da vigilância informal por parte dos chefes, do escrutínio constante, de ter de provar todos os dias que sabemos o que estamos a fazer. Para alguém com pouca experiência a pressão pode ser positiva, mas para alguém que em Portugal tinha uma posição confortável e destacada na equipa, isto pode ter um efeito pernicioso. O da desmotivação. Por isso trato de fazer tudo bem, confirmar e reconfirmar todos os passinhos dados, ler e reler processos e as notas que eu próprio escrevi, estudar protocolos e directivas, rever técnicas e medicamentos. Coisas que seriam naturais em Portugal, automáticas, aqui são feitas como se tivesse acabado de me formar.
Esta exigência que me coloquei a mim próprio tem tido efeitos muito positivos. Volto ao básico para me tornar num melhor enfermeiro, mais ciente daquilo que faz, com mais informação para decidir. Mas são tantas coisas para ver, para consultar, para saber! É um trabalho de alguma forma frustrante porque não é visível. E é frustrante também porque vejo colegas que estando vários níveis abaixo, em comparação comigo, com a qualidade do meu trabalho (perdoem a imodéstia),  me olham de cima. É o problema de ser o "gajo novo".
Enfim. São agora 23:30 em Lausanne e estou no Hospital até ás 7 de amanhã. Em vez de estar aqui a debitar parvoíces vou mas é estudar!

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Quem arrisca às vezes f... lixa-se.

Ainda acerca da história de encontrar casa em Lausanne. Se por um lado é difícil encontrar casa, trocar de casa também não é propriamente um "dia de praia" (ei! acabei de patentear a versão portuguesa de "a walk in the park"). Na verdade os contratos são bastante fechados quanto à sua resiliação: temos que avisar o senhorio com 3 ou 4 meses de antecedência relativamente ao final do contrato ou então encontramos um substituto que esteja disposto a ficar com o apartamento, nas mesmíssimas condições que nós. Ora aqui o espertalhão teve o seguinte raciocínio: "bom, se há assim tanta falta de casas na cidade, se tanta gente procura durante tanto tempo, não deve ser difícil encontrar um substituto". E zumbas, toca a procurar casa nova!
Casa nova encontrada, publicidade à casa onde ainda estamos, internet, folhetos lá no hospital e tal e, mais de uma dezena de visitas depois... NÃO HÁ AINDA NINGUÉM INTERESSADO NESTA CASA!!!! Mas tá tudo louco? Então... então mas... uma casinha tão jeitosa? Oh meus amigos, é que hoje já é dia 14 e não me apetecia nada pagar duas rendas no mês que vem! Olha que bela maneira de começar 2012, a pagar...

Iiiirra!

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Arrepio, arrepio, arrepio.

Ainda não me aconteceu ter um caso desses. Os meus colegas dizem-me que não é muito comum mas que, infelizmente, acontece. Na verdade, dei-me conta de que na verdade não estou a salvo de, um dia receber uma criança na Sala de Reanimação. Temos um canto da sala completamente preparado para cuidar de crianças, com todo o material em tamanho pediátrico e, na volta de controle de material que fazemos todos os dias também temos de controlar a zona pediátrica. E tocou-me o facto de haver pijaminhas de criança e pequenos "bodys" para recém-nascidos num local tão agressivo, frio e impessoal como aquele. Simplesmente nenhuma criança deveria ter de entrar num sítio como aquele e, acima de tudo, morrer num sítio como aquele.
Sim. Eu escrevi "morrer". E, de uma forma muito suíça (e muito bem, digo eu), existe uma norma institucional de "Como proceder em caso de morte de uma criança na Sala de Reanimação". Tudo muito esquematizado: limpar a criança, vestir-lhe um pijama, organizar a capela mortuária para receber o corpo, informar a família, acompanhar a família. Tudo muito certinho, o que fazer, quando fazer, onde fazer. E nós? Como lidar com a morte de uma criança? Como ajudar os pais a suportar tamanho sofrimento sem que, nós próprios soframos também?
Não estou preparado emocionalmente para lidar com algo assim. Que todos os dias me confronte com a minha própria mortalidade, pouco a pouco vou integrando essa ideia em mim. Que tenha de projectar a mortalidade dos meus filhos (arrepio) na morte violenta de uma criança... Cada vez que me calha fazer o controle da zona pediátrica, nesses dias é quando abraço os meus filhos da forma mais intensa, como se o meu abraço os pudesse proteger. De tudo. 

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Sorte do Caraças, é o que é!

Desde que lhe disse que vinha para a Suíça, a minha cara compincha de escrita Ana C. me disse que achava os Suíços um bocado nazis. É capaz de ter razão.
Por estes lados é muito difícil encontrar casa para morar porque enfim, as casas disponíveis são poucas! E eles recusam absolutamente aumentar a periferia das cidades e ocupar os espaços "verdes", não há cá construção indiscriminada de mamarrachos no meio das montanhas! O que quer dizer que, ao contrário do que se passa em Lisboa, que o centro da cidade de Lausanne (e calculo que das outras cidades também) está cheio. Cheio e vivo! Porque, ao contrário do que se passa em Lisboa, as pessoas vivem no centro da cidade, há mercados e supermercados dentro das cidades, há pequenas lojas familiares, cabeleireiros, os correios, relojoarias, pastelarias, escolas e lojas de skis e a cidade não morre à noite e ao fim-de-semana porque, enfim, a malta mora a 30 km nas Amadoras, Alcochetes e Quintas do Conde periféricas.
O problema é... encontrar uma casa! Quer dizer, todos os dias surgem anúncios de casas para alugar mas aqui o processo de encontrar casa é um pouco diferente de em Portugal. Aqui nós candidatamo-nos à casa! Estranho? Pois. Consultamos os anúncios, visitamos a casa e se interessados, entregamos um dossier de candidatura na agência imobiliária responsável. E esse dossier contém: documentos de identificação, documentos da entidade patronal como contrato de trabalho e os 3 últimos recibos de vencimento, o visto de residência (para os estrangeiros), declaração do "tribunal de dívidas" do cantão onde consta que não devemos nada a ninguém e só fica a faltar uma árvore genealógica até a 10ª geração! Entregamos e... esperamos. O mais certo é não obtermos resposta o que quer dizer: azarito, a casa foi atribuída a um gajo qualquer que não tu!
Mas voltando à conversa dos Nazis: quais são os critérios de atribuição das casas? Ninguém sabe! É ao critério das imobiliárias e dos proprietários dos imóveis. Imagino que o salário auferido deve ser determinante e se houver suíços interessados esses também devem ter prioridade (é uma política cá da casa, dar prioridade aos nativos. E muito bem, digo eu!), o facto de haver crianças também é muitas vezes eliminatório, idem para animais. Mas toooooda a gente me diz que levaram entre 3 e 6 meses a encontrar casa em Lausanne. Pois eu devo ser um gajo com um charme do caraças!
Então não é que encontrei a casa onde estou actualmente ao final da minha 2ª semana de Suíça? "Milagre" exclamaram os meus colegas mais antigos, "sorte de principiante" alvitraram outros, "nunca mais te acontece" advertiram ainda uns terceiros. Pois bem, não estando contente com o meu actual apartamento, eis que me lanço no início de mais uma demanda de um apartamento mais conveniente. E sabem que mais? Ao fim de duas semanas de procura, eis que me ligam de uma imobiliária dizendo "Monsieur Miguel, o apartamento situado na avenida X foi-lhe atribuído". AHAHAHAHAHAHA!!
Um apartamento situado a 5 minutos a pé da escola do Gabriel, a 15 minutos a pé do meu trabalho, com autocarro para o centro da cidade à porta e 3 supermercados, os correios e o meu banco à porta!!!
Bem, se os suíços são um bocado nazis então a minha foto deve dar ares de um certo "arianismo" do alto do meu 1,78m e com os meus loiríssimos cabelos pretos e os meus olhos de um castanho azulado!!

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Aviso: isto é coisa que vicia!

Começa com um ritual que fazemos todas as manhãs: abrir as salas de Reanimação (onde recebemos situações muito graves, ou seja, perigo de vida imediato) e ligar as máquinas. Ouvir os seus estridentes sons de alarme, calibrar valores, fazer testes de função. E verificar o material, se está presente, se tudo funciona se as coisas certas estão nos lugares certos. E, ao verificar uma check-list onde tudo está esquematizado e listado e ao verificar os protocolos de actuação na Sala de Reanimação, temos a impressão que tudo deverá correr de uma forma planeada e ordenada. Não.
Toca o telefone de anúncio de situação de reanimação. É activado pelo INEM cá do sítio. É um som rouco e alto, uma espécie de alarme de radioactividade que se ouve nos filmes, e que ecoa por todo o serviço. Dois ou três enfermeiros precipitam-se para o atender mas aquele que finalmente responde à chamada entra numa espécie de transe: não diz nada e rabisca apressadamente cruzes e pequenas palavras num pequeno formulário. Finalmente desliga e, trocando de telefone, marca um número e diz algo do género: "Homem, 56 anos, encontrado inconsciente na sua casa, glasgow 3, intubado, instável, chegada dentro de 15 minutos" e desliga. O computador ao qual esse telefone está ligado mostra uma lista dos elementos aos quais a mensagem vai ser enviada: Médico do Serviço de Urgência, Médico dos Cuidados Intensivos, Chefe da Equipa de Enfermagem, Técnico de RX... À medida que essas pessoas vão atendo os seus telefones, os seus nomes passam de vermelho a verde no ecrã.
Cinco minutos antes da hora da chegada do paciente estamos todos dentro da sala, á espera. Sente-se a tensão a aumentar. Já preparei os meus medicamentos de urgência, o material de intubação, os tubos para onde vou colher sangue, as agulhas, os soros. O meu colega ligou o desfibrilhador, o ventilador e também está preparado. Os médicos aguardam, alinhados, em frente à porta de entrada. O doente chega, o pessoal do INEM cá do sítio transmite o que sabe e o que fez e o doente passa para a nossa maca. É o nosso doente agora, precipitamo-nos para ele, cada qual com sua missão. Eu tento picar uma veia para o sangue, para deixar um catéter lado a lado com um médico que tenta picar uma artéria. Empurramo-nos um pouco para tentar encontrar a melhor posição. Não dá, digo-lhe para se afastar um pouco, preciso de espaço. Ele sai de cena. Do outro lado da maca o meu colega já tem o doente ligado ao monitor que apita dando o ritmo cardíaco e também marcando o ritmo das nossas acções. À cabeça do doente, o médico mais experiente (o "Team-Leader) debita informações e indicações para o resto da equipa. Anuncio que tenho um acesso venoso e ele inicia a lenga-lenga da mediçação a dar: "x" miligramas disto, "y" microgramas daquilo, iniciar perfusão de "z" a "x" miligramas/hora. As pessoas atropelam-se na sala, uns que entram com novas informações, outros que saem para enviar o sangue para o laboratório, nós gravitamos à volta do doente, fios enrolados, tubos de soro que se cruzam. Doente estável, ligamos o carro de transporte (uma enorme coluna cheia de máquinas) à maca e lá vamos nós para a TAC, para o Bloco Operatório, para a Cardiologia de Intervenção, para os Cuidados Intensivos. Nos corredores as pessoas encolhem-se à nossa passagem, somos muito e as máquinas apitam e um Ser Humano com tubos enfiados em vários orifícios e ligado a 3 máquinas diferentes impressiona sempre!
Doente entregue no seu destino. Voltamos, arrumamos a sala e repomos o material utilizado, testamos as máquinas e deixamo-las prontas a utilizar. Apagamos as luzes e fechamos a porta atrás de nós. O telefone toca outra vez...

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Não foi pêra doce não!

Ora bem, vamos a contas.

Então, no dia 25 de Setembro saí da minha casa na Quinta do Conde com a carrinha atulhada de tralha e fui para casa dos meus pais durante quatro dias para depois voltar para Lisboa apenas com duas malas com 78 kg de roupa e muita esperança no coração. Dois dias acampados em casa de um casal amigo (obrigado Vânia e Luís!) e no dia 1 de Outubro aterramos todos em Genebra às 19 e qualquer coisa (hora local) depois de termos ficado em terra em Lisboa após termos perdido o voo inicialmente marcado. No dia 2 entro no pequeno estúdio que já tinha reservado para mim e fico (com a minha parte das malas) em Lausanne enquanto a Mariana e os putos seguem para o norte da Suíça (380 km e 3 horas de caminho depois), onde se instalam aguardando (im)pacientemente que eu encontre casa para a família. Dia 3 de Outubro começo a trabalhar.
Entretanto, na segunda semana de Outubro acontece um milagre: encontro casa para a família, entrada dia 1 de Novembro (milagre porque é extremamente difícil encontrar casa. São tão poucas que os proprietários dão-se ao luxo de abrir candidaturas às casas: visitamos, entregamos um dossier de candidatura com 50 documentos e esperamos ser seleccionados). Dia 15 de Outubro uma amiga que vive em Lausanne vai de férias para Portugal e empresta-nos a casa até ao final do mês. Lá vem a Mariana com as tralhas e os putos de atrelado Suíça abaixo e lá vou eu com os meus dois pares de calças, as meias e os boxers ainda limpos para o apartamento da nossa amiga.   
Dia 1 de Novembro mudamos finalmente para a nossa casa com as nossas duas malas e os putos de atrelado mas a casa está vazia e então lá vamos á Conforama comprar um sofá e um colchão para nós, um primo da Mariana que mora perto arranjou-nos uma mesa e uns bancos, o meu pai enviou-me uma velha TV Sony e um colchão para o Gabi e o David dorme na cama de viagem (e que bem que dorme!). E lá ficamos nós, os dois e os putos, numa casa  com um sofá e um colchão no chão, uma mesa e cadeiras que não combinam e uma velha TV Sony numa casa que entoa de tanto vazia que está. Duas semanas depois chegam 27 caixas de cartão de Portugal com o resto das nossas coisas! E agora a casa já não entoa tanto porque há caixas de cartão espalhadas por todo o lado. Mas não podemos livrar-nos das caixas por duas razões: primeiro não temos roupeiros nem armários para arrumar as coisas e em segundo porque já estamos a procurar outra casa, já que esta é assim pró carota e está um bocadinho mal situada. E lá ficamos todos com o sofá, o colchão e a velha TV Sony e a casa cheia de caixas de cartão que o Gabriel se entretém a furar com uma caneta.
E assim andamos nós, vendo casas e sendo recusados até que finalmente nos ligam (ontem!) dizendo que ficámos com um apartamento situado a 5 minutos a pé da escola do Gabi, do banco, dos correios e dos 3 supermercados mais significativos do país (tipo Continente, Jumbo e Pingo Doce mas em versão pequena)! Fantástico! Sorte do caraças! O único ponto negativo é que, no espaço de 3 meses vai ser a nossa 6ª mudança de residência: nós e os putos, o sofá, o colchão, a velha TV Sony, as 27 caixas de cartão e mais um móvel de quarto que estava na rua mas em tão bom estado que agora está no meu quarto!
Mas creio que será a última nos espaço de alguns anos...

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Lost in Translation

Desde o início que sabia que a língua (neste caso o Francês) ia ser um desafio vital nesta nova aventura. Na verdade já falo francês há muitos anos, o suficiente para manter uma conversa informal de uma forma compreensível e estruturada. Contudo o vocabulário técnico seria sempre um desafio. Mas não estava preparado para as reais dificuldades... Na verdade o vocabulário técnico é muito parecido com o português e quem quer que seja que domine o francês na sua vertente mais geral consegue facilmente dominar o vocabulário técnico. Já falar com os doentes... isso é outra conversa! Não é assim tão evidente receber um doente nas Urgências e descodificar o seu discurso. O que em português é automático passa a ser penoso em francês!
Para já o tratamento formal presume tempos verbais mais complexos para além do presente, passado e futuro. E depois há montes de expressões idiomáticas que não são conhecidas de um não-francófono. Por incrível que pareça dei por mim a pensar e a pesquisar na net como se dizia alguma palavras aparentemente simples como "fezes", "bexiga" e "gémeo" (o músculo), e a encravar no discurso ao descobrir subitamente que não sabia como perguntar ao doente "Então? Os intestinos funcionam bem?". E garanto-vos que tenho recebido montes de olhares intrigados de doentes ou familiares que visivelmente não perceberam um boi do que eu lhes disse!! Por outro lado a maioria dos  doentes utiliza expressões mais coloquiais para se exprimirem. O equivalente em francês a "arriar o calhau", "picha", mijar", "cagar" e coisas dentro desta linha de linguagem! Descobri da forma mais embaraçosa que os dedos têm nomes diferentes dependendo se forem os dedos das mão ou os dos pés! Depois há a questão da entoação. O francês é uma língua muito musical e com pequenas variações nas entoações das palavras e por vezes apercebo-me que os pacientes tendem a repetir algumas palavras que digo mas com entoações ligeiramente diferentes. Os primeiros 15 dias de trabalho foram difíceis na medida em que estava ainda a tentar adequar a minha forma de me expressar em francês.
Eis senão quando recebo um jovem agressivo e numa crise psiquiátrica... a tourada do costume, gritos, montes de gente a segurar o rapaz e finalmente as imobilizações de mãos e pés. Claro que depois de preso o jovem passou a berrar a plenos pulmões "AJUDA, SOCORRO, POLÍCIA" para além de, evidentemente "CABRÕES, FILHOS DA PUTA, CORNUDOS!". Sendo o meu doente, lá o instalei na sua box de urgência (uma espécie de quarto mas sem portas) e tentei acalmá-lo. As coisas até estavam a correr bem até ao momento em que disse uma palavra qualquer que o tipo não percebeu... "Essa palavra nem sequer existe." afirmou o tipo com desdém. E eu reformulei a frase mas já era tarde. Percebendo o meu erro ele começou "Não percebo nada do que dizes... Essa palavra não existe... não percebo nada..." até que finalmente "SOCORRO, SOCORRO, NÃO PERCEBO UM CARALHO DO QUE ESTE GAJO DIZ!! NÃO PERCEBO ESTE TIPO" em altos berros...

Na verdade é uma pena que não haja buracos num serviço de urgência de um país tão evoluído.


segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Maravilhoso Mundo Novo

De todas as mudanças que a minha vida sofreu no último mês a que mais me marcou foi, sem sombra de dúvida a máquina que distribui as fardas! É assim tipo uma lavandaria gigantesca com todas as fardas de todos os funcionários penduradas, bem lavadas e engomadas. É só chegar, encostar o nosso cartão de identificação ao leitor da maquineta e seleccionar as fardas. Aquilo roda e roda e roda e roda e como num passo de magia... eis que surge um polo branco pronto a usar logo seguido de umas calças impecavelmente limpas! Juro que era capaz de ficar a babar, encostado ao vidro da máquina, a observar o seu funcionamento... mas infelizmente tenho que ir trabalhar!
Depois de 12 horas a bulir, eis que volto à minha adorada máquina de distribuição de fardas, logo depois de me desfardar. Chego devagar e, docemente, introduzo uma a uma as peças que usei durante o dia para logo ler a sua mensagem de despedida: "vêtement reconnu". E eu logo respondo: "Até amanhã lindona!"

JÁ TENHO INTERNET EM CASA CARAMBA!!

sábado, 5 de novembro de 2011

Rapidíssima.

Tinha muitas coisas para contar mas... não tenho tempo! Nem internet em casa aliás! Mas novidades, novidades... o Gabriel começa na nova escola já na próxima semana!
Tirando isso só mesmo o facto de estes teclados QWERTZ me continuarem a irritar.

Volto logo!

(não sei quando, mas volto)

terça-feira, 11 de outubro de 2011

A poeira assenta lentamente...

Depois de uma semana de integração "à séria" como nunca tinha visto (trabalho "zero", uma semana inteirinha dedicada à organização da instituição) eis que volto ao campo de batalha onde me sinto melhor: o Serviço de Urgência! Entretanto encontrei casa para a família (que não é assim tão pequena, mas também o preço... upa, upa...) que se vai juntar a mim no final desta semana (tenho estado sozinho num pequeno estúdio). Continuo sem internet em casa e, verdade seja dita, sem grande tempo nem disponibilidade para vir contar as aventuras desta mudança (não tão radical como parece), que são muitas! 

À bientôt!

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Tipo Telegrama

Oi! Estou moídinho mas vivo! Com todas as coisas que tenho para resolver por terras helvéticas não tenho tempo nem para comer em condicões! Foram tantas as aventuras só nas duas  últimas semanas em Portugal que já tenho historietas para alimentar o blog nos próximos meses.
Até um dia destes! 

(maldito teclado "franciü"...)

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Uma bela maneira de ficar bem visto depois de ter impedido uma fila de supermercado!

Ontem fui às compras, naquela cadeia de supermercados da musiquinha irritante. Bom, estava na fila pronto a pagar tudo mas faltava-me um artigo que não encontrara em lado nenhum. Perguntei à menina da caixa: "Peço desculpa, mas já não têm aqueles bonequinhos "Um Bongo", uns que vêm embrulhadinhos num plástico? Costumam estar por aqui neste mostradores à entrada das caixas..." (nesta altura eu estava sozinho naquela fila de caixa) "Uns bonequinhos que vem numa caixinhas?" pergunta ela "Enfim, eles vêm nuns plásticos que estão dentro de uma caixa..." respondo, não certo de estarmos a falar da mesma coisa "Isso agora está ali na secção dos sumos.". Entretanto tinha chegado uma senhora à fila. "Importa-se que eu dê uma corridinha ali aos sumos?" pergunta à recém-chegada que não levanta objecções. Uma corrida rápida pelo corredor e volto à caixa "Não encontrei, deixe lá. Faça a minha conta." mas a menina da caixa chama o segurança "Ò sr. segurança sabe onde estão aquelas caixinha com bonequinhos "um Bongo"? Ali no corredor dos sumos?" Entretanto chegara mais uma cliente à fila... "Aguarde só um bocadinho..." reponde o segurança dirigindo-se ao local dos sumos. E eu já um pouco encavacado por estar a demorar a fila e toda a gente que esperava, três senhoras estavam já atrás de mim! O segurança volta com uma caixa: "Ora cá está!". "Mas não é isto! Isto tem os sumos e um boneco. Eu procuro uns saquinhos que trazem só o boneco.". "Nunca vi isso por aqui!" respondem a menina da caixa e o segurança enquanto uma das senhoras que esperava confirmava a minha versão. "Mas não interessa, eu levo a caixinha com os sumos, não há problema!" A menina faz a minha conta e enquanto eu pagava aparece o segurança com os tais saquinhos com os bonecos lá dentro! A menina da caixa diz-me "Se quiser podemos fazer uma devolução da caixa e leva só o boneco, como queria." mas eu estava já a sentir-me um pouco incomodado pelo tempo que já tinha ocupado ás senhoras que estavam na fila, à espera que eu acabasse "deixe lá, eu levo a caixa." mas a menina insistiu e fez a devolução. "Olhe que não lhe compensa levar só o boneco! Este custa 2.99€ e com os 9 sumos a caixa só custa 3.51€!". "Pois, não compensa! Leve mas é a caixa!" intrometiam-se já as senhoras que esperavam na fila, impacientes. "Pois, assim sendo levo a caixa." Finalmente tinha pago e preparava-me para sair mas achava que tinha de dar uma satisfação a quem tinha esperado...
"Eu peço imensa desculpa  minhas senhoras mas é que eu prometi ao meu filho que lhe levava um bonequinho destes (que ele gosta muito) e não podia chegar a casa de mãos a abanar."
E a resposta foi um longo e sonoro: "Ohhhhhhhhh!" (Julgo que ouvi um "Que querido!" lá pelo meio!) 

Faltam 10 dias.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Psst...

Psst... psst... vão dar um olhinho ao Asas para voar! ...

Obrigado!

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Da total ausência da noção de espaço.

Uma das prioridades (ou A prioridade) assim que pise o solo helvético é encontrar uma casa para a família. Claro que estou careca de visitar os sites com as ofertas para aluguer de casas e já tinha constatado duas coisas essenciais: são poucas casas disponíveis; as disponíveis são caras. Definimos que, neste momento poderemos ficar-nos por uma casa apenas com 2 quartos. E então partimos à descoberta da casa ideal, muito embora ainda apenas virtualmente!
Mas, este fim-de-semana ao discutir o assunto com um amigo e enquanto lhe mostrava as ofertas e a sua localização relativa ao hospital onde vou trabalhar e considerando os transportes públicos disponíveis bem como as escolas para os putos e por aí fora, ele sai-se com esta observação: "Mas olha que a maioria destas casas são muito pequenas!", e eu "Pequenas? Pequenas como?", e ele "Então, lembras-te da minha anterior casa?" (claro que me lembro!) "Essa casa tinha uma área total de 60 m2." A casa em questão é mi-nús-cu-la. Eu olho para a lista de casas que tenho à minha frente: 58, 64, 76, 61, 55, 70, 63 m2...
ISSO É O TAMANHO DO MEU RÉS-DO-CHÃO!! Como é que vai ser a vida desta família de 4, dois dos quais rapazes pequenos que fazem tudo menos estar sossegados? Como será a vida numa cozinha do tamanho de uma cabine telefónica? Qual será a sensação de, durante o sono, colocar o braço de fora da cama e conseguir tocar nos meus filhos que dormem no quarto do lado? Como será estar sentado no sofá da sala com as pernas esticadas pelo corredor? E os meus filhos, com apenas um quarto para dois, julgo que terão uma convivência sã mas barulhenta! E convém lembrar que não haverá jardim para enxotar os putos... a não ser que os enxote para as escadas de serviço do prédio... Mas, acima de tudo o que mais me preocupa é a seguinte questão: como é a vida numa casa com apenas UMA casa-de-banho? Digamos que, ao acordar, o banho é apenas a segunda coisa que eu faço no WC...
Portanto, o espaço a e sua ocupação serão preciosos principalmente para quem, como eu está habituado a ter o espaço de uma vivenda (ainda que pequena) e que gosta de se sentir "à larga". Por isso viro-me para a cidade santa de Estocolmo e ajoelho-me rezando ao todo-poderoso deus IKEA, criador de todo o espaço útil de arrumação dos humanos e suas tralhas,  que me dê força e inspiração para sobreviver à gloriosa aventura que me espera. EXPEDIT! (é como dizer "ámen" mas no vocabulário IKEA.)

Faltam 23 dias.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Aicanervos!!!!

Eu realmente gostava de voltar a escrever coisas giras mas... é difícil quando se passa dia após dia em casa! Neste momento chegámos áquele momento em que continuam ainda muitas coisas por arrumar mas todas essas coisas nos fazem ainda muita falta no dia-a-dia.
Só me apetece começar a enfiar tudo nos caixotes...

Faltam 25 dias.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Closure.

"Resolveste a questão do cão? Com quem fica ele?"

Esta questão, colocada pela Marta num comentário ao post anterior, deu-me o pretexto perfeito para abordar uma questão muito sensível para mim: o "dossier" Gastão. Depois de muito hate mail e das mais variadas acusações de insensibilidade e canalhice porque estava a abandonar o meu cão e que não estava a fazer tudo ao meu alcance para o tentar levar comigo, não houve uma única pessoa por entre esses críticos que tenha fornecido uma solução, que se tenha voluntariado para resgatar o coitado do cão das garras de um dono insensível e cruel. Entretanto houve uma pessoa que me contactou e se comprometeu a adoptar o Gastão mas, na hora da verdade, desapareceu. Deixou de atender telefones, não respondeu a mensagens. Inicialmente pensei que talvez tivesse acontecido almas mas acabei por descobrir que essa pessoa está bem através do seu mural do Facebook que não está bloqueado (lição: cuidado com as redes sociais!). Obviamente que essa pessoa não estava obrigada a coisa nenhuma mas um aviso "afinal pensei melhor..." teria sido agradável.
Os meses foram passando e a situação arrastou-se até ao ponto em que começámos a pensar num plano B. E, neste caso, o plano B seria um Hotel para cães. O Gastão ficaria hospedado num hotel até que se encontrasse uma solução mais definitiva. E até já tínhamos tudo acordado com um desses hotéis. Contudo, Gastão é nome de sortudo (foi baptizado com o nome do pato da Disney que tem toda a sorte, o primo do Donald) e a situação acabou por se resolver da forma mais inesperada: a pessoa que me alugou a casa e que vem para cá viver já em Outubro perguntou, no dia em que veio visitar a casa, se o cão também estava incluído! Conversámos seriamente e ficou decidido: o Gastão fica com ela continuando assim na sua própria casa!
Apesar disso, não julguem que vamos deixar de nos preocupar com ele. Continuarei a sentir-me sempre responsável por ele até porque nunca se sabe o rumo que a nossa vida vai levar. Eu sou a prova viva disso mesmo.
Por isso, obrigado à Marta por ter perguntado e obrigado a todos aqueles que se preocuparam genuinamente com o Gastão (e eu sei que foram muitos os que nos tentaram ajudar). Aos outros, aos "defensores dos animais", fanáticos, fundamentalistas, adeptos do "gosto mais dos animais que das pessoas" __________________________ (a completar ao gosto de cada um).

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Marcante... mas só por instantes!

Ontem suspendi a minha inscrição na Ordem dos Enfermeiros e entreguei a minha cédula profissional. Continuo a ser Enfermeiro mas agora não em Portugal. Não digo que não senti nada, senti uma leve sensação de desapontamento porque aquela Ordem, que nos devia representar e proteger, assiste num luxuoso cadeirão à fuga dos seus profissionais para outros países. Eles lá patrocinam estudos para relevar as razões desta emigração (razões essas que todos nós conhecemos, sem ser necessário um único estudo) mas não vi um único com acções para diminuir esta realidade.
Mas depois saí para a rua, senti o vento fresco na face e deixei de pensar no meu passado e olhei para o meu presente, imaginando o que pode ser o futuro!
Faltam 30 dias.

domingo, 28 de agosto de 2011

Marcar passo.

Estamos prontos. Depois de tudo o de mais importante estar tratado faltam apenas alguns aspectos mais acessórios a resolver antes de partir. O que quer dizer que neste momento encontro-me numa posição em que pouco mais me resta que esperar. E eu detesto esperar!
Com tudo bem encaminhado em Portugal, na Suíça apenas (este "apenas" entre aspas claro!) o meu posto de trabalho e um sítio para dormir estão assegurados, faltando ainda tudo o resto para que o resto da família se possa juntar a mim. E assim tenho passado muitas (muitas!) horas em frente ao computador a ler de tudo um pouco sobre a Suíça e os Suíços. Já percebi (finalmente) os princípios básicos da assistência na doença, não existe um Sistema Nacional de Saúde como em Portugal mas sim um sistema privado que é alimentado por Seguradoras. Todos têm de subscrever um seguro de saúde e existem várias modalidades de seguros (e vários preços claro!); o sistema bancário é muuuuito mais vasto que o nosso e muito mais complicado também! Para uma simples conta à ordem (que em Portugal é praticamente gratuita) é imensas modalidade e também se paga. Temos de estar muito atentos ao que contratamos com o banco e o simples acto de ir ao Multibanco (na Suíça não existe multibanco universal e cada banco tem a sua própria rede de caixas automáticas) pode sair muito caro se não estivermos atentos; os abonos de família são fixos e muito mais altos que em Portugal (cerca de 200 francos por criança); descobri um estudo que compara o nível de vida entre vários países da Europa e pude constatar que há aspectos em que é mais caro viver em Portugal que na Suíça (serviços de Internet e telefone por exemplo, são mais caros cá!) mas posso afirmar que globalmente o nível de vida na Suíça é cerca do dobro de Portugal. Se considerarmos que os ordenados na Suíça são cerca de QUATRO VEZES superiores...
Mas o que me fez realmente pensar acerca do meu futuro foi um artigo que encontrei, escrito por um francês especialista em recursos humanos e que se dedica essencialmente a estudar a integração dos emigrantes (franceses, mas não só) nas empresas suíças. Esse artigo enumera algumas regras/conselhos para uma boa integração na cultura empresarial (e pessoal) suíça. Saliento estes:

- No trabalho, treine-se para ter (e para inspirar) confiança nos colegas : na Suíça, contrariamente ao que se passa em França (e em Portugal, digo eu!!), as relações de trabalho são baseadas numa confiança recíproca entre empregador e empregado. Não utilizar formalismo excessivo, não demonstrar desconfiança, não ter uma atitude reinvidicativa, respeitar a hierarquia no local de trabalho.

- Adopte a "atitude suíça" face ao trabalho: evite os conflitos, pense "colectivo" e implique sempre a equipa nas decisões, não seja demasiado "familiar" com os colegas, cumpra as suas promessas.

- Atenue a sua cultura francesa, ela é um pouco barulhenta demais para os Suíços (também se aplica lindamente ao Tuga, não acham?): seja discreto, tente não se evidenciar em demasia, escute os outros. 

Estes "avisos" dão que pensar... mas sinceramente, depois de anos e anos a trabalhar ao sabor do vento e das loucuras dos chefes, acho que me vai fazer muito bem trabalhar com linhas directas e muito bem definidas! Faltam 33 dias.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Profissão: Dono-de-casa, desesperado. Ou A Falta que uma Mãe faz.

Facto: estou sozinho em casa com os dois miúdos há dois dias.
Estou acordado desde as 5 e 30 da matina, desde que.  o David reclamou o seu biberão e não mais quis dormir. O Gabriel acordou ás 7. Pequenos-almoços cerca das 8 e o resto do dia consistiu em: seguir o David para todo o lado, tentar que ele dormisse, sem sucesso, separar as guerras territoriais entre irmãos, tentar das alguma atenção ao Gabriel e sair com ele e a sua bicicleta (David no carrinho) para me arrepender logo depois. Almoço, nada de sestas que a vida não está para isso. Mais perseguições, mais gritos, berros e birras, quedas e empurrões. Já não sinto as costas porque o David já só quer colo. Final da tarde, a ausência de sesta começa a produzir os seus efeitos. Infelizmente não se traduzem em sono ou abrandamento da actividade. Pelo contrário, estão ligados à ficha! O jantar passou. nem sei bem como, mas sei que estou cheio de sopa pela roupa toda. Banhos, história, xixi e cama. O João Pestana deve estar de férias. O David parece que dormiu toda a tarde e está "on fire" no seu berço. Atira com a sua almofadinha de dormir e com a chucha e mistura riso com choro num padrão verdadeiramente esquizofrénico. O Gabriel tem medo dos monstros debaixo da cama e exige a minha presença ao seu lado. Ok, Ok. Vai tudo para o meu quarto, Gabriel na minha cama, David ao meu colo. Cedem finalmente. Desço as escadas e contemplo o cenário desolador: a cozinha tem ar de ter sido atacada à granada. Loiça suja por toda a banca, pacotes de leite abertos, o Cerelac na mesa. O chão está cheio de grãos de arroz, manchas vermelhas de ketchup e verdes da sopa. Há relva e folhas do jardim, os meus chinelos, as sandálias dos putos. Há brinquedos espalhados por toda a casa (donde surgiram tantos bonecos?!), cascas de maçã, uma embalagem de iogurte no sofá, guardanapos em cima da mesa da sala.
Acho que devia dar uma arrumadela rápida nisto mas estou demasiado cansado para isso. Parece que levei uma tareia. Vou tomar um café tentando não pisar  nenhum dos brinquedos espalhados pelo chão. É que eu ando sempre descalço pela casa. Além disso, o dia amanhã começa cedo. Aí por volta das 5 da manhã...

Mafarricos.

Dois dias em casa, só eu e os miúdos. Sinto-me como se tivesse sido espancado com um taco de basebol. Obrigado e desejem-me sorte para os próximos dias.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Dilemas, dilemas...

Temos por garantidas as melhores coisas da vida. Nesta altura de férias, em que é comum passar-se algum tempo em hotéis, com mais ou menos estrelas, reconheci finalmente o que mais prazer me dá nos hotéis para além do pequeno-almoço pronto a comer, a piscina e o respectivo bar e o encontrar o quarto arrumado quando o deixámos tão caótico como se uma granada lá tivesse rebentado. E meus amigos, o que mais prazer me dá nos hotéis é... encontrar a sanita impecavelmente limpa e bem-cheirosa tooodos os dias!
Existe lá prazer mais básico, subconsciente e primário do que cagar numa sanita limpa? A pele sensível e branca do rabo em contacto com a alva porcelana, o cheiro fresco e limpo que emana do WC Pato, a sensação fresca do contacto do rabo desnudo com o frio do tampo, primeiro aquele arrepio do frio agridoce e depois aquela fusão perfeita entre as nádegas e a sanita onde, ao fim de algum tempo já não se sabe bem onde começa um e acaba o outro... ah, o prazer! E assim devia ser, um direito básico do Homem a uma sanita limpa, cheirosa, brilhante, resplandecente todos os dias, até ao fim dos dias.
Mas enfim, a crua realidade dá-nos chapadas firmes todos os dias. As nossas sanitas não são limpas todos os dias e, crueldade suprema, a vida ensina-nos que não são fadas nem duendes que tratam de dar ao nosso rabo o contacto com a porcelana que ele merece. Não, temos de ser nós próprios a tratar disso. E nós tratamos. Com mais ou menos à vontade, mais ou menos asco, mais ou menos náusea, nós tratamos da nossa sanita. Como eu tratei ainda hoje.
E agora, findo o jantar e tomado o belo café laxante vejo-me diante deste dilema, encurralado entre duas questões que se excluem mutuamente. Preso entre a perspectiva animadora e gulosa de sentar o meu belo rabo de pele branca naquela alva porcelana resplandecente e aí mesmo satisfazer um dos prazeres mais básicos de todos os Homens e, por outro lado, cagar aquilo tudo outra vez!
Era tão mais fácil se existissem umas fadas-madrinhas...

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Girls night out.

Foram assistir ao concerto onde deve ter ocorrido a maior concentração de trintonas/quarentonas adolescente-saudosistas. I wanna lay you down in a bed of roses... mas os espinhos são coisa para te dar cabo das costas!

sexta-feira, 29 de julho de 2011

É de cortar os pulsos com uma lâmina pequenina e romba.

Detesto, abomino mas acima de tudo não entendo o conceito do cartão "Viva Viagem" para os transportes na Grande Lisboa. Sinceramente, dá vontade de..... AHHHHHH.
Vejamos: trata-se de um cartão, um bilhete, uma merdinha de um rectângulo de papel magnetizado que supostamente (e aqui o "suponhamos" é muito importante) e segundo que é publicitado, facilita o usufruto dos transportes colectivos em Lisboa. Em teoria compra-se o tal papelinho (50 cents só o rectângulo!) e depois carrega-se com viagens e siga! Nada mais errado. Então, eu que raramente ando de transportes, chego ao "cacilheiro" e compro 2 viagens. Primeiro, entro na barcaça e saio no Cais do Sodré e dirijo-me à bilheteira do Metro e solicito o carregamento com mais duas viagens, desta vez para o dito metro. "Ah e tal não porque este bilhete já tem viagens do cacilheiro e assim é impossível e tem de comprar outro cartão e carregar com viagens do metro." Hmm? Diga? Então e não há alternativa? Sei lá, um bilhete que dê para todos os transportes? "Ehhhh, há um bilhete diário para turistas mas custa para lá de uma pequena fortuna." Ah pois é... Mais dois bilhetes (mais um euro em papel!) e já vão quatro rectângulos verdes (2 cacilheiro + 2 metro). E siga.
Entretanto ponho-me a pensar: "Peraí! Então se um gajo quiser ir na CP até Cascais ou ir no eléctrico até ao Castelo de S. Jorge... são mais 2€ em mais dois bilhetes num total de 6 (!) bilhetinhos verdes, todos igualinhos que ás tantas um indivíduo já não sabe qual é o do metro e qual o do barco e tem que passar todos na merda da máquina que lê os malditos?! Nãããã..." E procuro melhor e encontro o "Cartão Zapping". O que, dito assim, parece que é um cartão diferente. Não é. É a mesmíssima coisa, um rectângulo verde igual aos outros todos que se carrega com DINHEIRO e não com viagens! Genial. Portanto, os génios que imaginaram este esquema decidiram que existe diferença significativa e inconciliável entre VIAGENS e DINHEIRO!!! Génios é o que vos digo!
Mas como já estava farto de tantos bilhetes verdes (e feios ainda por cima) distribuídos por todos os bolsos (metro no bolso direito, barco no bolso esquerdo, carris no bolso de trás que aquilo são todos iguais e um homem tem que se orientar de alguma maneira!) vai de comprar mais dois papelinhos (1€ portanto e carregar com dinheiro, não com viagens, dinheiro. E siga. Na volta para a margem sul já que estávamos perto de um comboio fertagus e tínhamos o bendito cartão zapping, decidimos regressar de comboio. E a porcaria do cartão nada de ser aceite pela maquineta de validação. "Olhe, ófaxavor, senhor da bilheteira. Isto parece que há aqui sarilho porque a máquina não lê isto e eu ainda agora meti dinheiro no zapping." E ele responde: "Ah isso é zapping? Pois, dá em todos os transportes menos no comboio da ponte..."

P****** que pariu pá!

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Perspectivo uma vasectomia.

Estou de férias. Quer dizer, afirmar que estou de férias é mentir. Estou em casa, digamos. E estou em casa ocupado a empacotar toda a casa e a agrupar os respectivos pacotes de tralha acumulada ao longo dos últimos anos em várias categorias: "levar", "vender", "dar", "lixo". Pelo meio dou asas ao trolha que há dentro de mim (fiz um pequeno estágio no Instituto do Balde de Massa mas chumbei categoricamente na categoria de "servente de pedreiro") e vou preparando a casa para as pinturas que irei levar a cabo nos próximos dias. Limpar paredes, aplicar massa nos furos e fendas, adesivo nas portas e cerâmicas para não pintar o que não devo. E isto tudo estaria muito bem não fosse o pequeno pormenor: OS PUTOS ESTÃO EM CASA!!! O que quer dizer que, na prática tudo o descrito acima é feito quando eles estão na sesta o que, convenhamos, faz com que tudo se processe muuuuito devagar.
Resumindo, estou escavacado! O Gabriel quer brincar com o pai, correr com o pai, jogar à apanhada com o pai, ás escondidas com o pai, todo o dia é tempo de brincar. Já o David, ahhhh o David, 12 meses de energia que não cessa nunca, ele anda pela casa, para cá e para lá e depois para lá e para cá, ele trepa para cima das cadeiras e daí para cima das mesas, para cima do sofá, para cima do móvel da sala e quase para cima da TV, ele trepa para estante aos quadradinhos do IKEA e enfia-se num dos quadradinhos feito bibelôt humano, e ele sobe escadas... para apenas voltar a descer depois de lá chegar acima! Sobe de depois desce, sobe e depois... desce. Sobe, fica um pouco no quarto e depois desce. E quando contrariado contorce-se, esperneia e deita-se no chão o sacaninha! Nem uma palavra sequer emite e já faz birras. Deixo-o o no chão a contorcer-se e ele, quando se apercebe que está a pregar aos peixes, levanta-se, procura-me e vai de iniciar a birra novamente! Entretanto as minhas brincadeiras com o Gabriel são constantemente interrompidas o que faz com que ele, para reclamar a sua parte de atenção, se transforme numa espécie de Homem-Aranha misturado com Superhomem arraçado de Hulk. Resultado: só se vê um vulto a voar e a seguir um estrondo que significa destruição! Inevitavelmente, são cada vez mais frequentes as brigas (físicas digo-vos eu!) entre os irmãos...
Juro por todos os santinhos, pelos putos arraçados de mafarricos que pulam, correm e gritam aqui por casa, que preferia trabalhar 16, 24 ou até 48 horas consecutivas. Estaria muito menos cansado! Garanto que me dói o mais pequeno músculo do meu corpo (aliás, não imaginam o sofrimento que está a ser escrever este texto!) e agora, a dormir, parecem dois anjinhos.... E toda esta experiência que relato é só metade, a outra metade é a parte da Mariana!

E pensar que ainda faltam 2 meses e meio até voltar ao trabalho...

quinta-feira, 14 de julho de 2011

De pantanas!

Cada vez mais se aproxima a data de partida e cada vez tenho menos vontade de trabalhar porque estou demasiado preocupado com a desocupação da minha casa. Juro que tenho fortes enxaquecas cada vez que abro os armários da cozinha. MAS DE ONDE É QUE SURGIU TANTA TRALHA??? A sério que não fui eu que enfiei tudo aquilo lá para dentro, deve ter sido alguma entidade paranormal ou um duende ou um poltergeist qualquer. Copos e copos e pratos e travessas e panelas e frigideiras e tupperwaoores e tudo e tudo e tudo. Mais de 90 % das porcarias que lá estão nem sabia da sua existência. E AGORA O QUE FAÇO COM TUDO AQUILO?
A mesma coisa com os livros. Tanto livro e mais livro, romances, ficção, biografias, portugueses e estrangeiros e calhamaços da faculdade. E quando se pensa que estão todos, finalmente, dentro da caixa respectiva, PUMBA, lá aparece mais outro enfiado num canto qualquer! E por falar em caixas, julgo que devo ter alguma árvore de onde nascem caixas de cartão pois elas parecem amontoar-se, cheias e vazias, por toda a casa. Os roupeiros são outro pesadelo! Principalmente os dos miúdos. Como é que gente tão pequena pode ter assim tanta roupa? E brinquedos?? Ui, os brinquedos. São ás centenas e não dão jeitinho nenhum para arrumar
De repente lembrei-me que tenho CD's, objecto que já não utilizo vais para uns anos valentes. Mas pronto, têm valor sentimental e trazem memórias, arranja-se uma caixa pequena e enfiam-se lá os cêdêzitos e marca-se a caixa "CD's FRÀGIL"... menos mal, isso está resolvido. Mas o resto, o resto, meu deus! Pratos, copos, mesas, cadeiras, roupas, roupas de cama, camas e colchões, TV, armários, sofás, brinquedos, livros, toalhas de mesa, electrodomésticos, candeeiros, quadros e tapetes...
A nossa casa começa, lentamente, a esvaziar-se de coisas e a encher-se de caixas de cartão. Guardaremos apenas uma pequena percentagem de tudo o que temos em casa, apenas artigos pessoais e outros com algum valor sentimental. O resto organiza-se em dois lotes: para vender e para dar.
À atenção de Harry Potter, caso leia este blog: podes emprestar a varinha para eu aplicar um feitiço qualquer tipo avada kevadra ou accio ou assim, aqui nas tralhas de casa? Obrigado.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Long live Rock n'Roll!!!

Esta sempre foi uma banda que segui, desde o primeiro album. No início foi a curiosidade de ver como se saía um ex-membro dos Nirvana (banda que venerei para lá do razoável, na minha adolescência) mas depois foi a música. Confesso que estranhei ouvir a voz do ex-baterista dos Nirvana a cantar melodias tão leves, alegres, ritmadas quando estava à espera de ouvir depressão, desespero, raiva pela morte ainda tão recente de Kurt Cobain. Mas Cobain era grunge, era revolta e angústia e isto, isto meus amigos é Rock!
O seu último álbum é, para mim, perfeito. Podem dizer: "os mesmos sons de guitarra, bateria com fartura, o mesmo de sempre" mas não. Há ali algo. O som é puro, rude, cru. Foi um álbum gravado em fita e não em digital. Tudo ali é genuíno, orgânico, puro, original. E trouxe-me tantas sensações antigas, de miúdo vibrante com o barulho das guitarras, a batida da bateria e o ritmo do baixo!  Actualmente, nesta fase boa da minha vida em que me preparo para mudar, tenho a discografia dos Foo Fighters em loop no meu iPod! Nenhum outro som espelha tanto a minha felicidade, a boa onda, a excelente perspectiva. Nem Radiohead, nem Pixies, Cure muito menos.
Nunca fui a um grande festival de verão. Este ano vou ao Alive! ver estes senhores. E que ansioso estou!!! Para quem é fã: o "rockumentário": Foo Fighters - Back & Forth é muito bom.


E para preparar a noite de 7 de Julho, Passeio Marítimo de Algés...



YEAAAAAAAAAHH!!!

Apelo.

Quem conhecer alguém que faça transportes para o estrangeiro pode indicar-me o contacto? Tenho algumas caixas de tralha que preciso enviar para a Suíça.
Merci!

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Pancadinhas de Amor.

Esta semana, Festa de S. Pedro no Seixal! Por lá andámos divertidos com o mais velho a pedir para andar em tooooodas as diversões e o mais novo fascinado com as luzes e todo o barulho. Mas o mais divertido mesmo foi andar nos carrinhos de choque com o Gabriel! Céus! Há anos que não andava nos carrinhos de choque e já não me lembrava como aquilo é mesmo, mesmo divertido! Todo o ambiente é tão foleiro com os milhares de luzes coloridas, os néons fatelas, as pinturas a plagiarem rascamente tudo o que é marcas e imagens de referência e a música, aiiii a música!, tudo o que é hits orelhudos dos grupos "dos jovens" ornamentado pela batida mais básica das pistas de dança, o que faz com que nos pareça que estamos a ouvir sempre a mesma música, sem intervalos! Mas é isto mesmo a magia destas festas populares, o gosto duvidoso, a tentativa falhada de ser "cool", o exagero das músicas e das luzes. Mas voltando aos carrinhos de choque...
É incrível que o ambiente e as personagens da pista sejam os mesmos de que me lembro, de há 15 anos atrás! Os mesmos grupos de rapazes a contar os trocos para comprar fichas, os mesmos grupos de raparigas a fazerem-se difíceis. Na pista lá andam aos pares, dois rapazes num carro, duas raparigas no outro em que eles as perseguem e tentas abalroá-las o mais violentamente possível! Julgo existir aqui uma metáfora para a relação entre homens e mulheres mas nem sequer me atrevo a desenvolver... Aliás, parece-me que deve ser o único sítio do mundo onde uma pancada lateral (ou frontal!) certeira é uma maneira aceite de dizer "Gosto de ti miúda!". E lá andam elas, alegremente a serem abalroadas à bruta enquanto se fazem fortes e eles, sorriso maroto nos lábios a murmurar "Gostas assim, à força não gostas? Toma!"
Depois, os mesmos personagens de há 15 anos desfilam naquela passerela:
-O Arrumador-de-Carrinhos: o rei e senhor da pista. É o fulano, empregado, que tem como função arrumar os carrinhos abandonados no meio da pista. Mal encarado, não sorri nunca, cigarro no canto da boca. Toda a gente o respeita, ele é o mestre dos carrinhos. É o salvador das meninas cujo carro não anda lançando-se pelo frenesim de carros que correm em todas as direcções e pendura-se no para-choques agarrando-se à barra traseira do carro com um braço e conduzindo o carro com a mão livre, numa posição protectora para as donzelas em perigo. Passa-se se alguém bate contra a fila de carros que ele tão bem alinhou.
- Os Rufias-da-Pista: dois rapazes já no final da adolescência. Sentam-se não no banco do carro mas sim em cima dos encostos traseiros do mesmo. Conduzem como loucos tentando bater o mais violentemante possível contra os carros com as miúdas mais giras. São constantemente perseguidos pelo Arrmador-de-Carrinhos, que desafiam.
-As Miúdas-Mais-Giras-da-Pista: duas raparigas, giraças, conduzem de nariz empinado e não perdem nunca a postura por mais vezes que as atinjam. Acabam por ir-se embora, enfadadas porque já nenhum rapaz lhes liga.
- O Pintas: um gajo claramente já trintão mas que gosta de passar por adolescente. Nunca tira os óculos de sol, gira pela pista e não gosta de ser tocado. Sorri maliciosamente para as adolescentes que se agrupam nas laterais da pista. Passa a noite dentro do carrinho porque não quer ir para casa da mãezinha com quem partilha a cama.
- Homem-Trintão-Agarrado-a-Filho-Pequeno: diverte-se mais do que o filho. O pequeno vai muitas vezes com um ar aterrorizado. (ora aqui está um retrato que me parece demasiado familiar...).

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Je suis, tu es, il est...

Nos últimos tempos tenho dedicado algum do meu tempo a estudar o Francês. Aliás, a minha companheira mais próxima nos últimos dias tem sido a Gramática Essencial do Francês que, neste caso, foi traduzida do Alemão! Confusos? Pois.
Mas enfim, ando perdido por entre o Imparfait, o Conditionnel, o Subjonctif e o Gérondif. De vez em quando encalho nas terminações e liaisons e não percebo porque é que aquele verbo está conjugado daquela forma. Farto-me de ler artigos sobre Portugal e sobre os Portugueses na Courrier International e isso é bom porque percebo qual a imagem que os estrangeiros têm acerca de nós! E tenho a enervante tendência de traduzir automaticamente para o francês (por vezes em voz alta!) tudo o que esteja a ler. Dou por mim a pensar "como é que se diz isto em francês" e a fazer contas de como se constrói o presente do conjuntivo: será o radical do presente com as terminações do imperfeito ou o radical da terceira pessoa do plural? Nem uma coisa nem outra, já estou a confundir esta merda toda outra vez...
Imgaino como serão os meus dias lá, a falar uma língua adoptada. Sinto que é muito cansativo falar numa língua que não é a nossa, o cérebro a trabalhar, a fazer as ligações todas e a procurar o que vai com o quê! E isto nota-se porque o Português é para nós como respirar, é inconsciente, fazêmo-lo sem nos dar-mos conta disso. Mas o que me preocupa é, para além de me fazer entender o melhor possível e não fazer figura de urso, não trocar presente com futuro e masculino com feminino, como é que raio é que me vou desemerdar num debate, discussão, troca de galhardetes? Porque em português é fácil: "tás é parvo!, isso querias tu agora, vai mazé trabalhar!, mas isso tem lá alguma lógica? Não percebes nada disto vai mazé prá escolinha e se não estás bem muda-te!", percebem a ideia não é? E depois ponho-me a tentar dizer isto tudo em Francês e... "tu es fou! tu voudrais ça maintenant, va travailler! mais il y a de logique? Tu ne sais rien retourne à l'école et si tu n'est pas d'accord tu peux te changer!". Isto não funciona...
Merde.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Hoje, pela primeira vez na vida, comprei um bilhete de avião só de ida. Ainda não sei bem o que sentir ou o que pensar...

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Carreiras alternativas.

O post anterior não surge do nada, apenas porque me lembrei de compilar todos os esteriótipos associados ao emigra tuga. Nada disso. A verdade é que encontro imensa gente (mais do que consigo compreender) que ao saber que vou trabalhar para a Suíça me pergunta: "Mas vai trabalhar como enfermeiro ou..." deixando a pergunta no ar como que processando as alternativas. E isto mostra um grande preconceito face ao emigrante português! E eu lá respondo "Então...? Pois..." mas com muita vontade de responder algo do género:
"Nã! Enfermeiro? Era o que faltava! Ia lá eu quebrar com gerações de pedreiros, jardineiros, empregados da limpeza, empregados de cozinha, garçons, barmans e porteiros de hotel portugueses que dominam por terras helvéticas. Pfff."
Sem desprimor para nenhuma destas profissões (eu até tenho familiares muito próximos em 4 ou 5 destas profissões lá na Suíça!) até porque em algumas delas se ganha mais que na enfermagem!, mas isto só revela que na mente das pessoas se vais trabalhar para o estrangeiro deve ser para fazer este tipo de trabalhos.  

terça-feira, 21 de junho de 2011

Tentativa parva e provavelmente falhada de reunir todos os esteriótipos do emigrante português.

Hoje sonhei com o futuro próximo! Lá vinha eu em plena autoroute com as fenêtras abertas, na minha linda voiture rebaixada, vidros escuros e um enorme escorpião no vidro de trás. Na rádio o "Meu Querido Mês de Agosto" e os putos lá atrás, sentados no meio das malas, das geleiras, dos chocolates que comprei para a família toda. E no retrovisor um terço e a imagem de Nª Sra.
Eu venho com um enorme fio de ouro, o cabelo curtinho mas com uma melena que me tapa o pescoço. Agora só falo "françuguês": David vien ici e passa-me aí a viande; Gabriel tu vas tomber... eu não te disse que ias caír!!! Vimos passar o mês na nossa maison na aldeia, uma bela maison com 7 quartos, 2 salas, 2 cozinhas, varandas a toda a volta e escadas exteriores. Com a pressa e assim que passo a fronteira e entro em Portugal, toca a acelerar com fartura que aqui não há cá multas como em França e em Espanha e até passo alguns fogos rouge que ninguém viu! Ah, adoro Portugal...
Mas afinal Portugal é um país de merda! As autorroutes são más, as da Suíça são muito melhores! E os portugueses não sabem conduzir. Se fosse na Suíça não esperava tantas horas para ser atendido no banco e no hospital. Na rua não há pubelas e está cheio de lixo no chão. Por isso é que atirei o saco de lixo que trazia no carro desde Paris, afinal isto já está tudo tão sujo que não se nota. O que nos vale é o sol.
Na Suíça não há sol e os suíços são racistas. A comida é cara e não presta para nada. O que vale à Suíça são os francos e as autorroutes para portugal. E agora está na hora de partir, é carregar o carro com vinho, bacalhau, presunto, maças, batatas, cebolas, Vinho do Porto (que a madame minha patroa gosta muito!), chouriços que não há disso lá nas montanhas!
Au revoir e até ao meu regresso!

Falhei algum (esteriótipo)?