sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

Voltem sempre!

Há um ano, estava no serviço sem nada para fazer e lembrei-me: "Olha! Vou criar um blog!" e pronto, nasce o "Cheirinho a éter..."! Apesar de toda a evolução, os altos e os baixos, os seguidores, os amigos, o carinho e todas as outras coisas boas que têm vindo desse lado (Obrigado a todos!), a filosofia mantém-se a mesma! Lembro-me, como se o tivesse feito ontem, do primeiro texto que aqui escrevi!
AVISO: Este blog será mantido durante as horas que passo nos serviços (são dois, Às vezes mais...) por isso, na prática estarei a ser pago (imaginem lá por quem!!!) enquanto estiver aqui a escrever patacoadas!!!
Nunca a expressão irada de um utente descontente "Ouça lá, sou eu que lhe pago o ordenado seu..." teve tanta razão de existir (doce vingança!). Mas olhem, já que me estão a pagar, disfrutem e visitem este novíssimo serviço de saúde (patológico) e não se esqueçam de utilizar o livro de reclamações (comentar vá.)
PRÓXIMOOOOO!!
Voltem sempre, sim? Obrigado.

quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

As voltas que a vida dá.

Sempre fui frontalmente contra toda esta histeria que se criou em volta da Gripe A. Na minha humilde opinião os cuidados a ter prendem-se com medidas gerais de higiene e a vacinação deve ser dirigida aos grupos de risco de sempre. Entretanto a DGS alarga esse grupo às crianças saudáveis entre os 6 meses e os dois anos e às grávidas nos 2º e 3º trimestre. Se não há notícia de problemas entre as crianças entretanto vacinadas, o mesmo já não se pode dizer das grávidas: 3 fetos mortos em 3 dias. O que interessa dizer aqui é: ocorrem anualmente centenas de mortes fetais no 3º trimestre e, até agora, isso nunca foi notícia! É absolutamente abusivo que os jornais estabeleçam, ainda que apenas implicitamente, uma relação de causa-efeito entre a vacinação anti-gripe e a morte dos fetos. Funciona como quando um avião cai. Lembro-me que, após a tragédia do voo da Air France que se despenhou no Atlântico, houve notícias sucessivas de quedas e avarias nos aviões iguais ao que caiu!! A imprensa quer sangue... e confunde a opinião pública, deixando a população cheia de dúvidas. Com a informação clínica ainda não estabelecida, nós próprios ficamos, por vezes, sem resposta para dar aos utentes.
Eu faço parte de um grupo de risco! Afinal, passo muitos dos meus dias no "gripanário", nome com que carinhosamente baptizámos o Serviço de Apoio à Gripe. Se, até há bem pouco tempo, nem a Mariana nem o Gabriel eram parte de um grupo de risco, o que me deixava relativamente à vontade na abordagem ao doente suspeito, limitando-me a cumprir as regras de barreira física (luvas e máscara), com a Mariana grávida de 6 semanas o cenário muda radicalmente, uma vez que este vírus parece ter uma apetência especial para as grávidas. Porque todas as medidas que impeçam o vírus de entrar na nossa casa serão sempre poucas, vacino-me amanhã!

quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

Portugal na África do Sul!

Eles passar, passaram. Mas que ainda não me convenceram...

A Verdadeira Felicidade.

Quando a Mariana engravidou pela primeira vez confesso que não compreendia bem as emoções que surgiam, dia após dia, à medida que a barriga aumentava. Estava feliz, isso era certo, afinal tinha sido uma gravidez planeada de um filho desejado! Mas acompanhava-me um certo sentimento de que talvez, talvez devesse estar mais empolgado, mais ansioso, mais... feliz.
Um momento marcante nessa minha "evolução emocional" foi a primeira ecografia! Foi o momento em que eu senti que ia ser pai! A batida rápida do coração do Gabriel invadiu o meu lado mais íntimo e quase que juro que, por momentos, o meu coração bateu ao compasso do dele! A partir daí, as minhas emoções passaram a ter um objecto, um alvo. Mas, mesmo assim, continuava a pensar que a amplitude da minha felicidade não era suficiente. O tempo passava lento mas calmo. A gravidez foi calma, a Mariana não teve grandes queixas. Nem vómitos, nem dores, nem perdas de sangue. O crescimento do Gabriel foi normal, as análises sempre bem. Ansiava pela próxima ecografia e sentia que amava já aquele bebé minúsculo, ampliado pelo aparelho e que só conhecia de perfil e a preto e branco!
As últimas semanas foram de ansiedade! Não via a hora de conhecer o meu primeiro filho, a ponto de os meus colegas comentarem que eu próprio estava "grávido"! Até que.... Fomos à consulta das 39 semanas e a Mariana regressou a casa já com uma sensação de desconforto no baixo ventre. Almoçámos e saí para o trabalho. Entrava às 16 e o telefone tocou ás 15:30: "A bolsa rebentou!". E ás 21:51 do dia 04 de Abril de 2007 percebi que não estava errado. Nada daquilo que senti durante os nove meses de gestação me tinha preparado para aquele momento, o momento em que o Gabriel nasceu e chorou! Ainda hoje não encontro palavras para descrever esse momento. Mudo, as lágrimas corriam livres pela face enquanto abraçava mãe e filho. O meu filho, o meu Gabriel. E soube, finalmente, o que é a Felicidade. Posso hoje dizer que foi o momento mais sublime da minha vida.
Por isso, estou muito mais empolgado nesta "2ª volta"! Porque hoje sei o que me espera, conheço a evolução das coisas e sei o significado de "Amor". Não posso esperar pela 1ª ecografia, pela barriga crescida, pelos movimentos e pontapés, pelo evoluir da relação do Gabriel com o irmão/irmã, pelas suas dúvidas e questões, por aconchegar o bebé nos meus braços, no seio da nossa família, por adormecer com ele no meu peito. E envolver o Gabriel em todo este processo. Não peço muito, apenas que o tempo corra rápido, sem sobressaltos! Ah!... e que seja uma menina!
PS: obrigado a todos pelas palavras de carinho dadas no post anterior!
PS2: só tu Ana C... só tu!

segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

Um traço de felicidade.


quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

Não doeu!!

Lidar com crianças doentes não é fácil. Nada fácil mesmo, nem para os pais, nem para os profissionais de saúde. Contudo a criança é, obviamente, a menos responsável pelo seu tratamento. Observo com alguma apreensão uma atitude que se generaliza cada vez mais entre os pais de crianças pequenas (digamos até aos 10 anos) e que se prende com uma certa inaptidão para lidar com a criança doente. Confesso que hoje, enquanto pai de um menino de 2 anos que não gosta de médicos, compreendo melhor a angústia dos pais quando confrontados com a recusa do seu pequeno em receber o tratamento.
O que deixa perplexo é perceber, em cada vez mais casos, a atitude excessivamente democrática de alguns pais perante os seus filhos. Falando curto e grosso, são os putos que mandam lá em casa e os pais vivem ao sabor dos apetites dos miúdos. Hoje tive um caso paradigmático: uma miúda com 7 anos que se recusava e fazia birra porque não queria fazer um aerossol (!). Estamos a falar de uma criança com capacidades cognitivas para perceber o conceito do tratamento que ira receber e que, de facto, não adviria qualquer tipo de desconforto com aquele tratamento. Pois a miúda gritou e berrou e bateu na mãe e esta manteve sempre aquele registo de quase súplica, nunca se impondo claramente e terminando com uma frase que me causa urticária: "Ela não quer...", como se a vontade da menina fosse suprema e irreversível.
Um outro caso aconteceu quando um menino de cerca de 6 anos me chegou ás mãos para fazer uma injecção de penicilina. Claro que dói e é desconfortável mas é inevitável e o último recurso. O puto berrou e esperneou e bateu e mordeu no pai sem que este tivesse uma postura acertiva e inequívoca acerca de quem mandava. Informei o pai que o menino teria que ser imobilizado e ele concordou. Quando deitámos o menino e o segurámos para eu lhe poder administrar o fármaco, o pai afastou-me bruscamente e levou o menino, recusando que o seu filho fosse medicado. Meus caros amigos, isto é um crime! Além de que o pai reforçou o comportamento negativo do filho e hipotecou as hipóteses que havia de ele perceber que o tratamento é perfeitamente suportável e prejudicou o seu filho, negando-lhe o acesso ao tratamento mais rápido e eficaz! Cada vez mais me parece que os pais, na ânsia de demonstrar amor e carinho, confundem a educação pela positiva com o facilitismo e o mimo em excesso, transformando os seus rebentos em monstrinhos mal-educados, caprichosos e manipuladores.
Para terem um exemplo de como isto pode ser verdade, certo dia uma mãe ao dirigir-se a mim dizia-me que era melhor chamar mais duas pessoas para imobilizar o seu filho porque ele recusava as injecções e tinha uma força bruta. Ora, eu entendo que este tipo de discurso só serve para reforçar esse comportamento por parte da criança que se sente muito importante, ao ponto de a mãe avisar um outro adulto acerca da sua força. Neste caso (e atenção, que isto nem sempre resulta) levei o rapaz (mais ou menos 8 anos) para dentro e expliquei-lhe o que se iria passar e avisei-o que o iria picar as vezes que fossem necessárias até o medicamento estar administrado em toda a sua totalidade e que, quanto mais força ele fizesse, mais seriam as picadas envolvidas. Expliquei-lhe ainda que eu era bastante mais forte que ele e que podia sempre chamar mais um adulto para me ajudar. Ou seja, todo o seu poder, a sua arma de arremesso, foi anulado! Toda a sua aura rebelde e agressiva desapareceu e o miúdo portou-se lindamente!
A minha abordagem para estes miúdos rebeldes (e estou a usar um eufemismo!) é a de lhes mostrar que ali, naquela sala, não são nem eles nem os pais que mandam. Sou eu! E com maior o menor dificuldade, dando tempo aos pais para conversarem com eles e dando pistas subtis aos pais para firmarem a sua posição, eles acabam por aceder. A miúda do aerossol de hoje demorou cerca de uma hora a aceder mas, no final disse-me "Não doeu!".

quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

Viagem de autoconhecimento.

Com a histeria da gripe dos porcos surge agora entre os profissionais de saúde um aspecto muito positivo de auto-conhecimento e consciencialização. O facto de sermos obrigados a usar máscara durante horas a fio coloca-no assustadoramente perto de um aspecto pessoal nem sempre reconhecido: o nosso próprio hálito.
E, através dele, iniciamos uma viagem ao nosso íntimo da qual não voltaremos os mesmos...

terça-feira, 10 de Novembro de 2009

A nova canção-fétiche.

Muito seventies, a lembrar os Led Zeppelin, e mesmo a calhar para quem, como eu, já tinha saudades da pureza de uma guitarra bem esgalhada!! Rock on baby!!!

Fogo-de-artifício verbal.

"Então do que se queixa?". Esta parece ser a pergunta-gatilho para uma maratona verborreica de alguns doentes.
"Ai sr enfermeiro, dói-me aqui as cruzes. Sabe, eu trabalhei muitos anos no campo e então, quando tinha 20 anos, sabe, em 1955, que foi quando o meu marido faleceu, deus o tenha em eterno descanso, porque que lhe uma grande dor muito grande no peito e faleceu-se-me mesmo ali, na cozinha. Diz que foi um farto do micardo ou lá o que foi. Mas pronto, ele faleceu e eu tive que ir trabalhar para o campo, para a quinta do capitão Areias que foi um grande combatente da guerra, diz que esteve para lá perdido nas francias ou nas alemanhas ou lá o que era e que tinha um feitiozinho tramado, andava sempre armado e a gritar com os trabalhadores e deitava-se logo ao chão quando estoirava alguma coisa. Coitadinho, morreu de velho e os filhos e os netos, que eram uns grandes gananciosos estavam mortinhos por vender a quinta para construir uns apartamentos. Isto era ali na zona da Costa que aquilo era só quintas naquela altura, agora é que é só prédios e todos mal feitos. O meu genro que trabalha nas obras diz que os construtores são todos uns aldrabões que não metem o material de primeira e que poupam no cimento e depois acontece como aconteceu a mim que se me racharam as paredes todas e depois o trafulha não me quis arranjar o problema. São uns trates. Mas eu fui então trabalhar para o campo e uma vez dei um jeito tal na espinha que fiquei entrevadinha durante uma semana e não sentia as pernas, andei um mês a levar umas injecções de cavalo para se me aliviarem as dores e a enfermeira era uma gorda que afiava as agulha na parece e aquilo doía para burro, isto foi já em 1975 já o Salazar tinha morrido e os comunistas é que mandavam nisto. Nessa altura toda a gente era doutor e andavam aí uns barbudos nas escolas que tratavam os professores por tu, era uma pouca vergonha as mulher a mostrar as pernas e a barriga na praia e a fumar deus me valha, que eu nunca fumei. E então na semana passada fui pegar no penico que estava debaixo da cama e dei aqui um mau jeito e então vinha cá resolver isto."
E nesta altura eu peço a estas pessoas para aguardarem a sua vez na sala de espera e tomo um ben-u-ron para ver se me alivia a dor de cabeça.
PS: esta situação está descrita como "discurso em fogo-de-artifício", quando o indivíduo não é capaz de seguir uma linha recta até à conclusão do seu raciocínio.

Tacanhos.

Mas que país é este, que gente é esta que se propõe a referendar um assunto que é da intimidade de cada um? Que Estado é este que tenta, covardemente, escusar-se a decidir e que se tenta livrar das responsabilidades de que foi incumbido? Que legitimidade é a nossa para impedir duas pessoas, ainda que do mesmo sexo, a viver juntas, partilhar uma vida, ter os mesmos direitos jurídico-legais que um casal heterossexual?
É vergonhoso e humilhante, não só para os homossexuais, mas para todos os Portugueses.