quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Ao que parece, não teve uma infância fácil. Ela, que foi ele numa outra vida, saiu de casa num dia como os outros, na mala a tiracolo levava um acessório que lhe iria mudar o futuro. Pensou longamente onde haveria de deixar a sua declaração ao mundo e decidiu que não haveria lugar melhor que o lugar onde nunca a compreenderam. Fechou a porta, apanhou o metro.
Entrou no hospital complemtamente despercebida, tão ignorada, tão apagada, tão esquecida como se sentia por dentro. Soube que tinha escolhido bem o local para sua última consulta. Subiu ao sétimo andar, Consulta de Psiquiatria, abriu a mala, alisou a carta que deixou para o mundo, tirou a corda que comprou para aquele momento e começou a preparar-se. Naquele momento alguém reparou naquela mulher que fixava uma corda na varanda da escadaria. Logo naquele momento, em que queria passar despercebida, alguém finalmente a viu. Colocou a corda ao pescoço e subiu para o muro.
Logo chegaram todos, ao lado dela, na varanda aqueles que nunca a conseguiram entender, aqueles que nunca a viram a tentarem convencê-la a descer. Que irónico, a pedirem-lhe por favor para reconsiderar. Nunca se sentira tão certa na sua vida, nem quando era ele e muito menos depois de ser ela. Via o pânico na cara do psiquiatra, a impotência na cara de alguém que era suposto ter a resposta para tudo... Em baixo, no rés-do-chão, policia e bombeiros e mais médicos e enfermeiros prontos para a salvar. Mas porquê agora? A salvação tinha ficado para trás havia muito tempo. Pensou como era engraçada aquela situação: todos iriam vê-la morrer quando nunca ninguém a tinha visto viver.
Sorriu, saltou. Os dois psiquiatras precipitaram-se para ela mas só agarram a corda. A vida não é um filme, não existem heróis. Eles não conseguiram segurar a corda, ela não foi salva no último instante. Só uma sombra a cair alguns andares e um som seco e rápido. Um som que tanto pode ter sido a corda a estalar, a coluna dela a estilhaçar-se ou a mão do médico decepada pela corda sobre tensão.
A polícia cortou a corda, os bombeiros apanharam-na e os médicos e enfermeiros que a esperavam no solo começaram as suas manobras de reanimação. Mas, no fim, só ficou aquele som.
 
(Crónica inspirada num evento real que ocorreu no hospital há algumas semanas. Uma mulher enforcou-se realmente numa das escadarias e um psiquiatra perdeu realmente uma das mão a tentar salvá-la.)

5 comentários:

Melissinha disse...

Minha nossa, Miguel.

Ana C. disse...

foda-se.

Ana. disse...

Triste, mas maravilhosamente escrito...

Naná disse...

Enquanto lia, só pensava "espero mesmo que isto seja só ficção!"...

Guilherme de Carmo disse...

omg