quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Formar é fixe.

Quando penso no meu futuro profissional gosto de imaginar que vou conseguir dividir o meu tempo entre os cuidados directos ao paciente e algo mais leve para o corpinho, do tipo administrativo. Enfim, enquanto esse tempo não chega (se é que chega!) vou-me dedicando a uma área que gosto bastante: a formação. Um ano depois de ter chegado aqui (um gajo não sabe estar quieto) meti-me a trabalhar como formador de suporte básico de vida (massagem cardíaca e essas cenas) numa empresa que forma "socorristas" em várias empresas aqui na Suíça onde, legalmente, todas as empresas são obrigadas a ter alguns dos seus empregados formados nos primeiros socorros. E gosto bastante porque consigo juntar vários aspectos positivos como fazer algo que gosto e ser pago para isso, conhecer novas pessoas e realidades que não estão ligadas com o meio hospitalar e vou a sítios onde nunca iria numa situação normal. Mas gosto sobretudo do contacto com as pessoas. Um ano depois de ter começado nessa vida começo a aperceber-me que, independentemente do grupo, há personagens tipo que estão sempre presentes. A saber: 
 1. O SOCORRISTA PROFISSIONAL: é o gajo mais antigo dos socorristas da empresa, o fulano que faz todas as formações. Os outros olham-no com admiração pois é alguem de muito experiente na área dos primeiros socorros muito embora em 10 anos de experiência não tenha tido nenhuma situação a sério. É normalmente o líder do grupo e temos de ter alguma atenção para com ele, ou seja, ouvir o gajo discursar acerca dos algoritmos de socorro como se fosse ele o formador e não nós. Depois, só para o por no seu lugar elevo o nível da discussão um degrau acima pronto. 
 2. O BOMBEIRO: há sempre um em todos os grupos, o bombeiro voluntário que já fez a formação e só está ali porque o chefe mandou. Mostra enfado e brinca com o telemóvel o tempo todo dando claros sinais que se está a cagar para o meu discurso. Quando passamos aos exercícios práticos com o manequim de treino avança com aquele ar de Rambo dos primeiros socorros achando-se mais eficaz que toda a gente. É fácilmente posto em ordem ao apontar-mos as suas falhas (que não são dificeis de encontrar) e ao fazê-los repetir os exercícios mais vezes que os outros. 
 3. O LERDO: é o fulano que não percebe nada á primeira, que confunde os conceitos e consegue confundir o resto do grupo. É o gajo que não percebe que se não respiras é porque estás morto ou quase. Não há nada a fazer a não ser explicar tudo como se ele fosse muito burro. 
 4. O INTELECTUAL: é o gajo que vai googlar tudo sobre medicina e depois põem-se com perguntas teóricas sobre fisiologia cardíaca porque "leu na internet". Faz-se uma explicação bem elaborada usando termos como pré-carga, pós-carga, nódulo sinusal, resistência vascular, fibrilação ventricular e taquicárdia supra ventrticular e ele fica satisfeito. 
 5. A GAJA BOA: é a fulaninha que vai para a formação vestidinha de saia curta e saltos altos e unha bem arranjadas e que quando se apercebe que tem que se por de joelhos no chão para efectuar manobras de reanimação fica toda corada. Mas pronto, os homens do grupo toleram-lhe sempre tudo. 
 Depois temos os formadores e aqui há basicamente dois tipos: 
1. O MAIOR: é o gajo que sabe tudo sobre reanimação, nessa área não há pai para o filho do pai dele. Conhece toda a gente mais conceituada na área, trata por tu os responsáveis nacionais da reanimação. Vai de férias aos sítio mais exóticos e, azar do caraças, cada vez que está de férias há sempre acidentes e ele salva sempre meia-dúzia deles. Os acidentes mais mediáticos, ele esteve lá e foi o salvador da pátria. Resumindo, é o maior da rua dele. 
 2. O FORMADOR COM "F" GRANDE: é aquele que consegue deixar espaço ao socorrista profissional, que consegue cativar o bombeiro, que faz com que o lerdo perceba a mecânica da coisa, que ensina umas cenas novas ao intelectual e que no fim do dia de formação ainda saca o número de telefone da gaja boa!

2 comentários:

Carla Isabel disse...

Muito bom! Melhor é que eu fui a um curso desses - OBRIGADA - e não, não fui de mini saia...
Valeu-me o curso quando a minha filha, distraida como a mãezinha, bateu com a cabeça numa varanda de rua....valeu-me o cursinho!..e depois foi ao hospital!

Helena Barreta disse...

Miguel, este é um assunto que me deixa transtornada, ainda estou em choque pois fui "obrigada" a fazer o suporte básico de vida ao meu marido, sem formação e só com as indicações que o médico me transmitiu via telefone. Infelizmente, nem eu nem os médicos do I.N.E.M e do V.M.E.R. o conseguimos salvar, o enfarte agudo do miocárdio foi fulminante.

Um bem haja para si e para os formandos que querem mesmo aprender.

Um abraço