quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Lucilinha.

Por vezes recebemos uns velhinhos patuscos lá no serviço. Vão e voltam mas, nos últimos meses temos tido o privilégio de partilhar alguns momentos com a Dª Lucília, ou como nós lhe chamamos, a Lucilinha.
A Lucilinha é uma velhota de oitenta-e-muitos-anos que veio ao hospital para uma intervenção simples. Sem filhos, rapidamente se percebeu que ninguém a voltaria a levar para casa. O processo de assistência social demora a ter um fim e, entretanto, a Lucilinha vai ficando connosco. Alta, deixa adivinhar um porte altivo de juventude com o seu rosto fino de nariz comprido e queixo proeminente onde agora crescem uns tufos de pelos rijos que vamos cortando de vez em quando. No início falava connosco. Em mim via o seu falecido Alfredo, companheiro de sempre, e dava-me beijinhos (que picavam, com aqueles pêlos no queixo!) ou, à falta de melhor na foto do meu cartão de identificação! Falava, é certo, mas completamente fora da realidade! Mas era giro porque ela era uma espécie de cupido lá do sítio: se dois enfermeiros de sexo diferente faziam o turno juntos, eram automaticamente, marido e mulher! Depois foi-se apagando a memória e, hoje, a Lucilinha já não fala. Mas não pensem que ela está mal...
A Lucilinha já não fala, quando a colocamos na cama fica sossegadinha, abre a boca para comer e não se coíbe de sujar as fraldas as vezes que forem necessárias! Mas o seu ohar é distante. Distante, mas não vazio. É como se estivesse a viver na sua própria realidade com pequenos fios apenas que a prendem a esta realidade. Mas a Lucilinha, que já não pode com o rabo, gosta de passear. Pela manhã, depois do banho, prendêmo-la (sim, literalmente, prendêmo-la com um colete especial para não cair) a uma cadeira de rodas e... lá vai a Lucilinha! Gostava de colocar aqui um vídeo mas, enfim... privacidade e essas coisas... mas talvez consiga desenhar uma imagem nas vossas cabeças com as minhas palavras!
Imaginem uma velhota, magra e alta, sentada numa cadeira de rodas. O olhar vago, perdido algures na parede mais distante do corredor, as mão entrelaçadas ao peito. E lá vai ela! Dando aos pézinhos, puxando a cadeira com os seus pés, a Lucilinha vai para onde quer! Para o seu quarto, para o corredor, para a nossa sala de trabalho, para o quarto de outros doentes. Até já se prendeu numa arrecadação! A Licilinha não é exigente e vai para onde a dirigirmos. Quando está num quarto alheio, admirando a paisagem pela janela (faz isso muitas vezes) enquanto os ocupantes daquele quarto resmungam pela intrusão, é só empurrá-la para fora do quarto e, uma vez no corredor, dar-lhe impulso. A velhota levanta os pés e aproveita a velocidade!
Mas o mais engraçado acerca destas deambulações da Lucinha ocorre quando ela encontra um obstáculo. Imaginem aqueles carrinhos de brincar de corda. Depois de dar corda, dirigimo-lo para uma parede e deixamo-lo e, o carrinho ali fica, a lançar-se contra a parede até se lhe acabar a corda! Com a Lucilinha é a mesma coisa! Ela avança e torna a avançar contra a parede, porta, armário ou qualquer outra coisa até o obstáculo ceder (nunca aconteceu) ou até um de nós a ir ajudar a mudar de rumo! A corda nunca acaba à Lucilinha.
A Lucilinha não fala, não sorri, não esbraceja mas talvez, só talvez ela não esteja assim tão infeliz como a sua face parece denunciar...

3 comentários:

Ana Ferreira disse...

Tenho tantas saudades das lucilinhas que já conheci e de as ajudar a ser um bocadinho menos felizes...até saudades dos beijinhos que invariavelmente implicam uma picadela de pelos que teimam em nascer onde não devem...

Desculpa a intromissão e o desabafo;)

*

Tia Complicações disse...

Não me parece que ela esteja assim tão desconfortável, tem espaço para passear, pessoas que cuidam dela e lhe dão a atenção que em casa provavelmente não teria.Existem tantas Lucilinhas por ai que não têm a mesma sorte :)

Nuvem disse...

Espero honestamente que ela esteja menos infeliz do que parece.
É triste ver essas pessoas sem família, que ficam assim, sozinhas e abandonadas ao seu destino até se apagarem.
Ainda bem que existe a vossa classe para as ir ajudando e apoiando
beijinhos