quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Negociação do tipo "Um olho no Burro e outro no Cigano".

É cíclico. Acontece todos os meses, na mesma altura do mês. Já sabemos que vai acontecer, já sabemos as consequências, já nos habituámos à azáfama que daí resulta mas, assim mesmo não nos libertamos da ansiedade que rodeia esse acontecimento que vai marcar a nossa vida... pelo menos até ao mês seguinte. É o momento em que recebemos o nosso horário para as próximas quatro semanas. é o momento em que "sai a escala"!
Para terem uma ideia, o enfermeiro que trabalha por turnos tem o dia dividido em Manhã, Tarde e Noite. A Manhã vai das 8 às 16, a Tarde das 16 às 23 e a Noite dura das 23 às 8 do dia seguinte. E, na verdade, um enfermeiro não vive por dias mas sim por turnos! Enquanto o cidadão trabalhador normal suspira "faltam x dias para as férias!" o cidadão-enfermeiro suspira "faltam x turnos para ir de férias!". E isto é assim porque na realidade nós não temos a noção do tempo em dias! Para nós é perfeitamente indiferente se é segunda ou terça ou domingo. O que causa alguns problemas na nossa adequação ao mundo fora dos hospitais. E aí reside a importância do dia em que a escala para o mês seguinte é publicada. Porque nós não vivemos hermeticamente fechados no sistema hospitalar e temos esposas, maridos, filhos, frequentamos cursos, ginásios, corremos, e também gostamos de ir ao cinema e jantar fora com a família e os amigos! E, como não podemos estar sempre à espera que saia o horário para marcar estas coisas todas, então combinamos as coisas assim mesmo e depois fazemos trocas com os colegas! Aparentemente fácil, pensarão vocês caros trabalhadores-das-nove-ás-cinco-folgas-ao-fim-de-semana, mas não... esquecem-se que a maioria dos enfermeiros trabalha e regime de duplo-emprego logo os malabarismos com o tempo são ainda mais difíceis!!
Assim, os pedidos e negociações de trocas são autênticas batalhas onde se exige rapidez e determinação. O ambiente é similar ao das negociações em bolsa onde tentamos sempre comprar o melhor dos outros e vender o nosso pior! Temos que conhecer bem os nossos colegas/adversários para podermos planear a nossa abordagem táctica. Por exemplo, aproveitar os colegas que preferem trabalhar as Noites (ganha-se mais!) para despachar as nossas Noites que estão "a mais", aquelas que não queremos ou não podemos fazer; ou então, oferecermos-nos para trabalhar a um domingo de manhã por troca com aquela colega que gosta de ir à missinha sendo que ela nos vai fazer um turno durante a semana quando nos apetece ficar em casa! Sempre que possível apresentar a proposta convencendo o colega que é ele que nos está a fazer um favor. Temos de ser verdadeiros diplomatas e aceitar o que nos é favorável e pedir mil-perdões e até encenar um número de "tenho-muita-pena-de-não-poder-ajudar-mas-é-impossível" quando não nos interessa uma determinada troca. Porque amanhã vamos ser nós a precisar e o nosso capital de simpatia é muito importante nestas coisas! Mas isto é a versão simples desta batalha.
Os guerreiros mais experimentados e mais ferozes fazem jogadas altamente complexas em que, muitas vezes, a vítima de tais golpes acaba por aceitar turnos que não queria sem saber bem como isso aconteceu! São esquemas de trocas que envolvem três ou mais elementos em que ocorrem trocas sobre trocas, num esquema em teia digno de ser utilizado em esquemas de fraude económica e em que as trocas são pensadas e feitas antecipando desde logo que vão ser desfeitas a seguir. Uma espécie retorcida de jogadores de xadrez que pensam três jogadas À frente dos concorrentes! Enquanto nós, os normalíssimos enfermeiros que só querem arranjar espaço na agenda para as coisas normais desta vida como brincar com os miúdos, estes jogadores são movidos por obscuros objectivos que ninguém conhece na totalidade e fazem trocas sobre trocas sobre trocas até à véspera da publicação da nova escala, altura em que toda a gente já estabeleceu o seu horário e anseia pelo novo.
Enfim, cada vez mais me convenço que o horário feito pelo Enfermeiro-Chefe é algo de meramente indicativo. No meu caso, por exemplo, ao final de duas horas após a publicação da Escala de Dezembro já não restava pedra sobre pedra do horário original!

5 comentários:

DeepGirl disse...

Ainda mais em Dezembro, com o Natal e tal... :)

Anónimo disse...

pois é, depois há aqueles enfermeiros tristes como eu que ainde nem receberam o horário de dezembro e so têm direito a 2 trocas...brilhante a nossa triste vida...

Anónimo disse...

idem aspas aspas! :D

A. Silva

Madalena Sousa disse...

LOL. Como me revi neste post. Não sou enfermeira, mas trabalho por turnos. A nossa escala costuma sair ao dia 21 online e começa a corrida às trocas! Não sei bem como há sempre aquelas "mitrosos" rápidos o suficiente que conseguem ficar com um horário mais parecido com o normal (9 às 5) com fins de semana livres e tudo! E depois sobram os outros "pretos". Oh well...

Mauro_G disse...

Fez-me rir com a metáfora da Bolsa de Valores... De facto é semelhante!