sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

O que é que a Noite tem?

Num hospital o Tempo avança de outra maneira. Poderíamos até dizer que estamos noutra dimensão de Tempo. Porque, aqui o Tempo não pára, não descansa, não dá tréguas. O Tempo avança e empurra-nos com ele. São as luzes que nunca se apagam completamente. Sempre há uma luz, num qualquer canto, a marcar presença. A velar, a vigiar, a lembrar-nos que está ali. Aqui, também a Noite é diferente. Quando o resto do mundo se apaga e adormece, aqui outra vida se levanta. E transformações acontecem.
O que é que a noite tem? O que é que a noite arrasta? Os doentes, deitados nas suas camas, transformam-se. Aquele velhote querido que deambula pelos corredores, escrevendo cartas de amor às enfermeiras com a sua caligrafia trémula e num português que já não se usa, aquele velhote que, durante o dia conta com orgulho os seus feitos amorosos aos enfermeiros já não está lá. No seu lugar está um velho corpo que se contorce na cama e tenta fugir dali. Uma velha carcaça que nos cospe e insulta, que defeca junto à cama, que arranca a roupa e grita. Faz-se o costume. As amarras ainda existem no séc. XXI, estão nos punhos dele e uma injecção adormece-o. Os fantasmas foram-se.
Aquele ex-combatente do Ultramar, negro, que deu os olhos, uma perna e meio braço em troca da liberdade. Aquele negro afável que não entende o que dizemos, que fica na cama ouvindo o seu rádio e diz "obrigado" a todas as nossas solicitações. A noite chega e com ela os berros, os lamúrios, as preces murmuradas em crioulo têm um sombra ainda maior. Aproximo-me da sua cabeceira e ele está de olhos fechados. A dormir? Ou preso num mundo de dor que teima em o perseguir? Ouço um som, um baque. Vou até ao seu quarto e a cama está vazia. De um canto escuro surge um vulto que se arrasta. Pelo chão, só tem meio braço e uma perna e arrasta-se. Com os olhos fechados e dirige-se a mim. Assusto-me. Mas é só o negro velho. Pego nele e sinto que estou a pegar num animal selvagem qualquer. Contorce-se e grita. Adormece horas depois.
Aquela mulher que entrou ontem. Um AVC levou-lhe metade do corpo. Para ela só existe a direita e ignora a esquerda. Consegue exprimir-se razoavelmente e está orientada durante o dia .Sabe onde está, como se chama, em que ano estamos. Diz-me que tem fome mas não consegue comer. A sua garganta já não lhe obedece. O leite que lhe dou pela sonda nasogástrica não a satisfaz. Calculo que eu próprio não ficaria satisfeito se a comida me fosse colocada directamente no estômago. Explico-lhe e ela parece resignada. Chega a noite e a senhora altera-se. Encontro-a com a perna direita pendurada fora da cama. Mas o resto do seu corpo traiu o seu plano de fuga. Diz que o seu marido a chama da cozinha, que precisa de fazer o jantar. Julga que está de novo em sua casa, no seu quarto. Não faço nada de especial, não há nada a fazer e fico mais descansado porque sei que a sua metade-morta nunca a deixará sair daquela cama. Nem de nenhuma outra.
O que é que a noite tem?

11 comentários:

Melodia disse...

a noite transforma-nos...

nem so aqueles que sao doentes..

beijinho

é corajoso da vossa ( entidade medica) dedicarem-se assim as pessoas...

palmas pra vos

S* disse...

Bastante deprimente essa noite... Está-se bem melhor na minha noite, passada no vale dos lençóis.

Margarida disse...

O Tempo... a noite, a manhã e a tarde...
Aquele ex-combatente, aquela mulher, aquelas pessoas... No entanto, tudo não passa de rotinas para um profissional de saúde, não é?...
Um beijinho de uma recém assistente operacional

Aline disse...

Meu Deus. Tão realista e duro o teu post. Mas já agora, falando de um lado mais colorido da vida e indo ao encontro ao que escreveste, quando o meu filho nasceu, à noite, todos os recém-nascidos berravam. Parecia uma sinfonia. De dia, ninguém os ouvia. Estranho, né?

Tabanika disse...

Acabei de fazer T-N e revejo-me nessas noites que alteram as pessoas. Ja tenho muitas historias mas fica aqui a melhor de hoje (que quando me apetecer publico no meu blog): Doente nua com almofadas no chao, pernas entre as grades, saco colector de urina desconectado da algalia... e o melhor.... algalia com um nó :). Até foi simpatica, para não molhar a cama.

ex ana disse...

Dizem que a 'a noite é boa conselheira', será?
(o Fellini teria sido capaz de passar a filme)

Marcia Parassol disse...

Miguel,
Para nós pacientes, os dias, tardes e noites num hospital, são uma eternidade.
Felizmente,ainda existem bons profissionais como vc.
Obrigada pela força e pela visita no meu blog.

Beijinhos,
Márcia

finalista disse...

tou a fazer noite -.-

ishia disse...

Que post... assustador. Eu admiro-vos (enfermeiros) por terem a coragem e a força de presenciar o melhor e o pior das pessoas!

Cindy disse...

Ao mesmo tempo que gosto de te ler, tenho pavor do que escreves!
Beijocas e boa semana!

Precis Almana disse...

A noite não custa quando estamos doentes e nos dão uma "ajudazinha". Benditas noites quando fui operada à coluna, dormia muito bem - depois da primeira, logo a seguir à cirurgia.
Na toracotomia quase não consigo acreditar em mim quando me apercebo que não dormi desde 5ª de manhã até domingo quando saí. Não preguei olho mesmo, só descansava os olhos. Sentia as horas todas a passar e sono tinha-o de dia, quando não se consegue mesmo dormir. À noite ouve-se tudo, as dores são maiores, tudo toma proporções terríveis. E não havia "ajudazinha", nada... Um horror. As enfermeiras, umas queridas a ajudar quem chamava e sofria. Benditos vocês, Miguel.
Eu nunca chamei, só queria o que vocês não podiam fazer: com que o tempo necessário à recuperação passasse.