sexta-feira, 23 de abril de 2010

Existe uma Resposta Correcta?

Como é que se diz a alguém "A sua mãe vai morrer. Pode ser hoje ou na próxima semana, mas vai morrer nos próximos dias."? Assim, de uma forma crua e desprovida de "amortecedores" emocionais ou de uma maneira subtil, indirecta, subentendida?
Nos últimos dias tenho acompanhado a evolução de uma senhora de oitenta-e-muitos com um tumor cerebral. Ele tem sido uma companhia incómoda mas inofensiva nos últimos anos mas resolveu manifestar-se. A evolução destes casos costuma ter uma história e um desfecho conhecidos. Esta senhora é a matriarca de uma família diferenciada, educada, brasonada. E, desde o início os filhos indagam acerca da evolução deste caso. E nós, enfermeiros, lá vamos dizendo que é sempre impossível fazer previsões e que até pode acontecer uma recuperação mas que, a nossa experiência nos diz que o final estará próximo. E eles, dia após dia, turno após turno lá perguntam "E como está a minha mãe hoje?". E ela lá está, deitada, edemaciada, entubada, com bombas e monitores á volta da cama, a respiração cada vez mais difícil. Volto a explicar, como tantas vezes antes, que o prognóstico não é bom, que devem preparar-se para o pior. "E as análises estão boas? Não fazem outra TAC?" e eu explico que neste momento as nossas preocupações se situam ao nível do conforto, alimentação e controlo da dor da senhora. Se eles compreenderam a mensagem? Não me parece. Desisto e remeto-os para o médico enquanto eles insistem em saber os resultados das últimas análises. E é cada vez mais claro que estas pessoas não estão preparadas para a perda que lhes surge no caminho.
Um caso semelhante, uma esposa que ansiosamente esperava pelo regresso do marido da luta com uma dessas doenças que, mais cedo ou mais tarde acabam por ganhar o duelo. O homem estava mal, muito mal mesmo e o ar que se respirava no quarto estava impregnado de morte. A mesma questão de sempre "O que estão a fazer para salvar o meu marido", "Ele abriu os olhos", A mão dele chamou-me" numa ansiedade regada a lágrimas e desespero. O senhor estava agónico há dias e era penoso para todos vê-lo assim. Menos para ela, aparentemente. "Compreenda que o seu marido está a sofrer. Olhe para ele, olhe. Não há nada mais que possamos fazer..." e sou interrompido pelo filho de ambos, sempre calado e reservado "O que o Enfermeiro quer dizer Mãe, é que o pai vai morrer esta noite. Não é isso Sr. Enfermeiro?", "Nesta noite, amanhã de manhã quem sabe? Mas sim, o senhor vai morrer." Foi a primeira vez que disse essa frase a alguém de forma tão directa. O senhor morreu comigo nessa noite.

10 comentários:

Autora de Sonhos disse...

Na minha opinião,que de enfermeira nada tenho, acho que se diz uma noticia dessas com coração, acima de tudo. Não há-de ser de animo leve que ninguém diz isso a outro alguém, apenas se deve dizer da formacomo gostariamos que nos dissessem a nós. Fiz-me entender...?
Nesse aspecto afirmo que há por aí muitos profissionais de saude que têm muito que aprender nessa matéria: pedagogia!

(Recordo o dia em que me foi dito por um médico, da forma mais fria possível:"quer que lhe que está tudo bem? estáa gozar? não está aperceber que não está tudo bem? A SUA FILHA ESTÁ MORTA!"

Por mais anos que viva esta frase nunca se apagará da minha memória.

Fale com o coração...acima de tudo!

bjs

Naná disse...

A esperança é a última que morre... o meu pai ficou em estado comatoso após uma cirurgia a um tumor que se julgava ser meningioma e afinal era um macroadenoma (com enfâse no macro) da hipófise. Ainda tive esperança quando do desentubaram após duas semanas da cirurgia... e lá começou a apertar-me a mão quando lho pedia.
Sempre tentei falar com os médicos, sem sucesso nenhum, e foram os enfermeiros que foram dando o panorama da realidade, sempre que repetiam a frase: "não há alterações"... mas a dose de certeza/realidade que procurei sempre, para me poder preparar/mentalizar foi quando uma enfermeira me disse que estavam a fazer tratamento da dor. Acho que o que ela não esperava era que eu sabia bem o significado dessa expressão. Aquilo que lhe respondi foi: "então já vi esse filme!" nesse dia já não me apertou mais a mão e nem em todas as visitas seguintes e sim, o meu pai faleceu cerca de 2 semanas depois... mas quem me foi dando a notícia foram os enfermeiros e não os médicos, porque esses nunca se mostraram disponíveis!
Por isso Miguel, há uns como eu que precisam que lhes seja dado o veredito final, para se poderem preparar, há outros que preferem "palavras paliativas" para adiar uma dor, que há-de sempre vir...

fiel leitora disse...

E que tal assim: O seu irmão vai morrer! E se não morrer vai ficar com sequelas que vocês vão querer que ele tivesse morrido!
Que tal anh?

P.S.1: Não morreu! Nem tem sequelas! :)
P.S.2: Não foi um(a) enfermeira
P.S.3: Eu e a família é que ficámos com sequelas.
P.S.4: Desculpa o desabafo, mas lembrei-me...

Andre Bressan disse...

Miguel,

Já tive que dizer algo semelhante algumas vezes e nunca sai bem da boca, amarga demais o resto do dia. Sou pediatra, e mais que perder um pai ou uma mãe, perder um filho parece ser algo impens´vel. Digo isso, porque quando eu penso nos meus filhos, não consigo dizer nada a respeito de um filho morimbundo de alguém. Não consigo "tirar os olhos" dos meus filhos e pensar que poderia ser eu a perdê-los. Isto não se diz, porque é o tipo de coisa para a qual não há espaço. É sempre violento.

Na verdade é um desarmador. Nunca apanhei, mas acho que se um dia alguém tiver uma reação violenta comigo, não saberei me defender.

Não faço mais Pediatria intensiva, mas faço plantão como médico de ambulância UTI pediátrica, e até hoje tive a felicidade de ter meus pacientes no outro lado do trajeto. Mas já tive a tristeza de saber que alguns não sobreviveram nos hospitais de destino até o dia seguinte...

Não há palavras de consolo. Com o tempo, a gente sabe se colocar, e falar, mas esse gosto de cacau sem açúcar não sai da boca. E não deve. Deve sempre ser amargo ao sair dela.

Um abraço.

Melissinha disse...

"A sua mãe não vai melhorar."

Smsn - artes e ideias disse...

realmente deve ser das frases mais horriveis de se dizer alguem por muito que se escolha as palavras para tentar não ser tão frio e frontal é dificil!!

bem haja!!

smsn.artes

Tia Complicações disse...

Antigamente as pessoas morriam. Quando perguntavam a causa da morte de determinada pessoa não sabiam e atribuíam a culpa à velhice ou a um ferimento que nunca chegou a cicatrizar. As pessoas viviam na ignorância e satisfeitas. Actualmente com a informação que nos chega a casa através dos mais variados meios de comunicação é difícil não ter a percepção quando a vida de alguém está prestes a terminar.
È difícil para o pessoal médico transmitir essa ideia aos familiares. Por sua vez os familiares fazem-se incompreendidos no sentido de não quererem aceitar tal facto.
Fazem perguntas desconcertantes aos enfermeiros sobre tratamentos ou exames, sabendo que nada mais pode ser feito para salvar a pessoa em questão. Essas questões geralmente são posta perto do paciente para lhe transmitir esperança e preocupação por parte dos familiares, da parte do pessoal médico uma palavra abonatória para levantar o astral.
Já me encontrei assim numa situação em que o doente estava a morrer. Todos sabiam que o fim estava próximo. O doente no entanto mesmo deitado dava instruções de trabalho a alguém que minutava e fazia planos a longo prazo. É evidente que a escrita não chegou a servir para nada pois o doente faleceu uma semana depois.

sara disse...

Não há uma resposta correcta...todas as respostas soam sempre mal, nestes casos... :S

.

DuDa Haddad disse...

bem, é difícil falar de um assunto tão delicado, perdi meu pai com 5 anos e hoje com 21 ainda lembro das palavras do médico exausto dizendo que fez tudo que podia (e sabe, talvez até o impossível) lógico, que palavra nenhuma num momento como esse consola um coração calejado, mas ao ouvir o médico falar à minha mãe: eu subi no seu esposo para tentar "dar um jeito" na hemorragia (não lembro agora os termos técnicos), mas...
E naquele momento a gente já sabia o que significava aquele "mas"... ele não precisaria falar mais nada, e sabe, até hoje eu lembro dele com bons olhos, q ele sofreu nossa dor, ele entendia oq significaria para nós perder um chefe de familia e fez oq pôde...
É isso, faça o que vc puder, um dia nós entenderemos, mesmo com a perda, que v6 fizeram oq estava ao alcance de v6, desd q tratem o moribundo que está lá... como alguem que ainda tem todas as chances de viver, mesmo que os diagnósticos provem o contrário...
Perder e quem nessa vida quer perder? muito menos a esperança, ela nunca morre...
Se bem que as vezes, ouso falar, a morte é um descanso para quem ja não aguenta mais sofrer...
Gostei do seu desabafo, admiro sua profissão, admiro, pq lidar com vidas é uma coisa séria, um bom post, ganhou uma leitora...

abraços.

Cate disse...

Um post muito forte. Acho que, como já foi dito aqui, é importante dizer as coisas com o coração. A frieza dos médicos e/ou enfermeiros pode deixar marcas nos que cá ficam.

Beijinho.