quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Arrepio, arrepio, arrepio.

Ainda não me aconteceu ter um caso desses. Os meus colegas dizem-me que não é muito comum mas que, infelizmente, acontece. Na verdade, dei-me conta de que na verdade não estou a salvo de, um dia receber uma criança na Sala de Reanimação. Temos um canto da sala completamente preparado para cuidar de crianças, com todo o material em tamanho pediátrico e, na volta de controle de material que fazemos todos os dias também temos de controlar a zona pediátrica. E tocou-me o facto de haver pijaminhas de criança e pequenos "bodys" para recém-nascidos num local tão agressivo, frio e impessoal como aquele. Simplesmente nenhuma criança deveria ter de entrar num sítio como aquele e, acima de tudo, morrer num sítio como aquele.
Sim. Eu escrevi "morrer". E, de uma forma muito suíça (e muito bem, digo eu), existe uma norma institucional de "Como proceder em caso de morte de uma criança na Sala de Reanimação". Tudo muito esquematizado: limpar a criança, vestir-lhe um pijama, organizar a capela mortuária para receber o corpo, informar a família, acompanhar a família. Tudo muito certinho, o que fazer, quando fazer, onde fazer. E nós? Como lidar com a morte de uma criança? Como ajudar os pais a suportar tamanho sofrimento sem que, nós próprios soframos também?
Não estou preparado emocionalmente para lidar com algo assim. Que todos os dias me confronte com a minha própria mortalidade, pouco a pouco vou integrando essa ideia em mim. Que tenha de projectar a mortalidade dos meus filhos (arrepio) na morte violenta de uma criança... Cada vez que me calha fazer o controle da zona pediátrica, nesses dias é quando abraço os meus filhos da forma mais intensa, como se o meu abraço os pudesse proteger. De tudo. 

7 comentários:

Sara disse...

Sou estudante de enfermagem e tenho seguido este blog.
Estando eu ainda no 2º Ano que curso ainda não consigo lidar bem com a morte de um adulto, quanto mais de uma criança.
Parece-me que deve ser algo que ninguém deveria ter de testemunhar, ainda para mais tendo filhos.
Infelizmente sei que me vou deparar com a morte várias vezes. ainda por cima com a população envelhecida que Portugal tem, mas parece-me que a primeira morte que testemunhar vai ser um pouco um choque para mim. Quanto ao testemunhar a morte de uma criança, espero não ter de assistir a isso durante os próximos anos (de preferência nunca é claro)

Helena Barreta disse...

Não há, com certeza, maior dor do que essa. Um pai despedir-se de um filho é contra-natura.

Pudessemos nós pais e mães e nem uma mosca importunava os nossos meninos.

Um abraço

Naná disse...

Miguel, arrepio mesmo!
Já senti a morte dos meus pais e o sofrimento que isso causa, a dor... mas sei que se o meu filho morresse eu morreria por não conseguir suportar essa dor!

mãe pimpolha disse...

Trabalhei numa urgência pediátrica durante 8 anos e infelizmente morreu-me nos braços uma criança de 4 meses na sala de emergência. é algo que nunca se ultrapassa e todos os 26 de Dezembro recordo este episódio.
Beijinhos e boa sorte.

Madalena Sousa disse...

Só espero que nunca tenha de passar por isso. às vezes achamos que os profissionais de saúde são frios o suficiente para lidarem com isso... mas não acho. Devem sofrer ainda mais, por ter a sua vida entre mãos e não conseguir salvá-la. A questão é que não o demonstram à nossa frente.

MC disse...

Como se os procedimentos facilitassem a coisa.

Bluebluesky disse...

Ouch...arrepio mesmo!