segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Medicina Moderna.

"O que deram os exames do meu pai?". Foi assim que hoje fui abordado por um familiar de um dos meus doentes. Os exames, o diagnóstico, as análises. É uma abordagem comum esta, a de dar a preocupação que se devia ter com o doente aos meios complementares de diagnóstico. São poucas as pessoas que fazem perguntas como "Como passou a noite? Comeu bem? Teve dores? Febre? Caminhou? Saiu da cama?" enfim, perguntas que estejam directamente relacionadas com o bem-estar do seu familiar.

Depois, quando tento explicar que o doente está melhor fisicamente, mais orientado, mais independente, que já tomou banho no WC em vez do costumeiro banho na cama, que até se alimentou sozinho, eis que vislumbro na face do familiar a expressão que revela que não é essa a informação que interessa. "Tem alguma questão?" pergunto, "Sim, sim! O que revelou a TAC que o meu pai fez ontem?". "Lamento mas essa é uma questão que terá que colocar ao médico assistente. Mas fique descansado que o seu pai está melhorado, bem-disposto e o exame não revelou nada de extraordinário.". "Então mas não me pode dizer o que deu o exame?". "Poder, poder, posso! Mas não era a mesma coisa!". Claro que esta última frase é imaginada mas é, muitas vezes a resposta que me apetecia dar!

Porque a maioria das pessoas dá demasiada importância aos exames, como se eles por si sós fossem capazes de resolver todo os males que se abateram sobre eles. O mesmo se passa com o diagnóstico. As pessoas encontram conforto no facto de haver um diagnóstico estabelecido, se é uma pneumonia, um AVC, uma pielonefrite, uma diabetes. Um diagnóstico do tipo "síndrome febril de causas desconhecidas" simplesmente não é aceitável. Presumo que tenha alguma coisa a ver com uma falsa sensação de controlo sobre a situação. A segurança que traz o saber o que se passa, o que despoletou a situação, o curso que seguirá o tratamento e o resultado final. Mas a medicina não é uma ciência exacta porque lida com Humanos e isso diz tudo.
Mas tudo isto para dizer apenas isto: de que vale ao doente que tenhamos determinado o diagnóstico correcto, que os exames sejam determinantes e conclusivos, que as análises estejam todas dentro dos parâmetros normais se o doente se encontra confinado à cama, a contorcerem-se com dor, completamente desorientados, imobilizados e deitados sobre a sua própria merda fétida?
Nada.

4 comentários:

Melissinha disse...

Gostei de ler isto, Miguelito. Desde o que aconteceu à mamãe que sou neurótica com exames, muito mais do que com o bem-estar.
A ver se me lembro deste post quando for preciso.

cexy disse...

Olá, eu sou nova por estes teus lados mas vou já comentar. ( a lata dela)
Há também o outro lado.Aquele em que se vai ao médico com uma "dor aqui" e o médico limita-se a mandar " fazer umas analises e voltar cá pra semana". E até lá passamos a semana com a dor. E na próxima semana as análises " estão boas " e nós vamos pra casa, mais uma vez, com a dor ali..porque "está tudo bem".
E pronto, vou continuar a ler .

***

ex ana disse...

Li e reli o post. Levanta questões importantes. lembro-me o que certos pediatras dizem sobre a febre nas crianças: o importante não é quanto marca o termómetro mas como elas se apresentam. menos febre e uma criança prostrada sem acção é pior que mais febre e uma criança activa e brincalhona.
Deixo ao Miguel uma pergunta de recém chagada a este blogue: "Porque são nos hospitais tão importantes os corredores?". Existem as salas de espera, as enfermarias, os elevadores, os quartos, as salas de operações, etc...mas os 'corredores' enquanto espaço (de caminho para o desconhecido) ganham um protagonismo nos relatos dos doentes (e também na literatura de ficção). A fotografia deste blogue tem também um corredor...
Parabéns pelo blogue cujo melhor adjectivo que encontro é HUMANO.

Pulga Catita disse...

Sabes, eu percebo essas pessoas. É claro que o bem estar é importantíssimo, mas assusta de facto os resultados dos exames!! Oh se assusta!! Graças a Deus, nunca me vi numa situação dessas, mas deve-se ficar com um nó no coração quando um ente querido pode (ou não) encontrar-se verdadeiramente mal.

Muita saúde!