sábado, 19 de dezembro de 2009

Paranóias Suburbanas.

Eu moro nos subúrbios. Na verdade, nos subúrbios dos subúrbios. É um aglomerado de vivendinhas geminadas, todas muito parecidas por fora e por dentro, mais ou menos com as mesmas áreas. Visto através do Google Earth, o sítio onde moro é uma espécie de folha quadriculada. As casas podem ter ou não uma garagem. Sendo que as áreas exteriores não são as maiores, o conceito "jardim e garagem" não se aplica! Quem tem garagem fica com um "jardim" com cerca de 1 m2! Nós abdicámos da garagem e temos um jardim(zeco) que até é bastante agradável!
A população que vive neste tipo de urbanização é, normalmente, daquela "classe-média" que já não existe, a classe que acaba sempre por sentir e suportar as "crises". Famílias jovens com filhos pequenos que, não tendo capacidade financeira para viver em zonas mais nobres, mais perto do trabalho, optam por se afastar para locais onde as casas são mais baratas. E o que se passa com esta malta? A maioria tem uma fixação quase patológica com "cozinhas rústicas".
As garagens de que falei antes não são suficientemente grandes para que lá caiba um carro. Melhor, o carro cabe mas depois teríamos que dormir lá dentro porque não seríamos capazes de abrir as portas!! Ou seja, quem compra as casas com a "garagem" o faz por duas razões: ou precisa de uma grande arrecadação ou vai ali instalar uma "cozinha rústica". E o que é uma "cozinha rústica"? Bom, é um sítio que as pessoas decoram com muito mau-gosto antes de mais! As paredes são forradas com cerâmica que imita a pedra ou o barro, colocam-se uns potes de ferro comprados na feira mensal de Azeitão (no primeiro domingo de cada mês!), um forno a lenha de tijolo e uma churrasqueira e decoram-se as paredes com passarinhos de barro a voar aos pares, imagens da região de onde é proveniente o orgulhoso proprietário e, nunca falta, uma TV!
Há muito que tento desconstruir este conceito de "cozinha rústica" que defino como... parvo. Qual a sua finalidade? Não sei. Sendo uma cozinha onde se confecciona a comida, porque é que a única coisa que eu vejo fazer numa "cozinha rústica" é a carne grelhada, enquanto que tudo o resto vem da normalíssima cozinha da casa? O forno de lenha é utilizado apenas uma vez, na inauguração, porque depois disso a mulher da casa não está para se chatear a amassar o pão e a alimentar o forno com lenha enquanto o orgulhoso proprietário da "cozinha rústica" está a ver o futebol na TV. E desde quando algo rústico compreende uma TV? Ultrapassa-me. Também me ultrapassa o facto de, no inverno, as pessoas estarem à lareira da sua "cozinha rústica", com uma mantinha nos joelhos a ver a novela da noite da TVI e, no final da noite, terem que atravessar o seu pequeno jardim para voltarem para dentro de casa. É coisa para lhes dar um resfriado. Além de que, para essas actividades existe uma nova invenção, uma coisa vanguardista é certo, chamada "sala de estar". Mas isso sou eu que sou modernaço!
Existe ainda uma outra corrente de pensamento acerca do conceito de "cozinha rústica". Aqueles que não compraram a garagem vão construindo a sua própria cozinha rústica, por partes. Assim tipo uma deformação da teoria da Gestalt onde o todo é sempre mais que a soma das partes. Iniciam com a instalação de um pequeno grelhador num canto do jardim. Depois, porque é chato estar a grelhar carne à torreira do sol ou à chuva, lá se constrói um telheiro e, já que estamos a construir, porque não um forno a lenha para o pãozinho e o borrego? Agora, já com paredes, fica mal este branco-morto, toca a colar as tais imitações de rocha ou tijolo-burro e compor o quadro com as imagens de barro das andorinhas e da serra da estrela e, nunca se sabe, um cão de loiça!!! Mas o que acabava mesmo em beleza esta bela obra era a marquise de alumínio lacado a branco. Assim se constrói, por etapas a bela "cozinha rústica" com vista para a faixa de relva com 0,5x2 m que sobreviveu à construção de tão marcante obra.
São estas as minhas divagações suburbanas.

4 comentários:

margarida disse...

A nossa casa tem uma cozinha rústica, sonho do meu pai deste que estávamos na outra casa, onde só havia a cozinha (normal). Por acaso é a minha divisão favorita da casa, tem duas grandes janelas de sacada que dão para o jardim, é a maior divisão e não fosse os primos crescerem como se os alimentassem a adubo, cabíamos todos à mesa sem nenhum extra. Nas paredes temos pratos antigos dos bisavós e tios-avós e sei toda uma genealogia onde me perco.
Nós aqui somos felizes proprietários de uma cozinha rústica! :)

Melissinha disse...

Já tinha saudades disto, Miguel! :)

Ana C. disse...

Estou com a Melissa WELCOME BACK :)
traduzido para português: bem vem costas.
Gostei do nome gentil que deste a e esse cantinho tão tipicamente tuga, mas quer-me parecer que fizeste a escolha certa quando optaste pelo jardim ;)

silvia disse...

Ahahahaah!
Estou a ver a 'cozinha rústica' da casa dos meus pais aqui descrita!
O que eu me ri agora aqui sozinha!
:)