quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Mundo Irreal.

Preparo-me para a espera, a ansiedade, o desespero. Compro a Visão dessa semana e levo um livro, não vá a revista não ser suficiente. No dia anterior ensaio uns mantras para me acalmar. Mas não é! Assim que avisto o edifício mando uns berros e uns impropérios vernaculares hardcore, no abrigo da insonorização do automóvel e com a música bem alta. Assim, quando tiro a minha senha para o Atendimento Geral da Segurança Social limito-me a respirar fundo quando me apercebo que estão apenas 187 pessoas à minha espera. São 8:30.

A Segurança Social é um mundo paralelo, um universo à parte separado do mundo real por portas de vidro. Cada vez que lá vou lembro-me do Banco de Gringotts, do universo Harry Potter, que é gerido por uns duendes de aspecto horroroso e pouco simpático, cuja missão é dificultar ao máximo o acesso de estranhos ao banco. Não quer dizer que os duendes da Seg. Social sejam feios (muito embora o sejam na maioria dos casos) mas simpatia é algo que deve ter ficado à porta daquele mundo muito particular. E julgo perceber que a táctica utilizada para nos manter fora daquele mundinho só deles deve ser "fazê-los esperar até à exaustão!". Sim, porque quatro ou mais horas de espera é desesperante!!!

Mas, enfim, tento aproveitar esse tempo da melhor maneira. Ler e observar! Gosto particularmente de observar os funcionários dos postos de atendimento ao público. Gosto de tentar perceber os seus padrões de comportamento e imaginar que tipo de conversas mantêm com o público. Por exemplo, no posto de atendimento nº 7 está o duende-fóssil. Aquele que já trabalha naquele posto desde 1980 e cuja mente está formatada para reencaminhar todos os utentes que à frente dele se sentarem para uma qualquer repartição, independentemente da questão que lhe colocam e da repartição! "Preencha o formulário 37822/C-1001A e dirija-se à Repartição para os Assuntos que Agora Não Me Dá Jeito Nenhum Resolver. PRÓXIMO!!!". E é ver as pessoas, que nem tiveram tempo para se sentar, a abandonarem o edifício com o olhar vazio de quem foi colocado perante um enigma do Dan Brown sem, no entanto terem as competências de Robert Langdon.

Ali, no posto de atendimento nº25 está a duende-histérica. Esta duenda é uma mulher nos seus cinquenta-e-picos-com-a-mania-que-se-mantém-boa-como-quando-tinha-trinta. Baixinha, cabelo branco-oxigenado, grita histericamente com todos os que se sentam à sua frente. "MAS QUEM É QUE LHE DISSE QUE TINHA DIREITO A SUBSÍDIO??! NÃO TEM NADA PORQUE NÃO PREENCHEU O MODELO 58894030-FGSJE! E NÃO ME DIGA QUE NÃO SABIA PORQUE ISSO FOI PUBLICADO EM DEC-LEI! FOI UM COLEGA MEU? ELE DEVE É SER PARVO!" Detenho-me mais tempo nesta personagem porque é a que proporciona momentos mais divertidos! As pessoas ou devolvem-lhe os berros ou saem a chorar. A primeira situação é a mais gira porque implica bate-bocas que dão textos e inspiração imperdíveis!!!

Depois, no atendimento nº 3, temos a duenda-giraça! A duenda-histérica detesta a duenda-giraça e deseja secretamente a sua morte lenta e agonizante. A duenda-giraça é uma vistosa mulher vinte-e-muitos-trinta-e-poucos extremamente atenciosa mas que, lamentavelmente, não percebe nada dos meandros burocráticos da Seg. Social e está, constantemente a chamar a duenda-chefa-da-repartição. Esta, uma mulher com 1,50m mas cuja permanente capilar dá a sensação de medir uns bons 1,80m e que usa saltos de 15 cm, aparece apressada e com alguns papéis na mão, óculos pendurados ao volumoso peito com uma pesada corrente de um metal amarelo, os dedos das mãos repletos de anéis simples ou incrustados com coloridas pedras, como se a autoridade fosse atribuída pela quantidade de ornamentos que cada um tem a capacidade de ostentar. Chega apressada, dirige um olhar reprovador à duenda-giraça (nenhuma das duendas menos novas gosta dela, ao contrário dos duendes, novos ou velhos) enquanto se apressa a resolver o problema que lhe foi colocado com um "Não tem direito!".

E, depois deste exercício de aquecimento, vou ali à Seg. Social esclarecer uma dúvida que não consegui resolver através da internet... só espero ser chamado pela duenda-giraça! Não me resolve nada, mas sempre tenho a oportunidade de falar com a gerente!

10 comentários:

I. disse...

Bonito relato... tenho cá uma sorte de não ter que ir pedir nada à SS (a sigla será coincidência? hum...), mas de vez em quando calha-me a sina das finanças. Na minha zona há lá uma duenda que nem contado. Fico sempre a fazer figas para que não me calhe, caso contrário ainda é nesse dia que peço o livrinho amarelo.

Melissinha disse...

Mas vocês, grávidos, esperam na segurança social?
Eu não apanhei uma única fila desde o momento zero.

Anónimo disse...

Aguenta! É a vidinha! Olha que os duendes do hospital não são muito diferentes. Quatro horas de espera nas urgências...fácil, fácil!!!
Ele é espera pela "noiva" que tá a operar, ele é espera pela enfª que foi entubar, ele é espera pelo maqueiro que foi fumar, o radiologista que foi fazer o taco, o analista que tem o aparelho avariado...

Sílvia disse...

Com sorte chegas lá e dizem-te: "mas o senhor é estúpido? está aqui a fazer o que? isso resolve-se pela internet... e tu dizes mas tou cá porque não consegui resolver pela internet. e como resposta levas um: "impossivel, vá mas é embora daqui... Pois aconteceu é verdade...

bjo****

TIA COMPLICAÇÕES disse...

Os serviços públicos estão pelas horas da amargura, em certos serviços há falta de funcionários, pelos vistos não são só os hospitais a SS também.
Tenho pena dos funcionários que stressam ao sentirem-se impotentes porque não conseguem atender tantos utentes (187). Por outro lado tenho pena dos utentes, que não têm culpa, procuram uma resposta para os seus problemas e são atendidos quase ao pontapé......o próximo.........entre.........como se não bastasse os próprios funcionários insultam-se....
Para que servem os cursos de formação, de “Atendimento ao Publico, Qualidade e Imagem das Organizações”, “A Imagem dos Organismos” e muitos outros que visam a prestação de um bom serviço..........................
Não desculpo os funcionários, podem ter culpa, não ter o perfil adequado para as funções desempenham. Há que ser bem formado, paciente, e acima de tudo um bom profissional, mas o nosso “ Patrão Estado” tem muitas mais culpas no cartório. Como costumo dizer à laia da brincadeira, querem galinha gorda por pouco dinheiro..........e como se não bastasse (tapam o sol com a peneira, pra inglês ver) atribuem uns objectivos aos funcionários humanamente impossíveis de concretizar, mas bonitos heim.........tudo nos trinques, mas.... (quando alguém falta o funcionário faz o trabalho deles e de outro (os), pois os serviços funcionam em sequencia, se um falar o outro assume o serviço .E os objectivos são de quem?...........

Mariquita disse...

Logo ao inicio deste post tive um Dejá-vu.. ou seja revi-me! trabalhei num gabinete de contabilidade há 3 anos atrás e chegou a uma altura em que o meu patrão me dizia "amanhã antes de vires para o escritório passas pela segurança social para tratar disto" não dormia já nessa noite! Sem exagero! Não dormia! Passei uns bocados muito dolorosos naquela repartição maldita! Quem me dera ter uma varinha para transformar aquelas se-estás-a-a-contragosto-despedete-ou-vai-marrar-com-um-comboio em texugos!

beijinho

Babs disse...

Exactamente hoje fui à Seg. Social. Nada a ver com o que descreveste, felizmente. Tudo sereno.

Ana C. disse...

Adorei este texto, só mudava o título para Mundo Surreal...

Cogitare em Saúde disse...

Descrição excelente!

Anónimo disse...

É exactamente o que eu vejo quando vou à SS. Excelente relato. A última vez que lá fui, quando chegou à minha vez calhou-me uma duende faladora, mas não era comigo, era com a duende do lado que estava constantemente a fazer-lhe perguntas. Eu que tb tinha uma questões para lhe perguntar nunca sabia se ela me estava a responder a mim ou à duende do lado. Foi uma confusão...

Cumprimentos Diana