terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Seremos capazes de fazer melhor?

Estou vazio de inspiração. Não é que não haja temas. Há, eu é que estou sem vontade. Por isso cito alguém bem mais elucidado do que eu...

"Esta juventude de hoje em dia
Quando chegámos, aquilo que tinham para nos contar era uma história incompreensível que metia guerras coloniais, Salazares, emigrações em massa e outras tragédias escolhidas a dedo com exemplar mau gosto. Além disso, havia também os vinte e cincos de Abril e os primeiros de Maio, que você insistiam em rodear de monossílabos e interjeições. Então, para explicar o que tinham para nos oferecer, fizeram livros chatos, filmas ainda mais chatos e pouco mais. Depois, acusaram-nos de não entender. A culpa não era vossa. Não, nada disso. Vocês explicaram-nos tudo muito bem. A culpa era nossa, por aparecermos nos inquéritos de rua do telejornal a gaguejar, ou a dizer que o Marcello Caetano era um cantor brasileiro.
Um cantor brasileiro, que graça, que barrigada de rir. Ao chamarem-nos ignorantes, esqueceram-se que eram vocês que deviam ter sido nossos professores. Digo isto e nem sei se o posso dizer, se mo deixam dizer. Vocês são sensíveis. Há assuntos acerca dos quais não podemos falar, são interditos. Nós não estávamos lá, não sabemos nada e, por isso temos de nos calar. Até porque, afinal, nós somos uns privilegiados. Não passámos por aquilo que vocês passaram. Vivemos neste mundo confortável que vocês construíram para nós. Sim, porque foram vocês que nos trouxeram pela mão a este lugar onde, com uma licenciatura , dezasseis anos de escola, podemos aspirar a dobrar camisolas na Zara, a arrumar livros na Fnac ou, fardados, a fugir dos clientes que procuram informações no Ikea. Com sorte, um contrato de seis meses. Com sorte, um estágio não remunerado.
Nós somos uns privilegiados. Não podemos culpar as guerras coloniais, nem os Salazares, nem as emigrações em massa porque aquilo que nos assalta não tem rosto. É como o dinheiro das contas que pagamos por multibanco: existe, mas não existe. Ao mesmo tempo, não podemos sonhar com vinte e cincos de Abril ou primeiros de Maio porque vocês já gastaram essas possibilidades, já mostraram onde chegam esses caminhos. Se, por momentos, nos iludimos com um pedaço de vinte e cinco de Abril, olhamos para vocês e desistimos imediatamente.
Isso, emprestem dinheiro aos bancos. Coitadinhos dos bancos. Coitadinhos dos banqueiros e dos administradores. Nós ficamos calados. Afinal, não passámos por aquilo que vocês passaram. Sabemos isso. Seria importante que soubessem igualmente que vocês não passaram por aquilo que nós passámos e passamos ainda. Uma casa para pagar, por pagar, a dezenas de quilómetros de onde trabalhamos. Um futuro incerto. Infantários, hipermercados, o Natal.
Aproveitam agora para se divertir. Vão passar muito tempo em possibilidade de resposta. Quando chegámos, vocês já cá estavam, por isso, devem saber muito acerca do tempo e da sua duração. Se é assim, talvez já tenham reparado que o tempo é rápido, constante e inequívoco no seu curso. Falta pouco para o momento em que vocês se vão embora. E, quando forem, não voltam. Espero não estar a dar-vos nenhuma novidade.
Quando chegar esse definitivo, quando se forem embora, seremos nós os guardiões da vossa memória. Então, abandonaremos ainda mais aquilo que não nos souberam transmitir e, quanto a vocês, quanto aos vossos reflexos nos espelhos, serão apenas aquilo que nós decidirmos. Os vossos audis e mercedes a duzentos na auto-estrada não vos servirão de nada, os vossos fatos irão para o lixo, as vossas estátuas cairão em minutos e os vossos livros serão comidos pelos bichos. Poderá então acontecer que, por comum acaso, nos esqueçamos de vós, que aquilo que vocês são agora se transforme em nada.
Nessa altura, claro, vocês já terão comido, bebido, passeado, já terão apanhado muito sol à beira da piscina, mas, nessa altura, não terão sequer a memória disso e nós estaremos com aqueles que vocês nunca conhecerão, estaremos a não lhes falar de vocês. Falaremos talvez da natureza, da história de Portugal, de assuntos que queiramos que aprendam, mas não lhes estaremos a falar de vocês. Se isto é uma ameaça? Não, nós não precisamos de fazer ameaças. Ou melhor, sim, é uma ameaça, embora não precisemos de fazê-las. Nós sofremos, mas temos tempo."
José Luís Peixoto, in Visão, 25 de Dezembro de 2007

2 comentários:

Sílvia disse...

Por acaso já tinha lido na própria revista e gostei muito. Deu que falar esta crónica...

bj*

banita disse...

Gostei muito! Ele escreve muit'a bem!
E sim, se os nossos pais passaram por muito, o que diremos nós aos nossos flhos ou sobrinhos (para aqueles que não tiveram coragem de mandar vir uma criança a este mundo de incertezas..)!
Assim vai, o triste estado das coisas...