segunda-feira, 1 de março de 2010

Os tempos até podem mudar...

Hoje, enquanto passeava com o Gabriel no parque, observava um grupo de adolescentes que ali se juntara. Seriam uns 20, entre rapazes e raparigas. Um deles tinha as calças cheias de lama, provavelmente de uma das poças de lama espalhadas pela relva do parque. Alguns deles incentivavam-no a ir sujar as miúdas sentando-se em cima delas e ele ia. Elas afastavam-se com os gritinhos típicos destas raparigas e com um sonoro "PARVO!" mas uma estava claramente a pedi-las! Se eu vi, ele melhor ainda e, quando dei por eles andavam a rebolar-se agarrados na lama! "Enfim, miúdos parvos..." pensei.
Mas, eis que me ocorre o seguinte: eu também já fui adolescente! E olhei melhor para aquele grupo. E estavam lá todas as figuras de que me lembro, dos meus dias de teen. O palhaço (aquele que andava na lama) que diverte o resto do grupo, o intelectual de óculos e um pouco marginal à acção, o bonitão rodeado de miúdas, o freak todo vestido de preto e com os phones enfiados nos ouvidos, a gorda que é amigo de todos mas que nenhum rapaz cobiça e a sua melhor amiga, a boazona convencida que julga ter todos os rapazes na mão, as três miúdas que nunca se largam nem ao telemóvel, os jogadores de futebol, os dreads, os skaters. E tentei lembrar-me das profundas reflexões metafísicas que escrevia no diário, das profundas conversas á volta do significado de "Metamorfose" do Kafka, do cortejo romanceado às raparigas, das festas na piscina com DJ e nas observações da lua dentro do meu descapotável. Mas logo me apercebi que estas lembranças vinham de tantas e tantas séries sobre adolescentes norte-americanos! Na verdade só me lembrei das borbulhas na cara e nas estúpidas técnicas de engate que incluíam bilhetinhos escritos com traduções rascas das letras do Kurt Cobain, de ser expulso das aulas por estar constantemente a rir feito parvo e a gozar com os colegas e a imitar os relinchos de um cavalo, de entrar no WC das mulheres e ser corrido à vassourada pela empregada da limpeza, das cenas porno-softcore nos corredores do liceu com a miúda que já toda a gente tinha apalpado, de ignorar essa miúda depois, de tossir como um doente cada vez que tentava fumar um cigarro e de manter a pose com ele aceso sempre que passava uma rapariga, das ridículas botas bicudas "à cowboy" que usava, das calças rasgadas e nojentas, de usar sempre os mesmos ténis "All Star" verdes mesmo quando chovia a potes e de ter estado de luto durante dias após o Cobain ter decidido provar uma bala directamente do cano da arma, de andar a tocar a todas as campainhas da terra durante a noite, de tocar o sino da igreja a rebate de madrugada, de entrar no cemitério cagado de medo só para impressionar e de não ter a mínima ideia de como satisfazer uma mulher e achar que era um verdadeiro Eros.
Depois disto só posso concluir uma coisa: os adolescentes são parvos por definição. Seja em que época for!

7 comentários:

Banita disse...

Os adolescentes são bem parvos!! Ai que saudades dos tempos da parvoeira... ;)
Beijinhos nostálgicos

Cindy disse...

Tenho saudades desses tempos em que não havia responsabilidades, a única coisa que tinha com que me preocupar era guardar alguns dinheirito da semanada, para poder ir ao cinema no fds!
Bons velhos tempos, com muitas dessas cenas à mistura!!

Autora de Sonhos disse...

Sem dúvida, se há fases parvas pelas quais quais todos passamos a adolescência é uma delas.
Mas...francamente, todos precisamos desta parvoeira, mais não seja pela ignorância que ronda estas cabecinhas, que acham que o mundo é como eles querem...que tudo gira em volta deles.
Confesso...tenho saudades de ser parva!
Bjs

Rachelet disse...

E os poucos que não são parvos são marginalizados e tratados como freaks. Por isso, mais vale a parvoíce - desde que seja só aparente e adolescente.

Chá das Cinco disse...

Adorei o teu blog!
você escreve muito bem, gostei da pitada de humor, inteligente.
Gostei e fiquei.
Um abraço
Gemária Sampaio

Anónimo disse...

eu acho que a fase a adulta é muito mais convencida em relação ao seu papel no planeta que a fase adolescente. mas enfim.
nao sou adolescente, mas tambem nao me quero considerar adulto. apesaar da definiçao de adulto nao depender da idade, acho que um dia o pessoal vai pensar "ah quando tinha 30 anos pensava que a sabia toda afinal, nao era tao sabichao como pensava.."


no fundo, é tudo relativo.

Luh disse...

Muito obrigada -.-'
Devo estar à frente do meu tempo eu...

eheheh estou a brincar.
Para mim,é a melhor fase da vida...quem me dera que durasse mais e mais e mais e mais