quinta-feira, 11 de março de 2010

Prenúncio.

Cada vez mais me apercebo que, do todos os sentidos que são estimulados por aquilo que faço, aquilo que vejo, aquilo que toco, o cheiro é de longe o que mais me marca. O cheiro a fezes e a urina, o cheiro do sangue, o cheiro do pus, o cheiro das feridas infectadas. E também o cheiro do éter (claro!), do betadine, dos desinfectantes das mãos, da carne cortada pelo canivete laser, do café que me mantém acordado numa noite como esta.
Mas há outro cheiro que acabei de sentir e do qual nunca me libertarei. Acabei de sair do quarto de uma doente. Paliativa, sem retorno. O quarto está ocupado por um cheiro intenso, não muito forte, mas presente. Fezes não, a senhora está limpa. Urina também não. Nem vómito, nem feridas. O cheiro não abandona o quarto através da janela aberta. Conheço este cheiro, não o sei definir mas sei quem ele anuncia.
Terei companhia esta noite?
(o tom tem sido mórbido nos últimos textos mas a vida, a morte?, tem sido particularmente cínica nos últimos dias)

15 comentários:

S* disse...

Ai credo homem... até me arrepiei. :|

leitora disse...

Miguel, talvez essa tua doente esteja ansiosamente à espera de ter companhia esta noite... Se ela vier que venha calma e serena.
Que a tua noite e a dessa senhora seja calma e serena é o meu desejo daqui deste lado.

Aline disse...

Credo! Não tens medo?

Ana C. disse...

Vi há pouco tempo um filme em que o enfermeiro dizia que sabia quando eles estavam prestes a ir quando encurvavam os dedos dos pés... Juro.

Melissinha disse...

Eu conheço esse cheiro.

SM disse...

Tenho o prazer de trabalhar em Cuidados Paliativos e, sim, realmente sabemos e vemos quando e onde estão os momentos... A morte é mais um momento da vida, e se alguém nos escolhe, vejo-o como uma dádiva. Saber que aquela pessoa se sentiu segura conosco para partir pode ser um aspecto positivo. Continua.

Margarida disse...

Enf. Miguel, eu também conheço esse cheiro... só me dá pena é quando vem antes do tempo...

Ana. disse...

É por isso que só entro num hospital se tiver MESMO de ser. O cheiro da morte iminente aterroriza-me por completo. Paralisa-me.
Jamais conseguia ter a tua profissão e admiro quem a consegue desempenhar com dedicaçao e orgulho.

;)

Vitah disse...

Não deve ser fácil.Mas todos temos de lidar com o facto.
Hospitais, para mim,só em último caso.
A última vez que entrei nos cuidados intensivos para ver um familiar meu, a carga de energia era tanta que só apetecia fugir, e aquele silêncio era de arrepiar qualquer um.
Admiro o seu "estofo".

Naná disse...

Infelizmente conheço esse cheiro, um tanta agridoce... ficou impregnado no quarto da minha mãe enquanto ela definhou lentamente... com o meu pai já não foi tanto assim, porque os cuidados intermédios do S. José albergavam cheiros de tantos outros doentes... mas a mudança de cama dois dias antes de ele partir foi para mim um prenuncio...

mãe pimpolha disse...

Cheiro a sangue? Oh pá, nuna me apercebi de gande coisa. Cheiro da expectoração é do mais nojento que existe e a visão é bléc.
Éter está proibido aqui no meu hospital, aí não?

Beijocas

Micha Descontrolada disse...

ai q sinistro...
cheiro de morte...

Um ótimo fim de semana para você!!!!

/(,")\\
./_\\. Beijossssssssss
_| |_................

Tia Complicações disse...

Sei do que o Miguel fala. É um cheiro horrível a carne em putrefacção que se entranha em todos os objectos que estão em redor dessa pessoa. Jamais esquecerei esse cheiro nauseabundo e o horror que é ver uma ferida tão extensa, tão profunda tão escura e com tanto pus que até escorria para o resguardo ….
Foram assim os últimos meses de vida da minha avó que quis morrer em casa.
Fomos nós, eu e a minha mãe que lhe prestamos os cuidados paliativos foram meses inesquecíveis de horror ao vivo. Além da memória desse cheiro, ficaram também as lembranças dos poucos momentos em que ela despertava daquele sono de quase morte e demonstrava alguma lucidez, sorria e cantava para mim com uma voz sumida e eu retribuía-lhe da mesma maneira. Relembrava os tempos da sua juventude, fixava o olhar em mim e via-me com 6 anos de idade pedia que a deixassem morrer em paz. ……………..
Depois dela falecer o colchão as roupas da cama, os cortinados, as alcatifas foi tudo para o lixo, pintaram-se as paredes e os cheiros continuava na casa e nas nossas narinas. As janelas permaneceram abertas durante meses e meses a fio …….

Precis Almana disse...

A tua última frase é... tão curta e simples, e tão visual.

nurse_student disse...

ola miguel...

sou estudante de enfermagem e hj, pela primeira vez lidei directamente com a morte...
pela primeira vez senti o seu "cheiro", a sua "aura"... por muito forte q parecesse aos olhos de quem me observava, senti o peso da impotência humama face ao " inevitavel desfecho" da situação...

sera q esta sensação muda com o tempo?... será q se aprende a lidar com a familia q ansiosamente esperava do lado de fora do quarto por noticias?... será... será...?