segunda-feira, 11 de maio de 2009

Espírito

São agora 23h. Entrei no serviço às 8, o que perfaz uma permanência de 15h consecutivas no serviço. Não é que não esteja habituado, afinal isto é rotineiro para quem tem dois empregos. Acontece que hoje eu até ficava livre ás 16h, não fosse uma colega ter adoecido. Coisas que acontecem a todos. O que me chateia é o facto de ninguém dos colegas mais folgados, aqueles que trabalham sempre das 8 ás 16, se disponibilizou para assegurar o turno dessa colega. Não é que seja obrigação deles, afinal o que está legalmente estabelecido nestes casos é que segue turno um dos colegas do turno anterior. Não, o que me entristece, ao mesmo tempo revolta, é que a maioria dessas colegas são miúdas que acabaram o curso no ano passado. E entristece-me ver que, tão novas, já não têm o espírito de equipa tão importante em trabalhos como o meu. Não têm respeito pelos mais experimentados, repudiam os conhecimentos que adquirimos ao longo destes anos, levam a sua avante mesmo quando advertidos que as coisas não vão resultar apresentando o facto inabalável que "aprenderam assim na escola". Enfim, todo um conjunto de atitudes no mínimo sobranceiras.

Mas o que dá vontade de rir são as queixas. "Ai que eu ganho metade do que tu ganhas...", pois mas se só trabalhas metade do tempo! "Ontem trabalhei até às 23 e entrei hoje ás 8, estou tãããão cansada.", pois essa é a minha rotina! "Importas-te que saia meia horita mais cedo? É que amanhã entro ás 8 e preciso descansar.", claro que me importo! Aliás, ofende-me porque enquanto tu te levantas às 7:30 para estar aqui às 8, eu amanhã levanto-me às 6 para estar em Lisboa às 8!! E já faço isto há uns anitos...
Quando eu comecei a trabalhar na Urgência Geral do HGO, a ver mais de 300 pessoas a cada 8 horas, havia um espírito, uma irmandade. Se um colega tinha o seu posto vazio ia ajudar os colegas que estavam mais atarefados. Se um colega não conseguia comer porque havia muita gente, logo alguém se prontificava a "dar um olho" na ausência do outro. Se as noites complicavam ninguém descansava, se não havia tempo para ir comer ao bar, alguém trazia comida para todos, se um colega estava visivelmente "morto", a equipa compensava aquele posto. As coisas eram (são) muito difíceis, mas havia espírito. Percebi que estava na hora de sair quando, às 4 da manhã decidi que tinha mesmo de ir petiscar qualquer coisa antes de cair para o lado e, espanto, deparo-me com 4 coleguinhas com 3 meses de casa sentados no corredor junto à máquina a beber café e a rir calmamente. Quando confrontados com o caos que estava na urgência e com a situação complicada de alguns colegas, responderam apenas que estava na hora de descanço deles.
Ninguém é obrigado a nada, mas a humildade e a consideração pelos colegas não faz mal nenhum. Eu, cá por mim, não sou vingativo. Mas quem mas faz... paga-mas.
Desculpem lá o desabafo... mas estava entalado desde a manhã.

9 comentários:

joaot disse...

sou estagiário do 3º ano em coimbra e aquilo que tenho a dizer é que, essa atitude das tais recém licenciadas é muito má onda, mas também sei que nao se pode generalizar, continua a haver muito espírito de equipa actualmente..nao posso falar pelos meus colegas mas, a minha atitude em estagio e tenciono mantê-la quando for enfermeiro, é de humildade e de espírito de ajuda para com os colegas...

saudaçoes terapeuticas xD

Miguel disse...

Joaot: encara este texto como um desabafo. É apenas isso. Contudo, o que estraga o espirito de equipa é a alta rotatividade que ocorre onde trabalho. O espírito mantém-se desde que haja um núcleo fixo de elementos mais velhos, que são os integradores e reguladores da equipa. É um bocado como os velhos jogadores de futebol que mantêm a mística no balneário!!
Mantém esse espírito!!

DeepGirl disse...

Imagina, Miguel...

Uma enfermaria com 4 doentes (2 dependentes e 2 semi-independentes), e uma estagiária com cada um deles.

Hora do banho.

2 vão ao chuveiro com ajuda (à vez, porque só há um chuveiro); 2 tomam o banho no leito.

Ora... As meninas que ficam com os banhos no leito o que fazem?!
Pois claro! Começam os banhos cada uma para seu lado! É que fazerem banhos no leito sozinhas, e muitíssimo mais rápido do que se ajudarem mutuamente e à vez!

E aqui fica o meu desabafo sobre as minhas cara colegas de Curso, que nem sequer à minha Enfermaria pertenciam nesse dia, graças a Deus.

JBrito disse...

A suas colegas não lêem este Blogue pois não?

Mas é uma verdade, não é só na sua area o mal é geral, diria mesmo Mundial.

Bela disse...

Muita coisa mudou nas pessoas de há uns 7 ou 8 anos atrás. Por exemplo o meu marido é camionista ... já lá vai o tempo em que quando um camião avariava havia sempre 2 ou 3 colegas a oferecer auxilio ... hoje passam, riem e ainda acenam a gozar com o pobre.

Ritita disse...

Meu caro, como te entendo, mas acredita que não é uma mal da enfermagem....é um mal geral! Com as licenciaturas de bolonha chegam às empresas recém licenciados com 21 anos.....não têm maturidade suficiente para encarar o mundo do trabalho, não têm, não querem e têm raiva a quem tem brio profissional e no que se refere à aprendizagem com pessoas com mais experiência são desconfiados e acham-se donos da razão.

Sou solidária contigo!

Banita disse...

Aqui no México, quando andamos na estrada, há sempre um ou outro carro avariado(já que aqui os carros podem andar a cair de podres e não estou a exagerar... em Cuba os carros são antigos, estes cá são velhos, muito velhos mesmo) e muita gente pára para ajudar (ou será para assaltar? LOL, não acho que a maioria é para ajudar! E então se forem camiões ou autocarros, há sempre um homólogo que pára! É bonito de ver, já nas outras profissões não faço ideia como é o espírito de entreajuda. O Banito queixa-se um bocado, mas pode ser por ele ser estranjeiro...

masporque disse...

Assim anda a Enfermagem. É trite! E, juntando falta de espirito de equipa + insatisfação profissional + fraca remuneração + cansaço, penso que estamos a caminhar uma bola de neve.
Que só derreterá se houverem mudanças drásticas a curto prazo!
Cumprimentos...

Bypassone disse...

O problema é que, se ninguém fizer nada por mudar, a administração vai sempre pensar que "está tudo bem" porque os colegas entreajudam-se, sacrificam as suas pausas, fazem turnos de 15 horas, etc. Não digo que fosse essa a intenção dessas 4 coleguinhas, provavelmente nem sequer se importaram em saber se os colegas precisavam de algo, mas.... pausa é pausa, penso eu. Será que é melhor causar um acidente (coisa que pode ser bastante grave num hospital) por excesso de horas de trabalho? De quem seria a culpa, então? Se algo está mal é a nivel das administrações, que permitem que a situação chegue a esse ponto. Ajuda entre os colegas é muito bom, mas não ter que necessitar dela, penso eu, seria muitíssimo melhor.....