terça-feira, 7 de julho de 2009

Movimento Separatista Capilar.

O meu cabelo tem personalidade própria. É escuro e farto, forte e ondulado e tem jeitos. Montes deles. Gostava de o usar comprido mas cedo descobri que, associado ao aumento do comprimento vem também um perigoso aumento do volume o que leva a que ele ganha aquela forma e consistência afro, que faz lembrar um frondoso manjerico que repousa no crânio de onde saem as maiores alarvidades. Na lateral da tola, logo por cima das orelhas, ele espeta-se e empina-se tornando perigosa qualquer abordagem lateral à minha pessoa, sob pena de ficarem com um olho vazado por algum pelo mais rebelde. À frente, logo por cima da testa ele encastela, forma uma muralha alta e enrolada sobre si própria, como de uma onda gigante se tratasse. Pensei num penteado rockabilly mas, calculando os gastos que iria ter em gel fixante e laca, iria gastar dinheiro suficiente para comprar um pequeno monte alentejano. No resto da parte superior da cabeça fica deitado. Caído como um campo de milho pisado por um bando de putos traquinas. Por mais que tente ele recusa-se a mudar de posição. Já tentei aqueles penteados super-cool, com aquele ar despenteado-mas-penteado-por-um-profissional mas nenhum gel fixante ultra-super-mega-forte efeito molhado é suficientemente forte para manter o resultado por muito tempo. Quando saio do banho ainda consigo dar-lhe um ar mais ou menos decente, mas com a seca vem forma original. Às vezes acordo com aquele tufo de cabelo que teima em não ocupar o seu lugar na ordem geral do resto do cabelo (o chamado "peido"). Durante anos tentei domar aquele fervor separatista com as mais variadas técnicas. Não consegui e desisti. Por isso, quando hoje chego ao trabalho com aquele peido levantado mesmo no cimo da tola, já ninguém presta muita atenção. Também já tentei usá-lo curto, muito curto. Mas isso não resulta com a minha face comprida em forma de pepino (a minha mãe jura que não foram usados fórceps no parto, mas tenho as minhas dúvidas) e com estas orelhinhas saídas em forma de uma pequena folha de couve que teimam em sair do conjunto coeso e apertado do resto das suas irmãzinhas, o quadro não é animador.
Por isso tento ser fiel ao mesmo cabeleireiro. Sempre evito ter de descrever o que pretendo de cada vez que o vou cortar, o que tem de acontecer a cada 3 semanas, para evitar o crescimento do tal manjerico afro. "É pente 3 nas laterais e em cima é desbastar e cortar a um comprimento de cerca de dois dedos. Não deixe a poupa mais comprida. Eu sei que está mais comprida agora mas não tenho culpa que o meu cabelo tenha vontade própria e algumas regiões com impulsos independentes". Assim chego, sento-me e peço "o costume".

6 comentários:

Sílvia disse...

Loool afinal nao é so o meu que tem vida própria... :)

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A do giz disse...

Conheço essa tua revolta, o meu cabelo so consegue ser domado (penteado) quando esta molhado, se tento fazer algo quando esta seco acaba sempre por prender qualquer coisa.

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Ana C. disse...

Miguel tu tens um granda carolo. Pensa bem. Se o deixares crescer mais um bocadinho quando fores passear de mota dispensas o capacete ;)

Melissinha disse...

Desiste disso de domar a trunfa, Miguel. Embrace the manjerico.

Anónimo disse...

Vim parar a este blog por voltas e mais voltas na "blogosfera" como se diz: Para mim é uma novidade!
Adorei a sua escrita; este post então fez-me rir à gargalhada.
Muito obrigada. Não é facil fazer-me rir! Continue...e se puder aumente um bocadinho o tamanho do tipo de letra, ok?
Parabéns
A.A.

Banita disse...

LOL
Muito me ri com este teu post!
Antes ter de o cortar de 3 em 3 semanas do que ter problemas de calvíce antecipada!
No stress!