terça-feira, 28 de setembro de 2010

A Dura Realidade.

O texto anterior ficou a "marinar" propositadamente. Sabia que a sua crueza iria chocar muitas pessoas, como chocou. Na caixa dos comentários, como em opiniões de colegas que lêem este blog foram comuns os sentimentos de indignação, de ofensa, de falta de sentimento ético (seja lá o que isso for!). Mas a verdade é que eu sabia disso, dos sentimentos menos nobres que esse relato iria causar nos leitores. Mas, lamento desiludir, ele reflecte a mais pura das realidades. Alguns comentários faziam o paralelo entre tratar de papéis e tratar de doentes. Que não é a mesma coisa, que os papéis podem esperar e os doentes não. Sim, é verdade. Mas não é menos verdade que a morte, o sofrimento, a dor são o nosso objecto de trabalho e, logo estão banalizados. O primeiro morto que eu cuidei, que toquei, que lavei, a quem tirei os tubos, que identifiquei, que coloquei no saco ficou cá gravado. Ainda hoje recordo a face, o corpo marcado pela doença e pelo calvário que passou na cama. E recordo ainda hoje, como um murro no estômago, a maneira como esse homem foi colocado na "maca-fúnebre". O que me passou pela cabeça, há mais de 10 anos atrás foi que tratavam aquela pessoa como se uma caraça de um porco abatido se tratasse!
A morte é banal, na nossa linha de trabalho. Ao contrário da maioria dos "empurra-papéis", nós temos que lidar diariamente com a nossa mortalidade e com a sua fealdade. Eu, de cada vez que recebo um novo doente,velho, acamado, esburacado, deparo-me com uma possibilidade do meu futuro. Lamento informar, mas a morte não é bonita nem agradável nem tão pouco romântica como no cinema. E sim, para nós é apenas mais um dia de trabalho, mais uma tarefa no turno, mais papéis para preencher, mais cuidados fora da rotina. Agora, o facto de ser uma situação triste não implica que nós estejamos tristes, sensibilizados, sintonizados com esse sentimento. Há mortes que nós sentimos, outras nem por isso. Mas uma coisa é certa: quem ousar pensar em encarar estas situações com a atitude pesarosa típica dos velórios bem pode desistir de ser enfermeiro.
Porque a Enfermagem está longe de ser uma profissão romântica...

11 comentários:

Nuvem disse...

há muito que não comento, mesmo sendo visita assídua.
Não comentei o anterior, mas tenho de comentar este... e compreendo perfeitamente o sentimento.
Se uma pessoa lidar como a morte, doença, e tudo o que de mau está associado, como tu lidas todos os dias (e os médicos, auxiliares, etc), é normal e saudável que consigam separar as águas, distanciar-se!
Já imaginaste o desgaste físico, emocional, etc... se tivessem que chorar e sofrer com cada pessoa que vos passa pelas mãos?
Claro que sentem dor, mas tem de ser superada e relativizada e isso é que faz das pessoas bons profissionais de saúde.
beijocas

Ana C. disse...

Miguel, confesso-te que todos os textos que escreves em relação à crueza da morte e em relação à tua profissão, são estupidamente sinceros. Uma sinceridade que muitas pessoas não teriam coragem de meter cá para fora. Portanto, no teu ultimo post precisaste de uma elevada dose de testículos para "confessares" o que realmente passa pela cabeça dos profissionais que lidam com a parte feia da morte todos os dias.
Não há romantismo na morte e isto digo eu que não sou enfermeira.

Chokkie disse...

Ainda não tinha lido o post anterior e foi um murro no estômago. Este ano o meu pai morreu no IPO de madrugada e imaginei esta conversa entre dois enfermeiros sobre ele... Este ano estive na UCI da Cruz Vermelha internada e durante a noite morreu a mulher da cama ao lado, a morfina não engana...Reparei na forma como as enfermeiras a despacharam "vamos lá andar com isto que eu ainda tenho muito serviço e a filha já lhe ligaram?"... Aí fiquei nauseada até mais não e só sosseguei quando tive alta. Não julgo e tento compreender, é uma realidade muito dura e imagino que tenham que se criar boas defesas para se permanecer são, funcional e eficaz. Mas não roça um pouco a falta de sensibilidade? Não é preciso dar o coração mas também não é preciso ser frio, sobretudo com a família. Quero acreditar que com a família são mais sensíveis, pelo menos da minha experiência o melhor foram sempre os enfermeiros, os mais cuidadosos. Compreendo que estão muito expostos a tudo mas daí até à chacota? Provavelmente o moribundo também quereria a misericórdia de que fala mas não a teve e merecia por isso o mínimo de respeito.

Amarelinha disse...

Como te entendo...
Assino por baixo.

Ana C. disse...

Eh pá pelo amor de Deus, depois de ler o que a Chokkie escreveu fiquei a pensar se a descompressão em forma de piadas, se dá em frente aos doentes, ou familiares...
Porque uma coisa é o que vocês pensam, outra é o que deixam sair em frente das pessoas que estão do outro lado da equação.

Naná disse...

Miguel, o facto de ser demasiado "apegada emocionalmente" é umas das principais razões pelas quais que sempre disse que nunca seria médica ou enfermeira... e sim, acredito que haja e compreendo o distanciamento que uma pessoa na tua profissão desenvolve ao longo dos anos... para bem da vossa sanidade mental.
Também entendo a Chokkie diz, porque também o meu pai faleceu há alguns meses no S. José e o que mais me entristeceu foi saber que apesar de nada poder fazer por ele, ele tinha morrido entre estranhos totais e completos... é certo que o acompanharam durante 2 meses nos cuidados intermédios e de algum modo se tornaram "conhecidos e intimos", mas entristeceu-me deveras ter a noção exacta de que ele morreu «sozinho» a 300 km da casa dele e dos familiares dele...

Anónimo disse...

Só nós Enfermeiros é que sabemos o que é estar junto de alguém!

Não são os médicos, não são os auxiliares, não são os assistentes sociais, não são os psicólogos.

Somos nós, somos nós que estamos junto e que não temos medo de estar junto!
Somos nós que estamos lá a noite toda, somos nós que pomos paninhos quentes, somos nós que puxamos para cima que se deixar resvalar.
Somos nós que nos rimos destas situações, mas fazêmo-lo porque é natural.
Fazemos nós, os médicos, os auxiliares os psicologos e os assistentes sociais!

Alexandre Costa

caminhante disse...

não fiquei impressionada com o post anterior porque não acredito que se trate de insensibilidade por parte dos enfermeiros. se fossem insensíveis creio que não teriam escolhido esta profissão. talvez médicos... menos trabalho e melhores salários. acredito que seja uma forma de "escape", uma máscara que usam. ou como conseguiriam viver tão perto da morte, dia após dia?

belinha disse...

Estas conversas entre colegas são uma forma de conseguir aliviar o ambiente quando sabemos que algo infeliz está para acontecer.

Os enfermeiros acompanham vários doentes que acabam por falecer e é necessário conseguir colocar uma barreira entre o trabalho e as nossas emoções, porque apesar de querermos proporcionar conforto ao doente, a verdade é que nao podemos olhar para ele como se fosse nosso familiar...Já pensaram como seria se todos os dias chorassem a morte de alguem próximo?

Quanto à relação com os famíliares, penso obviamente que há respeito e consideração pelo dor que os mesmos estão a sentir, porque no fim somos todos humanos, que infelizmente já sentiram a dor e o desespero de perder alguém.

KiKa disse...

Falta compreender que temos formação profissional para dar a todos os utentes uma 'boa morte', o menos sofrida possível, e com o máximo de dignidade que conseguirmos...

Não me choca que esse tipo de conversas existam, porque existem entre alunos, ente profissionais... revolta-me é apossibilidade que elas existam em frente a um doente que feliz ou infelimente ainda estará vivo nesse momento...

Susana disse...

Eu , como estudante de Radioterapia , já banalizo a morte de uma forma que até por vezes a mim me assusta .
Porque também é esse o nosso dia-a-dia , e não podemos fazer muito mais a não ser criar uma barreira protectora que não nos deixe de rastos de cada vez que um doente nos morre nos braços . Adeus romantismo .