sábado, 29 de agosto de 2009

Eu gosto é de movimento!!

Não gosto de trabalhos rotineiros! Eu não gosto de trabalhar nas Enfermarias (muito embora o tenha feito nos últimos 2 anos, mas nem sempre podemos escolher onde trabalhamos) porque o trabalho é muito rotineiro. As tarefas repetem-se todos os dias à mesma hora. Numa enfermaria os doentes permanecem durante muito tempo na mesma cama, com a mesma medicação, com o mesmo plano de cuidados. Já sei de antemão que na cama 1 está o Sr. José, na 2 o Manel, na 3 a Maria Albertina. Chego ás 8 e recebo o turno, às 8:30 vou dar medicação e às 9 começam as higienes. Cerca das 11 está tudo lavadinho e é hora de fazer pensos e ver soros e acessos venosos. Ao meio-dia damos a medicação e preparamos os doentes para o almoço. Nós próprios vamos almoçar e, cerca das 14 é tempo de mudar os doentes acamados de posição (mais uma vez!) e preparar a medicação das 15. Depois desta estar despachada, sentamo-nos e escrevemos as ocorrências desse turno no processo clínico dos doentes.
Claro que estas notas de enfermagem são inevitavelmente muito parecidas umas com as outras. Obedecem a uma estrutura mais ou menos rígida e acabam sempre por soar iguais, independente de quem seja o autor do texto. Quando acabo de escrever sinto sempre que falta alguma coisa. Leio e releio e concluo que não, não falta nada, apenas não se passou nada digno de registo. E isto é muito frustrante para alguém que, como eu, gosta de escrever!
Na Urgência porém, não se escreve muito! Para este serviço vou sempre com muita expectativa. Estará complicado? Pergunta estúpida, está sempre!! Em que posto irei ficar? Espero não ficar com as mulheres outra vez. Neste serviço não sei quantos doentes vou ver, quantos vão morrer, quantos vão entrar, quantas reanimações, quantas pequenas cirurgias, quantos enfartes do coração, quantas faltas de ar, quantas macas, quantos velhos, quantos drogados e bêbados. A vida (e a morte) fervilham entre aquelas paredes, o ritmo é sempre frenético, as luzes nunca se apagam, a adrenalina flui sempre, mais depressa ou mais devagar mas sempre. Há um "besouro" que toca nas situações de reanimação. E, por incrível que pareça, há organização dentro daquele caos! Aliás, o caos é a política organizativa do Serviço de Urgência. Esqueçam o ER ou a Anatomia de Grey! Aqui observamos centenas de doentes por cada turno!!
Não sei se isto diz algo acerca de quem eu sou mas, trabalhos rotineiros não, muito obrigado!
Curiosamente, os meus argumentos para gostar mais de Urgência e menos de enfermarias são também válidos para quem prefere a enfermaria à Urgência. Estranho...

6 comentários:

Miss Complicações disse...

Trabalhos rotineiros são desgastantes, desmotivantes. Matam a pouco e pouco aquilo que gostamos de fazer. O pior disso é que estagnamos e nunca seremos bons naquilo que fazemos. O meu dia-a-dia também é uma surpresa. Nunca sei o cromo que me vai aparecer. Quem me vai chatear. Com que incompetente vou lidar. Que reuniões vou ter... Enfim é sempre uma surpresa. A diferença é que todos têm saudinha para dar e vender e para me moer o juízo. Adorava mandar-te alguns para as urgências. Ias gostar. Tenho cromos de edições limitadas.

Maria disse...

Por acaso também não gosto nada de fazer as coisas por rotina. Ainda estou na faculdade e mesmo assim a rotina já está um bocadinho presente.. No futuro logo se verá, mas espero que não..

Gostei do blog. Está dentro da área que eu adoro : saúde.

beijinho.

Precis Almana disse...

Se os argumentos para gostares do serviço de urgência são a falta de rotina, e a enfermaria tem-na, como é que o mesmo argumento pode ser válido para quem gosta de enfermaria? Não percebi o teu último parágrafo ;-)

marianinha disse...

Na urgencia é sempre andar e os casos não são monotonos á que salvar vidas e esse trabalho não tem nada de rotina porque são sempre doentes diferentes talvez por isso prefiras as urgencias

undutchablegirl disse...

Realmente, cada um é para o que nasce. Rotineiro ou não, eu nunca conseguiria trabalhar/lidar com a morte/sofrimento que enfrentas diariamente.
Algumas vezes pergunto-me até que ponto os profissionais da saúde conseguem ser frios e não levar um bocadinho desse sofrimento para casa. Por exemplo, deve ser muito duro assistir à morte de uma criança. Como fazes nessas situações? Tens defesas que te conseguem dissociar automaticamente de um caso desses?

Dive disse...

Eu gosto de bloco.Mas tanto gosto de fazer cirurgia programada como urgencia...