O trabalho dos enfermeiros nem sempre é reconhecido. Muitas vezes porque é trabalho que não se vê, que se prolonga no tempo, que se faz nos bastidores digamos. Comigo passou-se uma situação, já há alguns anos, que confesso me deixou bastante desagradado. Não é que queira que me agradeçam pelo meu trabalho mas...
Trabalhava na Urgência e aquilo estava caótico. Normal, portanto! Entre um doente e outro fui abordado por um senhor que barafustava que tinha o pai à espera há mais de quatro horas, isto depois de ter feito uma série de exames. Problema: a ficha do doente tinha-se evaporado, juntamente com os exames do senhor! Falei com o filho e reconstituí o percurso do doente dentro do hospital e fui à procura. Encontrei a ficha e os exames enfiados numa gaveta de uma secretária de um cirurgião conhecido, de resto por "perder" as fichas dos doentes. Perdi cerca de 30 min com esta procura e, no final, falei com o médico com quem trabalhava naquele turno e pedi-lhe para resolver a situação. Informei o filho que o problema estava resolvido. O médico chamou o doente e deu-lhe alta. Estava tudo bem. No final, pai e filho derreteram-se em agradecimentos ao médico: "Ai Sr. Dr. se não fosse o senhor ainda estávamos à espera!". Admito que me senti bastante desconsiderado porque todo o trabalho foi meu e, se não fosse por esse trabalho, essa meia-hora que tirei aos outros doentes para fazer um trabalho que até nem era meu, mas que eu sabia que mais ninguém faria, esse doente ainda hoje lá estaria à espera!! Mas, no final, quem é que falou com o doente? Quem é que lhe disse "Vá embora descansado, as melhoras!"? Pois, não fui eu...
Óbvio que eu não estou à espera que me agradeçam pelo meu trabalho, que é pago. Mas este caso em particular ficou-me "entalado" na garganta pelo simples facto de o doente e o seu familiar nem sequer me terem dirigido a palavra na hora da despedida. Um simples "bom dia" e um sorriso teria sido o suficiente. Lembrei-me deste episódio agora mesmo, depois de uma doente me ter insultado porque estava à espera (e nem sequer há muito tempo!) e de nem sequer me ter dirigido a palavra à saída, depois de ter sido convenientemente tratada.
Parece que um texto que se iniciou debruçando-se sobre a invisibilidade do nosso trabalho se tornou numa reflexão sobre a falta de consideração de alguns (muitos, demasiados) doentes.
