quarta-feira, 25 de abril de 2012

Curta Crónica do Cagaço


Chiça. Esta noite tive, não diria medo, mas um certo arrepio frio na espinha. Então recebo um doente, deficiente profundo, pálido, margro e com montes de deformações esquelêticas. Apesar de novo, não fala e é completamente dependente. Bastante agitado porque estava cheio de dores dei-lhe um pouco do analgésico prescrito.
Eis senão quando sinto alguém (ou algo que me observa) e, virando as costas lá estava ele: pele amarela e baça, apenas com uma fralda como vestimenta, de pé no meio do corredor com os braços dobrados numa posição estranha, as mãos estreitas com os dedos compridos e finos, ligeiramente inclinado para um dos lados e curvado para a frente fruto da sua coluna torta, com uma corcunda assimétrica e, acima de tudo com os olhos esbugalhados a olhar-me profundamente, com a boca entreaberta deixan-do adivinhar a sua falta de alguns dentes. Para piorar a cena, a médica tinha acabado de me dizer que ele tinha o coração "ao contrário", ou seja virado para a direita em vez de para a esquerda! Brrrr... lá está ele, o arrepio.
Juro que a imagem que me veio a cabeça foi esta:


Pelo sim pelo não, já aqui tenho uma estaca bem afiada ao pé de mim, não vá o diabo tecê-las...

 


quinta-feira, 19 de abril de 2012

Já se nasce assim, é o que é.

Se se fizesse uma sondagem junto de quem me conhece há mais anos acerca de qual a característica que melhor me define, estou certo que "competitivo" figuraria nos lugares do topo. Quem me conhece desde pequeno poderia substituir o adjectivo "competitivo" pelo menos nobre "mau-perdedor" e eu percebo-os. Afinal eu sou o tipo que berrava com eles durante os jogos de futebol e que tem a seu cargo a destruição de várias raquetes de tenis, badminton, tacos de bilhar. Um verdadeiro McEnroe da aldeia! Mas acho que alguns dos meus amigos de infância nunca me chegaram a entender. Eu não tenho qualquer problema com a derrota em si mesmo mas tenho com o acto de desistir e com a minha própria falta de habilidade. A razão pela qual eu me passava com os meus colegas de equipa (e atenção, nunca mas nunca a minha cólera era dirigida ao adversário) prendia-se com o facto de alguns deles desitirem antes do final do jogo. Podia estar a perder por 3 ou 4 mas dava sempre o meu máximo até ao fim. O "não vale a pena" exaspera-me de uma maneira quase irracional. Por outro lado, ficava tão frustrado com a minha falta de habilidade, a minha incompetência que tinha de largar a minha frustração de alguma forma: as raquetes e os tacos eram as vítimas.

(o parágrafo que se segue está cheio de auto-elogio mas era necessário para enquadrar, OK?)

Mas esta forma de ser trouxeram-me várias "distinções" (se assim lhes podemos chamar) ao longo da vida: na primária (no tempo em que havia só uma professora para os quatro anos!) a minha professora colocava-me sempre na turma do ano a seguir ao meu e, mesmo assim, conseguia sempre os melhores resultados. Só nunca foi formalizada esta "ultrapassagem" porque os meus pais acharam (e bem) que não era vantajoso para mim saltar etapas. No antigo "ciclo" (5º e 6º ano) fui sempre o melhor da turma e o mesmo até ao 7º. Perdi-me um pouco do 10º ao 12º mas depois fui o melhor da recruta, melhor do curso de soldados, melhor do curso de Enfermagem.
Hoje, do alto dos meus 33 anos e com dois filhos já não sinto a necessidade de me comparar com outros. De me medir em relação ao outro e tentar superá-lo. Mas descobri um outro adversário bem mais difícil: eu próprio. Ser melhor em todos os aspectos da minha vida de pai, de marido, de enfermeiro. Descobri isso com a corrida onde já não corro para chegar á frente dos outros todos (até porque não sou capaz!) mas sim de me superar enquanto corredor. Jogar à bola é agora algo divertido, que faço sem me chatear. Afinal estamos todos velhos e gordos (eu não, atenção ás confusões).
Hoje enquanto jogávamos o Super-Mário (e esta personagem ainda vai dar um texto!) na Wii e no final de uma prova eu festejava o meu desempenho, o meu filho Gabriel muito surpreendido com a minha alegria perguntou:

- Paiiii! Porque é que estás a festejar?
-Ora filhote, porque fiquei em 2º lugar!
(e ele devolve-me esta resposta sem hesitar...)
-Mas pai, ficar em 2º também é perder...

I rest my case.



Curtas e soltas.

Estive de férias. Chego das ditas e sou informado que um dos meus textos, escrito a meias com a Ana C. do "A Vontade de Regresso" vai ser publicado numa colectânea de contos (mais novidades em breve)! Na próxima semana tenho uma entrevista que pode significar um salto na minha carreira. E este é o primeiro post escrito do meu iPhone.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Prato do Dia.

Ora bem. Já aqui escrevi um texto (cujo título já nem me lembro e também não me apetece procurar!) que falava da minha (in)competência para trabalhar com casos Psiquiátricos o que reflecte e muito a minha falta de pachorra para aturar malucos. Posto isto, partilho convosco outro dos meus "ódiozinhos de estimação": os bêbedos. Porquê? Perguntam vocês... ora por várias ordens de razões. Em primeiro lugar, são bêbados e bebedeira não é doença logo não têm nada que ir ocupar o nosso precioso tempo que poderíamos investir em pessoas realmente doentes. Em segundo lugar: são bêbados e logo são chatos. Sejam eles "bom vinho" ou "mau vinho" são chatos de qualquer forma e não tenho pachorra para eles. Em terceiro lugar: cheiram mal. A sério, são malcheirosos e têm um hálito fedorento que me deixa nauseado e que me persegue por horas e horas mesmo depois de eles terem partido. E depois é humilhante ver uma pessoa toda cagada (porque caiu na lama, porque se vomitou todo, porque levou um ensaio de porrada) e muitas vezes com a cara toda feita num bolo porque marraram contra o cimento do passeio (a bebedeira dá para isso) ou porque houve alguém que, ainda com menos pachorra do que eu, tentou tirar-lhes o álcool do sistema à chapada. Mas, essencialmente porque cheiram mal. Por isso malta, quando tiverem uma amigo que bebeu mais do que a sua conta a fórmula é simples: levem-no para casa, enfiem-no na sua cama, vestido e tudo e deixem-lhe uns ben-u-ron e uns guronsans na mesinha-de-cabeceira. Ele vai precisar.
Em terceiro lugar (e este precisa de um parágrafo só para ele) estão... TCHANAM!! As gajas. Não se sintam já ofendidas minhas senhoras. "Gaja" e "Mulher" não são sinónimos. O que é então uma gaja? É aquela fulana tão carente mas tão carente mas tão carente que já nem o marido e os filhos a podem aturar. Então é super vítima, e super apelativa e está muuuuuuuito deprimida.  E, para chamar a atenção trata de arranjar as mais variadas formas de vitimização e, a sua falta de originalidade leva sempre à mesma opção: "tentativas" de suicídio. E depois é como a história do Pedro e do Lobo e, na verdade a única coisa que elas conseguem matar é a paciência do marido / filhos. Que isto das "tentativas de suicido é como os erros: à primeira todos podemos falhar, à segunda só falha quem quer e a terceira já é incompetência. Não... há... pachorra...
E feita esta introdução, passo à história propriamente dita da minha "paciente do dia". Gaja - Esquizofrénica - Bêbeba - Que já tentou "suicidar-se" várias vezes. Foi ou não foi a sorte grande hem?? Pois foi. À primeira abordagem tentou intimidar-me com um "Quem é você? Enfermeiro? Não falo com enfermeiros." Como não resultou passou à ameaça "O seu nome? Vou fazer queixa de si!". Novo falhanço na sua tentativa de manipulação, passa para a sedução "Você é muito simpático... e bonito!". Sim, com aquele hálito asqueroso isso ia mesmo resultar.... e, finalmente a vitimização "Dói-me muito o braço esquerdo, acho que estou a ter um enfarte", o que até nem seria mau de todo dada a sua evidente incompetência suicidária. Enfim, abreviando, ao fim de meia hora já só me via extrair-lhe o ácido étanólico do sistema à chapada.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

E tudo se resume ao estilo.

Hoje foi um dia estranhíssimo, bizarro. Tenho este sentimento quando uma vaga sensação de que faço muito mas não produzo nada me invade. Confusos? Passo a descrever.
Chego ao  serviço e não tenho doentes atribuídos, a urgência está quase vazia. Vou então fazer as verificações da sala de reanimação quando o chefe de equipa me diz que vou receber um doente. Uma velhota com falta de ar, chata como tudo. "Não me pique aí. Não faço chichi na arrastadeira, acompanhe-me à casa-de-banho. Quero um copo de água." E eu ali, interrompido uma e outra vez e com tantas coisas ainda por fazer. Felizmente toca o telefone das reanimações. Salvo pelo gongo!! Uma miúda de 16 anos atropelada, braço e perna direita partidos, Entre o arraial do costume na sala de reanimação, entre picar veias, preparar medicamentos, acompanhar a doente à sala de TAC e deixá-la no bloco já passaram 2 horas. São agora quase 10 da matina e ainda não escrevi uma palavra sequer no dossier da velhota.
Chega outra velhota, esta uma italiana porreiraça com uma doença pulmonar crónica depois de mais de 50 anos de tabaquinho do bom e conversamos um pouco sobre a II Guerra Mundial que a senhora viveu (e sobreviveu) na primeira pessoa. Na verdade, para além de estar a gostar mesmo de conversar com a senhora, não tinha a mínima vontade de ir aturar a outra, a chata. Hora do almoço, lá fora na esplanada do 8º andar que está sol e issso é de aproveitar!
Chego do almoço e PIMBA! Toca o histérico do telefone da reanimação. Aparentemente é um senhor que teve um acidente automóvel em plena autoestrada e que terá feito uma paragem cardíaca no seguimento disso. Digo "aparentemente" porque o médico que fez a chamada é da Suíça Alemã o que quer dizer que não fala francês lá muito bem. Garanto-vos que este país tem muitas coisas boas mas, caramba, raios me partam se entendo porque raio não falam todos a mesma língua!! Chega o senhor e aquilo não tem bom ar: já com uma coloração cinzenta, frio... reparo que há mais gente do que o costume na sala, nomeadamente um senhor com uma câmara e um outro com uma daquelas varas com um microfone na ponta. Ora bem, vai haver uma resportagem sobre o Serviço de Urgências feito pela TV Suíça e os fulanos lá estão a filmar. A coisa dá-se, o senhora "pára" na nossa mesa e, ZUMBA, vai de massagem cardíaca! Os fulanos da TV estavam extasiados! Um politraumatizado que faz uma paragem cardíaca e com aquele circo todo montado à sua volta logo no primeiro dia? Uiiiii! Tento ter um ar profissional mas ao mesmo tempo com algum estilo enquanto faço a massagem e o fulano me enfia a câmara quase nas fuças. Mas logo me apercebo que as minhas prioridades devem estar um bocadinho trocadas e cago-me para o tipo. O que faz uma câmara a um gajo pá...
Saio da sala e passo pelo corredor e, de fugida, dou um olho aos monitores dos meus doentes. Respiram, o coração bate. Siga pra bingo, é hora de preencher a papelada para o óbito da sala de reanimação. Tenho entretanto um pneumotórax para drenar e o cirurgião chateia-me a cabeça porque se quer despachar... Pronto, pronto, aguenta aí aos cavalos que eu vou já preparar a doente, a sala e o material. E estava eu a preparar os medicamentos quando me apercebo que um dos meus doentes, um jovem que tinha feito uma tentativa de suícidio na noite anterior não estava na sua box. Cabos do monitor pelo chão, camisa do hospital na maca, nada dos seus artigos pessoais. Foda-se, o gajo fugiu! Não é que estivesse preocupado com ele, na verdade estava-me a cagar para ele, se se quer matar há coisas mais eficazes do que tomar uns comprimidos para dormir e beber umas cervejolas por cima. Chateia-me é tudo o que é papel associado desde relatórios do que se passou, circunstâncias da fuga (porra, se tinha passado 2 horas a tentar reanimar um doente como raio devia eu saber das circunstâncias da fuga? Num momento ele estava lá e no outro não!), chamar a segurança, telefonar à polícia e a família e dizer: Olhem, desculpem lá o meu jeito, mas o anormal do seu filho/irmão/marido que se tentou matar ontem está desaparecido. Não é agradável a reacção do outro lado! E pronto, o cirurgião não para de me atazanar espírito por causa da drenagem torácica e, ainda por cima chega outra doente demente para receber....
Resumindo e baralhando, quando a reportagem sair eu coloco aqui no blog e, já sabem, o enfermeiro com ar super compenetrado mas ainda assim cheio de estilo a desempenhar massagem cardíaca sou eu! 

domingo, 25 de março de 2012

O Depois.

A Carla Isabel coloca, e muito bem, a seguinte questão na sequência deste texto: "pois..esse acabou menos bem...olha uma pergunta:e como é o vosso depois???depois de perceberem que acabou?" A resposta mais simples, a mais evidente é a seguinte: fácil. Tiram-se os tubos e os catéteres, limpa-se o defunto, preenchem-se meia-dúzia de papéis e siga para a morgue. Mas eu não gosto de descrições simples...
Para mim (não sei como se passa para os outros) o depois é sobretudo tristeza. Não a tristeza obliterante, incapacitante da perda de alguém querido mas mais uma tristeza observada. Observada no corpo. E não consigo deixar de me perguntar e de me admirar com o contraste Vida / Morte. Como é possível que a simples paragem dos sistemas corporais seja tão evidente, tão marcante. 
O que me enche de tristeza é, primeiro que tudo o baço dos olhos mortos quando ainda pouco antes havia brilho, havia vida. O que se perdeu? Não pode ter sido só o facto que o sangue parou de circular. O contraste do vermelho (precisamente) vivo da língua com aquele magenta mortiço que vem depois. As pontas dos dedos cinzentas. A boca aberta como se presa num grito que nunca chegou a sair. O que foi que se perdeu? Não pode ter sido só sangue e oxigénio, sinapses e estímulos nervosos. Não.
Todas as mortes a que assisto me fazem pensar nisto. Não deixo nunca de parar um momento a olhar para a pessoa que se foi. Por incrível que pareça, é a contemplar a Morte que tento perceber o que é, na verdade, a Vida.

sábado, 24 de março de 2012

Se Camões fosse vivo arrancava o outro olho.

Os estereotipos vêm, todos, de algum lado, de alguma origem. Quando ouço piadas acerca dos Portugueses revejo naqueles relatos anedóticos exagerados muito daquilo que é "ser tuga". Não "ser Português" mas sim "tuga" com tudo aquilo que é brejeiro, foleiro, tascoso, pimba. Entrar num "centro português" aqui na Suíça é imergir numa tasca do interior profundo com todos os clichés que possam imaginar desde o Zé Povinha até ás bandeiras dos principais clubes de futebol. O que só acentuado pelo facto que, apesar de ser proibido, ainda se fuma (muito) lá dentro enquanto se batem umas cartas ou se pousam uns dominós. E apelidar isso de "cultura Portuguesa" enerva-me porque não me revejo nessa cultura. Mas enfim, gostos não se discutem (não mesmo?).
Contudo, há uma coisinha. coisa pouca aliás que poderíamos conservar, cuidar. acarinhar e manter orgulhosamente imaculado e que só a nós nos pertence: a Língua Portuguesa.  Dizia-me uma portuguesa, empregada da limpeza, no outro dia muito admirada "ahhh nem se percebe que é português quando fala francês e quando fala português ainda não se nota que é imigrante". Ainda, ainda? Portuguêsmente falando: não me fodam. Que sim, que falamos francês durante o dia todo, é verdade. Que possamos num raciocínio imediato não encontrar a palavra portuguesa para este ou aquele objecto que até nem usamos todos os dias, tudo bem. Agora que se fale constantemente em françuguês é negligência linguística! E depois, outra coisa para a qual não encontro qualquer explicação nem tem pouco desculpa e que já considero crime, é o facto de muitos dos filhos dos nossos compatriotas NEM SEQUER FALAM PORTUGUÊS!!! A sério, um amiguinho do meu filho, tuga, não fala português e percebe muito pouco. Numa casa onde ambos os progenitores são portugueses? Alguém me explica isto?
Faço aqui um juramento solene perante todos os meus leitores: juro continuar a cultivar a a acarinhar a Língua Portuguesa e a escrever e ler em Português. Juro que farei tudo o que estiver ao meu alcance para que os meus filhos falem português o mais correctamente possível. E juro que tento defender e mudar um pouco a imagem que os Suíços têm do nosso povo. 
No último texto publicado a DeepGirl (que também está por terras helvéticas) escreveu o comentário seguinte: Teria ficado melhor se tivesses escrito "C'est oú, c'est oú, putain?!". Lol. Provavelmente até disse algo muito semelhante mas faço questão de descrever os diálogos em português. Para quem chega de novo ao blog pode até parecer que ainda estou em Portugal mas, na verdade, estar aqui ou em Lisboa é a mesmíssima coisa no que diz respeito ao "Cheirinho a Éter...", ao seu objectivo.
Obrigado e bom dia.

domingo, 18 de março de 2012

A noite ia calma.

O bom de trabalhar na Urgências é que nem sempre estamos no rodopio dos doentes que chegam. Há sempre um recanto mais sossegado que funciona um bocado como um serviço de internamento normal, o SO (Serviço de Observação). Aqui guardamos os pacientes estáveis que esperam vaga para ser internados num serviço "a sério" ou aqueles que precisam de umas horas de vigilância antes de regressarem a casa. A noite hoje esteve calma. Os meus doentes sem queixas, as linhas nos monitores bem rítmicas e constantes, como se pretende, o serviço à meia-luz, um alarme aqui e ali nos doentes da box ao lado mas nada de alarmante. O ambiente foi bom, os colegas bem animados. Encomendámos comida tailandesa que comemos era quase meia-noite e um dos colegas ficou com cólicas e tivemos que o "internar" numas das camas livres! As horas passaram indolentes, com pausas para preencher os gráficos da evolução dos pacientes que lá iam interrompendo as conversas sobre tudo o que vai bem e não tão bem aqui no serviço e no mundo em geral.
Toca o alarme de reanimação, saltamos das cadeiras como se tivéssemos sido ejectados do cockpit. "É onde, é onde?" pergunto apesar de o local estar bem identificado com uma luz encarnada. Contornamos a esquina e lá está a colega a fazer massagem cardíaca... Tomo o seu lugar, uma outra colega chega com a prancha de massagem cardíaca, e logo um outro colega com o carro de reanimação. Segundos depois o quarto foi invadido por outros enfermeiros e os médicos da urgência. É que o alarme soa em toda a urgência... A azáfama do costume mas desta vez bem organizada, tudo bem sincronizado. Colocamos o desfibrilhador... choque... nada. Retomar massagem. Material de intubação preparado, o médico falha a intubação uma, duas, três vezes. A coisa está feia. Adrenalina administrada. 20 minutos de massagem cardíaca. "Se todos estiverem de acordo paramos as manobras...". Todos estamos de acordo.
Doem-me os braços de tanto massajar e um colega diz-me: "massajas bem pá!".

quinta-feira, 15 de março de 2012

Hardcore.

Trabalhar em Urgência não é para todos. Ainda hoje encontrei um colega que acaba de deixar o serviço que desabafava "Ao fim de ano e meio já não conseguia ir trabalhar com prazer". E ontem foi na verdade um desses dias bem difíceis...
Para começar recebemos 3 crianças deste acidente indescritível . E isto, do ponto de vista emocional foi muito duro para todos ainda por cima sabendo de tudo o que se tinha passado... Depois recebemos acidentados, enfartes, paragens cardíacas, sei lá! Num determinado momento tínhamos TODA a equipa de enfermagem dentro das salas de reanimação com 4 pacientes a serem tratados ao mesmo tempo!! Juro que nem este post aqui faz justiça ao granel ( isso mesmo, granel, confusão, caos) que se instalou, ainda por cima com o stress de termos de fazer sair pelo menos um dos doentes porque tínhamos um quinto paciente a chegar de heli. E é este tipo de pressão, esta adrenalina de fazer as coisa depressa e o melhor possível que mata a relação da maioria dos enfermeiros que chega ás urgências. A culpa é das séries de médicos, como ER, Anatomia de Grey e outras que tal que passam uma imagem muito romântica das coisas. Depois na realidade as coisas são, normalmente, muito duras e cruas.
Mas dizia eu, trabalhar nisto não é para todos os estados de alma... mas, depois de um dia de LOUCOS com imenso trabalho quando chego a casa arrasado fisicamente e começo a contar o meu dia cheio de casos "engraçados" e "porreiros" de doentes politraumatizados, drenagens torácicas, enormes feridas sangrantes e doenças multifactoriais em doentes descompensados, a minha mulher olha para mim de esguelha e diz: "Engraçados? És louco... estou enjoada só com a descrição!" E nesse momento eu tenho a certeza que, na verdade não há nenhum outro serviço em que eu possa tirar tanto como das Urgências!

quinta-feira, 1 de março de 2012

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Não vou escrever durante uns dias...





... porque não estou em casa!

sábado, 25 de fevereiro de 2012

SU vs UCI

(AVISO: texto altamente tendencioso e parcial)

Desde os primórdios dos tempos hospitalares que existe uma rivalidade, uma certa animosidade subreptícia, um ascozinho mal escondido entre dois grupos: os das Urgências e os dos Cuidados Intensivos. Digo já que a culpa não é nossa, é antes dos emproadinhos dos Intensivos.
Vejamos, essa malta tem a mania que "Oh, nós é que somos bons com os nossos monitores topo de gama e os nossos ventiladores digitais." Ai e tal que eles trabalham com material com tecnologia de ponta e com fármacos super-potentes e o camandro. E então? Ora, com os doentes monitorizados até aos tomates, ventilados, sedados, ali controladinhos e sempre com os srs. doutores sentadinhos á cabeceira, ora assim também eu era enfermeiro! Eu queria era vè-los ali, no campo de batalha onde os doentes chegam vindos sei lá de onde, sabe-se lá com que doenças atrás deles e com queixas que não lembram ao Diabo!
Os meninos, quando vêm buscar um doente lá vèm eles com os seus monitores e as suas bombas e tal e coisa e depois olham de lado para nós e dizem logo "Ahhh, esta diluição não é a que utilizamos no nosso serviço..." E eu só tenho vontade de dizer " Oh senhor ministro dos doentinhos, então ensine-me lá qual é a diluição perfeita que eu, entre salvar a vida do doente e responder às 32489 solicitações dos médicos não tive tempo de reflectir qual a diluição que melhor vos serviria ó sapientíssimo." "Então estes acessos venosos estão funcionais?", "Funcionais? Qué lá isso? Eu quando pico um doente faço-o por forma a falhar a veia e depois, não contente com a minha incompetência espeto-lhe um soro a correr fora da veia qué para doer o máximo possível. Funcionais... pfff, que ofensa!" 
Pelo contrário, quando somos nós a ir ao serviço deles lá estão á nossa espera, batas descartáveis, máscara e luvas enfiadas. Só falta o cartaz a dizer "Aviso: pulguentos a caminho", os sacanas. Ai porque nós lidamos com acessos arteriais. Coitadinhos... um acesso arterial é só um cateter normal mas enfiado numa artéria pá!
Ninguém os atura...


Obviamente que estou no gozo mas existe mesmo uma certa animosidade entre quem trabalha na Urgência e quem trabalha nos Cuidados Intensivos. Por outro lado, não é menos verdade que existem certas características que definem ambas as equipas: os Intensivos mais fechados, muito ligados à técnica e menos ao doente e os das Urgências mais abertos, mais receptivos à mudança e ao desconhecido. Mas, se virem bem, isso só reflecte o ambiente em que cada equipa trabalha...

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

3.

Sejamos claros: eu nunca gostei de números ímpares. Acho que há uma certa imperfeição nos números ímpares. Enfim, 3, 5, 7... há sempre um número que fica só coitadinho! Enfim, eu gosto das coisas completas, não gosto de pontas soltas e não gosto de coisas que ficam a meio.
Por isso, se há coisa à qual ainda não me habituei desde que cheguei a terras helvéticas, essa coisa é a cena muito suíça dos 3 beijos. Mas que merda é esta? Acabo sempre por deixar a pessoa que saúdo pendurada, com o pescoço esticado e a fazer beicinho porque, muito simplesmente não me entra esta mania de dar 3 beijos! Convenhamos: ou se dá dois ou se dá quatro. No sistema actual há uma bochecha que fica a perder em relação á outra o que levanta uma série de problemas: começamos a série á direita ou à esquerda? Qual das bochechas é a mais adequada para receber dois beijos? E ao final de muitos beijos, a bochecha eleita não começa a perder qualidade? Enfim, todo um conjunto de questões que retiram o prazer dos beijinhos aos amigos. Que raios! E dizem-se eles, os suíços, um povo evoluído...
E depois, quando me apercebo que a coitada da rapariga que acabo de cumprimentar está ali, vulnerável, de pescoço esticado como se lhe tivesse dado uma caîmbra que a deixou desibilitada e com a boca a fazer beicinho como se tivesse a ter um ataque agudo de tétano, não é agradável. Nem para ela que fica como que congelada a meio de uma convulsão, nem para mim que fico sem saber o que fazer. Espeto-lhe o beijo que falta ou deixo-me ficar sossegado a fazer um risinho parvo e nervoso de como "é pá... e agora?". Porque se lhe enfio com o beijo que falta não devo depois completar a série de três? Ou é cumulativo? Raispartam!

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

E assim, de repente,

300 seguidores! Muito e muito obrigado.

(quero muito voltar à escrita mas isto da vida é uma coisa que não dá para tudo)

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Cenário (muito) raro.

São 5 da manhã (quase) e ouvem-se os ponteiros do relógio. Para se ouvirem os ponteiros do relógio numa Urgência é preciso que esteja tudo muito calmo. E está. Há sete doentes na Urgência mas todos estáveis, a dormir. As lampadas à média luz e à minha frente dormitam 4 ou 5 colegas, mal instalados nas cadeiras azuis de escritório, cabeças poousadas nas mesas, embrulhados a lençóis, pernas estendidas, pés descalços. 
Visto assim nem parece o mesmo serviço dos casos graves, dos acidentes e das reanimações. Não parece o sítio onde há sempre movimento, o vai-vem dos enfermeiros, o entre a sai dos médicos, os pedidos e reclamações de doentes e famílias, as macas dos bombeiros que chegam, o telefone das reanimações que toca.
E, visto assim, até se torna um pouco estranho, melancólico até, que o ritmo destas horas de madrugada no Serviço de Urgência seja dado pelo som dos ponteiros do relógio. Mas é booooooom!

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Ópera ou Heavy-Metal?

Vi num dos episódios de "Grey's Anatomy" (sim, sim eu vejo uma série "de gaja" agora deixem lá isso) uma comparação entre uma ópera e uma cirurgia onde, em ambos os casos, tudo é cuidadosamente preparado e planeado tendo em vista um momento determinado em que a cortina se levanta para dar início ao espectáculo. De uma forma semelhante, o instrutor de um workshop sobre emergência e reanimação descreveu a reanimação ideal como uma orquestra: existe um maestro (o chamado "team-leader", normalmente o médico mais experiente no domínio dos cuidados de emergência) e depois os músicos, ou seja, os outros médicos, enfermeiros, auxiliares e todos os técnicos que possam intervir. Não é nada disso. Uma orquestra presume harmonia, tempo, organização, fluidez, sinfonia...
Esta semana participei numa das reanimações mais... digamos complicada, da minha carreira: senhora, 78 anos cai (atira-se?) do segundo andar (cerca de 10 m) e cai em cima de um carro estacionado na rua. O cenário de chegada é fácil de prever. O ritual do costume: os enfermeiros (eu portanto) são os primeiros a chegar, acendem as luzes da sala, ligam monitores e desfibrilhadores, preparam agulhas e seringas, tubos de sangue, compressas e ampolas de medicamentos. Os médicos vão chegando, assim como os técnicos de RX, os auxiliares. Sente-se a expectativa a aumentar à medida que se aproxima a hora de chegada anunciada e quase que só se ouve na sala o "tic-tac" do relógio que tudo vigia por cima da porta de entrada dos doentes. Sinto-me a aquecer por dentro mas não sei se é aquela blusa de papel verde a as luvas herméticas de latéx ou a adrenalina que sobe de intensidade. Tiro o dossier da gaveta e entretenho-me a organizar os papéis na secretária. Tudo o que é médico de um lado, o que é dos enfermeiros do outro e as requisições de análises e pedidos de sangue para transfusão previamente preenchidos e assinados. Ouve-se o helicóptero que aterra no tecto, mesmo por cima de nós...
A doente chega, os ânimos agitam-se, o cenário é pior que se pensava. Neste momento somos corredores à espera do sinal de partida, enquanto ouvimos o relatório do médico do helicóptero... terminou! Precipitámo-nos para cima da doente.
O líder grita ordens para o resto de nós: "vamos cortar as roupas da doente, transferimo-la para a nossa maca com a maca do heli e passamo-la depois para o nosso plano duro! Já!" nesta altura começo a cortar roupa e o meu colega procura uma veia para canalizar. Entendemo-nos bem nós os dois... a doente está pálida e fria e peço à auxiliar para nos trazer lençóis quentes. Cortamos tudo, os anestesistas monitorizam os sinais vitais, a coisa não está boa, tensão muito baixa, pulso muito alto, mau sinal, sinal de hemorragia. Temos acesso venoso mas não temos débito de sangue para analisar, um dos médicos está a tentar picar uma artéria mas não consegue, uma, duas vezes. A doente continua na maca do heli. "RAPAZES, É HORA DE PARAR COM AS BRINCADEIRAS E PASSAR A DOENTE PARA A NOSSA MACA, AGOORA!" Largamos tudo e fazemos como ele diz, rolamos a doente e a anestesista grita "A DOENTE PAROU, A DOENTE PAROU", massagem cardíaca iniciada. Instintivamente vou buscar os eléctrodos do desfibrilhador (aquelas pás que se vêm na TV já não se usam!) e colo-os no peito da doente, ligo o desfibrilhador, modo manual ligado, a máquina apita ao ritmo da massagem cardíaca "DESFIBRILHADOR PRONTO!" grito. Preparo-me para render o médico que massaga mas o líder diz-me: "vais buscar 4 unidas de sangue O negativo!", "4 unidades de O neg" respondo para confirmar que recebi a informação. E corro até ao depósito de sangue O neg que fica fora do serviço num corredor a caminho da morgue... estranha associação esta.
Chego com o sangue e... primeiro desafio! só utilizei a maquina que aquece o sangue enquanto o transfunde uma vez... foda-se já não me lembro.... na hora certa chega o chefe de equipa de enfermagem. Paramos um momento, olhamos para a máquina tentando isolar-nos do ambiente à nossa volta. Estudamos as tubagens e os encaixes e siga! O sangue começa a ser administrado "2 UNIDADES DE O NEG EM CURSO", "Seguimos para a TAC." Há sangue por todo o lado, na doente, nas máquinas, nas batas nas seringas.
Na TAC, transferimos a doente para a mesa da máquina depois de várias hesitações porque o fio é custo, porque o ventilador alarma, porque o sangue parou de correr. Enquanto a doente faz o vai-vem no túnel da TAC é tempo de um ponto de situação "a doente recebeu adrenalina, dormicum, propofol em curso assim como a noradrenalina. Há duas unidades de O neg em curso mais duas em stand-by...", "Ok. Precisamos de mais 4 unidades de sangue mais 4 de plasma fresco." É a nossa deixa. Cada vez que a máquina para entramos na sala para verificar que tudo corre como é devido mas é difícil identificar em que tudo corre o quê... merda! há ar no tubo do sangue e este não corre! Desconectamos tudo, tiramos o ar cá para fora e recomeçamos. Não corre, algo se passa. Trocamos tubos de sítio, paramos perfusões que fazem soar os alarmes, o ventilador não gosta de ter as tubagens dobradas mas lá encontramos o problema. A doente está pálida e fria.
Seguimos para os Cuidados Intensivos. Falta-me o dossier do doente e faltam-me dois sacos vazios de sangue (temos de os guardar durante 48 horas), alguém os deitou fora. Encontro papéis do dossier espalhados na sala da TAC e o resto do dossier está com um dos médicos. Chegamos á UCIinfusoras, tubos e sacos de soro, trocamos os fios dos monitores e entregamos a doente. Enquanto caminhamos de volta ao serviço, eu e o meu colega, apercebemo-nos que passaram duas horas! Ele tem a farda branca cheia de sangue e eu gozo com ele porque devia ter usado as quentes mas úteis batas verdes descartáveis. Estamos cansados mas com a noção que fizemos tudo certo, na hora certa.
Uma reanimação é como uma orquestra? Nã! É mais como o "mosh" num concentro de heavy-metal!


PS: a doente morreu mais tarde nesse mesmo dia...

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Pérolas Linguísticas.

Que há muitos portugueses na Suíça já se sabe. Agora que eram TANTOS não fazia ideia! A primeira vez que vim a Lausanne tive a impressão de estar em Lisboa: enquanto passeava nas ruas ouvia algumas línguas estrangeiras que interrompiam o Português! Ele há portugueses por todo o lado: nas ruas, nas obras, nos supermercados, no hospital, nos correios, nos transportes. E isso é fácil de perceber se se souber que vivem cerca de 15 mil portugueses em Lausanne, uma cidade com cerca de 100 mil habitantes.  Sinceramente, quem não trabalhar directamente com o público não precisa de saber falar francês. E isso explica a razão pela qual há tantos emigrantes que falam muito mal a língua do país que os acolhe. E esse sempre foi um tema pelo qual muito me interessei, a Linguagem dos emigras tugas, uma linguagem que só eles conhecem: o Françuguês
Ora eu, tendo crescido numa pequena aldeia onde uma grande parte da população está emigrada e tendo uma grande parte da família em Paris, desde muito cedo que conheço este dialecto dos emigras. O Françuguês é uma mistura de Francês e de Português, onde se utilizam indiferentemente palavras dos dois idiomas numa mesma frase, na mesma conversa e até onde se inventam novas palavras que não existem em nenhum dos dois idiomas. O Françuguês é então um dialecto que dá espaço à criatividade do lucotor e este é alguém que domina na perfeição os dois idiomas (ou isso ou não domina nenhum dos dois, mas esta é uma teoria controversa que não discutiremos). Ainda por esclarecer está a razão pela qual os Portugueses emigrados em países francófonos utilizam este dialecto entre eles, estejam eles em Portugal ou Lausanne, Paris, Genebra ou Limoges. Uma teoria recente atribui este facto a alterações profundas no campo cerebral destas pessoas, que evolui de tal forma que já não é capaz de falar apenas uma língua falando assim dois idiomas ao mesmo tempo.
Exemplos (permito-me a esta liberdade sublinhando o facto que não domino as regras de tão complexa linguagem) que tenho ouvido um pouco por toda a cidade:

- Sr. enfermeiro tenho um pouco de mal à lá téte.
-Venho de passar um fogo rouge.
-Vais ali nettoyer as etageiras que venho de suite.
-Já viste mon chef m'a dit que je não pode ser, je ne peut pas faltar mais vezes, o cabrão. (true story)
- Tu est oú? Espera que j'arrive.

Estes são apenas pequenos exemplos descritos por um leigo na matéria. Mas fiquei deveras siderado, impressionado, rendido com uma conversa que, inadvertidamente, ouvi no refeitório do hospital entre duas empregadas portuguesas. O discurso saltava livremente entre o Português e o Francês começando uma frase num dos idiomas e terminando no outro, palavras eram criadas e utilizadas numa liberdade criativa de fazer corar o maior dos poetas. Aquele discurso foi música para os meus ouvidos e o principal motor deste texto. A minha inspiração! A agilidade mental daquelas senhoras, cujo raciocínio saltitava entre o Português e o Francês tal como abelhinhas esvoaçam de flor em flor buscando o mel, não está ao alcance de todos. Exige prática, investimento, anos de estudo. Actualmente não sou capaz de tamanha proeza, ou falo um idioma ou o outro à vez, mas permito-me sonhar que um dia, talvez um dia. também seja capaz de dominar um dos Símbolos Sagrados dos emigras portugueses: o Françuguês.  

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Em Português nos entendemos!

Uma das diferenças que mais noto em termos de trabalho no dia-a-dia, relativamente a Portugal, é a alegria no trabalho. Não que andemos todos armados em palhaços a pregar partidas uns aos outros, mas que o ambiente seja um pouco mais que só trabalho e conversas de... trabalho! A verdade é que, na sua maioria, os colegas são amáveis, cordiais, prestáveis mas... frios, distantes, impessoais. Por vezes sinto falta de uma gargalhada alta e sincera, da galhofa inconsequente e barulhenta que é tão comum (ok, ok, ás vezes demasiado comum, admito) em Portugal. Por outro lado, exercer a fina arte da piada fácil, do trocadilho evidente, da ironia cáustica é muito mais difícil quando estamos numa Língua que enfim, não é a nossa, por melhor que a dominemos. O que é triste pois quando tenho a sorte de encontrar uma equipa mais galhofeira a maioria das piadas e graçolas, as deles e as minhas tentativas, ficam um bocado "lost in translation".
Por isso é sempre agradável quando me cruzo a trabalhar com outro enfermeiro português do serviço (somos 3). Jovem do Porto há 4 anos na Suíça, fala francês com aquele inigualável sotaque tripeiro e tem um sentido de humor carregado de vernáculo... Estávamos os dois de serviço quando entra um jovem, vinte-e-poucos, nome português, bêbado que nem um cacho, aparentemente inconsciente. Um outro colega, francês, toma conta do caso e volta frustradíssimo dizendo que o fulano não reagia a nada. O nosso colega português chama-me e diz: Queres ver que o gajo acorda já?
E eu "mas vais fazer o quê" pensando logo que ele ia fazer das boas...
Ele entra na Box e, sem aviso, grita ao ouvido do moço: ACORDA CARALHO!!!
O puto levanta-se de um salto e senta-se na cama esfregando os olhos para os abrir à força. Olha para nós, observa-nos por um pouco e depois diz, vos enrolada pelo àlcool:
- Ohhh, ohhh... Foooda-se, pensei qu'era o meu pai....
E com esta se deitou e voltou a adormecer!

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Cá está! Já andava para mudar a imagem do perfil há uns meses, desde que cheguei aliás. Na verdade, a foto antiga já não reflectia bem a actualidade deste blog. Porque foi tirada em Portugal, num lugar e num tempo onde já não me encontro. Curiosamente, também foi tirada num corredor! Devo ter uma tara por fotos em corredores...
Esta imagem (que, devo confessar, acho que ficou porreirinha!) também é tirada nos corredores das Urgências onde agora trabalho. Desde o primeiro dia que reparei num objecto que nunca tinha visto em Portugal e que, na verdade, reflecte a preocupação dos Suíços com a segurança: trata-se de um semi-globo espelhado que, fixo no tecto, permite que vejamos a circulação nos corredores vizinhos evitando assim acidentes. Mas para mim, sempre que me via reflecido naquele espelho via a minha nova vida, a minha nova experiência e o meu novo futuro. Na verdade, se bem que na imagem pareça que estou parado numa encruzilhada, o que sinto é que tenho muitos caminhos à minha frente! Posso ir em frente, virar à esquerda ou à direita... mas nunca voltar atrás!

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

A bem do País...

Descobri por acaso este vídeo e quero acreditar que a produção do mesmo quis fazer mais uma coleção de cromos assim ao estilo do "Ídolos". Também quero acreditar que este bando de anormais não é representativo dos universitários portugueses...