terça-feira, 30 de outubro de 2012

Nada de mais.

Ainda acerca do post anterior gostava de fazer alguns esclarecimentos. Na verdade, em Portugal assistiu-se a uma transição de um extremo para o outro. Passo a explicar: anteriormente, para se conseguir acesso a uma especialidade tinha que se ter alguns anos de experiência profissional com algumas competências ao nível da chefia e da formação. Ou seja, tínhamos nos cursos colegas já antigos que faziam essa formação numa perspectiva de atingir uma posição de chefia nos hospitais. E isso pervertia o objectivo de se ser Especialista que é, na minha opinião, um profissional que aprofunda a sua formação num determinado domínio para depois contribuir com as suas novas competências na prestação de cuidados. Na verdade os Especialistas tornavam-se Chefes e perdia-se todo o sentido de de formarem numa área específica dos cuidados uma vez que eles não prestavam cuidados. Actualmente o acesso a pós-graduações, mestrados e doutoramentos vulgarizou-se. Qualquer pessoa que possa pagar pode ser "doutor" numa determinada área. O problema é que temos agora "mestres" e "doutores" aos montes que, na prática, fazem exactamente a mesmíssima coisa que um Enfermeiro que tenha a formação de base. Passou-se dos Especialistas-Chefes para os Especialistas-mas-afinal-não. É a "formação a metro", a "construção de currículo académico" mas com um objectivo prático nulo. E parecendo que não, esta vulgarização de doutores e mestres nas fileiras de mão-de-obra indistinta que são os Enfermeiros de hoje em Portugal só prejudica a classe uma vez que retira valor às formações e às especializações que, diga-se, não são devidamente reconhecidas por ninguém, a começar pelos próprios enfermeiros.
Foi esta falta de reconhecimento que me fez nunca investir na minha formação, a um nível formal, em Portugal. Essa história de investir em formação para "valorização pessoal" não me convence. Sendo talvez muito frio, eu não vivo para trabalhar mas trabalho para viver: investir o meu tempo e o meu dinheiro numa formação que sei à partida que não me vai dar nada em retorno profissional parece-me muito francamente, estúpido. Se é para as minha novas competências adquiridas à custa do meu esforço não serem reconhecidas, então prefiro pegar nos livros e artigos e estudá-los de uma forma informal. Valorizo-me pessoalmente na mesma mas o investimento é muito menor.
Já aqui a formação profissional democratizou-se, o que é completamente diferente de "vulgarizou-se". Ou seja, os Especialistas trabalham na sua área de formação lado-a-lado com os outros colegas, com doentes atribuídos. Ser especialista não é nada do outro mundo, é apenas um colega cuja formação é mais aprofundada. No meu serviço o objectivo é que cerca de 30% da equipa seja especializada e são esses 30% que serão a base de funcionamento da equipa. O especialista é alguém de referência na equipa. Quer do ponto de vista informal, quando os colegas mais novos ou não formado lhe colocam dúvidas e questões, quer do ponto de vista formal quando assume funções de coordenação da equipa num determinado turno ou quando é responsável pela formação do resto da equipa num determinado tema. Para se ser Chefe é preciso antes ser especialista mas só isso não chega. Depois de se ser especialista é preciso anos de trabalho antes de se poder sequer pensar em concorrer para chefe.
Por isto disse no texto anterior que esta formação abre muitas portas porque a Especialidade não é um fim em si mesmo, é apenas o primeiro passo para um novo nível na minha carreira, mas um nível onde ainda vou ter de provar a minha competência. Mas não me assusto porque para mim, quanto maior o desafio, maior a motivação!

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Boas notícias.

Porque a vida é como um rio rápido, que não nos deixa ficar para trás, naquele momento, naquele último momento que gostaríamos de congelar para sempre, é tempo de partilhar as coisas boas da vida.
Isto é realmente muito estranho. Se em Portugal uma pós-graduação em Enfermagem (ou no que quer que seja, assumo eu) custa os olhos da cara e não serve para rigorosamente nada a não ser para enriquecimento pessoal e, ainda assim há montes de malta a apostar nisso, isso por aqui é completamente ao contrário. Passo a explicar: como a formação pós-graduada está bem enraízada e é incentivada pelas instituições e há muita escolha, a malta não tem muita pressa em meter-se nisso. O discurso "Ah e tal, tenho tempo e não tenho a certeza se é isso que quero. Logo vejo." Tudo a ver portanto com o exemplo português. Mas por mim tudo bem...
No hospital onde trabalho oferecem-se (repito: oferecem-se, assim gratuitamente e tudo) várias formações: Urgência, Cuidados Intensivos, Bloco Operatório e Anestesia. Todas com a duração de 2 anos e, no final de todas o Enfermeiro que conclua qualquer uma delas passa a ser Especialista no domínio em que se formou e passa também a receber como tal. Portanto o esquema é este: a malta volta para a escola durante dois anos, o tempo de formação conta como tempo de trabalho (as folguinhas estão garantidas), a formação é inteiramente paga pelo hospital e ainda recebemos o nosso ordenado a 100% e, no fim disto tudo ainda nos aumentam o ordenado. MAS QUAL É A DÚVIDA?? "Ah e tal, não me apetece muito voltar a estudar e perder dois anos...". Perder dois anos?!? Esta maltinha é parva.
Mas bem, graças a este tipo de postura (que diminui em muito as candidaturas para as vagas que existem) este que se assina concorreu e foi aceite na Formação Pós-Graduada em Cuidados de Urgência. O que quer dizer que este que se assina será Enfermeiro Especializado em Cuidados de Urgência daqui a dois anos e será pago com base nas suas novas competências! É porreiro não acham? E para além destas vantagens mais imediatas há todo um leque de portas que se abrem e tudo um novo leque de caminhos profissionais que se coloca. Estou muito entusiasmado e motivado.
Por outro lado, tenho cá para mim que esta formação será uma boa fonte de histórias para contar...
Começo em Janeiro, desejem-me sorte!

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Vazios vários.

Quando me perguntam como estou não sei o que responder. Não estou bem, não posso estar mas também não estou destroçado de dor e mágoa. Aliás, confesso que me sinto um pouco culpado por não estar completamente dilacerado pela dor. Se chorei? Compulsivamente. Mas só em alguns momentos bem precisos: quando tomei consciência que tínhamos perdido a guerra, quando expliquei isso mesmo ao meu pai e quando tive de me despedir da minha mãe. Depois só senti o vazio. E pela primeira vez desde que me lembro de saber escrever que me sinto vazio de palavras, e que palavras como vazio, perda, dor e saudade ganham toda uma nova dimensão.
Contudo tenho em mim a certeza que a minha mãe vive ainda através das minhas memórias, das memórias colectivas da nossa família e da energia que encontro em todos os seus sorrisos em todas as suas fotos e dentro da sua casa e das coisas que lhe eram queridas. Frustra-me a sua falta mas sigo em frente como sei que seria o seu desejo.
 
 
 

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Porquê não escrevo...

Porque já aqui escrevi sobre o cancro. Porque ja descrevi situações complicadas. Porque cada uma dessas descrições vinha de dentro de mim e mexia comigo. Porque agora estou a viver uma situação como essas sobre as quais reflecti. Mas agora não estou de branco, não estou do lado do dossier clínico nem do plano de cuidados... agora estou do outro lado, do lado do familiar inquieto a quem acelera o coração cada vez que entra naquela sala de cuidados intensivos, gelam as mãos e seca a boca.
Tenho muito preso cá dentro mas não consigo (ainda) escrever sobre isso.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Vamos a subir os padrõezinhos faxavôre.

Ora bem, é mais que sabido que aqui na Suíça ao se dar um pontapé num calhau (e aqui o que há mais é calhaus, e dos grandes!) saem de lá 20 Portugueses. Ainda ontem à noite, cerca de 7 em cada 10 pacientes que atendi na Urgência eram tugas. True story. O que, sabendo-se que somos alguns milhares só em Lausanne, não seria de admirar não fosse dar-se o caso de existir um certo padrão... Passo a explicar: na Urgência onde trabalho existem 2 sectores distintos para onde os doentes podem ser triados: o Sector A (de "Ambulatório") para onde são triados os doentes com males menores, coisas como Gripezecas, lombalgias, epigastralgias, e histerias em geral; já no Sector C (de "Couché"ou seja deitado) recebemos os doentes "à séria" as dispneias, os enfartes e os AVC. Portanto, não há cá misturas. E eu ontem à noite estive a trabalhar no Sector A...
Ora, os meus colegas já denominaram este Sector A como: "a Urgência dos Portugueses". Os tugas dirigem-se a este serviço como à padaria. Dói a barriguinha, urgência; dói o dentinho, urgência; dói a cabecinha, urgência; está deprimidinha, urgência. Então durante a noite é um vê se te avias! Ele é Costas, Silvas, Pereiras e Ferreiras com farturinha. E os meus colegas estranham este padrão e pedem-me explicações, explicações essas que eu não tenho. Acontece que em Portugal o padrão é o mesmo! E se bem que em Portugal pode sempre invocar-se o facto de que há milhões de portugueses sem médico de família, aqui esse facto não é aplicado. Só posso depreender que é algo que está inscrito no nosso código genético. E eu ontem fartei-me de falar português no serviço, ao ponto de entrar nas boxes já a disparar na língua de Camões mesmo se o doente fosse de outra nacionalidade!
Outro padrão que tenho reconhecido é a tendência para os meus pares de outras nacionalidades partirem do princípio que TODOS os tugas vão para Portugal de carro e passam lá o mês inteiro. Só isso pode explicar o facto de me perguntarem (demasiado) frequentemente "Então, vais de carro para Portugal? E já só voltas em Agosto hem?" Eh pá não, vou de avião e fico num hotel OK? E eles estranham.
E pronto, de uma assentada mais dois aspectos que identificam os Tugas aqui na Suíça: somos uns doentes chatos e incapazes de viajar de avião.

terça-feira, 3 de julho de 2012

A Nurse Jackie explica.

Anda tudo agora "ó tio, ó tio" por causa dos enfermeiros contratados a menos de 4€ à hora. Mas o problema não é de hoje e já há muito se ouve falar de enfermeiros a trabalhar de borla para "ganhar experiência" mas a isso o recém eleito bastonário dos enfermeiros chamou "empreendedorismo". Na verdade o problema é demasiado complexo e não estou para grandes reflexões. No entanto...
Aqui há uns dias, numa discussão facebookiana falava-se do enfado que são agora as séries dobre médicos e medicina, desde House a Grey. E alguém falou sobre Nurse Jackie. Eu cá acho que todas essas séries revelam bem o porquê da situação dos enfermeiros. Vejamos, em House quase não aparecem enfermeiros e quando aparecem são para ser insultadas pelo protagonista. Decerto dirão que o protagonista insulta toda a gente mas quando toca aos enfermeiros os insultos são sempre dirigidos quer a inutilidade da sua existência quer tornando evidente que é perfeitamente irrelevante as suas acções e que a finalidade da sua presença é fazer aquilo que o médico manda. Já na Anatomia de Grey, os enfermeiros aparecem em 3 situações muito específicas: a mais comum é estarem sempre lá para pegar num qualquer dossier clínico lhes passa para as mãos dizendo "Acabe de preencher o relatório que eu tenho mais que fazer" (talvez não por estas palavras mas pronto); a seguir vê-se os enfermeiros sentados atrás de um balcão com cara de enfado a dar informações tortas aos visitantes; depois, se o enfermeiro tem algum destaque nalgum episódio é porque anda enrolado com algum médico porque este quer fazer ciúmes a um outro doutor ou então aparece com uma função de comic relief, a atenuar de uma forma cómica o dramalhão usual desta série.  
Se recuarmos até ER, a pioneira de todas as séries de médicos na TV, os enfermeiros sempre apareciam nas reanimações a trabalhar com os médicos e até existiam algumas personagens principais que eram enfermeiros, num reflexo bastante aproximado da realidade. Mas (não há bela sem senão) esses enfermeiros-personagens-principais ou se tornavam médicos com o desenrolar da acção ou, não conseguindo tornar-se médicos, o sonho estava lá assim como as notas da faculdade para o fazer só que havia sempre uma condição qualquer que os impedia e, por causa disso eles eram infelizes.
Na única série em que um enfermeiro é protagonista, a Nurse Jackie é completamente desequilibrada, rouba drogas aos doente para se drunfar no WC e fornica avidamente um pouco por todo o hospital. Coloca frequentemente a vida dos doentes em risco porque está sempre drunfada e só se safa porque é amigalhaça da directora. 

I rest my case.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Por aqui, tudo bem.

Oito meses. Não parece mas já passaram 8 meses desde que deixei Portugal. Num sentimento de "tão perto mas tão longe", parece que foi ontem que aqui cheguei mas, por outro lado sinto que já não seria capaz de trabalhar em Portugal. De facto, as condições aqui são de tal forma diferentes que já não me vejo a trabalhar em Lisboa. Na verdade, este sentimento abalroou-me quando vi um documentário na RTPi acerca da vida dos tripulantes de ambulâncias em Lisboa. A visão dos Serviços de Urgências da capital, dos quais ainda me lembro muito bem, colocou-me duas questões: Como é possível? Como foi possível? Como é possível que se trabalhe naquelas condições e, a questão que mais me impressionou, como fui eu capaz de trabalhar, sem qualidade e sem segurança, em tais organizações. Na verdade, oito meses são mais que suficientes para alguém se habituar ao conforto e à segurança. Porque, em boa verdade, trabalhar aqui à acima de tudo, confortável. Não é que seja perfeito, longe disso. Há problemas como em todo lado, há intrigas e favorecimentos, injustiças e também há erros. Mas é confortável porque só temos um trabalho, folgamos o tempo a que temos direito e, acima de tudo, o ordenado é adequado e permite uma vida sem sobressaltos. E este conforto tem este efeito bizarro em mim: o tempo que passou ainda não é suficiente para me esquecer de onde vim mas, ao mesmo tempo, essa realidade está tão esbatida que, por vezes, tem a intensidade de algo que apenas sonhei, que não vivi realmente.
De tudo o que aqui encontrei o que mais me agrada é a mistura de culturas e de nacionalidades. Diariamente trabalho com suíços e franceses, espanhóis, italianos, portugueses, romenos, gregos, iranianos, iraquianos, indianos, russos e ucranianos, polacos, alemães, canadianos, ingleses, norte-americanos. E isso é fantástico! Ainda para mais quando toda a gente se trata por "tu". De facto, o "tutoyer" está institucionalizado mas desenganem-se se pensam que é o equivalente do "tu-cá-tu-lá" que bem conhecemos. O "tu-cá-tu-lá" tuga está carregado de uma conotação de promiscuidade na relação profissional, numa espécie de "faço o que quero porque sou tu-cá-tu-lá com o chefe" enquanto que este "tutoyer" é estabelecido logo no início da relação profissional, pelo que deixa automaticamente de ser um abuso tratar o chefe por tu. Como sempre nos dirigimos a ele nesses termos, o tratamento por tu é automaticamente desmistificado e deixa de ser uma questão. A mesma coisa com os médicos. Tratamo-los por tu, de mesma maneira que eles nos tratam por tu. Chamamo-los pelo nome próprio e o "Doutor" que normalmente precede o seu nome não existe. Isso facilita, e muito, a relação e favorece a confiança e o bom ambiente de trabalho.
Uma das coisas que estranhei no início desta experiência foi o facto de TODOS os médicos que trabalham no serviço terem um telemóvel de serviço e a lista desses telefones estar afixada por todos os cantos do hospital. Mais estranho ainda para mim, foi o facto de ser perfeitamente normal os meus colegas agarrarem no telefone e ligarem ao médico para colocar uma questão ou dar uma informação. Em Portugal isso não se passa assim. Em primeiro lugar há médicos que são extremamente desagradáveis quando incomodados e depois há aqueles que nunca estão disponíveis. Além disso, normalmente dão-nos um número de um escritório onde, invarialvelmente, não está ninguém. Aqui, se quero falar com o Dr. Avec procuro o seu nome na lista e ligo-lhe. E, surpreendentemente, ele atende! E é assim não só com os nossos médicos mas também com os especialistas que convocamos como o neurologista, ortopedista, cardiologista, etc, etc, etc.
Balanço da decisão de vir para cá: faria tudo de novo!

domingo, 3 de junho de 2012

Eu, maníaco.

Há algo de realmente me perturba em certos doentes, algo que mexe comigo de uma forma quase compulsiva. Não são os odores corporais, desagradáveis em si mesmo mas perfeitamente suportáveis; também não são as feridas, mesmo as mais purulentas e nojentas; os líquidos corporais com eles posso eu bem. Não, nada disso.
O que realmente mexe comigo e me enerva para lá do racional é o facto dos doentes se enrolarem todos nos lençóis! Assim tipo casulo ou então quando o lençol se torce todo na cama quando este arrasta pelo chão porque não está direito como deve estar, está atravessado, na diagonal, do avesso. Que esteja amarfanhado no fundo da cama porque o doente está com calor ainda vá. Agora todo torcido é que não!
Na minha cabeça (e talvez só na minha) há uma certa forma de dormir e de lidar com o lençol. Não me perguntem qual é, não faço a mínima ideia. Mas lá que há, há.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

A Mike Tyson da blogosfera.

Existe aqui pela blogosfera uma certa "solidariedade" entre bloggers, uma espécie de irmandade onde "tu elogias o meu blogue, eu elogio o teu" que tem um certo ar de plástico, de artificial. Dito isto...
O que eu procuro num blogue não é a qualidade dos textos, o impecável domínio da Língua Portuguesa, as improváveis mas incrivelmente certeiras metáforas ou o refinado humor. Claro que tudo isso interessa mas, ao fim de algum tempo essas características não conseguem evitar um bocejo ou dois e, inevitavelmente acabo por deixar de visitar esse blog. Há muito tempo que não adicionava um novo blog à minha lista de leitura mas hoje fi-lo.  
Como sempre nesta blogosfera, acabei por ir visitar este blog por sugestão de uma amiga de longa data desta blogosfera, a inevitável Ana C., muito embora já tivesse tropeçado nele uma ou duas vezes sem, verdade seja dita, lhe tenha prestado a devida atenção. E, um dia, a Ana manda-me uma mensagem dizendo "tens uma nova seguidora". Vou ver e deparo-me com palavras elogiosas acerca do "Cheirinho a éter...". Acho que o mínimo que se deve a alguém que nos elogia o trabalho é descobrir mais acerca da pessoa que nos elogia. E o que descobri foi algo de muito valioso. Textos simples, honestos, dolorosos, divertidos, reais de alguém com muita coragem. E, pegando na introdução que fiz a este texto, devo dizer-vos que, neste momento sigo não o blog mas a Pessoa. Alguém que não conheço pessoalmente mas que admiro pela perspectiva tão real mas, ao mesmo tempo positiva que ela consegue dar a uma situação verdadeiramente difícil.
Não posso dizer que partilho das suas emoções, que as vivo como se fosse o próprio a sentir mas entendo-a de uma forma muito particular. Na história deste blog, o blog de um enfermeiro que luta todos os turnos não só com as dores dos outros mas também com as suas próprias emoções, dificuldades e limitações, existem uns quantos textos acerca do cancro. Creio que todos são textos sombrios e frios, rudes e até crueis mas essas são as emoções que sinto (e ainda hoje o sinto) perante essa doença em particular. E não sou só eu. Ainda ontem uma médica me dizia, tendo por ponto de partida o desfecho trágico de uma doente que tinha tratado, que se algum dia fosse apanhada nessa guerra que tomaria medidas precisas e muito concretas e, digamo-lo sem rodeios, acabaria com a própria vida antes que o cancro a tomasse de assalto. É este o medo que nós, os que lutamos contra o cancro, temos.
Mas a Silvina fez-me perceber uma coisa muito importante e que mudou a minha visão e a minha maneira de cuidar os doentes com quem me encontro: não somos nós, médicos e enfermeiros e todos os outros profissionais, que lutamos contra o cancro. São os doentes! Como num combate de boxe, nós somos apenas os treinadores que os aconselham, os que lhes dão água e uma toalha, os que lhes limpam as feridas nos intervalos do combate enquanto os lutadores descansam mas sem deixar de olhar o ser adversário nos olhos. A Silvina semeou em mim, enquanto profissional da saúde, algo muito valioso. Por tudo isto, meus amigos, e não por "socialporreirismo" relativamente a alguém que me mencionou no seu blog, vos digo: vão ler estes Episódios de Radio.   
E quanto a ti Silvina... espeta-lhe uma em cheio nos queixos e arranca-lhe uma orelha à dentada!!

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Analfabruto.

Ora bem, aqui o vosso amigo agora está lançado. Como ainda não chegava ter mudado de hospital, sendo que o hospital de destino é noutro país, este que se assina resolveu que havia de se meter a fazer a Especialidade em Cuidados de Urgência (que é uma coisa muito gira mas que ainda não há em Portugal). Vai daí, o menino lança-se no processo de candidatura que passa por entrevista com o seu Chefe e entrevista com o Director da Formação. Já isso, duas horas por entrevista a argumentar acerca das minhas motivações e dos meus projectos, no fundo a tentar "vender o meu peixe", não é nada fácil numa língua que não dominamos (é difícil até em Português caramba!) então escrever uma carta de apresentação em francês é uma tarefa verdadeiramente ingrata.
Agora percebo alguém que, não sendo analfabeto e conseguindo exprimir-se oralmente de uma forma clara mas não necessariamente elaborada, não tem as ferramentas necessárias para escrever um documento tal como uma carta oficial. Eu escrevo, escrevo e escrevo, com todos os mecanismos, estratégias e regras que conheço de anos e anos a produzir textos em português e... estou constantemente a escrever no mesmo registo, com os mesmos vocábulos. É saber que existem outras dez palavras para utilizar como sinónimo mas sair sempre a mesma. E isso de estar constantemente a procurar palavras corta a fluidez de qualquer raciocínio. E até nem sequer é uma questão de erros ortográficos (abençoado corrector automático!) é mesmo uma questão de estrutura, de formulação e construção do texto. Segundo um colega que me está a ajudar a construir o produto final, o significado está lá, percebe-se o sentido do texto e as palavras estão, na sua maioria correctas. Mas depois, ao ler o texto em voz alta, tudo lhe soa estranho, pouco instintivo. Como ele diz: "É francês mas não soa a francês!". Por exemplo, este texto que agora escrevo tomou-me alguns minutos numa noite de trabalho. O mesmo texto, simples na sua estrutura e sintaxe. teria demorado horas a ser escrito em francês e no final nem sequer saíria razoavelmente bem escrito. Apenas bizarro aos olhos francófonos que o viessem a ler.
E esta é uma sensação estranha para quem está habituado a não sentir dificuldades em se exprimir por escrito. 

sábado, 19 de maio de 2012

São uns pulhas.

Acerca do anuncio da Crioestaminal não digo nada (ha por essa blogosfera fora muitas analises super profundas que podem ler) mas coloco algumas questões: Existem por acaso Bancos de Sangue privados? E Bancos de Medula Ossea privados? Não. Então porque raio é permitido que hajam bancos de celulas estaminais privados? Deixo-vos a reflexão...
Mas digo-vos isto: visitem o site do Lusocord - Banco Publico de Sangue do Cordão Umbilical e leiam o que eles têm a dizer.  Eu estou à vontade para falar deste assunto porque não, eu não guardei as celulas dos meus filhos. Pelo menos não as guardei nos Bancos de Celulas privados, esses pulhas (o proprio conceito é imoral, na minha opinião) mas doamos o sangue do cordão umbilical ao Banco Publico. Gratuito e ao serviço de todos. Mesmo aqueles que não têm 1000 e tal euros para pagar e têm que viver com o uma culpa induzida e injusta de não estarem a fazer o melhor para os seus filhos. 

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Curta Crónica do Cagaço


Chiça. Esta noite tive, não diria medo, mas um certo arrepio frio na espinha. Então recebo um doente, deficiente profundo, pálido, margro e com montes de deformações esquelêticas. Apesar de novo, não fala e é completamente dependente. Bastante agitado porque estava cheio de dores dei-lhe um pouco do analgésico prescrito.
Eis senão quando sinto alguém (ou algo que me observa) e, virando as costas lá estava ele: pele amarela e baça, apenas com uma fralda como vestimenta, de pé no meio do corredor com os braços dobrados numa posição estranha, as mãos estreitas com os dedos compridos e finos, ligeiramente inclinado para um dos lados e curvado para a frente fruto da sua coluna torta, com uma corcunda assimétrica e, acima de tudo com os olhos esbugalhados a olhar-me profundamente, com a boca entreaberta deixan-do adivinhar a sua falta de alguns dentes. Para piorar a cena, a médica tinha acabado de me dizer que ele tinha o coração "ao contrário", ou seja virado para a direita em vez de para a esquerda! Brrrr... lá está ele, o arrepio.
Juro que a imagem que me veio a cabeça foi esta:


Pelo sim pelo não, já aqui tenho uma estaca bem afiada ao pé de mim, não vá o diabo tecê-las...

 


quinta-feira, 19 de abril de 2012

Já se nasce assim, é o que é.

Se se fizesse uma sondagem junto de quem me conhece há mais anos acerca de qual a característica que melhor me define, estou certo que "competitivo" figuraria nos lugares do topo. Quem me conhece desde pequeno poderia substituir o adjectivo "competitivo" pelo menos nobre "mau-perdedor" e eu percebo-os. Afinal eu sou o tipo que berrava com eles durante os jogos de futebol e que tem a seu cargo a destruição de várias raquetes de tenis, badminton, tacos de bilhar. Um verdadeiro McEnroe da aldeia! Mas acho que alguns dos meus amigos de infância nunca me chegaram a entender. Eu não tenho qualquer problema com a derrota em si mesmo mas tenho com o acto de desistir e com a minha própria falta de habilidade. A razão pela qual eu me passava com os meus colegas de equipa (e atenção, nunca mas nunca a minha cólera era dirigida ao adversário) prendia-se com o facto de alguns deles desitirem antes do final do jogo. Podia estar a perder por 3 ou 4 mas dava sempre o meu máximo até ao fim. O "não vale a pena" exaspera-me de uma maneira quase irracional. Por outro lado, ficava tão frustrado com a minha falta de habilidade, a minha incompetência que tinha de largar a minha frustração de alguma forma: as raquetes e os tacos eram as vítimas.

(o parágrafo que se segue está cheio de auto-elogio mas era necessário para enquadrar, OK?)

Mas esta forma de ser trouxeram-me várias "distinções" (se assim lhes podemos chamar) ao longo da vida: na primária (no tempo em que havia só uma professora para os quatro anos!) a minha professora colocava-me sempre na turma do ano a seguir ao meu e, mesmo assim, conseguia sempre os melhores resultados. Só nunca foi formalizada esta "ultrapassagem" porque os meus pais acharam (e bem) que não era vantajoso para mim saltar etapas. No antigo "ciclo" (5º e 6º ano) fui sempre o melhor da turma e o mesmo até ao 7º. Perdi-me um pouco do 10º ao 12º mas depois fui o melhor da recruta, melhor do curso de soldados, melhor do curso de Enfermagem.
Hoje, do alto dos meus 33 anos e com dois filhos já não sinto a necessidade de me comparar com outros. De me medir em relação ao outro e tentar superá-lo. Mas descobri um outro adversário bem mais difícil: eu próprio. Ser melhor em todos os aspectos da minha vida de pai, de marido, de enfermeiro. Descobri isso com a corrida onde já não corro para chegar á frente dos outros todos (até porque não sou capaz!) mas sim de me superar enquanto corredor. Jogar à bola é agora algo divertido, que faço sem me chatear. Afinal estamos todos velhos e gordos (eu não, atenção ás confusões).
Hoje enquanto jogávamos o Super-Mário (e esta personagem ainda vai dar um texto!) na Wii e no final de uma prova eu festejava o meu desempenho, o meu filho Gabriel muito surpreendido com a minha alegria perguntou:

- Paiiii! Porque é que estás a festejar?
-Ora filhote, porque fiquei em 2º lugar!
(e ele devolve-me esta resposta sem hesitar...)
-Mas pai, ficar em 2º também é perder...

I rest my case.



Curtas e soltas.

Estive de férias. Chego das ditas e sou informado que um dos meus textos, escrito a meias com a Ana C. do "A Vontade de Regresso" vai ser publicado numa colectânea de contos (mais novidades em breve)! Na próxima semana tenho uma entrevista que pode significar um salto na minha carreira. E este é o primeiro post escrito do meu iPhone.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Prato do Dia.

Ora bem. Já aqui escrevi um texto (cujo título já nem me lembro e também não me apetece procurar!) que falava da minha (in)competência para trabalhar com casos Psiquiátricos o que reflecte e muito a minha falta de pachorra para aturar malucos. Posto isto, partilho convosco outro dos meus "ódiozinhos de estimação": os bêbedos. Porquê? Perguntam vocês... ora por várias ordens de razões. Em primeiro lugar, são bêbados e bebedeira não é doença logo não têm nada que ir ocupar o nosso precioso tempo que poderíamos investir em pessoas realmente doentes. Em segundo lugar: são bêbados e logo são chatos. Sejam eles "bom vinho" ou "mau vinho" são chatos de qualquer forma e não tenho pachorra para eles. Em terceiro lugar: cheiram mal. A sério, são malcheirosos e têm um hálito fedorento que me deixa nauseado e que me persegue por horas e horas mesmo depois de eles terem partido. E depois é humilhante ver uma pessoa toda cagada (porque caiu na lama, porque se vomitou todo, porque levou um ensaio de porrada) e muitas vezes com a cara toda feita num bolo porque marraram contra o cimento do passeio (a bebedeira dá para isso) ou porque houve alguém que, ainda com menos pachorra do que eu, tentou tirar-lhes o álcool do sistema à chapada. Mas, essencialmente porque cheiram mal. Por isso malta, quando tiverem uma amigo que bebeu mais do que a sua conta a fórmula é simples: levem-no para casa, enfiem-no na sua cama, vestido e tudo e deixem-lhe uns ben-u-ron e uns guronsans na mesinha-de-cabeceira. Ele vai precisar.
Em terceiro lugar (e este precisa de um parágrafo só para ele) estão... TCHANAM!! As gajas. Não se sintam já ofendidas minhas senhoras. "Gaja" e "Mulher" não são sinónimos. O que é então uma gaja? É aquela fulana tão carente mas tão carente mas tão carente que já nem o marido e os filhos a podem aturar. Então é super vítima, e super apelativa e está muuuuuuuito deprimida.  E, para chamar a atenção trata de arranjar as mais variadas formas de vitimização e, a sua falta de originalidade leva sempre à mesma opção: "tentativas" de suicídio. E depois é como a história do Pedro e do Lobo e, na verdade a única coisa que elas conseguem matar é a paciência do marido / filhos. Que isto das "tentativas de suicido é como os erros: à primeira todos podemos falhar, à segunda só falha quem quer e a terceira já é incompetência. Não... há... pachorra...
E feita esta introdução, passo à história propriamente dita da minha "paciente do dia". Gaja - Esquizofrénica - Bêbeba - Que já tentou "suicidar-se" várias vezes. Foi ou não foi a sorte grande hem?? Pois foi. À primeira abordagem tentou intimidar-me com um "Quem é você? Enfermeiro? Não falo com enfermeiros." Como não resultou passou à ameaça "O seu nome? Vou fazer queixa de si!". Novo falhanço na sua tentativa de manipulação, passa para a sedução "Você é muito simpático... e bonito!". Sim, com aquele hálito asqueroso isso ia mesmo resultar.... e, finalmente a vitimização "Dói-me muito o braço esquerdo, acho que estou a ter um enfarte", o que até nem seria mau de todo dada a sua evidente incompetência suicidária. Enfim, abreviando, ao fim de meia hora já só me via extrair-lhe o ácido étanólico do sistema à chapada.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

E tudo se resume ao estilo.

Hoje foi um dia estranhíssimo, bizarro. Tenho este sentimento quando uma vaga sensação de que faço muito mas não produzo nada me invade. Confusos? Passo a descrever.
Chego ao  serviço e não tenho doentes atribuídos, a urgência está quase vazia. Vou então fazer as verificações da sala de reanimação quando o chefe de equipa me diz que vou receber um doente. Uma velhota com falta de ar, chata como tudo. "Não me pique aí. Não faço chichi na arrastadeira, acompanhe-me à casa-de-banho. Quero um copo de água." E eu ali, interrompido uma e outra vez e com tantas coisas ainda por fazer. Felizmente toca o telefone das reanimações. Salvo pelo gongo!! Uma miúda de 16 anos atropelada, braço e perna direita partidos, Entre o arraial do costume na sala de reanimação, entre picar veias, preparar medicamentos, acompanhar a doente à sala de TAC e deixá-la no bloco já passaram 2 horas. São agora quase 10 da matina e ainda não escrevi uma palavra sequer no dossier da velhota.
Chega outra velhota, esta uma italiana porreiraça com uma doença pulmonar crónica depois de mais de 50 anos de tabaquinho do bom e conversamos um pouco sobre a II Guerra Mundial que a senhora viveu (e sobreviveu) na primeira pessoa. Na verdade, para além de estar a gostar mesmo de conversar com a senhora, não tinha a mínima vontade de ir aturar a outra, a chata. Hora do almoço, lá fora na esplanada do 8º andar que está sol e issso é de aproveitar!
Chego do almoço e PIMBA! Toca o histérico do telefone da reanimação. Aparentemente é um senhor que teve um acidente automóvel em plena autoestrada e que terá feito uma paragem cardíaca no seguimento disso. Digo "aparentemente" porque o médico que fez a chamada é da Suíça Alemã o que quer dizer que não fala francês lá muito bem. Garanto-vos que este país tem muitas coisas boas mas, caramba, raios me partam se entendo porque raio não falam todos a mesma língua!! Chega o senhor e aquilo não tem bom ar: já com uma coloração cinzenta, frio... reparo que há mais gente do que o costume na sala, nomeadamente um senhor com uma câmara e um outro com uma daquelas varas com um microfone na ponta. Ora bem, vai haver uma resportagem sobre o Serviço de Urgências feito pela TV Suíça e os fulanos lá estão a filmar. A coisa dá-se, o senhora "pára" na nossa mesa e, ZUMBA, vai de massagem cardíaca! Os fulanos da TV estavam extasiados! Um politraumatizado que faz uma paragem cardíaca e com aquele circo todo montado à sua volta logo no primeiro dia? Uiiiii! Tento ter um ar profissional mas ao mesmo tempo com algum estilo enquanto faço a massagem e o fulano me enfia a câmara quase nas fuças. Mas logo me apercebo que as minhas prioridades devem estar um bocadinho trocadas e cago-me para o tipo. O que faz uma câmara a um gajo pá...
Saio da sala e passo pelo corredor e, de fugida, dou um olho aos monitores dos meus doentes. Respiram, o coração bate. Siga pra bingo, é hora de preencher a papelada para o óbito da sala de reanimação. Tenho entretanto um pneumotórax para drenar e o cirurgião chateia-me a cabeça porque se quer despachar... Pronto, pronto, aguenta aí aos cavalos que eu vou já preparar a doente, a sala e o material. E estava eu a preparar os medicamentos quando me apercebo que um dos meus doentes, um jovem que tinha feito uma tentativa de suícidio na noite anterior não estava na sua box. Cabos do monitor pelo chão, camisa do hospital na maca, nada dos seus artigos pessoais. Foda-se, o gajo fugiu! Não é que estivesse preocupado com ele, na verdade estava-me a cagar para ele, se se quer matar há coisas mais eficazes do que tomar uns comprimidos para dormir e beber umas cervejolas por cima. Chateia-me é tudo o que é papel associado desde relatórios do que se passou, circunstâncias da fuga (porra, se tinha passado 2 horas a tentar reanimar um doente como raio devia eu saber das circunstâncias da fuga? Num momento ele estava lá e no outro não!), chamar a segurança, telefonar à polícia e a família e dizer: Olhem, desculpem lá o meu jeito, mas o anormal do seu filho/irmão/marido que se tentou matar ontem está desaparecido. Não é agradável a reacção do outro lado! E pronto, o cirurgião não para de me atazanar espírito por causa da drenagem torácica e, ainda por cima chega outra doente demente para receber....
Resumindo e baralhando, quando a reportagem sair eu coloco aqui no blog e, já sabem, o enfermeiro com ar super compenetrado mas ainda assim cheio de estilo a desempenhar massagem cardíaca sou eu! 

domingo, 25 de março de 2012

O Depois.

A Carla Isabel coloca, e muito bem, a seguinte questão na sequência deste texto: "pois..esse acabou menos bem...olha uma pergunta:e como é o vosso depois???depois de perceberem que acabou?" A resposta mais simples, a mais evidente é a seguinte: fácil. Tiram-se os tubos e os catéteres, limpa-se o defunto, preenchem-se meia-dúzia de papéis e siga para a morgue. Mas eu não gosto de descrições simples...
Para mim (não sei como se passa para os outros) o depois é sobretudo tristeza. Não a tristeza obliterante, incapacitante da perda de alguém querido mas mais uma tristeza observada. Observada no corpo. E não consigo deixar de me perguntar e de me admirar com o contraste Vida / Morte. Como é possível que a simples paragem dos sistemas corporais seja tão evidente, tão marcante. 
O que me enche de tristeza é, primeiro que tudo o baço dos olhos mortos quando ainda pouco antes havia brilho, havia vida. O que se perdeu? Não pode ter sido só o facto que o sangue parou de circular. O contraste do vermelho (precisamente) vivo da língua com aquele magenta mortiço que vem depois. As pontas dos dedos cinzentas. A boca aberta como se presa num grito que nunca chegou a sair. O que foi que se perdeu? Não pode ter sido só sangue e oxigénio, sinapses e estímulos nervosos. Não.
Todas as mortes a que assisto me fazem pensar nisto. Não deixo nunca de parar um momento a olhar para a pessoa que se foi. Por incrível que pareça, é a contemplar a Morte que tento perceber o que é, na verdade, a Vida.

sábado, 24 de março de 2012

Se Camões fosse vivo arrancava o outro olho.

Os estereotipos vêm, todos, de algum lado, de alguma origem. Quando ouço piadas acerca dos Portugueses revejo naqueles relatos anedóticos exagerados muito daquilo que é "ser tuga". Não "ser Português" mas sim "tuga" com tudo aquilo que é brejeiro, foleiro, tascoso, pimba. Entrar num "centro português" aqui na Suíça é imergir numa tasca do interior profundo com todos os clichés que possam imaginar desde o Zé Povinha até ás bandeiras dos principais clubes de futebol. O que só acentuado pelo facto que, apesar de ser proibido, ainda se fuma (muito) lá dentro enquanto se batem umas cartas ou se pousam uns dominós. E apelidar isso de "cultura Portuguesa" enerva-me porque não me revejo nessa cultura. Mas enfim, gostos não se discutem (não mesmo?).
Contudo, há uma coisinha. coisa pouca aliás que poderíamos conservar, cuidar. acarinhar e manter orgulhosamente imaculado e que só a nós nos pertence: a Língua Portuguesa.  Dizia-me uma portuguesa, empregada da limpeza, no outro dia muito admirada "ahhh nem se percebe que é português quando fala francês e quando fala português ainda não se nota que é imigrante". Ainda, ainda? Portuguêsmente falando: não me fodam. Que sim, que falamos francês durante o dia todo, é verdade. Que possamos num raciocínio imediato não encontrar a palavra portuguesa para este ou aquele objecto que até nem usamos todos os dias, tudo bem. Agora que se fale constantemente em françuguês é negligência linguística! E depois, outra coisa para a qual não encontro qualquer explicação nem tem pouco desculpa e que já considero crime, é o facto de muitos dos filhos dos nossos compatriotas NEM SEQUER FALAM PORTUGUÊS!!! A sério, um amiguinho do meu filho, tuga, não fala português e percebe muito pouco. Numa casa onde ambos os progenitores são portugueses? Alguém me explica isto?
Faço aqui um juramento solene perante todos os meus leitores: juro continuar a cultivar a a acarinhar a Língua Portuguesa e a escrever e ler em Português. Juro que farei tudo o que estiver ao meu alcance para que os meus filhos falem português o mais correctamente possível. E juro que tento defender e mudar um pouco a imagem que os Suíços têm do nosso povo. 
No último texto publicado a DeepGirl (que também está por terras helvéticas) escreveu o comentário seguinte: Teria ficado melhor se tivesses escrito "C'est oú, c'est oú, putain?!". Lol. Provavelmente até disse algo muito semelhante mas faço questão de descrever os diálogos em português. Para quem chega de novo ao blog pode até parecer que ainda estou em Portugal mas, na verdade, estar aqui ou em Lisboa é a mesmíssima coisa no que diz respeito ao "Cheirinho a Éter...", ao seu objectivo.
Obrigado e bom dia.

domingo, 18 de março de 2012

A noite ia calma.

O bom de trabalhar na Urgências é que nem sempre estamos no rodopio dos doentes que chegam. Há sempre um recanto mais sossegado que funciona um bocado como um serviço de internamento normal, o SO (Serviço de Observação). Aqui guardamos os pacientes estáveis que esperam vaga para ser internados num serviço "a sério" ou aqueles que precisam de umas horas de vigilância antes de regressarem a casa. A noite hoje esteve calma. Os meus doentes sem queixas, as linhas nos monitores bem rítmicas e constantes, como se pretende, o serviço à meia-luz, um alarme aqui e ali nos doentes da box ao lado mas nada de alarmante. O ambiente foi bom, os colegas bem animados. Encomendámos comida tailandesa que comemos era quase meia-noite e um dos colegas ficou com cólicas e tivemos que o "internar" numas das camas livres! As horas passaram indolentes, com pausas para preencher os gráficos da evolução dos pacientes que lá iam interrompendo as conversas sobre tudo o que vai bem e não tão bem aqui no serviço e no mundo em geral.
Toca o alarme de reanimação, saltamos das cadeiras como se tivéssemos sido ejectados do cockpit. "É onde, é onde?" pergunto apesar de o local estar bem identificado com uma luz encarnada. Contornamos a esquina e lá está a colega a fazer massagem cardíaca... Tomo o seu lugar, uma outra colega chega com a prancha de massagem cardíaca, e logo um outro colega com o carro de reanimação. Segundos depois o quarto foi invadido por outros enfermeiros e os médicos da urgência. É que o alarme soa em toda a urgência... A azáfama do costume mas desta vez bem organizada, tudo bem sincronizado. Colocamos o desfibrilhador... choque... nada. Retomar massagem. Material de intubação preparado, o médico falha a intubação uma, duas, três vezes. A coisa está feia. Adrenalina administrada. 20 minutos de massagem cardíaca. "Se todos estiverem de acordo paramos as manobras...". Todos estamos de acordo.
Doem-me os braços de tanto massajar e um colega diz-me: "massajas bem pá!".

quinta-feira, 15 de março de 2012

Hardcore.

Trabalhar em Urgência não é para todos. Ainda hoje encontrei um colega que acaba de deixar o serviço que desabafava "Ao fim de ano e meio já não conseguia ir trabalhar com prazer". E ontem foi na verdade um desses dias bem difíceis...
Para começar recebemos 3 crianças deste acidente indescritível . E isto, do ponto de vista emocional foi muito duro para todos ainda por cima sabendo de tudo o que se tinha passado... Depois recebemos acidentados, enfartes, paragens cardíacas, sei lá! Num determinado momento tínhamos TODA a equipa de enfermagem dentro das salas de reanimação com 4 pacientes a serem tratados ao mesmo tempo!! Juro que nem este post aqui faz justiça ao granel ( isso mesmo, granel, confusão, caos) que se instalou, ainda por cima com o stress de termos de fazer sair pelo menos um dos doentes porque tínhamos um quinto paciente a chegar de heli. E é este tipo de pressão, esta adrenalina de fazer as coisa depressa e o melhor possível que mata a relação da maioria dos enfermeiros que chega ás urgências. A culpa é das séries de médicos, como ER, Anatomia de Grey e outras que tal que passam uma imagem muito romântica das coisas. Depois na realidade as coisas são, normalmente, muito duras e cruas.
Mas dizia eu, trabalhar nisto não é para todos os estados de alma... mas, depois de um dia de LOUCOS com imenso trabalho quando chego a casa arrasado fisicamente e começo a contar o meu dia cheio de casos "engraçados" e "porreiros" de doentes politraumatizados, drenagens torácicas, enormes feridas sangrantes e doenças multifactoriais em doentes descompensados, a minha mulher olha para mim de esguelha e diz: "Engraçados? És louco... estou enjoada só com a descrição!" E nesse momento eu tenho a certeza que, na verdade não há nenhum outro serviço em que eu possa tirar tanto como das Urgências!