sábado, 14 de março de 2009

O Silêncio do Amor, seis meses depois.

Maria deambulava lentamente pela casa olhando as fotos de família nas férias, nos fins-de-semana na praia, das festas e tocava levemente nas faces impressas do seu filho e de Artur, na esperança de poder absorver as emoções que marcavam aqueles momentos. Ficava muitas vezes durante horas a ouvir a colecção de música de Artur enquanto folheava os livros das estantes, na tentativa de melhor compreender aquele homem que ela tinha amado em tempos. Esse facto era indismentivelmente real nas fotos, tal era a alegria e o amor que delas emanava. Artur tinha sido inexcedível nos últimos 6 meses. Dedicou-se totalmente a ela e à sua recuperação, regressava directamente do trabalho para casa, contratou um fisioterapeuta seu conhecido para ser responsável pela reabilitação física de Maria e ela estava agora quase recuperada. Ao ponto de já encontrar muitas semelhanças entre a Maria das fotos e aquela que via ao espelho.
Aquele homem ternurento e dedicado, sério e honesto, tinha sido a sua pedra basilar ao sair do hospital. O mundo estava diferente e ela não conhecia ninguém. Os seus pais, os seus amigos, a sua família, todos desconhecidos. Menos Daniel, claro! Lembrava-se de tudo o que assistira na vida do seu filho e sorria, emocionando-se até ao ver as fotos que lhe traziam tantas e tão boas memórias. Mas Artur foi o único que a compreendeu, a necessidade de tempo e espaço para poder reorganizar a sua mente. Uma certeza ela tinha: Artur conhecia-a muito bem! Parecia adivinhar os seus pensamentos através da sua expressão facial. Acarinhava-a nas alturas certas, afastava-se sem ela pedir. Nunca lhe propôs que regressassem ao seu antigo quarto em comum, optando pela cama das visitas. Maria sentia-se grata, por isso e pelo resto, e pensava que não devia ser difícil uma mulher apaixonar-se por um homem assim.
Artur estava sentado no café onde Alice trabalhava. Olhava pela janela, como se esperasse alguém. Os primeiros dias após o despertar de Maria tinham sido de tal maneira intensos, principalmente com a euforia de Daniel, que Artur não tinha sido capaz de contactar Alice. O turbilhão de emoções que o fustigava também não tinha sido bom conselheiro. Quando finalmente procurou Alice para conversar, pedir desculpa e explicar a ausência prolongada, ela tinha desaparecido. No café disseram-lhe que se tinha despedido. No prédio, o seu apartamento estava agora ocupado por um jovem casal e a senhoria dissera-lhe que Alice se tinha ido embora sem dar grandes explicações. Ninguém sabia onde encontrar Alice. Naquele momento Artur tentava acreditar naquele sentimento que o fustigava dia após dia: amava Alice mas todo o seu consciente racional o queria ver junto a Maria. Mas a consciência da ausência de Alice era tão dolorosa que ele sabia que não iria suporta-la por muito mais tempo. Não depois de tanto conflito interior durante mais de dois anos. Não depois daquele passeio, daquele abraço e da sensação de segurança e plenitude. Não mais! E, ali mesmo, Artur fez a sua escolha.
Quando regressou a casa encontrou Maria calmamente sentada no sofá, lendo os seus velhos diários que ele mesmo resgatou da poeira do sótão. Ouvia um velho CD dos U2 e Bono cantava agora: "We're one, but we are not the same, we got to carry each other.." e toda a sua postura transmitia calma, segurança e Artur sentiu pela primeira vez uma subtil sensação de familiaridade com aquela mulher. Parecia a Maria de antes do acidente. Beijou-a ternamente na face "Como te sentes?"
"Bem Artur, muito bem! Tens sido um querido comigo desde que voltei."
"Ora essa Maria, sou o teu marido. É por isso que os maridos servem sabias?"
"Artur, sei que estou um pouco esquecida mas ainda sei que os maridos não servem só para isso..."
"O que queres dizer com isso?" Artur estava petrificado.
"Esquece. Como vai a Alice?" Maria disse aquelas palavras de forma tão leve, tão natural como se perguntasse "Já tomaste o pequeno-almoço?". Artur não conseguiu articular duas palavras. Aliás, nem sequer um pensamento...
"Mas... como..."
"Artur... eu menti quando disse que só me lembrava do Daniel. Na verdade, além dele, lembro-me da conversa que tiveste comigo na manhã antes de acordar. Aquela em que abriste o teu coração, onde me falaste de Alice com tanto amor. Onde choraste por sentires que esse amor era uma traição a mim. Além de Daniel, a única pessoa que conheço bem é Alice, através do teu relato. Ela está bem?"
Ana, deixo-te a história num ponto de definição!! O que acontece daqui para a frente depende da resposta do Artur a esta pergunta!!! O caminho que eu escolheria está implícito algures neste texto mas... está nas tuas mãos!!! Temos de começar a pensar em quem é que vai acabar a história por isso diz de tua justiça acerca desse tema.
Não percam o próximo episódio das vidas de Artur, Maria e Alice aqui!!!

8 comentários:

MARIINHA disse...

Está lindo. Tu escreves tão bem Miguel. Parabéns, gostei mesmo. Isto está a animar. Será que vai acabar como eu gostava? Com o Artur e a Alice juntos?
Vamos ver. Bom fds Bjk

Miguel C. disse...

Mariinha, obrigado pelo elogio!!
Quanto ao destino dos nossos pombinhos... só a Ana C. sabe, por agora!

undutchablegirl disse...

Ai ai... será que entendi bem? Queres que a Maria apadrinhe o amor do próprio marido com a Alice? Uiiiii...
E a escolha da música, hã? Para além de ter uma letra conveniente para a situação, é de muito bom gosto! ;-)

Miguel C. disse...

Vamos ver Socas, vamos ver... a Ana saberá o que fazer a seguir!
Quanto à música, ouvi-a esta manhã no carro, tomei atenção à letra e pensei: "Isto é tudo menos uma canção de amor!!" e achei que se enquadrava neste momento particular da nossa história. Fico contente que tenhas percebido a conveniência da letra para explicar algum sentimento do Artur.

Tasha disse...

Muito bom Miguel C., Estou empolgadissima...

Ana C. disse...

Miguel, de todos os episódios que escreveste, este é definitivamente o meu preferido. Parece que reflectiste sobre ele, não me perguntes porquê. Gostei muito mesmo.
Vamos lá ver como é que me saio depois desta...
Estou como a Socas, também gostei do pormenor da música. Se isto fosse um filme, teriamos que a ouvir.

Miguel C. disse...

Ana, obrigado! Fico feliz porque, de facto tive de reflectir um pouco sobre o rumo a dar à história. Quanto á música, acho que há sempre uma música para todos os momentos e, nesse momento essa soou-me a melhor. Além de que a tinha ouvido pela manhã!

banita disse...

Oh, my god! O que eu andei a perder?!
Que raio, uma pessoa já não pode tirar umas férias curtinhas que aparece logo este novelo para desembrulhar...
Bom texto!