quinta-feira, 3 de março de 2016

Eutanasiando.

Começo desde logo por esclarecer que não ouvi as declarações da Bastonária da Ordem dos Enfermeiros e que me refiro apenas à sua afirmação que a eutanásia se pratica já nos hospitais em Portugal, que vi reproduzida em inúmeros meios de comunicação social.
Não sei que é esta enfermeira, não sei de onde vem, qual a sua história nos cuidados, qual o seu currículo. No entanto afirmar que a eutanásia já é praticada nos hospitais portugueses é de uma leviandade extrema sobretudo quando o tema é de uma delicadeza que não podemos negar. Agora, mais do que se desdobrar no diz-que-não disse, de vir com a eterna manobra política do "a minha afirmação foi descontextualizada", esta enfermeira tem que assumir: onde? quem? como? quantas vezes? A eutanásia é crime em Portugal, certo. Mas mais do que ser um crime (que é um reflexo da nossa tradição conservadora) trata-se de uma decisão que deve partir do doente claramente consciente e informado das causas, das consequências, das vantagens et desvantagens da sua escolha, seja ela qual for. E isso não é uma decisão médica, nem da equipa hospitalar. É um processo em que nós, os profissionais devemos estar envolvidos mas apenas como consultores para apoiar a decisão do doente e fornecer-lhe os meios técnicos que ele precisa para atingir o seu objectivo.
Por isso, que uma representante dos enfermeiros venha a público afirmar que há profissionais (sejam eles quais forem, atenção!) que tomam esta decisão sem nela envolver o principal interessado, isso incomoda-me. A vários níveis. Em primeiro lugar, se uma colega minha me disser que assistiu a um acto desses e com ele compactuou, só a posso acusar de negligência profissional e ética pois, objectivamente os interesses do paciente não foram devidamente acautelados. Em segundo lugar, que uma Bastonária de uma Ordem Profissional venha afirmar a mesma coisa sem ter provas concretas do que afirma demonstra uma tremenda irresponsabilidade e presta um péssimo serviço aos profissionais que deveria defender. Se assistiu a qualquer tipo de eutranásia escondida deveria tê-lo denunciado na altura. Se não o fez é tão negligente e criminosa como o autor.
Sou a favor da eutanásia mas não a qualquer preço.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Quatro anos, quatro parágrafos.

Cheguei. Três meses de "à condição", uma nova língua, uma nova cultura, uma nova organização. Ao fim dos três meses tinham dúvidas, afinal alguém com a minha experiência devia estar mais à frente (assim pensavam eles) e tive de explicar-lhes que, à excepção das técnicas e material tudo, mas tudo era diferente. Mais três meses à condição. Fiquei lixado, revoltado, trabalhei mais que os meus colegas que começaram no mesmo dia que eu... mas eu era o único não francófono.
Trabalhei ainda mais, seis meses passaram e depois um ano e fui aceite para fazer a especialidade. Dois anos. No primeiro dia pensei que ia estar atrás de toda a gente. Afinal era um percurso académico duro numa língua que ainda não dominava. Enganei-me. Modéstia à parte, fui mais longe e mais rápido do que toda a gente. Acabei nos prazos, rebentei com o júri na prova oral e senti-me orgulhoso do que tinha feito.
Três anos depois de ter chegado sou um dos especialistas do serviço e sou convidado pelos chefes a integrar a equipa dos enfermeiros chefes-de-equipa, aqueles que têm a função de coordenar toda a actividade relacionada com os doentes presentes no serviço de urgências assim como supervisionar a equipa de enfermeiros. Ultrapassei carradas de colegas que ainda estão à espera e as vozes de protesto não se fizeram esperar assim como os testes e desafios à minha competência e saber estar. 
Um ano depois disso estou bem na minha posição, os meus colegas respeitam-me enquanto colega e responsável, embora não recolha a unanimidade (e ainda bem!). Entretanto fui convidado para um outro curso, desta vez uma pós-graduação em avaliação e gestão da dor para vir a ser responsável pelo novo projecto "Gestão da Dor" que se iniciará no serviço em Junho deste ano. Novas vozes de desacordo que terei de calar.     
Olho para trás e penso que foi tudo tão rápido mas ao mesmo tempo já passaram mais de quatro anos. Olhando para trás percebo o porquê de quase ter deixado morrer este blog: andava na luta. Hoje estou num lugar bom e a única dúvida que me assola actualmente é qual o desafio a escolher a seguir!

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

As férias da neve!

Semana de férias "da neve"! Nesta semana os miúdos vão ao curso de ski e eu aproveito para disfrutar a solo dos desportos de neve que me conquistaram desde que aqui cheguei: ski, snowboard, trenó e tudo o que implique subir uma montanha et escorregar por ela abaixo!
Claro que adoro o desporto em si, a velocidade, os músculos das pernas a arder nas rampas mais inclinadas e as quedas! Oh as quedas! A sensação de cair sem se magoar (muito!) e a neve que nos entra pelo pescoço. Mas há mais que adoro nestes dias de neve e montanha, mesmo que não haja sol. As paisagens que desfilam quando subimos, um cafézinho na esplanada mais alta com vista para os vales, o lanche com os miúdos todos sentados num monte de neve observando as pessoas que descem graciosas. Isso tudo sim. Mas sobretudo adoro o momento, todos os momentos que que chego ao ponto mais alto da pista mais alta e olho em meu redor. Os picos que não acabam, um mais alto que o outro, a brisa da montanha e o ar puro. Sinto que é nesses momentos em que tenho espaço para respirar, onde o ar é tão leve que me entra por todos os poros. Fico um momento e depois, depois é montanha abaixo, o mais rápido que consigo, o ar a gelar-me as bochechas, o nariz e os lábios, as pernas a arder tentando manter-me colado à montanha, chegar ao fundo das pistas... olhar para cima e... repetir!





domingo, 21 de fevereiro de 2016

Liberdade

Acabo de apagar a minha conta Facebook.
Back to business aqui no blog? É o que desejo, é o que desejo...

domingo, 27 de setembro de 2015

Gwendollin

Vejo-a chegar ao fundo do corredor. Quer dizer, não a vejo directamente, antes a imagino deitada na maca da ambulância rodeada pelo médico e os paramédicos que não escondem  a apreensão que os atormenta. Na sala de reanimação vejo-a finalmente, pequenina, 2 meses de vida que provavelmente nem disfrutou, olhos fechados como se dormisse mas sem a serenidade dos bébés que dormem. Isto foi só um momento antes de ser engolida pelas batas brancas que a esperavam... Vejo um dos meus colegas a poisar dois dedos no seu pequeno peito e a pressionar, ritmicamente como se a quisesse acordar, dois dedos apenas num peito que não se mexe, outro dos meus colegas que procura uma veia, ume pequena veia para estabelecer uma linha de vida. O médico que se deslocou a casa dela anuncia cerca de 25 minutos desde que o pai a encontrou serena na sua cama mas não recebeu o sorriso do costume, 25 minutos sem vida.
Os pediatras falam entre si, anunciam ordens para medicamentos e soros que os enfermeiros tentam executar o mais rápido possível mas eu só tenho olhos para o pai. O pai, aquele olhar perdido e vazio, aquele olhar de quem sabe que a sua menina partiu e já não volta. Mas ao mesmo tempo aquele olhar de quem espera ouvir a sua menina chorar a qualquer momento. E o silêncio... trabalhamos sempre no mais absoluto silêncio quando reanimamos uma criança. E o sentimento de podermos estragar a situação se perturbarmos o silêncio... Não a vejo, só as suas pequenas pernas que nem sequer andaram e elas estão tão negras, e eu parece-me ver a morte a apoderar-se daquele corpo pequenino, introduzindo-se por entre todas aquelas batas brancas. E o pai viu o mesmo que eu e uma lágrima correu lentamente pela sua face. 
Chegam os primeiros resultados do sangue, confirma-se o que todos já sabíamos. Vejo a pediatra-chefe olhar para o pai. Aquela médica, alta, loira, pele branca e olhos azuis uma cópia daqueles anjos renascentistas dos pintores italianos dirige-se ao pai e sorri tristemente. O pai percebe e as lágrimas rolam agora livremente pela sua cara, pela barba ruiva despenteada pelas mãos inquietas, olhos vermelhos. Sim, ele sabe que fizemos o que nos foi possível. Levanta-se da sua cadeira, as batas brancas afastam-se da maca e mostram-na, tão pequenina, tão desprotegida. O pai aproxima-se por entre aquela guarda de honra de médicos e enfermeiros, aqueles que não conseguiram salvar a sua menina e pega-a nos seus braços, protege-a com o seu peito, beija-lhe a face e as mãos e o peito. E chora. 
Eu saio, o sofrimento daquele pai atinge-me e sinto que não tenho o direiro de assistir a um momento tão intimo entre pai e filha. O último momento. 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Anjo...

O Mário, brasileiro, de férias na Suíça ainda ontem fez ski com um amigo. Apanhou com a esposa o comboio em Genebra, direção Zurique para apanhar um voo, direcção Londres para 3 dias de passeio. Subitamente o Mário sentiu uma dor abdominal que o fez abandonar o comboio em Lausanne e, numa ambulância chegar até nós, num dia particularmente agitado e ocupado.
Chegado ás urgências, os primeiros exames foram feitos, nada nas análises e um electrocardiograma normal. Mas muitas dores na barriga...
Passei por acaso no sector onde o Mário se encontrava e chamou-me a atenção aquele "português com açúcar" com que a esposa do Mário tentava fazer-se entender: "O meu marido não está bem, ele está a sofrer" em vão, para uma colega que tentava explicar-lhe, também em vão que os exames estavam normais e que restava esperar que os medicamentos fizessem efeito. Fui lá.
O Mário tinha mesmo muitas dores no estômago, mas fiz o meu exame e tudo apontava para uma gastrite pelas quais, me dizia o Mário, era conhecido. Não servia de nada estar à espera de um cardiologista se o problema era no abdómen. Chamei a médica-chefe do serviço, expliquei-lhe a situação, ela veio e concordou comigo: um problema abdominal, provavelmente uma gastrite. Tratei o Mário com morfina para as dores, uma coisinha para a acidez do estômago e primpéran para os vómitos e transferi o Mário para as urgências de cirurgia para fazer uma TAC ao ventre. Ao ir-me embora, a esposa do Mário perguntou-me o nome e disse-me: obrigado, foste um anjo que cruzou o nosso caminho neste país estrangeiro. Agradeci e fui à minha vida...
Uma hora mais tarde fui ver o Mário e lá estava ele, sorridente a dizer-me como se sentia melhor e a agradecer-me por o ter ajudado. Não fiz nada de mais, só o meu trabalho.
Estava no corredor da urgência de cirurgia quando ouvi o alarme de reanimação a tocar, o sinal indicava "box z". Onde estava o Mário. Corri para lá, um médico fazia massagem cardíaca, atrás de mim outros vieram. Vi a sua esposa num canto a chorar e fui vê-la: "É grave Miguel? Tanta gente com o meu Mário, tenho a certeza que é grave!".... fiquei com ela alguns minutos.
Na sala de reanimação a azáfama do costume: intubação, colegas a massajar o coração os médicos a debitar ordens e medicamentos para passar. E eu a torcer pelo Mário como há muito não torcia por um doente.
Saí que a vida não para mesmo se o Mário assim o tenha feito e há outros doentes para ver, outros para tentar salvar. Segui as coisas de longe, através do ecran do sistema de serviço e 40 minutos depois o dossier eletrónico do Mário marcava... óbito. Fui vê-lo e ainda antes de ir ver a sua esposa, parei para conversar com a chefe do serviço: o nosso exame fora correcto? haveria algo mais que poderíamos ter feito? algo do que foi feito foi prejudicial para o Mário? Não... os tempos foram respeitados, os enfermeiros e os médicos fizeram o que lhes competia, nada fazia prever este desfecho. Mas isso não muda o meu sentimento de perda, de derrota, de frustração.
Fui ver a mulher do Mário, brasileira que veio de férias com o seu marido, agora sozinha num país distante do seu, longe dos seus. E ao ver-me a senhora disse-me, de novo "foste um anjo que se cruzou no nosso caminho" mas eu não deixo de pensar que fui o anjo negro do Mário...

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Assim, do nada, a velhice à espreita.

Ontem tive a acompanhar-me no trabalho uma aluna do 3° ano de enfermagem. Nascida em... 1991.
Porra! Desde quando é que a malta nascida em 1991 já saiu da primária?!
Em 1991 eu era um jovem teen com a mania que era poeta. Vestia essencialmente preto, cinzento e toda a palete de cores entre estas duas e preocupava-me em memorizar e dar sentido as palavras cantadas (ou gritadas) de Kurt Cobain.
Sabem que álbuns foram editados em 1991? Eu digo, eu digo...

Nevermind dos Nirvana
Ten, Pearl Jam
Gish, Smashing Pumpkins
Trompe le Monde, Pixies
Black Album, Metallica
Achtung Baby, U2
Leisure, Blur
Blood Sugar Sex Magik, Red Hot Chilli Peppers
Use Your Illusion I, Guns n'Roses

Chega? Se alguém desse lado não foi marcado por pelo menos um destes discos é porque provavelmente também nasceu nos anos 90.

Estou velho pá.

domingo, 28 de setembro de 2014

A história do rapaz com o olhar perdido.

A ambulância chega como sempre, na fila com as outras ambulâncias que trazem dores e lamentos no banco de trás. Na maca um rapaz magro, com ar frágil e olhar perdido. Chagando a sua vez na triagem o paramédico conta à enfermeira de serviço como o rapaz fora encontrado à porta do hospital sentado no passeio, confuso e perdido. É um conhecido esquizofrénico, deve estar numa crise ou preso nas suas alucinações. Ok, envia-se o rapaz para as Urgências, o sector dos doentes agudos, há testes a fazer, exames a realizar. 
Recebo o rapaz numa das boxes da urgência. O rapaz está confuso, discurso incoerente, olhar perdido, expressão severa. O meu primeiro reflexo, como com a maioria dos doentes, é retirar-lhes a roupa e vestir-lhes a blusa do hospital. Serve para que o doente esteja mais acessível ao exame clínico e aos exames que devemos fazer. Ao tirar os sapatos percebo que o rapaz tem um esgar de dor. Ao ver as meias há algo que não percebo bem. Há uma clara deformação daqueles pés. Retiro as meias, os pés estão num ângulo estranho, as tibias saem por onde os calcanhares deveriam estar.
Corremos para a reanimação, chegam os anestesistas, os ortopedistas e o chefe do bloco. O seu coração bate rápido, a sua tensão arterial está baixa, mau sinal. O chefe do bloco berra, não é possível que este doente tenha esperado tanto tempo para ser visto. Picamos veias, tiramos sangue, damos soro, o rapaz parte para o bloco operatório tão depressa como chegou a mim. 
A história é estranha, os paramédicos falharam a avaliação, na tiragem ninguém se apercebeu e eu, sinceramente, não teria dado conta se no o tivesse despido, como a todos os pacientes. O que se passou?
Abrimos o seu dossier informático e vemos que está internado em dermatologia. Ligamos e ficamos surpreendidos quando percebemos que a enfermeira de serviço não tinha dado pela sua falta. A linha fica aberta enquanto ela vai ao seu quarto, o silencio do telefone em alta-voz a encher a sala. Regressa, a janela está escancarada, ele saltou! O resto só podemos imaginar: ele saltou e caiu de pé, a dor dos ossos a perfurarem-lhe a pele o os músculos deixou-o confuso e perdido, o diagnóstico de esquizofrenia enganou-nos a todos.
Encontrei-o ontem, de novo nas urgências. As lesões foram um pouco além do que as pernas partidas mas vá lá, consegue andar. Teve sorte, tivemos todos sorte.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Não sei se inche, não sei se fuja!

(bem sei que o blog nunca foi do tipo "querido diário" mas com tanta coisa a acontecer profissionalmente neste momento a minha cabeça não processa realmente potenciais situações que poderiam ser matéria para historieta aqui no estaminé... além disso preciso de exorcizar isto para que não me suba à cabeça!)

Tem sido um inchar de ego estes dias que qualquer dia vou precisar de uma alma emprestada para lá colocar o que já não couber cá dentro.
Na última avaliação clínica (prática), que acontece uma vez por mês, o meu formador diz-me: "Sinceramente já não vejo o sentido de fazermos isto. Neste momento és um Especialista em Urgência, sabes onde pões os pés e onde tens o coração!" Devo dizer que ainda tenho 2 avaliações até ao final do curso.

Hoje, em reunião com a minha chefe: "Quais são os teus projectos para depois do fim da formação?"
"Sinceramente, não muitos. Quero primeiro encontrar o meu poiso enquanto especialista e lá para o final do ano penso propor-me para fazer parte da equipa de Enfermeiros Responsáveis (são enfermeiros mais antigos, especialistas, que assumem a liderança da equipa. Um por cada turno)."
"Lá para o fim do ano?! Era para falar contigo depois mas já que falamos no assunto: quero que faças a formação de responsável em Dezembro."
"Em dezembro?! Mas ainda tenho muito trabalho para fazer até ao final do ano..."
"OK, Em janeiro então."
"Mas eu ainda nem fiz três anos de serviço..."
"Ouve: tens muita experiência antes da Suíça, assumes as tuas responsabilidades, sabes tomar decisões fundamentadas e sabes liderar uma equipa. Estás preparado."
"OK, se tu dizes que estou preparado..."

Por um lado é de um gajo dar saltinhos de alegria com tanto elogio vindo de fontes diferentes mas por outro....

MEDOOOO!   

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Pedala Miguel, pedala.

Dia 4 de Novembro de 2014, data para a entrega do trabalho de investigação no âmbito da Especialidade em Enfermagem de Urgência.
 Neste momento falta-me:

 - organizar uma entrevista com um especialista no domínio do meu estudo
 - transcrever essa mesma entrevista
 - escrever o capítulo referente à discussão dos resultados e a sua ligação com a opinião do tal      especialista
 - escrever o capítulo com as propostas para melhorar as práticas actuais no serviço no que diz  respeito ao domínio do meu estudo
 - concluir o trabalho, escrever a introdução, a conclusão e o resumo do trabalho
 - ler, reler e pedir a alguém para ler e corrigir o texto.
 - mandar encadernar e entregar o dito cujo.

Uns meros 45 dias. O meu tutor diz que tenho tempo. Escolho acreditar nele... (não é que tenha escolha.)

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Segura-te senão cais!


Vem isto a propósito do facto de eu ter comprado uma bicicleta nova (quadro em carbono, equipada em topo de gama e lindíssima que só vendo!) e de ter imediatamente pensado: tenho que fazer um seguro para a menina. Vai daí, uma lista dos seguros que já subscrevi por aqui:
Seguro de saúde (obrigatório): o mais caro! Uma apólice para os cuidados de base e 54000 variantes de pequenos complementos a pagar à parte. Sistema de franquias, reembolsos e coberturas demasiado complicado ( só este dava um texto inteiro aqui no blog!).
Seguro de Responsabilidade Civil (obrigatório): cobre despesas relacionadas com acidentes dos quais somos responsáveis, sobre pessoas e bens.
Seguro sobre catástrofes naturais (obrigatório): cobre danos na casa em caso de catástrofe natural
Seguro Jurídico: assegura todas as despesas em caso de conflito jurídico de todos os tipos. Não é obrigatório mas considerando que a tarifa horária de um advogado é cerca de 400 francos/hora...
Seguro Recheio Casa: cobre valor do recheio da casa em caso de roubo ou acidente (incêndio, por exemplo)
Seguro de Responsabilidade Profissional: o hospital cobre despesas de processo caso eu seja "inocente" de um acidente qualquer mas se eu for dado como responsável... desemerda-te! Cobre despesas de defesa em processo por negligência profissional
Seguro Automóvel
Seguro Bicicleta.

Agora que faço a lista, o meu coração chora todo o dinheiro que voa para estes abutres! E nem vale a pena começar a fazer contas...

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Em português é que a gente se entende.

Dia de caca hoje.
8h: fulano podre de bêbedo decida saltar da sua varanda do 2° andar "porque sim" (resposta do tipo ipsis verbis). Imobilização práqui, colar cervical práli, o gajo c'os copos não fica quieto para as radiografias e a TAC e o catano. 4h, uma tibia e um perónio bué partidos e uma vértebra lombar estilhaçada depois lá vamos nós por uma tracção naquela fractura de perna. Tracção? perguntam os que não têm a extrema sorte e o extasiaste prazer (ironia ok?) de trabalhar na saúde. Eu explico: é enfiar um ferro a atravessar o calcanhar e atar a isso uns nagalhos com uns pesos lá atados para manter a perna (e a fractura) bem direitinha. Como devem calcular, atravessar o calcanhar d'um gajo com um ferro é experiência desagradável e, normalmente, enfiava-mos umas drogas ao gajo para o por a dormir mas, adivinhem... o gajo tá bêbedo pelo que já pode receber mais droga no corpinho sob risco que ir desta pra melhor. Portanto, o processo de enfiar o tal ferro e as consequências deixo à vossa imaginação.
15h: Madame tem um coração a bater a 160 mas na boa, sem sintomas, fresquinha que nem uma alface. Não fosse o pormenor de ter a doença daquele senhor alemão, o Alzheimer ou lá como é e estar sempre a arrancar os fios do monitor pelo que aquela merda apita todos os 5 minutos. Chega os doutores, aperta daqui, ausculta dali, vamos a enfiar drogas na senhora pra ver se o músculo cardíaco não rebenta com tanta contracção por minuto mas nada. Durante quase 3h, droga, ECG, droga, EGC, droga, ECG, droga, ECG. Foda-se! E o bêbado com a perna toda quinada e o ferro na pata e a vértebra toda fodida aos berros porque quer ir fumar e dar uma mija. 
18h30: o bêbado lá foi para a ortopedia e eu vou levar a velha à  cardiologia.

(Os seguintes diálogos deram-se em francês mas eu escrevo em tuga porque é mais gráfico além de que eram as respostas que eu gostaria de ter dado, assim mesmo, vernáculo e tudo)

Chego lá cima: 
- Venho com a doente das urgências.
- Ah e tal, quem é que autorizou
- Ai o meu caralho! Então eu acabei de falar com o vosso responsável!
- Ai e tal não sabemos, se calhar a doente tem de voltar para vós...
-Volta é prá coninha da mãe! Telefonem para onde quiserem mas daqui não saio enquanto a velha não estiver instalada! Mas andam a mangar c'a tropa ou quê pá?
- Ah e tal pronto diz lá o que se passa...

....

- Pronto colegas, bom trabalho e boa noite.
- Ah e tal com a doente toda confusa e a querer levantar-se da cama deve ser deve!
- Oh filha, temos pena.

Obrigado e boa noite.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Onde se vê daqui a 5 anos Sr. Miguel?

Ando cá numa melancolia profissional...
A 4 meses de acabar a especialidade, a minha mente vagueia em hipotéticos cenários profissionais. O que fazer daqui por 3 ou 4 ou 5 anos? Se por um lado adoro o que faço actualmente, urgência, reanimação, o stress e a imprevisibilidade do ambiente, por outro lado não tenho vontade de continuar a trabalhar noites e fins-de-semana quando tiver 40 anos. Deixar a Urgência? Também não me estou a ver a trabalhar num outro serviço de um qualquer internamento, a dar comprimidos e urinóis aos velhos. Nã, a sair da urgência só para um serviço de ambulatório ou então um lugar na gestão ou formação. Mas isso implica trabalhar de segunda a sexta, das 8 às 17. E as minhas folgas em dias da semana, onde posso desfrutar de tempo para mim já que a esposa trabalha e os putos estão na escola? E com esse tipo de horário teria de deixar de dar as minhas formações às empresas. Podia trabalhar a tempo inteiro a dar essas formações! Nã... tornar-se-ia chato muito rapidamente. Ou seja, o que eu procuro é um lugar ligado às urgências mas sem fazer noites nem fins-de-semana e, ao mesmo tempo trabalhar só tipo 3 dias por semana! Dream on Miguel.... 
Bom, de qualquer das formas quando vim para a Suíça estabeleci um prazo de 5 anos para me estabelecer profissionalmente. Ao fim de 3 tenho ainda dois para ver o que dá...



 (Mas, se posso ser honesto, o que eu REALMENTE gostava de fazer: tirar um curso ligado ao desporto como treinador ou personal trainer ou sei lá, e dedicar-me à saúde numa outra perspectiva, mais positiva! Assim poderia eu também fazer algo que gosto todos os dias: correr, nadar, bicicletar, ir ao ginásio. Mas isso implica tempo e dinheiro para o curso sem qualquer garantia no final... ahhhhhh vida madrasta!)

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Gostava mesmo de voltar a escrever regularmente aqui no blog...

Então como vão as coisas? Vão bem pois claro!
Já ando um bocado farto desta coisa da especialidade sobretudo porque agora as coisas agora resumem-se ao trabalho escrito e ás avaliações práticas mensais. Sinceramente começo a ficar cansado de ter alguém a observar-me durante um dia de trabalho inteiro e a ter de justificar até o mais pequeno gesto que faça. De resto sinto-me bem na minha pele! Como profissional evoluí imenso nestes dois últimos anos, o meus chefes estão atentos à minha evolução e, mais importante que tido sinto que o resto de equipa me valoriza. Tenho chão para andar e projetos a concretizar.
Continuo a correr, menos agora que me dedico ao triatlo. Faço mais natação e bicicleta, coisa que nunca pude fazer em Portugal. Mas aqui é mais fácil com piscinas cobertas e descobertas em cada esquina e com faixas para ciclistas um pouco por todo o lado. Estou em forma, sinto-me em forma, emagreci depois das férias no Algarve e no Norte me terem acrescentado uns quilos! Mas valeu a pena, o tempo não chegou para ver todos os amigos que gostaria, para saber deles, dos filhos, da vida.
Os meus putos estão fantásticos! O Gabriel, 7 anos, adora a escola, trabalha bem, boas notas. Responsável, ás vezes até demais para a idade que tem. É um dos melhores da turma, sobretudo a Francês muito embora em casa só fale Português e isso deixa-me orgulhoso. Nem uma palavra em francês durante as férias, quem não sabia que vivemos em Lausanne ficou surpreendido, não se dá por ela! Já o David, 4 anos, é muito mais descontraído. Começou a escola este ano (aqui começam com 4 anos) e lá foi todo contente. Gosta de jogar à bola e adora o irmão. São uns cúmplices que tanto se unem para me pregar partidas como andam à porrada um com o outro.  
E é isto, muito resumido!
São duas da matina e cá estou no hospital, hoje na triagem. Não há ninguém na sala de espera.


Um dia faço uma visita fotográfica às instalações!!

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Analfabeto.

Olá olá malta! Isto ao ritmo de um texto a cada 3 meses não vai lá mas... 
Vem esta (rara) aparição bloguístiqua a propósito disso mesmo, de escrever ou da dificuldade em o fazer. Como o sabem talvez, tenho andado ocupado com a Especialidade em Urgência e estou neste momento a meros 6 meses (isto o tempo é lixado, ainda ontem estava a penar em Lisboa e já faz mais de dois anos e meio que vim para cá!) do fim. Asseguro-vos que esta formação fez de mim um novo e melhor enfermeiro, mais eficiente, mais atento, mais responsável, mais capaz de cuidar dos meus doentes. Mas também me ensinou a melhor me posicionar face aos meus colegas, aos meus chefes e aos médicos. Na verdade, do ponto de vista meramente teórico, esta especialidade não me falou de nada que eu já não conhecesse mas o trabalho de revisão que ela me obrigou a fazer ajudou-me a evoluir, a revisitar conhecimentos que eu já possuía mas com um novo ponto de vista, mais maduro com 10 anos de experiência nos ombros. Foi como reler aos 35 um livro que já tivesse lido na adolescência. Enfim, o responsável da formação disse no primeiro dia: "Para ter sucesso nesta formação vai ser preciso que te desconstruas para te reconstruires", frase que eu retive na memória por ser bastante ilustrativa. Renascer das cinzas como a Fénix.
Tudo isto para chegar ao meu tema de hoje: a escrita. Escrever, para mim, sempre foi algo de muito natural. Um terreno de brincadeira onde as palavras são como peças que podemos juntar das mais variadas formas, onde a imaginação pode levar-nos longe, carregados de imagens, ambientes, emoções. Mas isso é em Português... 
Em Francês escrever é trabalho arqueológico, onde é preciso escavar para encontrar as palavras. É trabalho de detective onde se torna primordial descobrir as ligações entre as palavras, as frases, os capítulos. É trabalho de um investigador que reflecte, desfaz e refaz teorias e hipóteses. É duro e frustrante. Porque nada me sai naturalmente, porque sinto que utilizo frequentemente as mesmas palavras. Porque leio o que escrevi e não me parece bem. E isso é exasperante para alguém que até escreve mais ou menos! A primeira versão do primeiro capítulo que entreguei ao tutor do trabalho teve a seguinte apreciação: "as palavras estão aqui, mas não entendo o que queres dizer. Talvez isto faça sentido em Português mas em Francês não é claro.". E apesar de eu saber que sou Português, que por muito bem que eu  me exprima em Francês (e atenção que o faço muito bem) nunca o dominarei como a minha língua materna, aquilo feriu-me o orgulho, garanto! Caramba, é outro código de escrita, um conjunto de regras completamente novo e no entanto detestei ouvir aquilo. Acho que senti um pouco da frustração dos incontáveis colegas de todos os níveis de escola que tive que não sabiam escrever. E não gostei. 
Finalmente, como é impossível dominar uma língua estrangeira a um nível académico em poucos meses, envio os meus textos a um amigo suíço, jornalista que se encarrega de os rever, de os corrigir e de os embelezar. E depois de tratadas, aquelas palavras continuam a ser minhas mas impressiona-me como o texto soa muito mais belo, fluído e... bom! 

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Contra a Imigração em Massa.

O referendo de domingo tem dado pano para mangas por estes lados e vejo que também tem tido alguns ecos por aí. Enfim, há coisas que são efectivamente correctas mas outras nem por isso. O resultado de domingo mostra que a democracia directa também não é perfeita. Neste caso deve salientar-se que a abstenção cifrou-se em 47% e que a proposta foi aprovada com 50,3% dos votos. Ou seja, apenas metade da população votou e o "sim" ganhou com apenas cerca de 19000 votos a mais. Depois, quando se analisa os resultados compreende-se que as cidades mais importantes do país, ou seja Genebra, Zurique, Lausanne e Berna votaram contra. O Governo manifestou-se contra, assim como todas as associações de patrões e trabalhadores, sindicatos e ordens profissionais. Foram as zonas rurais, mais conservadoras e onde há menos imigração e logo onde o imigrante é um bicho-papão, que aprovaram esta lei. Por isso choca-me que digam que os suíços são xenófobos. Há efectivamente uma grande parte de suíços que o são mas a maioria não o é de todo. Depois, a campanha do partido de direita que fez a proposta baseou-se sobre pressupostos que não são verdadeiros (os imigrantes prejudicam o país, consomem recursos e não contribuem para a economia logo a culpa da crise é deles!) e que em conjunto com o medo de uma recessão económica que aqui é quase patológico mesmo se a economia não pare de crescer e com a constante presença na comunicação social de histórias de crime praticados por estrangeiros, dá estes resultados. Mas não é de hoje. Quando aqui cheguei há mais de 2 anos, a primeira imagem que tive ao sair da Gare de Lausanne com as malas ás costas e os meus filhos pela mão foi a de um enorme placard com imagem de soldados e chaimites onde estava escrito com letras garrafais: "STOP À IMIGRAçÃO MASSIVA". E nestes dois anos a Suíça foi efectivamente invadida por estrangeiros de todo o lado. Dois anos de campanha desonesta de direita dá nisto. Contudo e apesar destes factos, a atitude de quem perdeu é de salientar. O Governo apressou-se a dizer que o povo é soberano e que apesar da decisão ir colocar o país em dificuldades face á UE, é a sua função de encontrar soluções. Os outros partidos não condenaram os povo, apenas chamaram o partido impulsionador de iniciativa ao seu dever, o de ser parte principal na proposta de medidas concretas. Os suíços comuns com quem trabalho e que encontro na rua que votaram contra dizem simplesmente que apesar de não estarem de acordo, o povo é soberano e cabe ao governo negociar com a UE, acrescentando ainda que a Suíça não pertence á UE e que cabe também aos europeus vir ao encontro do povo suíço. É o orgulho helvético. Por isso e apesar de ser desconfortável para nós imigrantes um resultado como o de domingo, sabemos que as consequências desta votação serão sentidas principalmente pelas empresas e pelos estrangeiros que queiram vir trabalhar para a Suíça. Mas os suíços também sabem que o país que é deles nã funciona sem nós. Em todos os sectores da economia suíça como a restauração, o turismo, a saúde, a construção, os serviços a percentagem de trabalhadores estrangeiros ultrapassa largamente a dos suíços. Aqui no meu serviço os suíços são menos de 30% do total de enfermeiros e no hospital em geral eles encontram-se sobretudo na administração. É pena o resultado desta votação porque dá argumentos aos partidários de direita mas há 10 anos atrás as fronteiras suíças estavam fechadas e sempre houve estrangeiros neste país e, sobretudo, estrangeiros contentes com a sua situação neste país.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Ainda a cena da velhice

E depois, na Blitz deste mês entrevistas a Jimmy Page, Keith Richards (70 anos!) e Bruce Springsteen (62 anos!) todos em plena forma e cheios de projectos e a minha fé renova-se. Se hei-de morrer que seja a espernear!

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Isto é capaz de ser o Alzheimer a falar.

Tenho sentido a crescer dentro de mim algo inquietante. Já aqui tenho falado de como na minha profissão dou de caras com o futuro "eu" todos os dias. A velhice. Mas nunca tinha sentido uma real inquietude relativamente ao meu próprio envelhecimento. Até agora.
A cada vez que recebo um velho confuso, lentificado, abandonado, emagrecido, desidratado, sinto-me incomodado, verdadeiramente. E depois pergunto-me: é para aqui que caminho? E não sei de onde isto vem, qual a razão do meu receio. Afinal tenho apenas 34 (35 em Março) anos. Ou se calhar porque já tenho 34 anos e ainda me lembro dos 24 como se tivesse sido ontem.  Que raios! 
E agora percebo: a minha preferência cada vez maior por roupas de cor, outra que o preto ou o cinzento, sobretudo no verão, o prazer de ir fazer ski mesmo que esteja um dia de merda ou snowboard apesar de cair como um doido, as corridas, o fitness e agora o judo (comecei há 2 semanas). Será tudo isto para me agarrar à minha juventude, para me preparar para a minha velhice? Ok, ok, também é para fazer boa figura no verão mas apercebo-me cada vez mais que as minhas motivações vão mais além. 
Merda, envelhecer é uma chatice e morrer também não vem nada a calhar. Principalmente com tanto mundo para conhecer. 

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

(Grandes) Momentos que nos fazem acreditar no que fazemos.

Lá no hospital, para além das reanimações que chegam de fora, também somos nós que temos que responder às reanimações que acontecem nos diversos serviços do hospital. Cada dia há um enfermeiro e um médico des urgências que são portadores do bip de reanimação interna e, se algo acontece somos chamados a intervir. Hoje aconteceu.
O telefone toca para uma reanimação no serviço de medicina no 17° andar. Pego na minha mala de emergência (porque tanto podemos ir a um serviço de internamentos como ao restaurante!) e subo acompanhado da médica de escala nesse dia, por sinal, uma jovem assistente super ansiosa por não saber o que fazer. Siga, quando lá chegarmos logo se vê, digo-lhe. Chegamos, três médicos e três enfermeiros do serviço de volta da senhora (velhota, 86 anos) com ar de ter a cena controlada mas com aquele olhar "tirem-me daqui". Por cortesia pergunto se posso ajudar e ponho-me à disposição pois em casa alheia não te armes aos cágados, um lema para a vida. Ok, pedem-me para ver se consigo canalizar uma veia com um catéter decente pois os que eles colocaram são demasiado pequenos. Entretanto chega o médico dos Cuidados Intensivos (que completa a equipa de reanimação interna) e começa a dar ordens, quero sangue, preparem os soros, preparem os medicamentos para entubar, chamem os anestesistas. Foi o caos. Os meus colegas do serviço (os tais 3 que já lá estavam) começam a correr de um lado para o outro sem que nenhum fizesses as coisas completamente e chamam ainda mais pessoas para ajudar. De repente tinha aí uns seis ou sete a ocupar espaço e a gastar oxigénio mais a produzir muito pouco. Casa alheia ou não, era a minha reanimação... 
Dirigi-me a uma das minhas colegas, qual é o teu nome? Mélanie. OK, eu sou o Miguel, ouve: a partir de agora a tua única função é preparar os medicamentos que o médico pedir OK? OK. Yann, tu vais tratar de tudo o que é soros: sempre que um saco acabar quero outro a ser pendurado. Certo. Anna, a tua única função é ventilar a doente, mais nada ok? OK. O resto do pessoal que não tem nada para fazer: pirem-se! A partir daqui, sempre a rolar! Doente sedada e intubada, partimos para os cuidados intensivos.
Na volta, a médica novinha (que acabou por ficar num canto) que me acompanhava estava de queixo caído, fónix, foi impressionante como lideraste a equipa sem sequer os conheceres! E sem nunca perderes o que se estava a passar com a doente (acho que se apaixonou a miúda)! Mas a pérola do meu dia foi quando apanhámos o elevador para regressar ao nosso serviço encontrarmos um dos chefes dos cuidados intensivos que tinha estado lá a observar a cena e que me diz simplesmente: trabalho fantástico que fizeste ali dentro. E faz-me um high five!

domingo, 26 de janeiro de 2014

Vergonha.

O miudo de quem falei um ou dois textos atrás, o que morreu vitima de agressão, lembram-se? A história tem tanto de simples como de dramática: o miudo, 18 anos mal acabados, regressava a casa depois de um dia na escola de cozinheiros quando foi agredido por dois outros putos de 15 e 16 anos (!) pela simples razão que o casaco que ele usava nesse dia era de uma marca associada aos neo-nazis. E assim, do nada, um puto de 15 anos ,instigado por um segundo de 16, agride um outro de 18 com um murro. Esse murro que acredito não tinha intenção de matar, é causador de um traumatismo craneano com paragem respiratória e consequente sofrimento cerebral e, por fim, a morte. 
Quanto à história das praxes, nunca me deixei praxar, tenho demasiado ego e amor-próprio para embarcar nisso mas percebo as fragilidades e inseguranças de quem se submete a isso. Pessoalmente nunca percebi o que andar a correr nu no Jardim da Estrela numa sexta à noite tem a ver com integração académica mas desde logo vi o gosto pelo poder e, sobretudo pela humilhação que muitos "praxadores" demonstravam com indesfarçável brilho nos olhos. Como já decerto calcularam vou falar do caso dos putos que morreram no Meco. 
Revejo-me no sentimento de revolta, quase nojo que se sente no texto que referi acima. Então um anormal qualquer, carreirista da universidade com certeza, um daqueles cujo objectivo deve ser chegar a Ministro sem acabar qualquer formação académica (objectivo legítimo pois acabo de descrever boa parte dos nossos políticos), está envolvido directa ou indirectamente, em maior ou menor grau no desaparecimento de seis pessoas, SEIS! e esconde-se atrás de "amnésia selectiva"? Mas não é a sua atitude pequenina, cobarde, de rato de porão que me enoja, a sua atitude enquanto "dux" (seja lá isso o que for) não deixa dúvidas quanto ao seu valor enquanto Homem. Não, o que mete nojo, o que envergonha, é a atitude conivente de todos os que estão ligados à Lusófona. Todos, os alunos que provavelmente sabem ou suspeitam o que se passou, os directores que protegem o único sobrevivente de uma tragédia sem precedentes na comunidade universitária e os responsáveis das leis em Portugal que não tem colhões para dar um murro na mesa e levar esse "menino" a contar o que raio se passou naquela noite. Isto, para um Português que vê o país de fora é vergonhoso. Tenho vergonha de meu país no que a este assunto diz respeito.
O paralelismo entre estas duas história, o puto que morreu por ter sido agredido gratuitamente e o dos putos que se afogaram no Meco é este: tratam-se de duas tragédias que acontecem por razões estúpidas e mesquinhas, acredito que em nenhum dos casos houve intenção de matar. Agora a diferença é que, no dia seguinte ao puto ter sido agredido, ainda antes de ser comunicada publlicamente a sua morte, a Polícia Suíça já tinha prendido preventivamente os dois jovens (saliento de 15 e 16 anos) e dois dias depois esses dois meninos foram ouvidos por um Juiz de Menores que os constituiu arguidos e os colocou em prisão preventiva numa prisão para menores (sim, isso existe aqui).